Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Estão aqui



Ontem foi um dia corrido... 

Minha mãe - que ainda não acabou de fazer todos os exames para a cirurgia de retirada do útero caído - estava se sentindo mal, com dores prá urinar, então fui com ela no Pronto-Socorro do Hospital Nipo-Brasileiro. Como antes de passar no Pronto-Socorro ela já tinha uma consulta marcada com a cardiologista praquele dia, prá fazer avaliação prá cirurgia, ia fazer primeiro uma coisa, depois a outra. 

Confesso não ter realmente do que reclamar: se tivéssemos que recorrer à Saúde Pública, talvez ainda estivéssemos aguardando atendimento... 

Chegamos por volta da uma hora da tarde, ela passou pela cardiologista, pegou guias prá fazer Holter e MAPA, daí fomos pro Pronto Socorro, no prédio da outra rua, onde outro médico pediu exame de urina e tivemos que aguardar o resultado do mesmo prá ter um retorno com ele. Era infecção de urina mesmo, saímos de lá já com a receita do antibiótico e - graças a Deus! - é só tomar o remédio por 3 dias que logo ela fica boa. 

O ruim é que é o tipo de infecção que é recorrente no caso dela - justamente por causa do útero caído - então, mais dia, menos dia, ela pega infecção de novo, por mais higiênica que minha velhinha seja...

A dificuldade em si foi a seguinte: estou novamente precisando usar bengala. Meu quadril tem doído absurdamente, quase não consigo dormir. Tomei - sem contar prá ninguém a não ser o Marildo - uma caixa inteira de Cataflan, religiosamente 1 comprimido 3 vezes ao dia - prá ver se melhorava e... nada. Ficar velha é mesmo uma meléca, às vezes...

Embora meu marido tenha nos levado pro Nipo na hora do almoço, quando lá chegamos (e até que acontecessem as duas consultas, mais o exame de urina e a resolução do problema imediato acontecesse - com a prescrição do medicamento) foi uma sucessão de pequenos dissabores que, somados, me deixaram um tanto chateada, azeda mesmo.

Lugar lotado, mesmo sendo convênio - e as pessoas nem se tocando de que havia uma senhora idosa precisando de uma cadeira prá se sentar (sem contar a semi-idosa que a acompanhava, andando com dificuldade com o auxílio da bengala)... 

"A gentileza está morta e enterrada" - eu pensei... 

No consultório de cardiologia só tinha um lugarzinho prá sentar, bem longe do balcão de atendimento - então deixei minha mãezinha sentada e aguardei o atendimento de pé mesmo. 

Na verdade, fiz isso por duas vezes: a primeira antes de passar pela cardiologista, a segunda na hora de marcar o Holter. Até perguntei prá moça se eu precisava pegar senha de novo, pois minha mãe já tinha passado pela consulta, mas ela - sem nem olhar pro meu rosto e demonstrando estar de mal-humor infinito - me respondeu com as palavras quase explodindo prá fora da boca que "Tem que aguardar SIM!"... 

Cheio de homens sentados, mexendo nos celulares, mulheres jovens com crianças gritalhonas se esparramando nos sofás - e eu me escorando na parede e na bengala, quase a ponto de uivar prá lua de dor... 

Às vezes eu me pergunto se as pessoas não estão nem aí umas prás outras, se só enxergam o próprio umbigo ou sei lá...

Bom, saindo dali fomos pro hospital em si, onde fica o ambulatório. Lotado também, mas minha mãe tinha direito a senha de atendimento preferencial. O médico até foi bonzinho, pediu exame de urina e a gente foi. A moça do laboratório demorou à beça prá atender - se desculpou dizendo que estava numa reunião de trabalho. Foi muito gentil, atendeu minha mãe com toda a delicadeza - tirou sangue do bracinho velho dela na primeira tentativa (geralmente demora bastante, furam o braço dela todinho, é um sofrimento!) e, depois de coletada a urina, nos disse prá aguardar uma hora e meia prá sair o resultado. 

Levei minha mãe comer alguma coisa - pois ela disse que tava fraquinha por ter tirado sangue, sentindo tontura... - e voltamos pro hospital, esperar numa sala grande, conversando prá passar o tempo. Sempre temos assunto, ela reconta as mesmas histórias que eu nunca me canso de ouvir, dos tempos de antigamente, quando no final da minha rua tinha um brejo, uma lagoa onde se pescavam peixes enormes de 12 quilos - e vai me contando das pessoas que ela conheceu na sua infância (pessoas que acabaram dando os nomes das ruas do bairro onde a gente mora...).

Mesmo de ouvidos atentos, meus olhos se perdem em observar as pessoas, seus comportamentos... Sentados à nossa volta dezenas de pessoas aguardavam o horário da visita aos pacientes internados na UTI e nas enfermarias... Pessoas conversando alto, rindo... Uma senhora magérrima, mais ou menos da idade da minha mãe, insistia em conversar com as netas de pé - e volta e meia as tratava tão mal! Uma hora deu um tapa no rosto de uma delas!

"Algumas pessoas não tem noção nenhuma de civilidade" - eu pensei... Esse é um dos meus mais graves defeitos: trabalhar como juíza do mundo, sem receber salário nenhum e nem ter capacidade ou preparo para o cargo.

Momentos depois, recém chegada ao hospital, aparece uma senhora com obesidade mórbida - devia pesar quase uns duzentos quilos. Andava com dificuldade, um rosto triste, evitando olhar as outras pessoas nos olhos... Alegremente eu daria meu lugar prá ela se sentar - mas ela não cabia nem em duas cadeiras juntas, e todas elas tinham braços dos dois lados, impedindo que ela se sentasse assim...

Reparei como as pessoas olhavam prá ela, algumas riam, faziam comentários jocosos em voz baixa com a pessoa do lado - e ela percebeu tudo, pois até minha mãezinha que mal enxerga percebeu e disse assim prá mim:

-"Como existe gente ruim nesse mundo, Deus do céu! Evita olhar, filha, prá não constranger ainda mais a moça...".

"O inferno está vazio e os demônios estão aqui" - eu me vi pensando. Shakespeare estava certo, afinal de contas... É só a gente ligar a televisão, assistir o noticiário e vai dar razão prá ele. É só a gente andar pelo mundo prestando atenção e vai ver que os demônios estão mesmo andando entre nós... Volta e meia vejo gente sendo tão racista, arrumando tempo em suas vidas prá entrar no Face de alguma apresentadora de pele negra somente prá ofender, prá chamar de "macaca"! Implicando com quem tem religião diferente - como se uma religião fosse passaporte certo pro céu! - atacando a opção sexual dos outros!

Às vezes eu acho que é assim: tem os seres humanos e tem os "outros", criaturas que tem a forma humana, mas que não são seres humanos na verdadeira acepção da palavra. Essas criaturas rastejam, de alguma forma, das profundezas da Terra e, aqui chegando, se misturam com a gente, fingindo ter coração no peito - mas não passam de monstros a andarem entre nós...

Agora lá estou eu, trabalhando como antropóloga, julgando conhecer os diversos tipos de "homo sapiens" e suas origens...

O resultado do exame tava demorando mais que o prometido e então, de repente, me aparece um funcionário - vindo direto na nossa direção, querendo que a gente o acompanhasse.

-"Alguma coisa errada?" - eu perguntei e ele disse que era procedimento de rotina. 

Chegamos no laboratório que minha mãe havia feito o exame de sangue e lá a mocinha gentil nos esperava nervosa, torcendo as mãos, desesperada... Pediu mil desculpas, mas havia tirado sangue à toa, o médico não havia pedido...

"Assim é que acontecem os erros médicos..." - eu pensei... 

Então, findo o atendimento, fomos comprar na farmácia do lado do hospital o antibiótico. Já eram quase cinco horas da tarde e pretendíamos ir prá casa o mais rápido possível de táxi. 

Quando estamos chegando no ponto eu vi que a motorista que ia nos atender era uma velhinha que tem lá, muito gentil, mas que dirige mole toda vida. Pára em todo farol amarelo, deixa todo mundo entrar na frente dela, dirige a 20 quilômetros por hora. Muito seguro e agradável andar com ela - mas também muito caro. O reloginho vai rodando, rodando - quando você vai ver deu 3 ou 4 vezes mais caro do que com os outros motoristas...

Minha mãe, quando falei prá ela que a gente ia ter que voltar com aquela motorista, não quis de jeito nenhum. Disse que era melhor a gente pegar o ônibus que passa vazio na porta do hospital, descer no ponto final - que é no Metrô Tatuapé - e de lá pegar metrô até a Penha. Só aí a gente pegava taxi prá ir prá casa - ia ser muito mais rápido e mais barato (a gente volta e meia faz assim, quando não tem nenhum táxi no ponto...).

Fizemos isso mas, quando chegamos no metrô Tatuapé, minha mãe quis pegar o ônibus Jardim Romano. Eu não quis, pois sei que esse ônibus demora mais de quarenta minutos, uma hora prá chegar - e a fila tava pequena, indicando que tinha acabado de sair um...

Mas quem disse que consegui convencer minha mãe? Ela ficou dizendo que queria ir desse jeito, que já tinha pegado esse ônibus com meu irmão Tato, que o metrô aquela hora ia estar lotado, que era melhor ficar ali porque a fila tava pequena e a gente ia sentada e ...

Lá ficamos esperando EM PÉ, eu de bengala, morrendo de dor...

E lá se vão meus olhos, passearem pelo ambiente - às vezes eu os odeio, de tanta tristeza que às vezes me causam...

Do outro lado da rua, especificamente na rua Catiguá, reparo num cachorrinho andando em meio à lixarada - um viralatinha pulguento, com o pelinho meio ferrugem, meio farrusquento e sujo. Sempre me corta o coração os cachorrinhos abandonados - olhando prá gente esperançosos, abanando o rabinho, como que perguntando "Será que você quer ser meu dono?"... Já decidi que, no dia que eu morrer - e se eu, por acaso, merecer o céu... - vou pedir prá Deus um planeta só meu, onde vou pedir prá ele me mandar todos os cachorros abandonados do mundo, que já existiram, existem e vão existir - e também todos os que tem donos, mas são maltratados. Lá os arbustos vão ter abundância de mortadelas e presuntos, salaminhos e salsichas - e eles vão poder comer à vontade, sem precisar brigar uns com os outros por comida e sem passar mal...

Daí, enquanto eu olhava pro cachorro, reparei que no meio da lixarada viviam pessoas - eu, às vezes, me esqueço de reparar nas pessoas (só porque eu acho que, por terem livre arbítrio, não preciso tanto me preocupar com elas...). 

E quando eu reparei foi que meu coração realmente doeu dentro do peito! Eram os donos do cachorrinho: um casal de velhos bem velhinhos, seguramente com mais de setenta anos, a morar abandonados na rua....

E já moram lá faz tempo - até achei uma fotografia do tal velho no Google Maps, bem AQUI.



No tempo em que essa foto foi tirada o velho estava ali sozinho, dormindo virado pro muro - hoje tem mais moradores de rua ao redor dele, além da velha e do cachorrinho...

A velha e ele conversavam, discutiam - dava prá ver que o velhinho tava bem alcoolizado, sem camisa... Nas costas dele, bem na altura da lombar, um enorme caroço, do tamanho de uma bola de tênis - talvez um tumor...

O cachorro assistia a discussão entre curioso e amedrontado, pronto prá sair correndo...

A velhinha - toda encurvadinha e magra... - encerrou a discussão vitoriosa, pegou um carrinho de feira e foi prá algum lugar que eu não sei: perdi-a de vista face algum comentário de minha mãe, que conversava com uma moça do nosso lado na fila...

Quando voltei a olhar lá estava o velho, olhando desolado o movimento dos carros, o cachorrinho descansando no sol da calçada - a imagem do próprio abandono. "Deus não existe" - o velhinho devia estar pensando e, de repente...

Aparece um outro velhinho, vestido de forma modesta, trazendo na mão uma enorme sacola plástica... 

Se aproximou dos moradores de rua - primeiro do velhinho, que já deve ser seu conhecido. Conversou gentil com ele, deu-lhe um tapinha amistoso no ombro, sorriu (pois o velhinho, sem camisa e embriagado, se apressou desajeitado em levantar quando o viu chegando...) e, depois de alguns instantes, retirou de dentro da sacola um marmitex de isopor... E mais um...  E mais outro... Um para cada morador de rua, sempre acompanhados de um sorriso, uma conversa...

Até para o cachorrinho ele trouxe um pouco de comida...

E eu pensando: "E a velhinha? A velhinha?!! Ela não está, vai ficar sem comida, tadinha!!!"

Não vou dizer que o velhinho bonzinho leu meu pensamento, pois ele já tinha vindo preparado, a marmitinha da velha já tava reservada... Deixou mais um marmitex pro velhinho e foi embora, vestido modestamente, silencioso - e só eu prestei atenção nele, o resto do movimento do Terminal de ônibus continuou fervilhando de gente apressada, alheia ao mais lindo espetáculo da Terra, gratuito, anônimo e bem ali, na cara de todos...

Às vezes as coisas acontecem por acaso, não tem nenhum porquê, nenhum sentido. Apenas acontecem.

Mas às vezes - mais frequente do que a gente se dá conta... - Deus dá um empurrãozinho, faz um "Psiu!", coloca uma pedrinha no nosso caminho...

Esperei 40 minutos por um ônibus que ia chegar lotado na Penha - e acabei não indo nele.

Cansada, mentalmente grasnando de dor igual a um cachorro (talvez por isso eu seja tão apaixonada por eles...), eu finalmente me decidi por ir de táxi - peguei o bracinho da minha mãe e falei assim:

-"Vambora, velhinha... Vamos de táxi que esse ônibus não chega nunca e eu não aguento mais esperar!".

E ela concordou, felizmente. 

No caminho de volta, bem acomodadas e confortáveis, vim espiritualmente leve, aliviada - presenciar milagres faz isso com a alma da gente.

-"Sinto muito, querido Shakespeare, mas você só estava parcialmente certo... Existem demônios realmente andando entre nós, pode mesmo ser que o inferno esteja vazio.

Mas as portas do céu também estão escancaradas - e os anjos aqui estão também, à nossa volta, e felizes daqueles que os enxergam...".



Um ótimo feriadão de Carnaval à todos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Alçando voo


O primeiro dia de aula da minha Lola foi assim: eu avisei minha chefe no trabalho que eu ia acompanhar minha filhinha que estava entrando na escola (ela odiou, me fez repor o horário atrasado...). Fomos eu e o "Marildo" levar a bambina na escola - um colégio muito bom em Guarulhos, chamado Juvenal de Campos... - e uma das professoras a pegou pela mão e levou até o pátio, junto das outras crianças. Eu fiquei de longe espiando minha magrelinha, tão minúscula no meio do mundaréu de crianças - ela, de longe, me procurando nervosa com seus olhinhos de índia, toda tímida... Num palco uma das professoras falava coisas engraçadas prá quebrar o gelo, tocaram músicas e meu marido foi me levando pela mão, embora dali, prá longe do meu bebê...

Cheguei no trabalho atrasada, a fila de gente prá eu atender estava enorme... Minha amiga Carolina, Assistente Social, cobria a minha falta o melhor que podia, mas a fila crescia e crescia... Assumi meu posto, atendi um segurado após o outro - e fiquei só...

Avisei minha chefe que precisava ir no banheiro e saí, apressada como se fosse ter um piriri daqueles...

Minha amiga Neusa - também Assistente Social... - veio atrás de mim, com aquela intuição de amiga, sabendo que eu não estava bem...

-"Ah, Neusinha!!!" - eu disse, desabando nos braços dela, chorando feito criança... - "O que vai ser dela, da minha Lolinha? Hoje ela tá entrando pro mundo e eu não vou estar do lado dela prá proteger... E se alguma criança for má com ela, se alguém a tratar mal, o que que eu faço???"

E a Neusa, como boa católica que é, me lembrou que o Pai dela, que está nos céus, tava tomando conta...

Até hoje ela lembra disso e zomba de mim, da minha choradeira, rindo de mim sem dó nem piedade, essa malvada... Outro dia, a gente conversando por telefone, ela tava toda insegura da vida, pois seu único filho está se formando em Engenharia de Computação mas vai ser mesmo é piloto de avião. Com a herança que recebeu pela morte do pai o rapaz pagou um curso atrás do outro e já sobrevoa a cidade de avião toda semana - e ela apavorada, olhando pro céu, cheia de medo. Daí foi a minha vez de dizer prá ela confiar no Pai do Céu...

Mas - verdade seja dita - existem todos os tipos de mãe. Eu e ela somos do tipo preocupada ao extremo, que participa de tudo o que pode, que tá sempre presente (até quando eles nem precisam tanto...). Sofri quando voltei das licenças maternidades de cada um deles. Cada um que entrou na escola. Cada dentinho que ajudei a arrancar com o fio de linha amarrado na maçaneta da porta...

Assisti com eles todos os desenhos que eles assistiram. Li os mesmos livros (a maioria eu mesma que li prá eles...), ouvi as mesmas músicas, assisti os mesmos filmes... Conheci todos os amigos, as professoras...

Eu sempre soube quando eles gostavam de alguém, quando alguém gostava deles - antes deles mesmos saberem disso (coração de mãe tem bola de cristal embutido, sabe como é...).

Quando a Lola decidiu que ia estudar Artes Visuais (ao invés de Publicidade), contra a vontade do pai, eu não apenas a apoiei: comprei guache, aquarela, nanquim, carvão e ensinei a usar os materiais, prá ela ir bem na prova prática - e ela arrasou!

Sempre ajudei meu Ike a estudar prás provas - especialmente História e Geografia, matérias mais decorativas que, com sua mentalidade mais prás matérias exatas, ele tinha mais dificuldade de fixar. Passou em Mecatrônica na USP de primeira, sem cursinho - e se formou segundo da turma...

Quando ele tirou carta de motorista foi assim: carta na mão e nenhuma prática - meu marido nunca achou tempo de ensinar os filhos a aprenderem a dirigir, então eles entravam na Auto-escola e aprendiam mal-e-porcamente o básico. Saiu de carta na mão e medo de pegar estrada...

Na primeira semana eu fui com ele prá faculdade todo dia. Nuns dias eu deixava tudo encaminhado em casa e ficava com ele o dia todo no carro, esperando a aula acabar prá voltar com ele prá casa, ouvindo música e fazendo tricô... Outros dias eu deixava ele lá, pegava ônibus e metrô prá voltar prá casa, fazia o almoço e voltava prá USP, prá ser co-piloto dele de novo no final do dia... 

Nestas últimas semanas, depois que a gente voltou da viagem pro Nordeste, minha Naninha precisou adquirir prática no volante, pois só sabia andar pelas ruas tranquilas aqui do bairro. Foi um mês muito difícil prá mim, repleto de pesadelos com a minha menina indo da Penha prá Santo André sozinha, sendo que nem até o centro do nosso bairro ela sabia ir...

Meu marido e meu filho se incumbiram de andar com ela de carro prá pegar prática no final do expediente de trabalho e nos finais de semana - "Ótimo - eu pensei - eles sabem dirigir, precisam fazer isso dar certo o quanto antes...".

E lá estava eu varrendo a garagem - e eles passavam de carro na nossa rua, devagarinho, a Nana com a cara de estressada, dando volta após volta no quarteirão. Quando eu dizia pro "Marildo" porque ele não andava com ela pro centro da Penha, porque não ia dar umas voltas na Amador Bueno ou na Av. São Miguel ele - ultra nervoso e irritado! - me respondia que a menina tava crua de tudo, não tinha condição de dirigir prá canto nenhum, que deixava o carro morrer o tempo todo, que não sabia mudar de marcha, estacionar, não sabia nada! Que ia ter que continuar indo prá faculdade de ônibus-metrô-trem-ônibus. Perder quase cinco horas por dia no transporte público, como tem feito há 4 anos...

Só que neste quinto ano da Faculdade de Medicina as coisas ficaram muito mais difíceis prá ela... Agora começa o internado, com plantões absurdos das sete da noite às sete da manhã, das 3 da tarde até as 3 da madrugada - do jeito que for sorteado. Madrugadas em hospitais públicos, com plantões nas Unidades Básicas de Saúde logo em seguida - chegando até a ter plantões de 36 horas consecutivas!!! Como ela conseguiria fazer isso sem dirigir carro? Não tem transporte público às 3 da madrugada! Não tem como chegar na UBS a tempo do plantão depois de sair do Hospital sem ter carro!!!

Tem horas que só a chorona mãe super-protetora, aquela que não sabe dirigir nem carrinho de sorvete, sabe a atitude certa a ser tomada...

Avisei meu marido que ela precisava treinar durante o dia e que o serviço de casa ia ficar prá depois, que minha prioridade era ajudar a menina a treinar sendo co-piloto - a casa ficou de pernas pro ar...

Ele achou bom, quem sabe com o aumento de "voltas pelo quarteirão" a menina pegava prática...

Já no primeiro dia eu falei assim prá ela: "Você já não tá cansada de dar voltas pelo quarteirão? Porque eu acho que você já deve tá craque, se houvesse um campeonato de voltas pelo quarteirão você ganhava, filha... Que tal se a gente experimentasse algo novo..."

E ela, insegura, achava melhor não - mas acabou topando (porque eu sou insistente...).

Levei ela prá andar pela Carvalho Pinto, com seu trânsito sempre intenso, e disse assim prá ela:

-"Tá vendo esse monte de carros em volta de nós? Toda essa gente quer chegar em segurança no seu local de destino, nenhum deles quer bater no carro de ninguém, nem mesmo arranhar o próprio carro, prá não ter dor de cabeça, ter prejuízo, estragar o dia... Todo mundo quer fazer o seu melhor (exceto quem é maluco ou tá bêbado ou drogado, mas com esses a gente não pode fazer nada, seja o que Deus quiser...).

Tá vendo a pista mais da esquerda? É prá quem tem pressa. Deixa essa pista pros outros, pois você ainda não tem prática nem segurança prá ter pressa. 

Já viu aquelas velhinhas de oitenta anos que ainda dirigem? Andando devagarinho, segurando o volante com força com as mãozinhas todas enrugadinhas - e o povo passando por elas buzinando, reclamando... Agora, no comecinho, você é uma velhinha de oitenta anos no volante, filha... Vai dirigir abaixo da velocidade permitida, prestando atenção em tudo à tua volta, dando espaço pros outros te ultrapassarem, não ligando prás buzinadas dos que reclamam, seguindo em paz o teu caminho.

Aliás, teu pai reclama demais sem motivo. Tenho certeza que todo mundo, quando começou a dirigir, deixava o carro morrer e só foi pegando o jeito mesmo com a prática. Quem critica se esqueceu como foi no seu próprio comecinho - então não liga. Faz o teu melhor que tudo vai dar certo!"

A mesma conversa que tive com meu garoto, anos antes, quando foi a vez dele...

Naquele dia fiz ela dirigir até o Shopping Penha, entrar, estacionar, sair, ir até o metrô, voltar prá casa, pegar todas as ladeiras do nosso bairro - até fiz a tadinha andar um trecho na contra-mão, que eu não sabia que tinha mudado (mas deu tudo certo, graças a Deus...).

Dois dias depois fiz ela me levar, pela Radial Leste, até o bairro da Liberdade - lá ela estacionou, a gente passeou a pé por meia hora, voltamos prá casa novamente pela Radial Leste lotada de carros...

Segunda-feira passada foi seu retorno às aulas - e eu fui com ela. Passei o dia no carro, sentada lendo (que não estou podendo fazer tricô nem crochê, minhas mãos andam muito ruins da artrite...). Na terça e na quarta meu marido fez a Lola ir com ela por insistência minha - pois eu tinha medo dela não saber lidar direito com o novo GPS e a Lola está em casa estudando prá prestar concurso, pode estudar sentadinha na Faculdade e acompanhar a irmã - família é prá essas coisas.

Ontem ela foi e voltou sozinha - até pôs gasolina no posto sozinha. Tá se virando muito bem, diga-se de passagem. Tira e coloca o carro da garagem em um único movimento (garagem estreita prá dois carros...) coisa que o pai dela, que a critica tanto, não consegue fazer com todos os seus anos de prática.

A Lola me contou que, quando a Naninha soube que ia ter que andar de carro comigo prá pegar prática, ficou com medo de críticas - pois já estava cheia das que recebia do pai e do irmão... A Lola disse que falou prá ela: "se você acha que a mamãe vai te fazer andar pelo quarteirão pode tirar o cavalinho da chuva... A mamãe vai te fazer rodar por aí de verdade...

Sempre tem um filho que nos conhece mais... 

Mesmo assim eu mal tenho dormido de preocupação. Quando estou sozinha, dou aquelas choradinhas básicas prá esvaziar os olhos e o coração de tanta coisa que fica rodando e rodando dentro de mim...

É meio surreal ver minha menininha no volante do carro...

Mais uma vez sinto o coração apertado - "minha filha está ganhando o mundo, o que vai ser dela, meu Senhor...".

Mas me lembro que é nas dificuldades que a gente demonstra a fé - e vamos seguindo nosso caminho, um dia depois do outro, ela se esforçando e eu rezando o tempo todo...

Mais surreal ainda ver como, em poucos dias, com o empurrão da velha, ela adquiriu desenvoltura e segurança. 



Se eu fosse uma mamãe-pássaro, eu seria do tipo que protege até onde dá prá proteger, mas na hora de aprender a voar, ajudo os filhinhos a pularem prá fora do ninho (já que não tem jeito mesmo e eu não vou viver prá sempre prá carregá-los comigo...).

Ainda não estou obsoleta. Ainda precisam de mim, ainda sou útil. 

Sou tão feliz...


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Top ou sutiã passo a passo


Quando a gente viajou pro Nordeste o ano passado eu fiz uma porção deles, prá mim e prás meninas. São facílimos de fazer, tem molde grátis no site da Marlene Mukai (bem AQUI) e aí vem o pap fotografado, que é prá você aprender a fazer e já sair usando...

Veja como ficam os que eu fiz:



Primeiro: O molde

Lá no site da Marlene tem do tamanho P até o EGG. Junto do molde vem a informação de que já contém margem de costura. Prá Nana (que é manequim 42) eu fiz tamanho M, prá mim e prá Lola eu fiz o tamanho G (pois usamos sutiã 46/48). 

O molde vem assim:
 (clica nele que aumenta)

Usando um pedaço de papel craft (ou mesmo jornal) você constrói, com o auxílio de uma régua, o molde em tamanho natural, que fica assim:



Reparem que o meu papel tá todo rabiscado: até molde se recicla aqui em casa...

Agora o que realmente importa, o segundo passo:
como fazer essa belezura!

Escrevi nos moldes que é tamanho M e que não precisa acrescentar margem de costura - prá eu não esquecer das próximas vezes que for fazer...

Apoia o molde sobre o tecido dobrado ao meio e corta, não tem segredo. Mas uma dica minha: - espia um  detalhezinho na foto de baixo:

Apesar de não ter margem de costura, eu cortei 3 cm mais comprido na parte de baixo, que acho que fica melhor, protege mais o corpinho da menina que vai usar...

Outra coisa: o tecido que eu usei prá fazer este top foi uma sobra, um mísero retalhinho que sobrou de uma camisolinha que fiz prá minha mãe. Assim sendo, face a escassez de tecido, tive que cortar a parte das costas com uma emenda no meio, infelizmente - então por isso tem esse meio centímetro a mais que meu dedo tá apontando... Mas é bom prá vocês saberem que nada se perde e que, com boa vontade e imaginação dá-se um jeito em quase tudo na vida...

Alinhavei à mão o centro da parte das costas...

Posicionei juntinhas as 3 partes da frente...

e também alinhavei. Alinhavo tudo, que é prá não ficar torto, especialmente quando trabalho com malha...

Olha como já fica jeitosinha a frente, com aquele caimento arredondadinho do busto...

Alinhavei os ombros e as laterais do top também - faço com calma, sentada no sofá da sala assistindo desenho animado...
 
Passei tudo no overloque, rapidinho. Se você não tem, não fique triste: na maioria das máquinas de hoje você encontra pontos que são elásticos, que servem muito bem prá fazer essas costuras sem que nenhuma se rompa com o uso da peça. Caso não tenha uma máquina moderna, costure com ponto zig zag bem largo mas não muito estreito, que senão fica enfolado, parecendo um babado - fica muito feio. Teste a costura antes num retalhinho do mesmo tecido até acertar com a espessura do ponto. 

Fica assim do lado direito - muito bonitinho.

Agora a parte mais importante: o elástico. Eu prego com o ponto elástico da minha Janome 2008, da forma como eu tô mostrando a regulagem na foto acima. Pode pregar com zig zag largo também. 

No decote e nas aberturas dos braços eu usei elástico chato fininho, espessura de meio centímetro.

Dou uma pregada inicial costurando prá frente e retrocedendo - prá ficar bem preso - e vou pregando a uma distância de mais ou menos meio centímetro prá dentro da borda externa, da seguinte maneira: a cada 6 cm de elástico eu estico até virar 7 cm, aproximadamente. Dessa forma vai ficando franzido sem machucar a pele quando a gente veste. Eu calculo o quanto eu vou gastar de elástico medindo no corpo mesmo - ou medindo no próprio molde: pego uns 5 cm menor que a parte da frente, 5 cm menor na parte das costas, 5 cm menor que o contorno do braço. DICA MUITO IMPORTANTE : sempre que for esticar o elástico deixe a agulha abaixada, daí estique o elástico e costure. Se você esticar o elástico com a agulha levantada corre o risco de quebrar a agulha, pois o elástico dá uma mexida nela...

Vá fazendo devagarinho, contornando todas as aberturas dos braços e do pescoço, sempre com sobra de tecido prá fora.

Feito isso com o elástico fino agora é hora de passar o elástico de baixo, que tem 1,5 cm de largura. Prá esconder ele dentro do top é que eu cortei a base 3 cm maior, entendeu? Mas você pode cortar na medida e usar um daqueles elásticos decorativos que vende nos armarinhos, que são bonitos e meio aveludados. Eu até tenho um rolo deles aqui em casa, mas não sei onde foi parar, sou muito bagunceira, uma vergonha de velha...

Olha como ficou o avesso: ainda não tá tão lindo como deveria, mas prá tudo na vida tem que ter paciência...
  
Como eu não sou máquina, acontece dessas coisas: um tortinho aqui, outro lá... Prá isso que tem a sobrinha...

Passa a tesoura com cuidado e nivela tudo!

Daí eu regulo a máquina pro meu outro ponto elástico, que parece um zig zag gigante todo pontilhado. Mais uma vez eu repito: pode fazer com zig zag comum, o que vale é o teu capricho.

Viro os elásticos prá dentro e dou uma costurada em toda a volta, bem assim:

Ainda tem sobrinha de tecido na barra, tá vendo?

E depois de fazer a mesma coisa nos contornos do pescoço e das aberturas dos braços...

Olhaí de novo a sobra de paninho...

Com amor e carinho (e extremo cuidado) corte todas as sobrinhas finais, limpando bem a peça...

No avesso ela fica assim - não faz vergonha a ninguém... Clica na foto prá espiar de perto!

Concordam comigo?


e no direito fica essa boniteza....

Até o ponto fica bonitinho, vocês não acham?

A Nana só concordou em posar usando uma blusinha por baixo - olha como caiu bem no corpinho dela...

E nas costas ficou assim - reparem que tem um pontinho "biliscadinho" bem perto da costura central, mas foi a pressa de fazer logo o top, tem tanta coisa nesse mundo prá eu fazer, tão pouco tempo... Ai, ai... Mas ela vai usar por baixo das camisetas, ninguém vai ver...

Fiz estes prá Fernanda - um bege, um branco e um azul escuro. 


Como eu já havia ensinado vocês a fazerem calcinha (AQUI), achei que tava devendo o sutiã. Sorte que a Marlene Mukai tem molde prá quase tudo nesse mundo, todos grátis - acho essa mulher maravilhosa, que Deus a abençoe e multiplique todas as coisas boas na vida dela - volta e meia eu me socorro dos moldes e das dicas que ela dá, generosamente, no site. Se vocês tiverem a oportunidade de visitar, deixem um recadinho prá ela agradecendo, pois ela merece...

Vocês podem fazer prá usar como sutiã ou como top de ginástica e até como uma peça prá usar na praia, dependendo do tecido que usarem. A malha tem que ter uma boa elasticidade e até pode ser uma malha fina, mas aí tem que fazer forrada com jérsey (é só cortar o forro e a parte de fora juntos e costurar alinhavando tudo bem certinho antes de costurar). Mesmo se o preço da malha não for muito barato onde vocês moram ainda vai valer a pena fazer esse top, pois gastam bem pouco pano e custam em torno de 20 reais nas lojas (os mais baratos). Se moram em São Paulo/Capital não deixem de dar uma olhada nas lojas nas ruas José Paulino, Três Rios, da Graça e adjacências, pois todas trabalham com retalhos por quilo e tem malhas excelentes a preços muito bons... (Estação de metrô Tiradentes).

MAIS UMA DICA IMPORTANTE: faça um primeiro top no manequim que você acha que é o teu, sem acrescentar margem de costura (que a Marlene já embutiu no molde). Caso ele fique apertado depois de pronto, faça o modelo de tamanho maior (ou acrescente 1 cm de margem de costura por conta própria...). Aquele primeiro que você fez você dá de presente prá uma irmã, uma amiga... Outra coisa: se você vai usar como sutiã, pode até usar elástico bico de pato nos contornos do pescoço e na abertura dos braços, que fica super fofo.

Que tal levar alguns na academia de ginástica perto da tua casa? Às vezes, se você caprichar na costura e na escolha dos paninhos, pode dar sorte e arrumar prá quem vender - ganhar dinheirinho é sempre uma bênção, especialmente quando é fruto do trabalho da gente...

Faça prá filhinha, faça prá vender - mas faça. É uma alegria imensa ser capaz de concluir uma peça de roupa você mesma, gastando tão pouquinho. Com 25, 30 cm de malha você faz um top desses, gastando quase nada de linha e bem pouco elástico. O top fica super confortável e bonito no corpo - eu mesma tenho dois, a Lola tem quatro e a Nana já tem cinco (e vou fazer mais, pois o preço dos sutiãs está absurdo e eles não duram mais como antigamente...).

Quero dizer que foi um prazer poder ajudar com mais este pap, pois sei que sempre aparece alguém que vai achar útil.

Não tenho tido tempo prá mexer na internet, com minha mãe doentinha e eu mesma com a saúde mais prá lá que prá cá - e tendo que cuidar da casa e de todo mundo, que profissão de mãe nunca tem férias. Nas últimas duas semanas ajudei minha filha Nana a pegar prática dirigindo carro (pois ela tinha carta de motorista mas muito medo de dirigir...) , já que este ano ela começa a fazer plantões em hospitais e não pode mais depender do transporte público, morando tão longe da faculdade. Ela nem sequer cogitou mudar sozinha prá Santo André - coisa que a gente apoiaria se fosse sua decisão... - mas aqui em casa é assim: ninguém suporta ficar longe um do outro, somos uma família muito grudenta...

Mas mesmo que arrumasse tempo, meu computador esteve quebrado, meu filho sem tempo prá arrumar... Daí, de vez em quando, eu pedia prá uma das crianças entrar no blog pelo celular ou tablet e aconteceu uma coisa chata: em menos de um mês eu perdi mais de 50 seguidores. Sei lá o que anda acontecendo, acho que eu devo estar com algum tipo de lepra virtual, o povo anda fugindo de mim... Fiquei triste, afinal todo mundo que tem blog gosta de ver o número de seguidores crescer - e não diminuir (ainda mais um número tão grande!). A Lola disse que é porque eu não ando postando nada, então as pessoas abandonam... Eu acho que talvez elas estejam chateadas comigo porque eu não ando respondendo, visitando, sei lá... O fato é que não ando tendo tempo mesmo, ando trabalhando tanto, tomando analgésicos e anti-inflamatórios prá aguentar, mas acho que atingi o meu limite...

Seja como for, meu intuito ao fazer o blog foi de passar o pouco que eu sei, de ser útil - e acho que isto eu tenho conseguido, graças a Deus. Então eu decidi que, mesmo com uma fuga em massa dos seguidores, sempre que puder e tiver um tempinho vou continuar postando uma receitinha aqui, uma historinha de velha ali, somente prás pessoas que tiverem paciência com os meus defeitos e conseguirem peneirar o que de bom eu posso passar adiante. 

Até mais.


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