Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quarta-feira, 25 de maio de 2016

De tudo um pouco


Igual é a vida: alegria, tristeza, um bocado de derrotas, uma vitória aqui e ali empurrando a gente, não deixando a gente derrubar a peteca...

Outro dia minha Lolinha falou assim prá mim:

-"Mãe, você tem que parar de ficar contando histórias tristes no blog, fica parecendo que na tua vida só teve tristeza - cruz credo! Conta algo engraçado, prá variar..."

Eu não vejo assim - prá mim as coisas que eu conto, mesmo quando são tristes, tem aquele saborzinho doce que mistura superação com saudade...

Bom, mas... sei lá... 

Vasculhei o baú de memórias prá trazer uma totalmente feliz, na qual desafio alguém a chorar!

Eu cursava o primeiro ano do segundo grau na Escola Estadual Nossa Senhora da Penha - aqui no meu bairro carinhosamente conhecido como "O Estadual" - muito embora todas as outras escolas também sejam estaduais (o Barão de Ramalho, o Esther Frankel, o Guilherme de Almeida... - todos bem próximos, aliás...).

Eu era praticamente inseparável de três meninas - minhas melhores amigas do Universo inteiro:

Wilma - que era altona, tinha enormes olhos verdes, uma cabeleira castanha exuberante e era muito boa em vôlei. Era pobre como eu, de marré-marré...

Hercília - descendente de japoneses. Tinha um senso de humor único, tava sempre rindo, fazendo graça, de bem com a vida como eu nunca vi...

Marisa - pequenininha e muito bonitinha, a mascote. Era meio patricinha, o pai era diretor de uma escola perto da casa dela (que era enorme e linda!), a mãe era professora. Era super paparicada pelos pais e mais pensava em namorar do que em qualquer outra coisa. Era dois anos mais nova do que a gente pois, como os pais eram professores, colocaram a pobrezinha na escola dois anos antes...

Tudo a gente fazia juntas: estudar, assistir a educação física dos meninos, cabular aulas prá ir no cinema (matinê do cine São Geraldo, dois filmes pelo preço de um - e, quando calhava de um deles ser pornô, com peitos e bundas aparecendo, aí é que a gente se divertia: ríamos de tudo e a bagunça era tanta que era sempre por um triz que a gente não era expulsa do cinema...).

E a coisa era mais ou menos assim: eu era o gênio da turma, a das ideias, a das notas altas. Puxava as outras, ajudando a estudar e passando colas. Mas o fato é que, sem elas, eu não era nada: entrava muda e saía calada. Tímida de fazer dó, uma timidez patológica.

Bom, chegou o dia da gente fazer um trabalho de Inglês misto com Educação Artística: as duas professoras se uniram e decidiram que a nota daquele bimestre ia ser a gente escrever e interpretar uma peça EM INGLÊS.

-"Danou-se!" - a gente pensou! "Como é que a gente vai fazer isso, meu Deusinho do Céu!!!"

Eu pensei, pensei... E pensei. Tinha duas coisas que iam ser um entrave: primeiro de tudo tinha que ser algo que fosse fácil de ser decorado. Não podiam ter falas longas, palavras complicadas...

Segundo: a pronúncia. A gente não podia pedir ajuda prá ninguém - prá ensinar a gente a pronunciar palavras que a gente não conhecia. Isso parece coisa boba, mas não era: eu escrevi a peça em português e, com a ajuda do dicionário, fui traduzindo tudo - e algumas palavras eu nunca tinha ouvido ninguém pronunciar...

Levamos semanas lendo e relendo, decorando tudo. Era difícil, minhas amigas ora se apavoravam, ora não levavam a sério...

A peça que eu escrevi era um conto de fadas: havia uma bruxa muito má e feia (interpretada magistralmente por mim - diga-se de passagem...), havia um ogro corcunda, braço direito da bruxa (minha amiga Wilma, arrastando a perna e apenas dizendo "Dãããã" o tempo todo - não consegui fazer ela decorar nada...), um príncipe (minha amiga Hercília, que só tinha uma fala na peça toda...) e uma princesinha (a Marisa disse que preferia tirar nota zero do que fazer papel de feia, então ganhou prá ser princesa na marra... ela namorava um dos garotos da sala e queria que ele a visse vestida de princesa - pode???).

Nossa caracterização foi ótima: A Wilma vestiu um terno velho do pai dela, que lhe deixava à mostra as canelas finas, enquanto calçava nos pés um sapato masculino tamanho 40. Pintei a cara dela com pomada hipoglós, desenhei de canetinha por cima um montão de rugas e escondi seus cabelos numa touca preta, bem apertadinha - ela ficou ótima... Ainda lhe prendi uma almofada nas costas, por dentro do paletó, prá servir de corcunda... 

A Marisa, que não abria mão da beleza, vestiu seu vestido longo de formatura de ginásio, todo branco e rendado, se maquiou lindamente e usou na cabeça um chapéu longo e pontudo forrado de cetim branco (feito por mim), com um pedaço de véu esvoaçando da ponta, bem medieval... 

A Hercília vestiu uma meia-calça de lã, um par de sapatos brancos de bico fino da mãe dela, o calção vermelho franzido da educação física e uma capa, também vermelha, mais um chapéuzinho estilo Robin Hood - mas o melhor mesmo foi a peruca. Como eu falei antes, a Hercília era japonesinha: colocamos nela uma peruca loira curta, de cabelos encaracolados, que pertencia à mãe da Marisa - ficou incrível, bem principesca mesmo. 

Mas não tem como negar que o melhor disfarce foi meu: usei um vestido preto de luto que minha mãe tinha, que me ficava na metade das canelas (que precisava de cinto prá ajustar na cintura - fiquei sem cinto, com o vestido todo soltinho mesmo). Meu amigo Carlinhos tinha uma tia que era cabeleireira: ele arrumou emprestado uma peruca longa e negra, de cabelos naturais, que quase chegava no meu bumbum, de tão grande... Fiz prá mim, de papel machê, um longo nariz curvado prá baixo e um queixo longo e pontudo - pintei no tom mais próximo da minha pele e fiz furinhos de cada lado de cada peça, nos quais coloquei elástico fininho branco - lastex (de longe não dava prá se ver o elástico e escondia meu rostinho tímido completamente...). Fiz um chapéu de bruxa todo requenguela e pintei de preto, pequei emprestado (com o Carlinhos também...) um óculos escuro de gatinho cheio de strass e assim escondi até meus olhos. Calcei duas meias listradas de cores diferentes e, por fim, usei dois sapatos velhos do meu pai. Fiquei irreconhecível e, estando assim, mandei a timidez prá casa de chapéu!

Noventa e nove por cento das falas eram minhas: eu precisava de um coração de princesa, das bem bonitas, prá fazer um feitiço e reverter minha velhice e feiúra, então eu capturava a Marisa, amarrava numa árvore enquanto aquecia o caldeirão. Eu murmurava feitiços, jogava pragas ao vento, mexia o caldeirão, dava risadas longas e fantasmagóricas e pulava pelo palco igual uma macaca... A Marisa gritava "Help!" o tempo todo, fazendo caras e bocas e o príncipe, que só apareceu na hora H (quando eu ia fincar uma faca no peito da Donzela e finalmente arrancar o coração dela...), gritou "Stop!" e, depois de me perseguir pelo palco alguns segundos, me matou sem dó nem piedade com sua espada (também feita por mim... ).

A hora da minha morte foi um caso à parte: estrebuchei que foi uma beleza. Era só gente gritando: "Morre, desgraçada!", porque eu volta e meia dava uma tremelicada, soltava um grito e o príncipe vinha me golpear mais uma vez...

A peça foi um sucesso tão estrondoso, mas tão estrondoso, que as duas professoras nos deram a nota máxima e nos pediram prá apresentar pro colégio inteiro, prá todas as classes, de todos os períodos! 

Recebemos tantas palmas, tinha gente assobiando, gritando - foi tão bom...

Uns poucos dias depois as pessoas ainda falavam da peça, cumprimentavam a Marisa nos corredores quando a encontravam, davam parabéns prá ela...

Alguns garotos da nossa classe, que ficaram em segundo lugar, tentaram fazer as professoras revogarem nossa nota: disseram que a nossa peça era uma palhaçada, que só uma das alunas realmente tinha falas (enquanto as outras meramente balbuciavam uma coisa ou outra...) e que, no contexto geral, a peça deles era mais inteligente.

Pior que era. A peça deles era uma coisa de mistério, meio Sherlock Holmes, com um assassinato, vários suspeitos, falas longas bem pronunciadas, todo mundo trabalhando em uníssono - muito boa. Só que era chata. Quem não entendia de inglês ficava divagando, conversando besteira com a pessoa do lado, não prendia a atenção.

Não puderam competir com as minhas macaquices... A nota máxima foi nossa mesmo.

Mais ou menos uma semana depois eu estava subindo a rampa do colégio junto com minhas amigas e ouvi alguém dizendo assim:

-"Gente, olha a turma da princesa! A japonesinha que tava de peruca, a comprida só pode ser o ogro e... Gente, aquela ali é a bruxa!!!" "Bruxa, você foi genial!!"

Me descobriram - meléca. Graças a Deus meus 15 minutinhos de fama não ultrapassaram os portões do colégio e se foram rapidinho - cansei de ficar vermelha igual um pimentão...

Ah, que grande atriz perdeu o mundo por causa da minha timidez...

Só prá você lembrar, Lolinha da minha vida, que nem só de lágrimas foi o caminho da tua velhinha...

sábado, 21 de maio de 2016

Como fazer um maiô



"Tá louca, Dona Rosa? Nesse frio?!!!"


É. Neste frio. 

É que eu comecei a fazer hidroginástica e como vou fazer todo santo dia preciso de mais maiôs - só tenho 2 - e eles custam muito caro prá sair comprando a torto e a direito...

Por sorte tem molde grátis na Marlele Mukai - é só imprimir do teu tamanho, pegar um pedação de papel de embrulho, um lápis e uma régua e fazer o teu, no teu tamanho...

E olha que incrível: pode fazer forrado - que esses tecidos de maiô são muito fininhos, fica indecente usar sem forro (eu acho...).


O molde vem assim lá no site:

Eu fiz o meu molde, mas esqueci de fotografar (e nele eu fiz uma mudancinha, que eu acho que é prá fazer mesmo, mas não tá especificado no molde - já explico...) e ele (como tudo o que a Marlene faz...) é bem simples. 

Minha mudança é a seguinte: eu dividi a parte da frente em dois, na parte do busto, da seguinte forma:



Assim eu posso franzir sem medo de deformar no peito e posso fazer a barriga em peça única (muito mais fácil). 

Cortei uma vez o maiô no tecido de bolinhas e uma vez na helanca do forro e ficou assim:


Alinhavei à mão cada parte do maiô juntando tecido de fora e forro (fica mais fácil costurar depois na máquina).


Reparem que quando a gente alinhava (depois de dar umas alfinetadas na peça sobre uma mesa plana...) acabam aparecendo umas sobrinhas de tecido, ou no de bolinhas ou do outro... Malha é assim mesmo e não tem problema...

é só depois cortar as diferenças...

Costurei primeiro os ombros, depois o meio do bumbum...

Passei elástico em todo o decote, começando de um lado do busto e indo até o outro, passando pelas costas. Preguei o elástico com ponto zig zag dando uma leve esticada.

Daí virei prá dentro e fiz uma segunda costura, prá esconder o elástico no lado do avesso.

Então franzi os dois lados do busto até que ambos coubesse  na parte da frente que cobre a barriga - alinhavei e costurei.

Por fim costurei as laterais do maiô e preguei o elástico da mesma maneira nas aberturas dos braços.


Não fiz a faixa (embora ela ensine a fazer no molde...) - mas a touca combinando - cujo molde está aí embaixo:

Achei num site americano e traduzi.

Uma pena: ninguém quis tirar foto usando o maiô (nenhuma das minhas ingratas filhas...) e eu é que não ia tirar, toda mocoronga, prá depois alguém usar minhas fotos prá fazer meme de velha... 

Mas acreditem quando digo: ficou muito bom, coube direitinho em mim - com uma ressalva: achei decotado demais. O início do decote fica bem prá baixo, mostrando inclusive a cicatriz da minha cirurgia de vesícula. Mas nem é por isso que eu reclamo: não gosto de decote profundo mesmo. Se eu fosse jovem ficaria perfeito, mas depois de dobrar o Cabo das Tormentas, com todos os estragos feitos pelo tempo, pelo abuso de comidas tranqueiras (malditas lasanhas e empadinhas de palmito deliciosas!!!) e face a todas as pragas que me rogaram e pegaram é melhor um decote mais prá cima, escondendo as torres gêmeas completamente. Mas vocês que ainda estão competindo no concurso de Miss Brasil podem fazer sem medo que fica ótimo.

No meu eu vou colocar um pedaço do tecido de bolinhas por dentro do busto, fechando o decote, criando um detalhe...


Bom, também fiz uma roupa prá minha cachorra Bulma (toda usando retalhos...), que mora fora de casa - a única cachorra falante do mundo (ela fala mesmo, não late. Até arrepia a gente...). 

Sabe o que ela deu prá fazer agora? A gente enche o prato dela de ração, ela empurra o prato com o focinho até derrubar tudinho no chão. Você vai lá, cata tudo e põe de volta no prato: ela olha prá tua cara, empurra o prato com o focinho até virar tudo de novo. Ela bem diz que odeia ração, que quer comida de panela agora no frio - a gente finge que não entende, ela toma medidas drásticas. Tá certa ela, eu mesma não ia gostar de comer aqueles trocinhos ressecados dia após dia...

Lixei e pintei por fora as janelas que eu já tinha consertado e pintado por dentro:



E lixei um banco e uma cadeira velhinhos, que uso prá fazer tricô na máquina:


Pretendo pintar de branco e desenhar florzinhas de giz de cera igual na cesta de piquenique da postagem passada. 

Só que minhas mãos andam doendo muito e eu caí na besteira de me queixar de dor na frente do meu filho: ele disse que se eu tornar a mexer nas cadeiras ele vai colocar elas na rua pro lixeiro levar...

Então, como não consigo ficar parada (velhas hiperativas sabem do que eu tô falando...) consertei um chaveiro da Nana, no qual ela põe a chave do carro - um coelhinho de madeira comprado numa feirinha da Liberdade, que caiu uma das orelhas:


Usei um pedacinho de plástico, papel higiênico e cola branca - não ficou ótimo? Já pintei e ficou igualzinho, mas não sei onde coloquei o fio prá passar a foto pro computador (ainda bem que as outras fotos eu já tinha passado...).

Voltando a falar da hidroginástica: fui fazer aula teste em duas academias. Uma mais perto de casa (cuja professora é excelente, mas os horários são horríveis, a piscina está em péssimo estado de conservação, só pode usar maiô preto e é bem mais cara...) e a outra que é super chique, tem uma piscina maravilhosa, é mais barata e pode usar qualquer maiô. Só que nessa a professora deixa muito a desejar, deixa o bando de velhas fazendo exercícios meia-boca e o tempo todo olha prá gente com cara de desprezo...

Gostei mais desta última por um motivo: as velhinhas. Todas umas lindezas, me receberam com carinho, ficaram me rodeando prá eu não cair dentro da água, preocupadas comigo... Amei. Essa academia é justamente uma que eu disse (antes de visitar...) que não queria frequentar, pois nas fotos no site tinha festa junina dentro da piscina com todos os idosos e idosas - eu disse que não queria fazer parte dessa besteira... 

Vejam como é a vida: não dá mesmo prá gente dizer "dessa água não beberei", não é mesmo? Adorei as velhinhas...

Minha Lola me comprou mochilinha, o patrão me comprou um robe (prá eu não tomar friagem quando sair da piscina...) e eu vou fazer a minha parte: tentar melhorar da saúde, prá não ter dor e viver mais.

No dia anterior da primeira aula eu falei prá Naninha, quando ela chegou:

-"Mãe, amanhã é minha primeira aula, tô com medo. E se as outras crianças não gostarem de mim?"

Faço sempre isso com meus filhos: dou a eles a chance de imaginarem como vai ser cuidar de mim no futuro, quando eu ficar velhinha e esclerosada e voltar a ser criança...

A Naninha me abraçou e disse:

-"Todo mundo vai te adorar, meu amor. E se não adorarem eu vou lá e parto a cara deles..."

Bom, né? Ter quem ama a gente...

terça-feira, 10 de maio de 2016

Passando o tempo...



Já repararam que, quando a gente se ocupa, o tempo passa rapidinho? Pois é: eu detesto quando o tempo se arrasta - gosto dele andando rápido mesmo (a maior parte do tempo, pelo menos, é assim... Exceto quando eu lembro dos meus filhinhos bem pequenininhos: como era gostoso carregá-los nos braços, eles dormindo molinhos, respirando suave... quando eles ficavam de olhinhos arregalados, ouvidos bem abertos, encantados ouvindo minhas histórias e - prá eles - eu era a mulher mais linda e mais inteligente do mundo inteirinho, porque eu sempre conseguia consertar um brinquedo, fazer um bolinho de chuva, soprar machucado... Ai, ai... Felicidade não explode o coração, senão eu não teria mais o meu...). 

Eu não apareço muito - nem tenho tempo de visitar ninguém, infelizmente. Minha casa está passando por pequenas reformas - uma delas é pra trazer meu quarto prá baixo, prá eu não ter que subir e descer tanta escada... Trocaram o piso da garagem, da calçada...

Contratamos dois pintores prá consertar as paredes de dois quartos - que estavam com infiltração de água, com mofo aparecendo mesmo eu lavando as paredes com cloro... A pintura e a massa da parede parecendo biscoito, esfarelando - um horror. 

Mas vejam só como esse povo é: Você ajunta os móveis todos empilhados no centro do quarto, cobre com um plástico preto gigante - protegendo prá não entrar pó... - e quando os disgranhentos vão embora e você retira o plástico descobre que eles, propositalmente, empurraram placas enormes de massa por debaixo do plástico, só pelo prazer de te dar trabalho... e isso porque você foi super-decente: comeram conosco na mesa, compramos marmitex prá eles poderem continuar comendo carne (que não temos em casa, pois aqui só entra peixe - de vez em quando e pro Marildo...). Cafezinho, suquinho - e uma sujeirada sem fim e sem nenhum respeito.

Quando foram embora eu reparei numa parede que me pareceu meio estranha, fui mexer e...


Tava tudo oco, tudo fofo, relei o dedo e foi despencando pedaços de parede... Daí eu tive que lixar, passar massa corrida e pintar eu mesma...

E como tava com a mão na massa e eles iam voltar prá arrumar as janelas da copa, que também estavam com infiltração:





Eu mesma descasquei, peguei cimento e areia , preparei a massa, cimentei, esperei secar, apliquei massa acrílica 3 vezes e lixei entre as aplicadas. Depois pintei e ficou lindo, maravilhoso... 

Então resolvi aproveitar que tava com a mão na massa e fui dar uma arrumada nas abandonadas caixas de luz e de telefone - que, se eu não faço, ninguém faz (fica todo mundo dizendo que vai contratar pintor e a coisa rola, e rola, e rola...):





Numa manhã eu lixei (tinha lugar fino igual casca de ovo!), consertei os buracos com durepox e pintei - não ficou perfeito, mas ficou bom demais...

O Marildo queria que eu pintasse as grades do portão - mas eu reconheço minhas limitações. Grades altas, todas trabalhadas... Sem contar ter que subir na escada alta, as perninhas velhas tremendo... Não. Esse serviço eu vou ter que relegar prá outra pessoa, infelizmente. Gostaria de poder fazer - como fazia antigamente, mas é mais sábio saber admitir quando não dá mais...

Bom, de manhã é que eu faço as coisas mais pesadas - essas coisas que são consideradas de pedreiro, pintor, etc... Nisso eu puxei minha mãezinha: sei trocar torneira, rebocar parede, consertar fio desencapado - nada me assusta, encaro tudo. Mas daquele jeito: devagarinho, cheia de cuidado, subindo na escadinha em câmera lenta, fazendo tudo sem pressa e direitinho.

Daí, à tardinha, prá descansar a carcaça velha, eu faço umas amenidades...






Bolsinha prá Nana carregar comprimido - que eu "recheei" com 3 cartões de crédito fora de validade, prá bolsinha ficar durinha...

Também fiz, com o mesmo tecido, bolsinha prá celular e lixeirinha pro carro dela e até reformei uma boneca que ela tem, "A Favorita" da infância, de presente de aniversário prá ela - depois eu mostro, não sei onde coloquei o fio da câmera prá passar as fotos pro computador (todas as fotos da postagem de hoje foram tiradas no celular...).

Por fim: reformei uma cesta de piquenique que eu uso prá guardar trabalhos de tricô em andamento - as dobradiças enferrujaram, a pintura era marrom (esqueci de fotografar), imitando cesta de palha - tava em petição de miséria, pronta prá ir pro lixo... Pintei de branco e desenhei flores nela toda com giz de cera e depois pretendo envernizar - olha que linda que ficou:


Aproveitei e fiz o mesmo trabalho numa outra cestinha, que aqui em casa era usada prá carregar chaves de fenda e alicates - tava toda coberta de ferrugem e sujeiras, um horror, mas eu a deixei maravilhosa:



E estou pintando um quadro:


Feito com o papelão medindo 1,50 x 0,80 m, no qual veio embalada a nova televisão... Cobri com duas camadas de papel machê, pedi prá Fernanda (melhor amiga do coração da Lola) me fazer um desenho inspirado na Tarsila do Amaral - ela me mandou por email, já colorido, e eu copiei na minha "tela".

Ufa! Ficaram cansadas? Eu também. Mas prá isso que Deus inventou analgésicos e café: de um lado a gente espanta a dor, do outro lado, espanta o sono - e segue vivendo e trabalhando, que depois de morto a gente tem tempo de sobra prá descansar.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Catalogando lágrimas


Já pararam prá pensar em como nós, seres humanos, temos medo da tristeza? Pois temos. Todos nós, por mais jovens ou velhos que sejamos, por mais fé que a gente tenha no coração, sendo ricos ou pobres, feios ou belos - todos nós nos pelamos de medo da tristeza, fugimos dela.

E é assim mesmo: fomos criados prá sermos felizes. Deus, que é um pai amoroso e bom, nos quer felizes. Mas, da mesma forma que a criança não entende porque o pai passa remédio que arde no machucado, prá não infeccionar e sarar logo, a gente também não entende uma porção de coisas na vida, por mais inteligente que a gente seja. E eu acredito sinceramente que de tudo se tira uma lição, por mais difícil de aprender que ela seja...

Amanhã é aniversário da minha filha Nana. Pensei que então hoje fosse um dia bom prá contar do dia em que ela nasceu - um dia no qual fui infinitamente feliz, mas sofri como poucas vezes na minha vida. Mas, pensando melhor, vou deixar essa história prá outra ocasião e me transportar pro presente, pra acontecimentos que estão mexendo com o coraçãozinho da minha menina - seu gradual nascimento como futura médica.

Contei prá vocês que ela está fazendo plantões em hospitais - pois já está no 5º ano de Medicina. Os plantões menores são de 12 horas, mas ela também tem plantões maiores intercalados, de 24 e até de 36 horas. 

Isso mexe com o emocional dela - demais. Uma pequena parte disso vem do cansaço, obviamente... Mas os dramas que ela assiste são o que mais influência tem, sei muito bem...

Ela chega em casa e eu sempre examino seu semblante à procura da tristeza - e, ultimamente, ela está sempre lá, em maior ou menor grau. E eu, perguntando como foi seu dia, geralmente consigo que ela compartilhe algum acontecimento, alguma história, dividindo um meio quilinho do seu fardo tão pesado...

Um dia desses ela me contou - chorando - que tinha atendido uma senhora, vítima de um derrame. Ficou ao lado do médico plantonista enquanto a senhora era atendida, aprendendo os procedimentos. A mulher chegou lúcida, deitada numa maca, minha filha conversou um pouco com ela. O médico prescreveu medicamentos de emergência, prá tentar minimizar as sequelas e a enfermeira encarregada anotou tudo na ficha. Minha filha continuou o plantão, assistindo outros atendimentos - e, volta e meia, retornava àquela senhora, prá ver como estava. A cada vez que a via, deitada na maca, no corredor do hospital muito lotado de doentes, reparava que a mulher ia ficando mais e mais alheia...

Na ficha de paciente não constava que o medicamento havia sido aplicado e minha menina, sempre tão preocupada com tudo, ia procurar a enfermeira encarregada - e mal humorada esta lhe respondia que ainda não tinha tido tempo... 

Minha filha passou aquele plantão inteiro agoniada. Cansou de ir atrás da enfermeira, atrás do médico que havia feito o atendimento e prescrito o medicamento. 

Em determinado momento ela reparou que a mulher não reagia mais...

Desesperada, minha filha foi mais uma vez atrás do médico - desta vez toda nervosa... "Que isso não se fazia, que se fosse a mãe de alguém importante todo mundo tava dando atenção, que nem um animal merecia aquele abandono..." e, face o nervosismo dela, o médico mesmo foi lá aplicar o medicamento - mas disse que ela era muito estressadinha e uma pessoa difícil de se conviver...

De outra vez ela me contou que havia uma senhora muito gorda deitada numa maca e que ela reparou que a mulher chorava baixinho, quase sem ninguém perceber... Ela se aproximou, perguntou se estava tudo bem e a mulher respondeu que estava com muita sede. Minha filha pegou a ficha dela, presa nos pés da maca e viu que ela iria realizar um exame que necessitava jejum absoluto, tanto de comida quanto de água e explicou isso prá mulher... Mas, movida de compaixão, disse assim prá ela:

-"Olha, o que eu posso fazer é molhar um pedaço de algodão em água e molhar um pouco a sua boca, deixar cair algumas gotinhas, tá bom?" - e foi isso que fez.

Enquanto fazia isso, a mulher começou a chorar mais e mais, a ponto de soluçar - e minha Naninha ficou até assustada, pensando: "Meu Deus, será que eu fiz alguma coisa errada?"!!!

A mulher se acalmou e contou que tinha três filhos, mas que eles não se importavam com ela. Que o marido havia falecido há quase um ano e que ela o acompanhara o tempo todo, inclusive passando algodão em seus lábios nessa mesma situação. Explicou que seu choro era de alegria e de tristeza, tudo junto. De tristeza por pensar que não teria ninguém que lhe desse água nessa hora difícil, estando completamente sozinha e de alegria por Deus ter respondido suas preces e ter enviado a ela um anjo...

Minha filha foi a única a atender um garoto de 14 anos, paraplégico devido a um tiro levado num assalto - ele era o assaltante. Os colegas dela se recusaram a atender, pois diziam que o rapaz merecia morrer e que, se dependesse deles, morreria mesmo - por falta de atendimento...

Atendeu uma prostituta esfaqueada - que, segundo os colegas dela, melhor estaria morta (menos "lixo" no mundo...).

Um rapaz que fez cirurgia de mudança de sexo, realizada pelo Estado - e que tanto os médicos residentes quanto os plantonistas colegas dela tratavam como se fosse uma aberração...

Estes são uma fração das histórias que ela me conta - e mesmo essas são apenas uma fração das que ela vive e não compartilha comigo (diz que eu iria chorar se ouvisse todas - e ela me conhece muito bem...).

Tem dias nos quais ela chega tão nervosa, com a cara tão fechada, que até se recusa a falar... Sem apetite, come pouquinho, só se interessa em tomar banho, estudar calada na cama e ir dormir, calada... Um ou dois dias depois ela abre as "comportas da represa", cheias além da conta - retira das minhas mãos a costurinha que estou fazendo, senta do meu lado no sofá, coloca suas pernas sobre as minhas (como se ficasse no meu colo, sem ficar...) e apenas diz assim:

-"Ai, mãe, hoje eu vi tanta dor, tanta morte..."...

E chora. Chora enquanto eu a beijo, enquanto eu choro junto - porque infelizmente eu nasci chorona, ninguém pode chorar perto de mim que eu choro junto, sou uma vergonha de mãe...

Daí, quando a fonte dá uma secada, ambas com os olhos vermelhos e inchados, a cara lavada, eu pego seu lindo rostinho em minhas mãos e digo prá ela ser forte e ter fé em Deus que tudo vai dar certo...

-"Tudo talvez fosse mais fácil se você tivesse escolhido ser uma botânica ao invés de ser médica, filhinha. Você viveria cercada de flores... Mas sabe, mesmo assim, rodeada de flores, a dor alcança a gente. Não importa se a gente é dona de casa ou empresária, se a gente é analfabeta ou tem mestrado e doutorado, a dor e a tristeza aparecem volta e meia na vida da gente. E quer saber por quê? Porque a dor é a escola - a risada é o recreio. Na vida, infelizmente, é a dor que ensina - por isso ela aparece tanto... E é por isso também, meu amor, que muitos colegas teus acabam ficando insensíveis, endurecidos na profissão: é uma auto-defesa. Eles se encouraçam, na tentativa de se protegerem da dor alheia... 

Se eu pudesse, meu amor, eu te faria um escudo de tricô ou costurando algum tecido mágico, prá te proteger - mas eu não posso - e nem sei se devo...

Você diz que só vê tristeza, dor e morte e se apieda das pessoas que você vê - mas se esquece de que está vendo elas no seu pior momento. Ninguém vai no médico à passeio: vão porque estão doentes e muitos vão porque estão morrendo - faz parte da vida. Você não se dá conta, mas muitos vão sarar, sair do hospital e seguir com suas vidas, tendo alegrias e tristezas igual todo mundo. E os que morrem - é duro, eu sei... - mas Deus assim permite e os recebe do outro lado, pois é pai deles assim como é teu também, e os ama...

Antes de qualquer atendimento reza, minha filha. Não vai deixar de vir dor e tristeza, mas Deus vai mandar força prá você aguentar e seguir em frente.

Eu estava pensando o seguinte: é no calor da fornalha que a gente sabe de que metal é feito... Lembra das aulas de Química, no colégio? Dos pontos de fusão dos metais? Pois então: o ouro é um metal maravilhoso, extremamente valioso. Os seres humanos se matam por ele... 

Quando a gente quer dizer que alguém é bom demais no que quer que faça, diz que essa pessoa vale ouro, não é? - e o ouro praticamente só é usado prá ornamento... O ponto de fusão dele é pouco mais de 1000º C - alto, né? Se a gente parar prá pensar, a água ferve aos 100 º C e a gente já se queima tanto com essa temperatura - imagina mil graus.... 

Já o tungstênio, um outro metal que a gente mal ouve falar tem um ponto de fusão que chega a quase 4 mil graus Celsius - é preciso muito mais fogo, muito mais calor prá desmanchar, derreter o tungstênio. Por isso mesmo um fiozinho dele vai dentro das lâmpadas - e aguenta o calor do gás lá dentro prá fazer ela acender, gerando a luz...

Deus não te criou prá ouro, filhinha... Ele te criou prá tungstênio. Você não veio ao mundo apenas prá decorá-lo com a tua presença - você vai ter muita utilidade...

Você sempre vai ser o anjo doce que pinga água na boca de alguém no momento mais necessário, vai ser a mão macia que segura uma outra mão no seu momento derradeiro, a voz suave do amor do nosso Paizinho do Céu a sussurrar algum consolo...

E, se tiver que chorar, filha, chora. Chora que chorar não é pecado, até Jesus chorou mais de uma vez na vida... E nem todas as lágrimas são ruins, afinal de contas, principalmente se são lágrimas de amor e de compaixão...".

É o que eu posso fazer: falar e chorar com ela. Por mais que eu queira correr pro lado dela e trabalhar junto, como voluntária, afastando a dor e a tristeza prá longe do meu bebê, a vida tem, prá cada uma de nós, um caminho diferente, muito embora paralelo...

Ela vai prá frente do campo de batalha - e os que estão na frente sempre levam mais flechadas... Cá fico eu, na retaguarda, rezando e esperando que ela volte, fazendo uma comidinha gostosa prá alimentar seu corpo, costurando uma blusinha nova prá ela usar com um sorriso, um jaleco novo prá ser seu uniforme de guerra...

Feliz aniversário, Nambinha da mãe, meu bebê chantilly...
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