Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Migalhas pelo caminho


Não sei o que está acontecendo com o mundo, sinceramente... Quando eu era pequena - já contei prá vocês... - me tocou fundo no coração saber que pessoas abandonavam seus familiares num asilo de velhos que ficava na minha rua. "Que absurdo!" - eu pensava - "abandonar a mãe querida, o paizinho, a avó...". E, no entanto...

No meu bairro, na minha amada Penha, brotam como mato "casas de repouso", abrigos de velhos disfarçados de meras casinhas de periferia. Alguns com placas bonitas: "Lar disso", "Lar daquilo", "Casa de Repouso" mas, por trás da aparência tranquila dos idosos medicados tomando sol nos quintais, o que se vê são depósitos de velhos, locais de descarte de "coisas" que não tem mais serventia... Era assim antigamente, continua sendo assim agora - com a diferença de que, hoje em dia, existem muitos mais... Será que o fato das mulheres agora serem também força de trabalho fora de casa faz com que ninguém mais tenha disposição de cuidar dos seus próprios velhos? Eles darão assim tanto trabalho?

Eu conheci o Marildo nesse asilo de velhos da minha rua - asilo que eu frequentava desde menina. Não sei se já contei prá vocês, mas eu vendia tranqueiras no ferro velho (latas, garrafas...) e, com o dinheiro, comprava biscoito waffer e, indo de cama em cama, oferecia um biscoito, um sorriso, um minutinho de prosa prá cada velhinha. Fazia isso prá me sentir menos pobre, prá sentir que era capaz de fazer alguma coisa, meu "óbulo de criança"... Me sentia feliz e me sentia triste - mas era uma tristeza boa, de introspecção, de pensar na vida, de orar a Deus sem palavras... 

Também fazia arte: afanava cigarros do meu pai prá levar pros velhinhos que pediam "Você me consegue um cigarro, mocinha?" - eu não sabia que cigarro fazia mal...

Quando eu conheci o Marildo, visitando o asilo, ele me chamou prá fazer serviço voluntário ali, ao invés de fazer apenas visitas - e eu virei banhista das senhoras do andar de cima, das acamadas e ele fazia o mesmo, na ala masculina. As idosas do andar de baixo eram as mais inteironas, próprias prá fazer bonito prás visitas, sentadas em cadeiras ao lado de suas camas, com bonecas dorminhocas esparramadas sobre as colchas de chenile e perfumadas com "Toque de Amor" da Avon... No andar de cima ficavam as inválidas, com sequelas de derrames, acidentadas, cancerosas, esclerosadas - e nos dois andares ficavam as abandonadas...

Cecília era linda! Os olhos azuis descorados pelo tempo, a voz mansa, sem revolta. Dois filhos que nunca a visitavam e ela dizia "Quando tiverem tempo, eles vem...". Dois seios decepados num câncer terrível, o peito era uma só cicatriz,  que ia desde debaixo do pescoço até o umbigo, rosada, cheia de ranhuras, minando linfa. Na primeira vez em que dei banho nela eu estava com um pedacinho de malha macia nas mãos, esfregado em sabão de coco prá fazer espuma e ela me disse: "Não precisa ter medo, filha. Não pega..." e eu larguei o pano e esfreguei com as mãos nuas, que era prá ela saber que eu não tinha medo de pegar nada, prá ela sentir um toque de mão delicado e prá eu sentir o relevo daquela dor nas pontas dos meus dedos...

Dona Benta era uma verdadeira dama: sabe aquelas mulheres que emanam respeito, que tem uma aura de grandeza? Era ela... Analfabeta, sozinha no mundo, sem filhos nem parentes em São Paulo. Era do Nordeste e lá tinha sobrinhos-netos que nem se lembravam que ela existia e estava tudo bem - ela dizia - ela tinha abrigo, cama, comida, remédio... Na maior parte da vida, muitas vezes, nem isso tinha. Era cadeirante, era diabética e era uma tricoteira de mão cheia, mesmo com as mãos cheias de artrite: fazia peças que o asilo vendia no bazar...

Tinha três Luizas. Uma delas só tomava banho comigo porque tinha medo de escorregar no banheiro - essa tinha uma cabeça ótima, muito inteligente. Gostava de assistir noticiário e, quando eu chegava, uma das primeiras coisas que ela dizia era: "E então, como é que tá o mundo lá fora?" e daí fazia uma pergunta sobre o que eu achava disso ou daquilo que tinha acontecido e tinha aparecido na televisão... 

A outra Luiza era cega, com olhos brancos e tinha um corpo lindo, lindo - não parecia uma velha. Todo o corpo era firme, o rosto quase não tinha rugas, os seios empinados e bem redondinhos, como os de uma menina. Eu brincava dizendo prá ela: "Luiza, você precisa me dar a receita de tudo o que você comia, prá ficar assim tão enxuta com essa idade"... "Uma hora dessas, Luizinha, acho que eu vou ganhar uma grana preta, vou ficar rica vendendo fotos tuas pelada prá revista Playboy, você é mais bonita que as mulheres que aparecem nas capas" e ela dizia, encabulada: "Não, filha... Isso é errado! Não faça isso...".  

A terceira Luiza não era velha: tinha menos de quarenta anos e, além de tetraplégica, tinha algum tipo de retardo mental, era lenta na hora de se expressar, como se as ideias viessem de muito longe antes de saírem pela boca. Havia sido internada ali porque a família não queria ter trabalho com ela em casa. Na verdade, era muito rica e dizia, chorando, que envergonhava todo mundo na família... No outro asilo onde havia estado internada havia sido estuprada e tido um filho - pois lá haviam cuidadores homens e, por isso, tinha sido trazida prá lá. Adorava quando o Marildo vinha me ver, perguntava se podia namorar com ele e eu dizia "Claro! Vamos arrumar você, passar um batom e ele vem aqui bater um papinho" e ela ficava feliz como criança em manhã de Natal...

Alzira guardava tudo o que ganhava prá me dar, fosse um bombom, uma calçola gigante que nem me servia, uma touca. Uma vez me deu um cachecol azul, todo feito com sobras de lãs em pontos trabalhados de tricô que até hoje eu não sei fazer - usei até pouco tempo atrás, até a lã ficar roída... Ela dizia que não tinha ninguém no mundo, só quem a visitava era eu e que ficava feliz em me presentear...

Havia duas Rosas. Uma tinha os cabelos curtos e brancos como algodão e a pele igual couro curtido, de trabalhar ao ar livre, no campo, a vida toda... Estava sempre com uma boneca de pano no colo, o seu bebê... Era ágil como uma menina, fugia correndo na hora de tomar banho, dizia que não tinha trabalhado na roça nem dormido com homem prá precisar se lavar. Estava no andar de cima porque tentava fugir...

A outra Rosa eu chamava de "Minha Rosinha", era pequena, magrinha e extremamente delicada na hora de falar. Tava sempre limpinha, sempre cheirosa e me pedia prá trançar seus cabelos, pois "Seu Eduardo", com certeza, viria visitá-la naquele domingo. "Seu Eduardo" era o menino que ela havia criado e quem ela mais amava no mundo. Com oito anos os pais na roça a entregaram prá família de um fazendeiro rico e ela nunca mais viu nenhum deles. Cresceu trabalhando, criando uma geração após a outra das crianças dessa família. Dizia, com orgulho, que eles gostavam tanto dela que sempre a levavam quando viajavam - mas a verdade era que a levavam prá não terem que fazer nada, prá ela limpar, cozinhar e cuidar de todos eles até nas férias... "Seu Eduardo" - ela dizia - era um grande médico e ele é que a havia trazido até ali, "para o seu merecido descanso". Um dia, retornei ao asilo numa segunda feira e ela estava na cama, prostrada, pois ele não tinha vindo visitar... As funcionárias me disseram que toda segunda feira era assim, pois ele não a visitava nunca. 

Essa Rosinha morreu quieta como um passarinho - nunca casou, nunca teve filhos, viveu a vida toda em função de pessoas que a consideravam um eletrodoméstico e a quem ela chamava de "a família que Deus me deu"...

Ermengarda não falava. Também era cega e, toda vez que tossia, seu útero saía prá fora, como uma bexiga murcha no formato de uma pera e a gente tinha que colocar de volta prá dentro do corpo, usando luvas nas mãos. Nessa hora ela chorava sem emitir nenhum som...

"To-to-tô" se chamava Carmem, mas a gente chamava de "To-to-tô" mesmo, que eram as únicas sílabas que ela conseguia falar. Segundo diziam as funcionárias que ali trabalhavam todo dia, ela adorava assistir o programa da Xuxa e, fazendo To-to-tô, ela cantava todas as músicas, no ritmo - era muito alegre...

Ana Maria era do tamanho de uma criança, não pesava nem trinta quilos e, quando falava, você tinha que se aproximar bem prá ouvir. Adorava jiló como eu, mas ele não estava incluído no cardápio, então eu dava uma saída, comprava na feira da rua Omachá, corria até em casa e pedia prá minha mãe fazer refogadinho com tomate e cebola, do jeitinho que ela gostava. Quando ela comia parecia criança mesmo...

Adoeceu, parou de comer... Mesmo eu trazendo jiló no domingo, ela nem tocou no prato. Voltei na segunda e na terça - na quarta ela havia partido, sem estrondo, sem drama - adormeceu de um lado, acordou do outro...

Conheci mulheres abandonadas pelos filhos, pelos sobrinhos, pelos próprios maridos... 

Conheci uma mais jovem do que eu sou hoje - com apenas 50 anos e o braço esquerdo paralisado devido a um derrame - perfeitamente lúcida e ainda funcional, ali largada pelo esposo e pelos filhos jovens, a se acabar de tristeza e revolta muda, num canto da cama, assistindo a parede...

Conheci homens revoltados - pois havia uma ala masculina - conheci homens tristes, homens carentes e uns outros tantos perfeitamente adaptados e até felizes em sua solidão (pois o ser humano segue vivendo, não é mesmo?)... 

Conheci o Cantídio - com uma das histórias de vida mais espantosas e mágicas que já ouvi e que um dia eu conto prá vocês, se Deus assim permitir...

Agora... Vocês conhecem a história de Joãozinho e Maria - de como eles marcaram o caminho de volta prá casa com pedrinhas em um dia e, no outro, com migalhas de pão, prá não se perderem na floresta - mas os passarinhos acabaram comendo tudo? 

Bom, eu acho que este mundo em que vivemos é uma gigantesca floresta, na qual caminhamos durante toda a nossa vida, tentando achar o caminho de volta prá casa... 

Existem inúmeros perigos e, muitas vezes, doces armadilhas que podem por a perder até mesmo nossa alma - que dirá nossa vida... A escuridão parece nos cercar por todos os lados, parece querer nos engolir. Também há flores e, volta e meia, escutamos o canto dos pássaros mas, sem cessar, seguimos nossa jornada e vamos marcando o caminho, pois nosso lugar não é ali - não moramos na floresta, queremos voltar prá casa... 

Cada coisa boa que fazemos nesta vida é uma migalha prá marcar o caminho - uma migalha de um pão que os passarinhos não comem, pois o amor, como Jesus mesmo disse, é o "Pão da Vida"... E essa coisa boa nem precisa ser uma esmola em dinheiro - pois essa acaba sendo gasta e a necessidade volta... Uma palavra de carinho, um minuto de atenção genuína, um ombro prá chorar, um ouvido prá ouvir - tudo de graça... Estar presente espantando esse monstro desalmado, chamado solidão, da vida de alguém...

Que em 2014 todos nós caminhemos confiantes na floresta, ajudando quem está só e perdido, marcando nosso caminho com as migalhinhas certas e assim, nos encontremos todos juntos um dia, na casa de Nosso Pai.

Feliz Ano Novo a todos!!!

(Estou de férias, no meio do mato - onde não tem internet...- então, a todos os amigos e amigas que comentarem no blog eu deixo meu abraço em especial e responderei a todos os comentários quando voltar, no final de janeiro. Se tiverem vontade de ler alguma coisa basta clicar no marcador "historinhas" aí do lado, tem umas bem boas escritas por mim e umas muito melhores - lindíssimas - escritas por Malba Tahan. Até o ano que vem, se Deus quiser!)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Outra sobrinha


Recebeu esta blusinha de presente de Natal - Carol, irmã da Larissa (que recebeu a vermelha). A receita é a mesma, só a linha é diferente - usei Cristal, da Pingouin, menos de um cone. Prá esse tipo de ponto não é muito boa, não dá a mesma estrutura que a linha Cléa 1000 ou a Anne 500 - se forem fazer nesse ponto, usem uma destas duas linhas.

Estou me preparando prá viajar, então a postagem é curta - mas tenho bastante peças prá mostrar, só que só ano que vem...

(Ah, repararam nas pontas dos cabelos da minha Lolô? Eu mesma descolori as pontas e fiz mechas azuis, nela e na Naninha - ficaram lindas, não ficaram?)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Kelly


Um tempo depois de estar trabalhando na minha casa, quando já conversávamos e ríamos e comíamos um belo prato de arroz com feijão juntas ela, de repente, me disse assim:

-"Sabe, Rosa, você me enganou direitinho!"

Engoli o punhado de comida que tava mastigando, olhei prá cara dela e esperei a resposta...

Ela riu da minha cara, aquele riso gostoso que só gente gorda e de bem com a vida sabe dar, riso de quem está a vontade prá rir com ainda um tanto de comida na boca. Quase engasgou...

-"É disso que eu tô falando! Olha a cara que você faz!!! Quem não te conhece pensa que você é uma mulher brava, metida - uma malvada de primeira! A primeira vez que o "Barba" me trouxe aqui, prá trabalhar na tua casa e eu olhei prá você, me deu um arrepio de medo! Eu pensei 'Essa mulher vai me tratar igual a um cachorro' e olha você aí, um coração de polenta... Ah, Rosa, você engana muito bem!"

E eu pensei que ela também tinha me enganado direitinho... Estava grávida, em vias de ganhar - e não parecia! Sabe aquelas mulheres muito gordas que, quando ficam grávidas, parece que a barriga espalha, que o bebê se acomoda por dentro e a barriga não parece nada mais que uma barriga normal de gordinha? Pois ela começou a trabalhar prá mim e, 14 dias depois não apareceu! Eu não pude sair prá trabalhar, pois não tinha com quem deixar as crianças e então uma assistente social ligou do hospital, dizendo que ela estava lá, tinha ganhado neném e precisava da nossa ajuda!

O Marildo (vulgo "Barba" prá ela...) foi no hospital e, na volta, me contou tudo: ela escondeu que tava grávida por medo de não arrumar trabalho - e precisava muito trabalhar. Ah, a história dela era ainda mais complicada...

Dois meses antes a polícia havia dado uma batida na favela em que ela morava e havia achado montes de droga na casa de um fulano - o traficante do pedaço. O mesmo havia escapado, mas a polícia o estava caçando. O marido da Kelly havia recebido uma "proposta" desse tal traficante: assumir que era o dono da droga e ganhar com isso dois salários mínimos e uma pena de prisão. Se não aceitasse... bem... não ia ver o filho caçula nascer. 

Ele aceitou, obviamente, e agora cumpria pena num presídio no interior de São Paulo. O Marildo era amigo de um conhecido deles e foi assim que, um tempo depois, ela veio trabalhar na minha casa...

Bom, fomos buscá-la no hospital, compramos tudo: fraldas prá nenenzinha, roupinhas, mamadeira, chupeta - até absorventes pro resguardo dela, pois ela não tinha absolutamente nada. Minto: tinha outros 3 filhos, de idades próximas das idades dos meus, tinha um cômodo de tijolo sem acabamento nas paredes e nem piso e todos tinham fome. Quando chegamos na casa dela o seu menino mais novo, Ricardo, da idade do meu Ike, estava sentado peladinho no chão de terra úmida, com meleca verde de tonelada escorrendo do narizinho, chorando desconsolado - e dentro de casa uma menina de 5 anos arrumava uma mamadeira...

O medo da Kelly era ser mandada embora, mas esse medo não virou realidade. Eu pedi ao Marildo que a deixasse trabalhar, que ela trouxesse a menina recém nascida junto todo dia - e, quando eu chegava do trabalho, a gente se revezava nas trocas de fraldas, nas mamadeiras e até no serviço da casa. Nunca na vida vi bebê mais sério, de olhos mais tristes...

Uma vez por mês o Marildo acordava às duas da manhã e dirigia por horas prá levá-la visitar o marido - que acabou viciado em crack na prisão, vê só como são as coisas...

Ela trabalhou prá nós por quase dois anos e só saiu porque arranjou um emprego numa fábrica, onde ia ter mais direitos do que a gente podia dar - saiu sem nenhuma briga, numa despedida mista de tristeza por ficar sem nossa amizade diária e alegria por um novo começo.

O marido dela saiu da cadeia, se livrou do vício com muito custo - mas, graças a Deus, se livrou. Trabalha de segurança noturno em um mercado. 

Só os vejo uma vez por ano, no Natal - e é, de longe, a melhor parte dele. Levamos uma cesta de produtos natalinos, um peru congelado prá ceia, os copos de requeijão que ajuntei durante o ano. A cada ano as mudanças são mais e mais maravilhosas: a construção de mais um cômodo, a troca de uma porta, um banheiro melhor... Nos dois últimos anos em que fui a gente se desencontrou: num deles ela estava ganhando uma graninha extra de última hora fazendo faxina na casa de alguém no dia de folga do trabalho - não tem tempo ruim, essa mulher... No outro ela havia saído com um dos filhos prá comprar presentes de Natal...

Desta vez, nem bem cheguei, ela me viu e, da janela basculante da cozinha semi-aberta vinha o som de sua voz, dizendo: "Logo que eu acordei eu sabia que hoje eu ia ver a Rosa! Eu sabia! Eu sabia!"...

Ela aparece - tão baixinha e tão gordinha como sempre - e me dá aquele abraço esmagador de saudade e atrás dela vem aquela menina mais velha, tão linda e tão trabalhadora quanto a mãe. Me abraça e me beija tanto que quase me sufoca, dizendo "Que saudade que eu tava de você, tia!!!"

Tão bom rever pessoas amadas! Tão bom fazer parte da história delas, vê-las crescer, prosperar, serem felizes!

Orgulhosa, a Kelly me mostra atrás dela uma geladeira - maior que a minha! - comprada pelos dois filhos mais velhos, de presente de Natal. Diz que foi surpresa, que chorou quando foi abrir o portão da rua e viu o caminhão ali, descarregando a caixa - a cozinha ficou ainda menor com aquele monstrão enorme ali dentro! Atrás de mim o fogão, presente de Dia das Mães - me contou que chegou do trabalho, passou por ele e nem reparou - entrou, trocou de roupa e, quando veio fazer o jantar e a marmita, quase caiu no chão, as pernas amoleceram de felicidade com o fogão de cinco bocas que ela queria e mais um ferro de passar novinho em cima, de enfeite, também presente desses dois filhos. Todo mundo de lágrimas nos olhos - lágrimas de felicidade, as melhores do mundo...

A menina mais velha - hoje uma mulher, com os cabelos pintados de pink - fez cursos de estética e trabalha num grande salão de beleza, na Av. Paulista - e se prepara prá, finalmente, começar uma faculdade (na qual seu emprego vai arcar com 50% das mensalidades...). O menino termina no próximo ano a faculdade de Gestão Empresarial e trabalha esse tempo todo no mesmo emprego. 

O menino da idade do meu Ike já é pai há um mês exato e mora com a mulher na casa da Kelly - dormem num colchão disposto no chão da sala, até ajeitarem a vida. É um bom menino, um bom homem, batalhando pela vida, assumindo o que faz e seguindo em frente, com os exemplos da mãe maravilhosa e dos irmãos mais velhos.

A menina de olhos tristes cresceu e se tornou uma mulher de uma beleza avassaladora - estilo mulata Globeleza, vocês já viram? Cobiçada por todos os homens que a viam, acabou abandonada grávida pelo que lhe conquistou o coração e lhe deu olhos ainda mais tristes - mas ela tem uma família linda, que está do seu lado, amando e cuidando. O menino tem quase 3 anos e, de triste, não tem nada - é vibrante e alegre como deve ser uma criança de quase 3 anos.

Ah, tem mais: cinco anos atrás um dos vizinhos da favela, com dez filhos em escadinha, foi embora na surdina e deixou prá trás uma criança que não saía da casa dela e a Kelly acabou mãe de mais uma - o coração dela acompanha o tamanho das suas gordurinhas, é enorme como uma abóbora dentro do peito...

A gente se abraça, a gente ri, a gente chora e esse choro deixa a gente de alma lavada, limpa e feliz...

Na hora de ir embora a gente se aperta nos braços uns dos outros, aquela irmandade que Jesus quis que existisse no mundo, que não vem do sangue mas que faz pulsar feliz o coração e promete se encontrar mais vezes - coisa que não vai acontecer, pois ambas temos vidas corridas (ela ainda mais, pegando três conduções prá ir trabalhar, todo santo dia...). 

Como uma pessoa pode fazer a diferença nesta vida, Meu Pai! Uma mulher tão pequena, com uma força tão grande: reabilitou o marido drogado, encaminhou direitinho os filhos na vida, todos boas pessoas, honestas, trabalhadoras, em meio a tanta adversidade!!! Eu abraço essa irmã que Deus encaminhou prá minha vida de um jeito atrapalhado, que me achava assustadora (depois eu pergunto prá Ele por que Ele me deu essa cara...), que vive dizendo que meu coração é de polenta e digo:

-"É, dona Kelly, cada vez que eu te vejo você me faz muito feliz, mulher... ". Olho pro Ricardo e digo: -"Cuida bem dessa mãe, ela vale mesmo em ouro tudo o quanto ela pesa... Um dia, no Céu, ainda vou entrar na fila prá te pedir favor, minha irmã" - e ela chora e me abraça mais uma vez, antes da visita de Natal acabar.

Bendito seja Deus, que nos permite experimentar a vida, crescer com ela e interagir uns com os outros, aprendendo a ser irmãos.

Que o Natal de todos seja repleto de santas alegrias e que todos comemorem o mais importante dos aniversários na mais profunda e contagiante paz. Amém.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cléa 1000




Mil vezes fresquinha, mil vezes vaporosa, mil vezes rendada... E custa quase nada, também: com menos de 10 reais voce faz esta blusinha delicada e ainda sobra linha - e não vão faltar elogios também, porque - cá prá nós - também ficou mil vezes linda!!! 

Vai prá uma sobrinha e cá está a receitinha de mãe - sem desenho no Paint (desculpem!!!) mas final de ano o tempo escorre das minhas mãos igual água debaixo da torneira:

(A blusa é tecida em uma peça só, começando pela frente. Seu manequim, sem passar a ferro, é 42 mas, se passar, ficará mais rendada e maior, servindo até manequim 46. Foi usado apenas um novelo de linha Cléa 1000).

Laçar agulhas do marcador 80 do lado esquerdo até o marcador 79 do lado direito, laçando sempre 3 agulhas e deixando 3 agulhas fora do trabalho do começo ao fim. Regulagem 8. Tecer as primeiras quatro carreiras e então selecionar agulhas que não vão tecer: põe o carro no "H" e puxa o máximo prá frente a agulha central de um grupo de três intercalado (um sim, outro não - primeiro só nos grupos pares, depois só nos ímpares. Já ensinei este ponto com passo a passo AQUI). Tecer 3 carreiras com o carro no H, na quarta carreira devolver o carro pro "N" (todas as agulhas vão tecer. Selecionar novamente o H, daí puxar prá frente a agulha central do outro grupo de 3 e ir fazendo assim, a cada quatro carreiras devolve o carro pro N e a cada 4 carreiras inverte o grupo de três que puxa a agulha central prá frente. Tecer 144 carreiras, laçar mais 3 grupos de 3 agulhas em trabalho (com 3 agulhas vazias entre eles) de cada lado, para as mangas. Tecer 56 carreiras e tirar a peça da máquina com fio de outra cor. Os três grupos centrais são o começo do decote: Pegar um bom pedaço do mesmo fio (uns 3 ou 4 metros), devolver os pontos centrais prá máquina mais todo o lado direito da peça e, a partir da metade desse fio sobressalente, arrematar os três grupos centrais e ir arrematando a cada 2 carreiras mais um grupo de três, até sobrarem somente 10 grupos para o ombro direito.Quando chegar na carreira 80 tira esse lado com fio de outra cor. Devolve o lado esquerdo prá máquina e com a outra metade do fio sobressalente vá diminuindo um grupo de três a cada duas carreiras até só sobrarem 10 grupos de três do lado esquerdo. Siga até a carreira 80 e pare. Lace novamente os grupos de três que foram eliminados antes, prá unir de novo os dois ombros. Teça mais 80 carreiras, arremate 3 grupos de 3 de cada lado (eliminando as mangas), siga mais 144 carreiras e arremate folgado. Passe a ferro se quiser esticar a peça, deixe sem passar se quiser a mesma com aparência de relevo. Costure a lateral e faça acabamento em crochê.

Dica Super importante: Na hora de arrematar, faça 3 correntinhas folgadas em cada espaço que fica entre cada grupo de 3 agulhas em trabalho, assim a peça não fica com partes franzidas e encolhidas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Regata Dourada





Parece mesmo feita de ouro - essa cor da linha Ibiza tem um brilho lindo! E o caimento, então? Derrete no corpo, viscose de primeira... Pena que não fabrica mais - a Pingouin pisou na bola com a gente. 

Bom, esta regata é um dos presentes da minha enteada - ela ganha dois porque faz aniversário em dezembro (o outro ainda não fiz e é prá domingo próximo, então estou corrida - também tenho que fazer o presentinho do neto). Nela vai ficar ainda mais bonita, porque ela é loira e bem bronzeada, não é branquela como a minha Naninha.  Só tinha dois novelos na loja, então a blusa tinha que ser bem aberta, prá render...

Então, tricotando na maratona de fim de ano, aqui vai a receitinha de mãe:

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tudo em dobro!

Porque é assim: não pode cobrir um lado e descobrir o outro. Servir caviar prá uns e sardinha frita prá outros - muito embora eu prefira sardinha frita, especialmente do jeito que minha sogra fazia: bem crocante e sequinha e, depois de arrumadas fritinhas numa travessa, temperadas como salada, com rodelas de tomate, cebola, coentro, azeite, vinagre e Hummmmmm!!!

As comilanças de que eu tô falando são estas aqui, feitas em dobro: pro almoço dos amigos do voluntariado do Marildo e prá minha amada família:

Torta de Atum:

Macarrão com Berinjela:

Bacalhau Zé do Pipo:

Todos os anos, no último dia de trabalho voluntário do ano, todo mundo se reúne e faz um almoço demorado, no qual cada um traz um prato prá compartilhar - o Marildo, exagerado como sempre, pede prá eu fazer pelo menos esses três... Adora alimentar seus amigos, pessoas boas e simples, com o que eu posso fazer de melhor - e ele adora também se gabar dos quitutes da velha dele... Aí, depois, quando eu encontro essas pessoas na rua - porque eu não vou no almoço, prefiro ficar na minha casinha... - elas vem me abraçar, agradecer pela comida, perguntar como faz, me chamar de "Super Rosa"... 

As meninas vão junto, eu fico em casa com o moleque - nós dois somos amantes da paz e do sossego como ninguém mais - ele puxou a mim...

O almoço era no domingo e, no sábado, quando ele chegou da distribuição de presentes de Natal do voluntariado - onde são atendidas centenas de famílias carentes e ele chega cantarolando de alegria... - já encontrou todas as comidas prontas - e cantarolou mais ainda. 

"Segredinhos de Liquidificador":

A Torta de Atum é uma torta de liquidificador como qualquer outra, só que: uso pelo menos 3 latas de atum light em cada torta, tiro quase toda a água - mas não toda (que é pro recheio ficar úmido e suculento...). Uso cebola picadinha, tomate também picado, azeitona picada, cheiro verde. A massa da torta é que é o "tcham": bato junto um pedaço de cebola crua, um dente de alho e um pedaço de parmesão - assim a massa fica mais gostosa, temperadinha. Despejo metade da massa na assadeira,  jogo o recheio, cubro com bastante muzarela e o restante da massa. Levo prá assar em forno médio até ficar douradinha como vocês viram na foto.

O Macarrão de Berinjela: macarrão de primeira qualidade, Divella, Barilla, uma dessas marcas italianas nas quais o macarrão é mais firme - odeio macarrão dismilinguido. Cozinha "al dente". O molho: berinjelas cortadas em rodelas e grelhadas na frigideira anti-aderente (pego uma xicrinha de óleo, um pincel de silicone e toda vez que for grelhar uma leva das berinjelas, eu pincelo a frigideira). Muita berinjela - usei 6 delas, 3 para cada macarrão. Depois que grelhou todas, corto tudo com garfo e faca em pedaços menores, junto cebola picada, um dentinho bem pequeno de alho esmagado, tomate picado (usei cereja), parmesão e mussarela cortados em cubos pequenos, azeitonas sem caroços - tempero como salada, com sal, azeite, vinagre e um tiquinho de pimenta (usei vinagre apimentado, no qual eu deixo as pimentas picadas dentro, macerando...). Na hora que o macarrão cozinhou joga na travessa, derruba o molho e mexe - pode comer quente ou frio, é delícia dos dois jeitos...

O "Zé do Pipo" - é uma das maneiras mais fáceis e econômicas de se fazer bacalhau, mas fica delicioso (então todo mundo pensa que custou caro e que deu trabalho...). Eu gosto de usar lascas de bacalhau - são mais práticas, não precisa tirar pele nem espinhas. Coloco elas com o sal e tudo na panela de pressão com água e levo ao fogo - espero apitar, descarto a água, levo prá ferver de novo e também descarto essa água. Levo prá cozinhar uma terceira vez, mas agora ponho na panela de pressão também umas batatas. Depois de 5 minutos que apitou, as batatas estão cozidas e macias e o bacalhau está dessalgado e também macio. Separo as batatas do bacalhau. Frito uma cebola picada em um pouco de azeite e então refogo nessa panela o bacalhau, temperando a gosto com cheiro verde e pimenta e, por último, despejo um pouco de leite, pro bacalhau ficar úmido e com um sabor mais delicado. Deito esse bacalhau numa assadeira. Numa panela anti aderente eu frito cebola ralada na manteiga, acrescento as batatas amassadas e tempero a gosto, acrescentando mais manteiga e um pouco de leite, pro purê ficar macio e saboroso. Despejo o purê em cima do bacalhau, espalhando com uma colher. Por último eu coloco maionese light sobre o purê, espalho com colher (se você tem bico de enfeitar pode decorar com ele que fica lindo...), coloca azeitona sem caroço e pode caprichar mais, se quiser, colocando queijo ralado grosseiramente, cheiro verde... Vai pro forno até gratinar.

Uma última dica: em tudo eu usei azeitonas, pretas e verdes, mas todas elas foram descaroçadas. Azeitona que já vem sem caroço tem gosto ruim - experimenta das duas e você vai ver que eu tô certa. Sempre compre azeitona com caroço, mas SEMPRE  tire o caroço quando for usá-las, que é prá não acontecer de alguém distraído morder com tudo uma delas e machucar o dente...

Faça tudo com carinho - arroz com feijão é delicioso, se temperado com amor (e eu não tô falando de Sazòn)...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Soltando os cachorros...

Era um dia como todos os outros: eu abria meu guichê pontualmente às sete horas da manhã e já tinha uma fila enorme de gente me esperando, com dúvidas, reclamações, protocolando seus interesses. 

Muitas dessas pessoas vinham somente prá eu lhes preencher o carnezinho de autônomo, antes de ir ao banco pagar - nos despachantes era cobrado pelo serviço e eu fazia de graça, mesmo sem ser minha função - não me custava nada e, para a maioria dos que vinham, o dinheirinho era contado...

Eu não trabalhava mais no Serviço Social - agora eu era funcionária do Setor de Inscrição de segurados, o que significa dizer que no meu guichê vinham os autônomos, as domésticas e os desempregados, entre outros. 

Tantos dramas por trás de cada rosto! 

Gente que havia contribuído prá Previdência Social a vida toda e que havia sido mandado embora porque estava velho - perdiam um tempão procurando emprego e, quando não arrumavam nada, vinham até ali prá começar a contribuir por conta própria, sem patrão... 

Muitas vezes ficavam tanto tempo desempregados que perdiam a carência - tinham que recomeçar a contribuir pelo salário mínimo e fazer uma nova carência de cinco anos prá se aposentar, mesmo se só faltasse um ano prá isso - injustiças da lei...

Todo santo dia vinha todo tipo de gente. Gente humilde, falando de cabeça baixa. Gente grosseira, falando alto, querendo mandar em tudo. Gente ignorante, tratando funcionário como lixo. Gente espertinha, querendo levar vantagem.

Prá todas elas o mesmo tratamento respeitoso, "Pois não?", "senhor", "senhora", "por favor" - "Próximo!" - e a fila andava mas não diminuia, todo mundo precisando de alguma coisa...

Até que me aparece essa mulher - loura, magra, bem vestida - que entrou no posto e não pegou fila, veio direto no guichê. Talvez ela tenha pensado que mulheres de salto alto também tivessem direito a atendimento preferencial, assim como os idosos, deficientes e gestantes - vá saber... Com cortesia eu a informei que era necessário aguardar sua vez na fila e ela, me fuzilando com os olhos, foi ocupar nela o seu lugar...

Impaciente, revirava os olhos, dirigia ao vento reclamações pela demora do atendimento - mas eu não me apressava, dava a cada pessoa a atenção devida, mesmo se não fosse pertinente ao meu setor (afinal, a pessoa havia esperado tanto tempo na fila... Eu dava algumas informações, fornecia alguns formulários que eu tinha comigo somente prá esses casos e a encaminhava já "meio atendida" pro setor correto...).

Chega a vez dela e seu assunto não era comigo. Quer dizer, "era e não era". A tal mulher era funcionária pública de um órgão qualquer que não me recordo e havia protocolado uma "contagem recíproca" - que é prá juntar o tempo contribuído prá Previdência Social comum ao tempo de serviço atual como funcionária. Havia protocolado no meu setor, tinha passado pelos trâmites normais e sido indeferido por alguma irregularidade e agora estava em fase de recurso, a fim de serem anexadas novas provas. Nessa fase o processo já não pertencia ao meu setor - na verdade, nem pertencia mais ao meu posto, estava sendo julgado na Superintendência e ela tinha que aguardar o retorno do mesmo e uma cartinha de convocação. 

Eu explicava  e explicava e explicava e a mulher - de uma certa cultura e de muita ignorância - não parecia entender (ou não se conformava).

"- Foi aqui que eu protocolei e vocês é que tem que me resolver o assunto, nada de Superintendência. Você, menina, trata de pegar o meu processo que eu sei que está perdido em um desses arquivos fedorentos e resolve logo, senão eu vou na polícia! Quem você pensa que é? Uma funcionáriazinha de guichê, uma balconista qualquer e querendo me "engrupir"? Chame a sua chefia que eu quero falar com quem entende!"

E eu chamei. Minha chefe tinha todo um setor prá cuidar, não dava prá ficar parando a todo momento prá resolver esse tipo de assunto, me disse prá repetir mais uma vez a informação e, se a mulher continuasse criando caso, chamar a segurança.

Eu ia ter que abandonar o guichê prá chamar a segurança - e só ia criar mais confusão ainda. A essa altura a fila toda já estava em polvorosa. Todo mundo que já sofreu uma injustiça em algum órgão público empaticamente tomou prá si as dores da mulher. Era: "Ninguém atende direito nessa jossa!"; "A gente é tratado com total desrespeito pelo governo!"; "Tem que reclamar mesmo! Tem que exigir nossos direitos!!!"

De repente, meu coração - que estava bem acelerado pelo agitado da situação - se aquietou, minha mente ficou clara e eu simplesmente disse:

"- Tá bem, tá bem, a senhora venceu!"

A mulher, estupefata, abriu a boca. Pensou por alguns segundos, se recompôs - deixando de lado a agressividade expansiva e retornando para a agressividade contida - e, assumindo novamente  um ar de superioridade, disse assim:

"- Ainda bem que você ouviu a voz da razão, menina. Com vocês, é assim mesmo: se a gente não esperneia, não consegue nada. O tempo todo você podia resolver meu assunto e só não queria, não é mesmo?" - e riu da minha cara...

"- A senhora não entendeu" - eu disse. "Eu realmente não posso resolver seu processo, pois o mesmo não está aqui, está na Superintendência."

"- Então - como é que eu venci?!" - disse a mulher, com os olhos saltando do rosto, cheios de raiva...

"- Sabe o que é (eu inventei)... A gente aqui no prédio faz, todo ano, um concurso prá escolher a pessoa mais chata que nós atendemos no ano todo - geralmente é no final de dezembro... Sei que estamos ainda no começo de setembro, mas a senhora - com certeza - não vai ser ultrapassada por ninguém. O prêmio é uma viagem, com tudo pago, com direito a acompanhante (se a senhora tiver quem queira lhe fazer companhia...), só de ida, pros Quintos dos Infernos... Aliás, vou conversar com meus colegas e ver se a senhora não ganha também o troféu de mais chata da década - a gente ainda vai decidir qual vai ser o prêmio...".

A mulher ficou mais furiosa ainda... Eu já estava no pique mesmo, as palavras escorriam da minha boca como água de uma torneira:

"- Ué, a senhora não gostou do prêmio? Continua nervosa, mesmo tendo ganhado? Olha, isso não é normal, a senhora não está bem emocionalmente, devia procurar ajuda profissional. Ah, mas se não puder pagar um tratamento psiquiátrico, faz assim: pega um chinelo havaiana, se enfia debaixo da cama e vai roendo ele, que o nervoso passa - com a minha cachorra resolve!..."

Extrapolei, eu sei - mas até a lua tem seu lado escuro, que dirá eu. Minha chefe, meus colegas de trabalho, todos se levantaram de suas mesas e estavam ali próximos de mim, boquiabertos, estupefatos...

A mulher quase teve um ataque - e eu quase senti pena dela... Me ameaçou de processos, de prisão - só não disse que ia me fazer uma macumba, de resto disse tudo. Ia fazer queixa de mim na gerência do posto.

"- É aquela primeira porta, logo ali em frente. O nome dela é Angela." - eu disse.

E a mulher foi prá lá, fazer queixa de mim, dizendo que ia fazer eu ser despedida imediatamente.

Eu continuei atendendo minha fila - agora todos calmos, talvez com medo de serem mandados pro mesmo lugar que eu havia mandado a mulher. A verdade é que, nesta vida, se você tem medo, se demonstra fraqueza, tá perdido! Tá cheio de gente que chuta cachorro morto, por incrível que pareça...

Uns quinze, vinte minutos depois sai da sala a gerente - pessoalmente.

"- Rosa, você me dá um minutinho aqui, na minha sala?"

Ao atravessar a pequena distância entre meu guichê e a sala dela lá estava a mulher - nariz empinado, ar de vitória. Eu pensei: "Seja o que Deus quiser", me imaginando na saída do trabalho carregando uma caixa de papelão com minhas coisinhas e dizendo pro Marildo "Fui despedida" ou algo assim, mas sem um pingo de arrependimento. "Seja o que Deus quiser"...

A gerente - uma mulher lindíssima e super inteligente, a competência em pessoa, do tipo que impõe respeito em qualquer sala que entra sem nem mesmo abrir a boca - me fez sentar em frente à mesa dela, cruzou as duas mãos na altura do rosto e me contou tudo o que a mulher havia dito.

"- É verdade tudo isso, Rosa? Você realmente disse tudo isso prá essa senhora?".

"- Disse."

Ela me olhou nos olhos, primeiro séria como condizia à sua função, depois esboçou um sorriso e, por fim, disse:

"- Muito bem. Gostei de ver. Essa mulher já deu o que falar aqui dentro, é antiga conhecida de outros setores. Eu mesma, quando trabalhava no Setor de Aposentadoria, já tive uma discussãozinha com ela, a respeito da aposentadoria do marido dela. É uma figura essa aí, sempre cheia de razão, sempre de pedras na mão... Olha, prá evitar que ela arrume uns segurados como testemunhas e vá te processar por aí vamos fazer de conta que você levou uma bronca minha, tá bom? Quando sair da minha sala finge que tá triste..."

Agora eu é que tava pasma... Olhei prá ela, agradeci e fui saindo. Ela me chamou de volta e disse:

"- Muito boa a tirada da viagem com direito a acompanhante. O chinelo, então... Adorei."

Do outro lado da porta a mulher me esperava. Encarei seus olhos bem firme, mas não sorri como estava com vontade - também não fiz cara de triste, não nasci prá ser atriz.... Ela nunca soube se eu levei bronca mesmo...

E até hoje rio muito quando conto essa história, pensando "Será que a mulher tinha acompanhante prá viagem?"...

(Essa longa história eu contei prá todas as pessoas que pensam que eu sou uma boa pessoa: como Jesus dizia: bom é Deus. Nós somos apenas humanos...)

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