Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Catalogando lágrimas


Já pararam prá pensar em como nós, seres humanos, temos medo da tristeza? Pois temos. Todos nós, por mais jovens ou velhos que sejamos, por mais fé que a gente tenha no coração, sendo ricos ou pobres, feios ou belos - todos nós nos pelamos de medo da tristeza, fugimos dela.

E é assim mesmo: fomos criados prá sermos felizes. Deus, que é um pai amoroso e bom, nos quer felizes. Mas, da mesma forma que a criança não entende porque o pai passa remédio que arde no machucado, prá não infeccionar e sarar logo, a gente também não entende uma porção de coisas na vida, por mais inteligente que a gente seja. E eu acredito sinceramente que de tudo se tira uma lição, por mais difícil de aprender que ela seja...

Amanhã é aniversário da minha filha Nana. Pensei que então hoje fosse um dia bom prá contar do dia em que ela nasceu - um dia no qual fui infinitamente feliz, mas sofri como poucas vezes na minha vida. Mas, pensando melhor, vou deixar essa história prá outra ocasião e me transportar pro presente, pra acontecimentos que estão mexendo com o coraçãozinho da minha menina - seu gradual nascimento como futura médica.

Contei prá vocês que ela está fazendo plantões em hospitais - pois já está no 5º ano de Medicina. Os plantões menores são de 12 horas, mas ela também tem plantões maiores intercalados, de 24 e até de 36 horas. 

Isso mexe com o emocional dela - demais. Uma pequena parte disso vem do cansaço, obviamente... Mas os dramas que ela assiste são o que mais influência tem, sei muito bem...

Ela chega em casa e eu sempre examino seu semblante à procura da tristeza - e, ultimamente, ela está sempre lá, em maior ou menor grau. E eu, perguntando como foi seu dia, geralmente consigo que ela compartilhe algum acontecimento, alguma história, dividindo um meio quilinho do seu fardo tão pesado...

Um dia desses ela me contou - chorando - que tinha atendido uma senhora, vítima de um derrame. Ficou ao lado do médico plantonista enquanto a senhora era atendida, aprendendo os procedimentos. A mulher chegou lúcida, deitada numa maca, minha filha conversou um pouco com ela. O médico prescreveu medicamentos de emergência, prá tentar minimizar as sequelas e a enfermeira encarregada anotou tudo na ficha. Minha filha continuou o plantão, assistindo outros atendimentos - e, volta e meia, retornava àquela senhora, prá ver como estava. A cada vez que a via, deitada na maca, no corredor do hospital muito lotado de doentes, reparava que a mulher ia ficando mais e mais alheia...

Na ficha de paciente não constava que o medicamento havia sido aplicado e minha menina, sempre tão preocupada com tudo, ia procurar a enfermeira encarregada - e mal humorada esta lhe respondia que ainda não tinha tido tempo... 

Minha filha passou aquele plantão inteiro agoniada. Cansou de ir atrás da enfermeira, atrás do médico que havia feito o atendimento e prescrito o medicamento. 

Em determinado momento ela reparou que a mulher não reagia mais...

Desesperada, minha filha foi mais uma vez atrás do médico - desta vez toda nervosa... "Que isso não se fazia, que se fosse a mãe de alguém importante todo mundo tava dando atenção, que nem um animal merecia aquele abandono..." e, face o nervosismo dela, o médico mesmo foi lá aplicar o medicamento - mas disse que ela era muito estressadinha e uma pessoa difícil de se conviver...

De outra vez ela me contou que havia uma senhora muito gorda deitada numa maca e que ela reparou que a mulher chorava baixinho, quase sem ninguém perceber... Ela se aproximou, perguntou se estava tudo bem e a mulher respondeu que estava com muita sede. Minha filha pegou a ficha dela, presa nos pés da maca e viu que ela iria realizar um exame que necessitava jejum absoluto, tanto de comida quanto de água e explicou isso prá mulher... Mas, movida de compaixão, disse assim prá ela:

-"Olha, o que eu posso fazer é molhar um pedaço de algodão em água e molhar um pouco a sua boca, deixar cair algumas gotinhas, tá bom?" - e foi isso que fez.

Enquanto fazia isso, a mulher começou a chorar mais e mais, a ponto de soluçar - e minha Naninha ficou até assustada, pensando: "Meu Deus, será que eu fiz alguma coisa errada?"!!!

A mulher se acalmou e contou que tinha três filhos, mas que eles não se importavam com ela. Que o marido havia falecido há quase um ano e que ela o acompanhara o tempo todo, inclusive passando algodão em seus lábios nessa mesma situação. Explicou que seu choro era de alegria e de tristeza, tudo junto. De tristeza por pensar que não teria ninguém que lhe desse água nessa hora difícil, estando completamente sozinha e de alegria por Deus ter respondido suas preces e ter enviado a ela um anjo...

Minha filha foi a única a atender um garoto de 14 anos, paraplégico devido a um tiro levado num assalto - ele era o assaltante. Os colegas dela se recusaram a atender, pois diziam que o rapaz merecia morrer e que, se dependesse deles, morreria mesmo - por falta de atendimento...

Atendeu uma prostituta esfaqueada - que, segundo os colegas dela, melhor estaria morta (menos "lixo" no mundo...).

Um rapaz que fez cirurgia de mudança de sexo, realizada pelo Estado - e que tanto os médicos residentes quanto os plantonistas colegas dela tratavam como se fosse uma aberração...

Estes são uma fração das histórias que ela me conta - e mesmo essas são apenas uma fração das que ela vive e não compartilha comigo (diz que eu iria chorar se ouvisse todas - e ela me conhece muito bem...).

Tem dias nos quais ela chega tão nervosa, com a cara tão fechada, que até se recusa a falar... Sem apetite, come pouquinho, só se interessa em tomar banho, estudar calada na cama e ir dormir, calada... Um ou dois dias depois ela abre as "comportas da represa", cheias além da conta - retira das minhas mãos a costurinha que estou fazendo, senta do meu lado no sofá, coloca suas pernas sobre as minhas (como se ficasse no meu colo, sem ficar...) e apenas diz assim:

-"Ai, mãe, hoje eu vi tanta dor, tanta morte..."...

E chora. Chora enquanto eu a beijo, enquanto eu choro junto - porque infelizmente eu nasci chorona, ninguém pode chorar perto de mim que eu choro junto, sou uma vergonha de mãe...

Daí, quando a fonte dá uma secada, ambas com os olhos vermelhos e inchados, a cara lavada, eu pego seu lindo rostinho em minhas mãos e digo prá ela ser forte e ter fé em Deus que tudo vai dar certo...

-"Tudo talvez fosse mais fácil se você tivesse escolhido ser uma botânica ao invés de ser médica, filhinha. Você viveria cercada de flores... Mas sabe, mesmo assim, rodeada de flores, a dor alcança a gente. Não importa se a gente é dona de casa ou empresária, se a gente é analfabeta ou tem mestrado e doutorado, a dor e a tristeza aparecem volta e meia na vida da gente. E quer saber por quê? Porque a dor é a escola - a risada é o recreio. Na vida, infelizmente, é a dor que ensina - por isso ela aparece tanto... E é por isso também, meu amor, que muitos colegas teus acabam ficando insensíveis, endurecidos na profissão: é uma auto-defesa. Eles se encouraçam, na tentativa de se protegerem da dor alheia... 

Se eu pudesse, meu amor, eu te faria um escudo de tricô ou costurando algum tecido mágico, prá te proteger - mas eu não posso - e nem sei se devo...

Você diz que só vê tristeza, dor e morte e se apieda das pessoas que você vê - mas se esquece de que está vendo elas no seu pior momento. Ninguém vai no médico à passeio: vão porque estão doentes e muitos vão porque estão morrendo - faz parte da vida. Você não se dá conta, mas muitos vão sarar, sair do hospital e seguir com suas vidas, tendo alegrias e tristezas igual todo mundo. E os que morrem - é duro, eu sei... - mas Deus assim permite e os recebe do outro lado, pois é pai deles assim como é teu também, e os ama...

Antes de qualquer atendimento reza, minha filha. Não vai deixar de vir dor e tristeza, mas Deus vai mandar força prá você aguentar e seguir em frente.

Eu estava pensando o seguinte: é no calor da fornalha que a gente sabe de que metal é feito... Lembra das aulas de Química, no colégio? Dos pontos de fusão dos metais? Pois então: o ouro é um metal maravilhoso, extremamente valioso. Os seres humanos se matam por ele... 

Quando a gente quer dizer que alguém é bom demais no que quer que faça, diz que essa pessoa vale ouro, não é? - e o ouro praticamente só é usado prá ornamento... O ponto de fusão dele é pouco mais de 1000º C - alto, né? Se a gente parar prá pensar, a água ferve aos 100 º C e a gente já se queima tanto com essa temperatura - imagina mil graus.... 

Já o tungstênio, um outro metal que a gente mal ouve falar tem um ponto de fusão que chega a quase 4 mil graus Celsius - é preciso muito mais fogo, muito mais calor prá desmanchar, derreter o tungstênio. Por isso mesmo um fiozinho dele vai dentro das lâmpadas - e aguenta o calor do gás lá dentro prá fazer ela acender, gerando a luz...

Deus não te criou prá ouro, filhinha... Ele te criou prá tungstênio. Você não veio ao mundo apenas prá decorá-lo com a tua presença - você vai ter muita utilidade...

Você sempre vai ser o anjo doce que pinga água na boca de alguém no momento mais necessário, vai ser a mão macia que segura uma outra mão no seu momento derradeiro, a voz suave do amor do nosso Paizinho do Céu a sussurrar algum consolo...

E, se tiver que chorar, filha, chora. Chora que chorar não é pecado, até Jesus chorou mais de uma vez na vida... E nem todas as lágrimas são ruins, afinal de contas, principalmente se são lágrimas de amor e de compaixão...".

É o que eu posso fazer: falar e chorar com ela. Por mais que eu queira correr pro lado dela e trabalhar junto, como voluntária, afastando a dor e a tristeza prá longe do meu bebê, a vida tem, prá cada uma de nós, um caminho diferente, muito embora paralelo...

Ela vai prá frente do campo de batalha - e os que estão na frente sempre levam mais flechadas... Cá fico eu, na retaguarda, rezando e esperando que ela volte, fazendo uma comidinha gostosa prá alimentar seu corpo, costurando uma blusinha nova prá ela usar com um sorriso, um jaleco novo prá ser seu uniforme de guerra...

Feliz aniversário, Nambinha da mãe, meu bebê chantilly...

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Era uma vez um balde...

Desses plásticos, bem vagabundinhos, que a gente compra por trocados nessas lojas de 1,99. O meu era vermelhinho e paguei 4 reais.


Sabe o que ele virou? Uma bolsa prá Naninha carregar marmita, suco, docinhos, carregador de celular, tablet - uarévis!


 E eu fiz assim:


Recortei a parte de cima, que se sobressaía demais e ia atrapalhar a costura. Esqueci de fotografar mas tirei o molde assim: Envolvi o baldinho por fora com jornal, copiando a forma e desenhei a base e o topo de formato redondo simplesmente copiando com o lápis. Se for fazer tenha sempre em mente que vai ter que ficar maior, pois vai levar manta acrílica, então o molde é só uma base mesmo.


Eu tinha essa bolsa que o meu filho ganhou no treinamento quando passou no concurso - tava parada, sem uso: resolvi aproveitar o zíper, que era bom demais e também os passantes das alças (que você pode comprar até pela internet, em lojas de armarinhos virtuais...)


Prá forro eu usei uma calça jeans preta velha, que estava muito curta nas meninas. Comprei tecidos de tom roxo e lilás prá forrar a bolsa e matelassei tudo - como disse, uns 2 cm maior que o molde pro lado de fora.
Fui fazendo tudo no tapa mesmo, praticamente encapando o balde. Primeiro fiz a parte de fora, com bolso, fiz a parte de dentro com sobra e entre as duas eu preguei o zíper. Como a parte de dentro eu não fechei ficou fácil desvirar tudo depois de colocado o zíper.

Vê como sobrou pano dentro? Não tem problema, porque a gente esconde - é melhor que sobre mesmo...


Ah, antes de pregar o zíper eu fiz quatro alcinhas: duas mais ou menos grandes, prá ficarem em lados opostos e servirem prá minha filha carregar a bolsa na mão, igual sacola. Usei por fora o tecido lilás de algodão e recheando cada alça coloquei aqueles cordões largos, feitos de cadarço. Fiz também duas alcinhas pequenas dobradas ao meio e as posicionei bem no meio das alças de mão, prá colocar as argolas da alça maior de usar no ombro, dá prá ver?


Agora: depois de por o zíper (destacável - super importante essa dica) sobrou o enigma de fechar a tampa da bolsa...


Como o zíper não ia no topo todo - deixava uns 10 cm em aberto - eu fiz um pedaço de tecido prá fechar e esconder o começo e o fim do zíper. Preguei à mão mesmo, pois não dava prá fazer na máquina...


O fundo eu fiz encapando uma rodela de plástico com o jeans da calça velha. A rodela de plástico eu tirei do fundo de uma embalagem de 5 litros de produto de limpeza -eu até quis fazer a mesma coisa prá tampa da bolsa (sempre tenho embalagens dessas guardadas, são muito úteis...), mas como o baldinho era menor embaixo e maior em cima eu não achei plástico que desse o tamanho - então a tampa ficou só no tecido e na manta acrílica, mas tá bom demais..


Colei o fundo com fita crepe antes de costurar à mão o fundinho redondo.


E a bolsa ficou assim, muito prática.


Os dois bolsos da frente, nos quais ela deixa trocados, documentos, cartão de ônibus.


Aí estã a alça grande, na qual eu usei os metais daquela outra bolsa.


As alcinhas laterais, muito úteis...


E assim ficou a bolsa por dentro...


Do lado de dentro da tampa eu bordei o nome da minha filha (mas rabisquei em cima, porque ela quer manter o anonimato...).


Aquele pedacinho de tecido que emendou a tampa na parte de baixo da bolsa...


E ela pronta prá uso.

E eu ainda fiz uma blusinha, de um paninho bem leve e fininho estampado de flores que ganhei de aniversário há uns 4 anos atrás, da minha mãe - mas resolvi fazer uma regata prá Naninha, pois tá um calor tão insuportável e ela aprecia. Não faz mal que era tecido prá mim, mãe tem dessas coisas mesmo, acaba sempre dando prioridade pros filhinhos, não é mesmo? Aposto que vocês também são assim...




 Não ficou linda? Usei uma palinha que comprei pela internet, no Armarinhos 25, na qual não paguei nem 2 reais...

Ainda lhe fiz dois jalecos novos, um deles mais comum e outro usando retalhos de laise bordada prá enfeitas, olha só:






E prá não pensarem que só faço prá Naninha, cá está minha deusa Lola, esbanjando gostosura, com uma camiseta vermelha que eu fiz: 





Com malha de viscose que eu havia comprado prá mim, mas novamente achei que o melhor uso era fazer prá ela... Fala a verdade: não seria um desperdício fazer uma blusa vermelha prá uma velha acabadinha que tá só o pó, que quase não sai de casa? Já a Lola, assim tão linda - nada é desperdício nela... 

Preguei spikes que eu tinha na frente e nos ombros - ficou uma belezura.

E prá fechar a postagem com chave de ouro, olhem que lindeza - flor de carambola:



Eu nem sabia que dava flor... É lá do sítio, primeira vez que deu flor e fruta - não são lindas?


terça-feira, 19 de abril de 2016

Semente



Existem na vida de cada pessoa acontecimentos que são tão marcantes, mas tão marcantes, que costumam ser chamados de "divisores de águas". 

Eu prefiro chamar de sementes.

Minha mãe teve 13 filhos - dos quais eu sou a número 8 e a primeira a sobreviver - e um marido que tinha muito claro o seu papel: trabalhar, gastar o dinheiro com bebidas e mulheres e bater em todos nós.

Diariamente.

Minha mãe, então, além de trazer filhos ao mundo, trabalhava como burro de carga prá alimentá-los, vesti-los, mandá-los prá escola - sobrava pouquíssimo tempo prá agrados e conversas. Isso a gente obtinha da minha avó.

Ela era velhinha, tinha os cabelos totalmente brancos como uma nuvem, as mãos calejadas... Lavava toneladas de roupas todos os dias num grande tanque feito de tijolo e cimento, cantarolando fados muito tristes - mas sempre sorria prá mim, quando me via olhando prá ela...

Aprendi a falar com ela e, quando entrei prá escola, zombavam muito de mim por causa do meu jeito de falar: eu dizia "bagem" - ao invés de vagem; "bassoira" no lugar de vassoura; "ora pois" isso, "ora pois" aquilo... Mas eu não chorava, eu partia pro tapa quando isso acontecia - e minha avó me censurava, me dava aquelas broncas amorosas de vó prá domar o bichinho que eu era...

Pobrezinha... Passou tanta fome junto de nós! Os outros filhos a chamavam prá morar com eles (os irmãos da minha mãe...) mas fosse por não se dar bem com as noras (que eram todas umas megeras malvadas, a tratavam mal por não ser legalmente casada com meu avô...) ou por amar demais a única filha que tinha ela preferia morar conosco.

Meu pai a tratava tão mal - aquilo me doía desde pequenininha, especialmente porque minha mãe morria de medo dele, então não a defendia...

Eu nem me dei tempo de crescer prá fazer isso - e como apanhei...

Meu pai tinha muita força, havia sito lutador de boxe na juventude, tinha uma mão enorme, pesada... Mas ele gostava mesmo é de dar surra de cinta - usando a parte da fivela na hora de bater.

Uma coisa é certa quando se bate muito em um filho - das duas uma: ou ele se cala e guarda toda a revolta, somatizando tudo ou ele se revolta e deixa de ter medo de apanhar. Perde todo o respeito. 

Comigo foi o que aconteceu...

Minha avó de nada se queixava. Se tínhamos apenas uma bengala de pão prá todo mundo comer ela cortava em fatias, uma parte prá de manhã, outra parte prá tarde - um pedacinho prá cada um, não mais, não importando a fome. Prá ela ficava reservada a tetinha do pão, aquela pontinha mais dura - que eu reivindicava prá mim:

- "Vó, é verdade que se eu comer a tetinha do pão eu vou crescer e ter tetinhas bonitas? Quero ser bem tetudinha..." - e eu pegava prá mim a tetinha, mas ela me dava um pedaço da fatia que ficava prá ela e dizia que era prá tetinha ficar mais recheada... Daí eu a via, quando o pão acabava, a caçar com as pontas dos dedos as côdeas do pão que ficavam espalhadas na mesa e as levava à boca e se justificava dizendo:

-"O pão é o corpo de Cristo, filha... Se a gente desperdiça é pecado, Deus fica triste..." - pois ainda sentia fome, pobrezinha...

Ela mancava quando andava - tinha o quadril ruim, coisa que herdei dela. Não tínhamos dinheiro prá comprar analgésico, então ela enchia uma garrafa vazia com água quente, enrolava num pano e colocava sobre o osso dolorido - e só assim conseguia dormir.

Suas pernas, dos joelhos prá baixo, eram repletas de feridas. Dizia que eram "izirpelas", que não cicatrizavam nunca - acho que ela era diabética também... Ficavam crateras enormes, repletas de pus, a pele toda vermelha, inflamada... Aquilo me doía tanto, me preocupava... Desde pequenininha eu tomei prá mim o privilégio de lhe lavar as pernas, numa bacia, toda noite antes dela ir dormir. Eu ia derrubando água morna numa leiteirinha, esfregando delicadamente com meus dedinhos, limpando as feridas. Secava com uma fraldinha limpa, dando suaves batidinhas, segurando a respiração de medo de machucá-la. Colocava pomada em cada um dos buraquinhos, enfaixava com amor, calçava meias que iam até os joelhos prá segurar as faixas. Ela me agradecia com beijos e eu segurava o choro - queria que tanta coisa fosse diferente e não era!...

Quando comecei a aprender a ler achei absurdo uma mulher tão inteligente como ela não conhecer as letras e tomei como missão ensiná-la. Só que o tempo era curto, ela sempre estava lavando roupas, lavando o quintal, fazendo comida, costurando... Quando ela entrava no banheiro prá fazer suas necessidades eu percebia e entrava junto: pegava a folha de jornal que ela ia usar prá se limpar e ficava ensinando ela:

-"Olha, vó, aqui tá a palavra CASA, tem dois 'a's, tem uma letra C no começo e tem o 's', que parece uma cobrinha".

-"Filha, agora não é hora disso, sai daqui..." - ela dizia. "Você não deve ficar no banheiro quando tem esse cheiro ruim no ar, menina!" e eu ficava atormentando a coitadinha.

Só consegui fazê-la aprender a escrever o próprio nome...

Com o passar dos anos ela desenvolveu varizes no esôfago - uma doença muito, muito triste de se ver. Decorre de doença no fígado - esteatose hepática, que é um dos estágios anteriores da cirrose. Eu também tenho - outra coisa que herdei dela geneticamente, essa predisposição. Embora nem eu e nem ela tenhamos costume nem gosto por bebidas alcoólicas o nosso fígado nos trai dessa maneira, o bandido...

Como ela era muito velhinha e a doença estava em estado adiantado, nada se podia fazer. As varizes do esôfago se rompiam,sangravam, o estômago ficava cheio, o sangue coagulava e, quando o corpo não conseguia digerir tanto sangue, ela vomitava enormes placas, como pedaços de fígado. Quase sufocava. Era algo horrível de se ver, algo assustador, que parecia não ter fim, que parecia a própria morte acontecendo...

Um de nós ia correndo na casa de um dos meus tios, ela era levada no Hospital da Penha, num médico chamado Doutor Pires, que era um dos diretores do hospital. Ele aplicava algum medicamento, dava uma transfusão prá repor todo aquele sangue perdido e a mandava prá casa - e durante um tempo, algumas semanas às vezes, ela ficava boa. 

Mas eu me preocupava o tempo todo. Se ela saía de casa prá ir no cemitério, no túmulo do meu avô, remover ervas daninhas, levar flores, eu largava o que estava fazendo, me despedia das amigas com quem brincava e ia com ela... À noite, com medo dela ter uma hemorragia enquanto dormia, eu me sentava no chão, do lado da cama dela e ficava vigiando seu sono até acabar cochilando ali, do seu lado...

Eu dizia assim prá ela:

-"Vó, me jura, me promete que nunca vai morrer?!"

Ela tentava me explicar que não podia jurar que era pecado, que não podia prometer porque não podia cumprir - mas eu me desesperava, chorava e ela então, com pena de mim, prometia assim:

-"Tá bom, filha, não chora. Eu não vou morrer, vou ficar prá semente". - o que isso significava eu não sabia, só me importava que ela dizia que não ia morrer...

Quando voltavam as crises o que acontecia era puro e irracional desespero: Enquanto ela vomitava, sujando de vermelho escuro a pequena pia de louça e as paredes de cimento colorido de amarelo eu batia a cabeça na parede - egoísta eu, pensando apenas na minha dor, aumentando o desespero dela com o meu... Por isso mesmo tenho a cabeça cheia de calombos, até hoje - e meu marido diz que se um dia os et's invadirem a terra e acharem minha caveira vão achar que todos os seres humanos tem cabeças deformadas (ele faz brincadeiras muito más, às vezes, mas eu me vingo fazendo ele me amar prá sempre, apesar dos meus inúmeros defeitos...).

Um dia eu voltei da escola - estudava no período da manhã - e cheguei em casa toda alegre e faminta. Fui recepcionada pelo cheiro delicioso de cebola e alho sendo fritos na panela - e corri pro fogão, prá ver se minha avó me dava um tantinho do estrugido prá comer no pão...

Ela estava sentada do lado do fogão, numa cadeira deixada ali prá ela acompanhar a feitura da comida sem ficar de pé, pois não aguentava... Sua cabeça estava encostada na parede e ela parecia estar dormindo.

Eu sorri, apreciando seu rosto lindo, enrugadinho e curtido de sol, andei na ponta dos pés prá não fazer barulho e lhe dei um beijo estralado, barulhento - prá ela acordar e, nesse momento...

Uma placa de sangue coagulado enorme e grossa como um grande bife voou de sua boca, ela puxou o ar com desespero e me disse, com a voz rouca:

-"Ai, filha! eu estava a morrer sufocada!!!".

Na mesma hora gritei por minha mãe prá socorrê-la e minha mãe me mandou correr prá chamar meu tio Júlio.

Desci a rua descalça - me lembro do calor do asfalto na sola dos meus pés, queimando...

Meu tio a levou como de costume ao Hospital da Penha, onde ela recebeu a medicação e a transfusão de costume, que constavam na sua ficha de paciente. Contudo, como Doutor Pires estava de férias, um médico mais jovem, de nome Fausto, o estava substituindo e, todo cheio de suas sabedorias de recém formado, resolveu que ia aplicar nela outro tratamento, mais inovador.

Face a recusa de minha avó, que queria logo voltar prá casa, prá cuidar dos netos, ele a amarrou na cama. Ela gritava, esperneava, pedia ajuda prá minha mãe - e eles a sedaram.

Quando o novo tratamento foi aplicado no corpo dela, ele não reagiu bem: teve choque anafilático e ela entrou em coma.

Muitas vezes antes disso eu fiz promessas prá obter alguma graça - como quando minha mãe ficou internada por quase 3 meses, quando eu tinha 9 anos, e ela quase morreu: prometi não cortar o cabelo por 3 anos e ela ficou boa. 

Mas o que tem que acontecer, acontece, independente da nossa vontade. Deus não faz barganhas e não aceita trocas - aprendi isso aos 12 anos. Prometi tudo o que eu podia prometer a Deus: que ia ser uma boa pessoa, que não ia mais brigar nem bater em ninguém. Prometi nunca mais cortar os cabelos, deixá-los crescer do tamanho do mundo. Pedi a ele prá me levar no lugar dela - pedi tanto, tanto...

Ela ficou quase duas semanas em coma - e não me levaram prá visitá-la, por mais que eu implorasse. Disseram que o hospital não deixava entrar crianças.

Minhas tias vinham tomar conta da gente quando minha mãe ia ao hospital. Um dia minha mãe chegou em casa e disse pro meu pai:

-"Os médicos dizem que ela não vai voltar a ficar consciente e que não sabem porque ela ainda está viva. Um deles me disse que talvez ela queira se despedir de alguém e eu acho que é de você, pois quando eu converso com ela e falo teu nome ela geme..."

Meu pai então foi se despedir dela. Chorou, pediu perdão por todo mal que havia feito a ela e prometeu que ia cuidar bem da minha mãe e de nós.

Mesmo em coma, minha avó chorou - e tem gente que acha que eles não estão ouvindo...

Morreu naquela noite mesmo e eu sempre pensei que ela tinha levado o melhor de mim com ela.

O melhor de mim era o amor que aprendi a sentir com ela - aquele amor que faz a gente se transportar prá dor da outra pessoa a ponto de querer mais do que tirá-la: querer senti-la. Querer sofrer no lugar dela, querer morrer no lugar dela...

Fiquei destroçada com sua partida. Fiquei magoada porque ela quebrou a promessa de nunca morrer, de "ficar prá semente"...

Tantos anos se passaram e agora, dia 24 de abril, fazem 42 anos que ela se foi prá longe dos meus olhos e dos meus beijos. Nunca a esqueci e estou chorando feito criança enquanto escrevo, pois tudo o que aprendi de amor na vida, tudo o que ela tem de bom e pelo qual vale a pena viver me foi passado por ela.

Afinal entendi que ela ficou mesmo prá semente. Brotou no meu peito, se enraizou pelos meus braços e pernas, escorreu pelos meus cabelos e se derramou pelo meu rosto a cada uma das lágrimas que eu chorei na vida, se espalhou no ar a cada risada que eu dei...

Dei o nome dela prá minha Lola, que se chama Leonarda, assim como ela.

Às vezes, descascando batatas na pia, esfregando algumas meias no tanque, sentada no sofá da sala costurando uma roupa eu sinto sua presença. Fecho os olhos e as lágrimas escorrem no meu rosto, de felicidade pela sua visita, de saudades do seu rostinho em meus lábios.

Eu vou entrar no céu de penetra, graças a ela. Vou bater na porta e não vou ter merecimento de entrar - mas pelo amor que tenho a ela, amor que me ensinou a amar minha mãe e meus filhos, que me ensinou a amar meu marido e meus irmãos e irmãs São Pedro vai me abrir as portas - pois tanto amor vai ser capaz de me abrir qualquer porta no mundo - eu sei, eu sinto.

Se assim não for, se não der, tenho certeza que ela dá um jeito: conversa com Deus, com Jesus, com São Pedro e dá um jeito de me por prá dentro, nem que seja prá continuar o trabalho de me criar...



sexta-feira, 15 de abril de 2016

Presente de aniversário







Prá tia Joanita, prá ela andar chique quando vai no médico. Feita todinha de sobras de fios:

A receita, se alguém quiser, me avise que eu faço e depois posto. Contudo, se você está acostumada a lidar com linha Cléia 1000 é só fazer a receita que você tem, apenas usando várias cores.

Estou meio chateada: uma mulher na internet (no Facebook) se apropriou de uma porção de trabalhos meus e os postou como sendo de sua autoria - ela até copia meus comentários, as coisas que eu escrevo fazendo gracinhas nas postagens, como sendo comentários dela! 

O que será isso? 

Necessidade de atenção, carência de algum tipo ou cara de pau em estado terminal? 

É mais ou menos como se eu fosse no restaurante, comprasse uma comida gostosa, chegasse em casa e jogasse na panela, prá fingir pros outros que quem tinha feito era eu... Digno de pena. 

Se alguém aí tiver Face, vão lá dar uma olhada na cara de pau da moça...

Muito obrigada à Ivy, do blog PequenaIv, por ter me alertado...

Acrescentando: Mandei várias mensagens prá essa moça, dizendo que não estava certo se apropriar das minhas peças, dizendo que eram dela - uma das peças ela inclusive disse que fez em um dia! 

Sabem o que ela me respondeu? Numa mensagem padronizada, automática, me agradecia por eu visitar a página dela e disse que fazia seus trabalhos com muito carinho... 

Daí, rolando os comentários nas fotos das minhas peças, vi que muitas pessoas acreditavam realmente que as peças eram dela, mas não conseguiam abrir a receita e os gráficos nos links que ela dava (de um site chamado Globo Brasil, onde só tem peças de outras pessoas mas que ela diz serem dela - pelo jeito ela não faz é nada...). 

Dá só uma olhada na página inicial dessa senhora - de cara, três trabalhos meus: 




Lá no face dela, então, eu clicava em cada comentário das minhas blusas nos quais alguém dizia não estar conseguindo ver o gráfico e dava o link da minha receita no blog, prá pessoa poder acessar corretamente e fazer a peça. 

Sabe o que ela fez? ME BLOQUEOU - agora eu não posso comentar na página dela, fui banida.

Bom, tenho uma boa jornada prá trás de mim prá saber que, quando a gente anda errado, cedo ou tarde acaba se dando mal por aí, tropeça e cai... 

Já denunciei, o resto é com Deus e a vida.

Mas meus filhinhos, que são pessoas melhores do que eu - e bem mais sábios, me ensinam muito... - me disseram que ela não tá tirando o pão da minha boca (e que talvez eu é que esteja pondo o pão na boca dela, que não tem competência prá ganhar de maneira honesta...)...

Então percebi que boas amigas haviam entrado no site furado dessa pessoa e haviam me defendido; haviam entrado na página do Face dela e levantado minha bandeirinha - gente, tem coisa mais linda? 

Ai, ai, como é que eu posso ficar chateada, se tem gente que gosta de mim?!!!

Obrigada...

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