Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Tecelão


Houve uma vez, há muito tempo atrás, um tecelão como jamais houve nem nunca haverá outro, com tal perícia em sua arte que conseguia tecer usando qualquer matéria, fosse ela real ou imaginária, tangível ou intangível, sólida, líquida ou gasosa.

Amava sua arte e profissão e a desempenhava sempre com um prazer infinito - o que se refletia em cada uma de suas obras primas.

Criava sempre um tecido novo, para uma nova finalidade, sem se repetir jamais (isso aos olhos de quem prestasse atenção aos detalhes...).

Usando linho ou seda, lã, cânhamo ou algodão (às vezes até uma mistura deles...), acrescentando ora um raio de luz do sol, ora o cheiro de grama fresca da manhã, o canto alegre dos pássaros na alvorada ou a cor do céu quando a noite vai chegando, ele criava através de suaves tramas e urdiduras as mais belas e originais peças. 

Certo dia, depois de se apropriar de infinitas gotas de orvalho, algumas flores e um sonho lindo que havia tido, o Tecelão estendeu no varal de sua casa um tecido maravilhoso, vivamente colorido e translúcido, com estampas que lembravam flores e borboletas e que cheirava deliciosamente fresco e limpo...

Estendido ali, no varal, o tecido já tinha destinação - pois o Tecelão nada fazia sem um propósito já previamente definido.

Porém, por um capricho do destino, enquanto o Tecelão descansava na calmaria da tarde, tendo o sono gostoso e pesado, lá veio uma brisa forte, antecipando uma tempestade - e o lindo tecido, de tão leve que era, se foi pra muito longe, levado pelo vento...

Devido se sobressair da paisagem a sua volta por sua beleza e colorido, facilmente foi encontrado por um homem a caminho de seu trabalho no campo - homem esse que se sentiu feliz e cheio de sorte...

Tentou usar o tecido pra diversas finalidades... Usou-o como lenço em volta do pescoço - mas seus amigos riram dele, pois essa moda não era comum por aqueles lados; tentou secar com ele o suor do rosto, mas  percebeu que o tecido não era apropriado pra esse fim, pois nem muito absorvente ele era... Tentou usá-lo como mosquiteiro - sem sucesso - e, por fim, mal humorado, amarrou-o em volta do pescoço do cavalo...

Sedoso e escorregadio como era, desfez-se do tecido o nó e este caiu pelo caminho...

Veio a noite, amanheceu o dia, caiu a chuva e brilhou sem piedade o sol por sobre aquele pano, enquanto ia se passando o tempo.

Volta e meia alguém o achava e, encantado por sua beleza, apropriava-se dele, dando-lhe o destino que bem lhe aprouvesse...

Foi cortina em uma janela, foi vela em um pequeno barco, foi coberta de um menino...

Capa de um soldado, avental de um padeiro, bandeirola no alto de uma torre...

Cada pessoa que o encontrava tentava dar a ele o fim que mais precisava, sem jamais pensar no fim para o qual o mesmo havia sido criado.

Davam-lhe o uso rústico de um cânhamo, simples de um algodãozinho, quente de uma lã - e para nada disso ele realmente servia... Fatalmente acabava esquecido em algum canto, descartado sem dó nem piedade, perdido...

Passado algum tempo lá estava ele novamente abandonado na beira de um caminho, tendo sido ali largado pela enxurrada da última chuva...

Tinha muitos fios puxados e desfiados, uma das pontas estava rasgada de fazer dó... Em um dos cantos via-se até mesmo o chamuscado de uma cinza de cigarro...

Para olhos observadores era bem clara a qualidade e beleza que ele ainda possuía, mesmo com as cores das estampas já meio esmaecidas pelo desgaste do tempo e das lavadas - e por isso era quase garantido que suas viagens não teriam fim tão cedo....

Mas então, como o destino era mesmo muito caprichoso, calhou de passar justamente por ali o Tecelão que o havia feito - e que, feliz da vida, o reconheceu de imediato!

-"Ah! É aqui que você estava!!! Mas... Ohhh... O que foi feito de você este tempo todo?..."

Pegando o tecido em suas mãos hábeis, o Tecelão o lavou na água limpa do rio, vigiou de perto enquanto ele secava com a brisa no varal e, usando as mesmas matérias que usara na sua confecção, o remendou com maestria - a ponto de ninguém que não fosse ele mesmo soubesse que ali havia remendo... Ficou ainda melhor do que quando era novo, pois estava ainda mais macio...

Feito isso o Tecelão calçou suas sandálias e saiu - antes que mais alguma coisa acontecesse pra desviar o tecido de sua destinação...- e foi, com pressa, levá-lo para aquele a quem estava prometido...

Ali, recebido por quem havia ansiado por ele por boa parte da vida, o tecido pode enfim cumprir seu destino, tornando alguém tão feliz quanto se podia ser feliz neste mundo, sendo apreciado e devidamente cuidado - como o Tecelão sempre soube que devia ser.




(História inventada por mim para ajudar a consertar um muito amado coraçãozinho partido...)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Igualzinho da Vitória Quintal...

Ou quase...



Primeiro por causa da cor - o dela é amarelo ouro (achei o máximo, pois adoro amarelo...). Segundo porque, ao invés de usar a lã que tem o nome dela (que só vou comprar quando estiver em promoção porque dinheiro não dá em árvore...) eu usei uma sobra que eu tinha de Molet, desta blusa em ponto pipoca que eu ensinei a fazer AQUI:


(Mas, cá prá nós, quem é que liga prá blusa quando a Lola tá na foto? É ela que deixa a blusa linda...)

Voltando ao cachecol: fiz igualzinho a Vitória ensinou, mas não ficou igual - acho que é por causa da artrite nos polegares, que anda me judiando demais... - mas, mesmo assim, ficou lindo!

O dela ficou ainda mais - olha só:



Prá aprender a fazer é só assistir o vídeo no Programa Arte Brasil:


E quando eu voltar do sítio - que eu fiz a peça antes da viagem de férias - vou levar prá Tia Joanita, porque ela adora bater perna e tem que andar chique e quentinha...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Um doce amor



Esta história minha mãe me contou quando eu era menina - e repetia sempre que Dona Mafalda voltava da Penha, carregada de flores de açúcar, chocolate granulado, papéis de bala e dava uma paradinha na nossa porta, prá descansar os pés do "esporão" (coisa que judiava muito e muito da tadinha...).

Quando minha mãe era mocinha o mundo era muito diferente do que era no meu tempo e mais diferente ainda do que ele é hoje... 

Mães e filhas se arrumavam com suas melhores roupas no domingo à tarde, assistiam a missa e depois iam dar voltas na praça da igreja, saborear um sorvete, aproveitar o comecinho da noite e se exibirem para potenciais pretendentes.

Minha mãe conta com orgulho que fazia seus próprios vestidos, todos imensamente rodados, com várias saias e dezenas de botõezinhos forrados a fechar-lhe as costas. Conta - também com orgulho... - que enquanto circundava a praça de braços dados com sua mãe, era seguida pelos rapazes, que faziam apostas e vinham atrás delas tentando adivinhar quantos botões o tal vestido tinha...

Mas um dos rapazes nunca participava dessa brincadeira... Alexandre, o mais bonito de todo o bairro - carinhosamente chamado de Alexandrinho - e também o mais tímido dos homens. Supõe-se erradamente que um homem bonito deveria ser extrovertido e alegre - mas o Alexandre era o oposto disso... 

As famílias com filhas em idade de casar costumavam convidar para um café da tarde as outras famílias - que tinham moços em igual condição - prá facilitar o conhecimento de ambas as partes, os namoros...

Mas o Alexandrinho, prá onde quer que fosse convidado, entrava mudo e saía calado. Tinha até quem dizia que ele era estranho, não gostava de mulher... Um desperdício - dito pela boca das mocinhas...

Minha mãe teve uma quedinha por ele - o que era difícil de acreditar, já que jamais alguém poderia ter uma quedinha por um homem gordo e careca como ele era. Na minha cabeça de criança, era difícil imaginar que ele nem sempre fora assim...

Na mesma rua, cheia de mocinhas em ponto de bala prá casar, havia também uma que era tida por todas como coitadinha - a Mafalda. Quando pequena diziam que ela havia tomado banho e saído no vento - e seu rosto torto teria vindo de um golpe de ar. O mais provável é que fosse sequela de um AVC - pois não é só gente velha que tem derrame (isso hoje eu sei..). Era magricela, tinha belos olhos, mas uma boca extremamente torta, quase no meio da bochecha esquerda...

Um dia, como a irmã mais velha da Mafalda estava em tempo de namorar, lá se foi a família do Alexandrinho visitá-la - e ele, como sempre, com a boca vazia da língua que o gato tinha comido...

A uma certa altura da visita, com a intenção de ajudar a irmã, sai e volta a Mafalda, trazendo uma garrafa de vidro lapidado numa bandeja com tacinhas, a fim de servir o licor de figos que ela mesma fazia com as frutinhas do quintal.

Provado o licor (que realmente era delicioso, provei muitos anos mais tarde...) eis que a língua do moço voltou a crescer na boca e descobriu prá que havia sido feita: o líquido levemente espesso e doce lhe soltou as palavras e, olhando pros olhos doces da moça, ele nem reparou na sua boca torta... Tomou uma segunda taça - e, nesse ponto, a irmã mais velha saiu de cena, vencida, dando lugar àquela que ninguém queria...

Por causa de um licor de figos é que Dona Mafalda fisgara o homem mais lindo do bairro - e com ele viveu uma vida de amor e trabalho: ela fazendo e vendendo bolos, balas de coco que derretiam na boca, docinhos e licores (foi ela quem me ensinou muitas coisas...) e ele entregando com uma perua Leite Paulista, nas padarias e casas do bairro, até morrer. 

Tiveram quatro filhos lindíssimos - um garoto, com o mesmo nome do pai e sua igual timidez e três meninas, as três com os olhos doces da mãe e a desinibição que só quem sabe que é linda é que tem...

Há muito tempo esse casal amoroso e feliz já se foi pro céu, só ficou a história...

Minto: também ficou a saudade, de uma mulher bondosa, doce como os doces e licores que fazia, que soube conquistar um grande amor com um licor de figos...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um mundo mais florido e doce!

Jasmins - destes aqui:

Casca de maçã - que meus filhos ainda são bebezinhos de colo, eu descasco e tiro as sementes prá eles (daí eu faço geralmente chá com as cascas - prá eles também, só porque são lindos...).



Coloca as florzinhas lavadas no vidro junto com as cascas de maçã, junta açúcar cristal e cobre com rum.

Deixa no vidro fechado, em lugar escuro, por pelo menos duas semanas - quanto mais tempo, mais apurado fica o gosto. 


Coa numa peneira, acrescenta leite condensado e creme de leite - prova o gosto: tem que ficar doce sem ser enjoado, não pode ficar alcoólico demais, tem que ser suave - que ninguém quer encher a cara de licor, né?

Fica tão perfumado... Maçã e jasmim combinam que é uma beleza.

Daí você desenha um rótulo pro teu licor, no capricho - amor e carinho é fundamental também nessas horas... Faz no Paint, quiném eu:

E dá de presente ou oferece prás visitas, no lugar de oferecer sempre um cafezinho... Já pensou? 


Você que é chique pode até comprar na loja que vende louças um vidro bonito e uns copinhos (no lugar de reciclar garrafas de azeite, como eu...) - que luxo, hein?

Daí, já que você tá inspirada, pega uns ramos de hortelã do quintal, guarda num vidro de maionese com açúcar e rum até pegar gosto.




Coa, acrescenta chocolate meio amargo derretido e acrescido de um pouco de água fervendo, leite condensado e creme de leite - e faz licor de Choco-menta! Escorre da garrafa cremoso e doce, levemente alcoólico...


Presente, presente, presente! Todo mundo gosta, custa pouquinho... 

Não tem mais desculpa prá ir visitar alguém de mãos abanando - leva um licor e faz a vida mais doce!

Deixa eu dizer uma coisa: quem prova o licor de jasmim jamais esquece... É um festival de delícias surpreendentes, que brinca com nossa visão - pois é um creminho lindo... - com o nosso olfato - porque o aroma é fantástico... - e com nosso paladar - porque é delicioso. É uma surpresa pros nossos sentidos...

Ah, e na próxima postagem eu conto uma linda história de amor, cujos personagens são um lindo rapaz, uma menina feia e um licor de figos...

(E lembrem-se: estou de férias no sítio, travando a Guerra de Tronos pela minha Winterfell contra carrapatos, escorpiões e aranhas malignas - só em Agosto eu volto e respondo os comentários...)


terça-feira, 22 de julho de 2014

Mais beanie!





Mesma receita desta postagem AQUI - mas sem os pontos que seriam o pompom. Tricota até medir 50 cm - medidos na parte que vai ser a barra.

Lã que eu usei: Oveja, da Cisne: grossa, ultra macia, cor lilás super linda (na verdade roxo acinzentado, 5039 - tá 6 reais um novelo na Novelândia). Usei agulha de tricô 7.

Tece num instantinho e fica assim:


Daí costura, dobra a barra e costura com ponto de malha - prá permanecer elástica - e franze na nuca.

Todo mundo quer um beanie? Até minha pequena tem - vários...



(Tô no sítio - então, se vocês comentarem, vou demorar prá responder, mas quando voltar respondo...)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Trazido pelo mar


Dias atrás, visitando o blog da Fatinha, "Costurar e Renovar",  vi uns travesseiros lindos, enfeitados com bordado inglês, que ela ensina a fazer, com pap super fácil.

Eu já estava numa fase meio nostálgica,  por causa da receita da touca furtada do meu varal - da qual dei a receita nesta postagem AQUI.

Uma memória leva à outra, que puxa outra e aí chegou o lençol da Fatinha e pronto! Bateu aquela mágoa ardida que eu nem sabia que ainda tinha...

Uns bons anos atrás eu fiz uns jogos de lençol super caprichados, com tecidos lindíssimos, comprados numa loja chamada "Vulcão dos Tecidos" (que já nem existe mais...), que era a mais antiga da Penha - minha avó comprava nela. Minha mãe comprou nela o tecido pro meu vestido de formatura, pro da minha irmã... Me casei usando um conjunto feito com tecidos de lá...

Sempre tinha tecidos maravilhosos, de uma qualidade que não se acha prá vender em qualquer loja. Até os vendedores eram diferentes, de um outro tempo: atendiam a gente usando camisa social e gravata, muito gentis e educados - parecia uma viagem no Tunel do Tempo...

Com os tecidos comprados lá - em homenagem ao meu aniversário de casamento e porque os lençóis que eu tinha já estavam muito cansados... - fiz 6 jogos, todos com padrão florido e liso combinando, fronhas enfeitadas com babados de bordado inglês em toda a volta, lençol de cima com vira.

Deu uma dor de cabeça daquelas fazê-los, eu trabalhava fora meio período, as crianças eram pequenas - mas me senti tão satisfeita, um poder de mulher! Depois de costurados, lavei prá poder usar - pois arrastavam no chão enquanto eu costurava... - e todos sem exceção desapareceram do varal (e olha que o muro da minha casa tem uns quatro metros de altura...).

Na mesma semana, quando fui lavar umas roupas das crianças, vi os mesmos lençóis na casa do vizinho do lado. Chamei a senhora que os estava pendurando no varal e perguntei:

- "Ei! O que é que a senhora tá fazendo com os meus lençóis?!"

Ela me disse que eu estava enganada, que ela os havia comprado aquela semana nas Casas Pernambucanas, que muitas pessoas deveriam ter os mesmos jogos e que era só coincidência - só tínhamos o mesmo gosto prá roupa de cama.

Eu garanti que isso não era verdade, que eu havia comprado os tecidos e feito eu mesma - mas ela me deu as costas e entrou em casa.

Então me lembrei de um incidente, semanas antes... 

Eu havia faltado no serviço, pois estava com uma gripe violenta. Mesmo assim, como não faço corpo mole, lá estava eu faxinando o quarto, arrumando minha cama, a porta balcão aberta dos dois lados prá arejar o quarto quando percebi alguém caminhando pela área de serviço: era o vizinho, marido dela, que magro e ágil como um gato estava pulando do telhado da casa dele prá minha! Tomei um susto daqueles, dei um grito e ele (tão assustado quanto eu, pois pensava que não tinha ninguém em casa...) disse que estava atrás do gato dele, que andava doente e tinha sumido. Eu nem sabia que ele tinha gato...

Ai, que raiva! Não tinha mesmo nenhum gato de quatro pernas, só um de duas...

Então, depois de umas duas horas, tocou a campainha um senhor, que se identificou como irmão do marido dela. Parecia um bandido, agressivo, todo tatuado - da porta eu sentia o cheiro de cigarro e bebida curtidos. Começou a me ofender, dizendo que o irmão dele ia procurar a polícia prá me processar por calúnia e difamação e que eu tomasse cuidado, pois o muro da minha casa não me protegia e, uma hora dessas, quando eu estivesse distraída, ele vinha tirar satisfação comigo por ofender seu irmão e a cunhada...

Devia estar acostumado a gritar com mulher e ver elas fugirem assustadas - canalha... E burro - não sabia com quem estava lidando...

Eu caminhei em direção a ele e disse, com voz calma e controlada:

-"O senhor pode vir tirar satisfação comigo a hora que quiser, que eu não tenho medo. Se o senhor pensa que eu vou me encolher, sair correndo e me esconder debaixo da cama, está redondamente enganado. Eu cresci com um pai violento, sei me defender muito bem. Quanto a chamar a polícia, não se dê ao trabalho: eu mesma vou chamar e apresentar os retalhos dos tecidos com os quais fiz os jogos de lençol que seu irmão furtou do varal. Com licença."

Dei as costas e entrei, deixando ele parado feito bobo no meu portão.

O Marildo sabia que os lençóis tinham sumido, andava tão chateado, tinha gostado tanto... Contei prá ele dos lençóis estendidos no varal da mulher, mas não contei das ameaças do irmão do homem - o provável é que ele fosse tirar satisfação, houvesse briga, podia acontecer até uma desgraça. Fiquei quieta. Ele achou melhor deixar prá lá, não dar parte na polícia, pois o homem era quase surdo, ele tinha pena...

Eu não - fosse ou não surdo, era ladrão e merecia ser punido. Resolvi que ia na delegacia prestar queixa - só precisava arrumar tempo.

Mas me passaram a perna: no dia seguinte, enquanto eu estava no trabalho (pois não tinha atestado médico e teria desconto no salário se faltasse mais de um dia...) eles foram embora, de mala e cuia. Moravam num quarto, cozinha e banheiro, pequenos, sumiram quase num passe de mágica.

Nunca mais vi meus lindos lençóis, blusas de lã, toucas e cachecóis, toalhas de mesa e banho - agora eu sabia que fim tinham levado todas as minhas coisas que sumiram... Nunca mais os vi - mas fiquei anos e anos, volta e meia, imaginando meus lençóis nos varais dela, descorando com o o sol, desgastados com o tempo e com o uso (lençóis que eu nem tive o gostinho de ver estendidos na minha cama uma vez sequer...)

Devido às fronhas da Fatinha comentei com o Marildo como a internet era maravilhosa, que no blog dela ensinava passo a passo de como fazer fronhas lindas com bordado inglês - e acabei falando prá ele da minha tristeza por aqueles lençóis de tanto tempo atrás...

-"Pára de lembrar disso com mágoa, mulher! Supera, parece criança! Você nem sabe a miséria na qual aqueles dois vivem atualmente..."

-"Como é que é? Você sabe onde eles moram, manteve contato com aqueles ladrões?"

-"Não fala assim, deixa prá lá... Eu sei mais ou menos onde eles moram, já os vi uma meia dúzia de vezes... Sabe aquela favela que tem na Gabriela Mistral, bem debaixo do pontilhão por onde eu passo prá ir trabalhar, cujos barracos volta e meia pegam fogo? Eles moram ali, uma pobreza de dar dó...

Deus sempre ajudou a gente, todo lençol que você quiser ter, você tem, então deixa aqueles prá lá...".

Minha cabeça e meu coração sabem que ele tá certo mas, mesmo assim, como é estranho... É como se tivesse uma farpa bem pequena, em algum lugar que eu não sei definir direito onde, que incomoda quando eu me mexo, quando respiro, quando penso - e eu me questiono se, mesmo sendo cristã e sabendo da necessidade do perdão, em algum ponto do trajeto eu conseguirei realmente deixar prá lá...

Me lembro de cumprimentar aquela senhora todo dia, quando voltava do trabalho - e ela me sorria simpática, enquanto fazia uso das minhas coisas. 

Devia me achar uma trouxa, uma idiota por cumprimentá-la...

Mesmo não sentindo mais raiva, eu me pergunto se consigo, como meu marido, sentir pena..

Pena eu acho que sinto de cachorro abandonado na rua, que a carrocinha vai levar e que ninguém vai buscar... De pessoas idosas, que a família abandona nos asilos e nunca vai visitar. De gente que dá duro, faz o seu melhor todos os dias e não recebe um obrigado de ninguém...

Mas de gente que acha que o que é dos outros deveria ser deles e pega - será que eu consigo sentir pena?

Vocês já viram reportagens sobre a virada do ano, do dia 31 de dezembro pro dia 1º de janeiro? Gente comemorando de um monte de jeitos, com fogos, com festa, comendo lentilha, comendo romã, colocando um dinheiro na carteira e prometendo que ele vai ficar ali até o final do novo ano? Já viram que tem gente que vai pro mar, pular sete ondas e lançar barquinhos cheios de flores e outras coisas prá Iemanjá? Minha irmã foi de lua de mel prá praia e viu, disse que é lindo, tem velas acesas, fica tudo muito brilhante e mágico...

Mas no dia seguinte, tudo o que foi lançado nas águas é trazido de volta pelo mar,  prá praia, que fica cheia de flores já murchas, velas apagadas, tralhas...

Na vida estamos sempre lançando coisas que voltam prá nós - nem precisamos da água do mar prá que isso aconteça. A gente espalha flores e recebe elas de volta. A gente pratica o mal e sofre as consequências dele, cedo ou tarde...

Ação e reação.

Cada coisa que aqueles dois tiram do quintal dos outros, dos varais que não lhes pertencem, voltam prá eles como flores podres e mortas, frutas azedas e estragadas. Ninguém que lança coisas ruins prá vida recebe coisas boas de volta - ninguém...

É nessas horas que eu percebo que realmente sinto pena deles... Por eles acharem que o que as outras pessoas têm caiu do céu - e não é fruto de trabalho duro, esforço - e deveria pertencer a eles (por isso se apropriam...). Pena deles por se acharem espertos, não respeitarem os limites do que pertence a cada um por direito... 

Volta prá praia deles todo o lixo que eles jogam no mar...

Se tem uma coisa que eu sei é que vida é escola, a vida ensina...

Desejo que eles aprendam com a vida, com seus erros - assim como eu também quero aprender (com a vida e com meus erros) a lançar mais amor e perdão, prá receber isso de volta.

Acho que só assim nenhum de nós vai mais precisar sentir pena de ninguém...

(Tô no sítio - então, se vocês comentarem, vou demorar prá responder, mas quando voltar respondo...)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Emborrachadas e... coloridas!



Eu sabia que dava prá fazer - e não sosseguei até fazer umas... Infelizmente todas ficaram azuis - mas azul é bom, gosto muito.

Fiz a mesma coisa que nas agulhas passadas - desta postagem AQUI - mas acrescentei corante:


O silicone só tinha incolor - meléca, pois branco é melhor, fica mais bonito... Eu tinha duas tintas acrílicas azuis (uma da Acrilex e outra da Gato Preto, que usei prá pintar o meu Cisne) e comprei também um vidrinho de pigmento prá colocar em tinta de pintar parede (paguei 2 reais... Comprei azul prá testar a potência de cada cor...).


As agulhas mais clarinhas foram feitas com o silicone, a maisena e uma espirradinha de tinta acrílica de bisnaga - não dá muita cor, fica clarinho demais...

As mais escuras eu fiz com o corante, variei de 3 a 8 gotas (a de oito gotas foi a que ficou mais escura, achei super linda, é minha favorita...).

Dei uma amassadinha, da mesma forma que as agulhas de bambu da Barroco e da Duna (fica mais gostosa de pegar do que fazer arredondada - nada como a experiência...) - aliás essas agulhas estão custando apenas 7 reais cada lá no Depósito Alvorada, na rua Padre João, nº 47/49, na Penha (daí você aproveita e compra os últimos novelos de linha Ibiza do universo, a R$6,50 reais cada - ainda tem rosa choque, laranja e verde bandeira...).

Se você tiver tinta guache ou aquarela, daquelas que criança usa na escola, dá prá fazer agulhas nas cores do arco-íris - já pensou? 

E fazer massa branca e colorida e, na hora de envolver a agulha, dar uma mesclada nas duas e fazer marmorizada...

Ninguém mais vai ter agulhas iguais às tuas...

(Tô no sítio - então, se vocês comentarem, vou demorar prá responder, mas quando voltar respondo...)

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