terça-feira, 24 de novembro de 2020

Pesadelo


   Confúcio uma vez disse que havia sonhado que era uma borboleta e que, quando acordou, já não sabia se era um homem que sonhou ser uma borboleta ou se sempre havia sido uma borboleta que sonhava que era homem.

Acho que já no tempo dele alguns seres humanos se davam conta de como a realidade pode nos encher de dúvidas e os sonhos se parecerem tanto com certezas.

Conheço gente que se acha incrível, digno de ser invejado por todos à sua volta, mais inteligente, mais bonito, mais merecedor de todas as coisas boas da vida e que, como a vida não é do jeito que queria, sente revolta, até mesmo ódio de quem tem o que julga deveria lhe pertencer  por direito - isso em si não é viver de sonho?

Mas eu não conheço ninguém mais viajada no sonho do que eu...

Eu sonhei que vivia num mundo que estava evoluindo - que tonta, que burra, uma perfeita idiota!!!

Um dia depois do outro eu indo na Igreja, frequentando a escola, trabalhando, fazendo faculdade e tudo parecia estar se encaminhando para um futuro promissor na humanidade - eu até tive filhos! Que mundo bacana prá se ter filhos...

A gente arruma um emprego, acorda cedo, trabalha nossas horas, convive com as colegas, interage com as pessoas, paga as contas, tece planos...

Conta histórias pros filhinhos - como eu adoro contar histórias, meu Deus - ensina-os a rezar o Pai Nosso, a respeitar as pessoas, a se comportarem perante os outros habitantes do planeta. Era tão lindo ir na reunião de Pais e Mestres e ouvir as professoras dizendo que as crianças eram ótimas, educadas, inteligentes, bondosas e queridas de todos...

A gente segue aquela nossa vidinha de família pobre aspirante a um lugar melhor e luta por isso - trabalha, economiza, se priva de certos confortos pra dar aos filhos uma vida melhor do que teve, e então...

Como pude, por tantos anos, achar que tudo estava melhorando? Como pude acreditar em mudanças positivas, em evolução da espécie humana, em crescimento?

Fácil foi acreditar em tudo isso, como não? Neta de dois imigrantes europeus caucasianos, pobre de fazer dó - mas ainda assim branca!

A VIDA É MAIS FÁCIL PRÁ QUEM É BRANCO.  Ponto. Não adianta dizer que pobre é pobre e que a vida é difícil prá quem é pobre, não, NÃO! A vida de um negro pobre e de um branco pobre são muito diferentes.

A fome pode ser a mesma, a privação pode ser igual - mas a humilhação, o desrespeito, a falta de dignidade humana são sem paralelo. Numa entrevista para emprego em que houver um candidato negro e um branco com as mesmas qualificações podem ter certeza absoluta que o branco ficará com a vaga.

Casais compostos por uma pessoa negra e uma branca sempre serão olhados com pelo menos curiosidade, mas no mais das vezes com preconceito e ódio...

Assunto tão batido, não é? Tão óbvio e, ao mesmo tempo, durante boa parte da minha vida ele me passou despercebido.

Minha melhor amiga na infância se chamava Gracinha. Ela era negra bem escura mesmo, risada contagiante de dentes luminosos, ágil, esperta... Fazíamos uma dupla e tanto nós duas, brincando nas ruas do nosso pedaço, algumas de terra batida, poucas de asfalto, jogando queimada, empinando pipas, jogando pião e bolinha de gude - éramos terríveis. Eu branca igual côco ralado e ela daquela cor linda que Deus lhe deu, parecia chocolate amargo derretido e brilhante. Ela vivia na casa da minha vizinha de frente, a cabeleireira e fazia a faxina e cuidava das crianças. A mãe tinha muitos filhos, era muito pobre e assim ela trabalhava em troca de comida e casa. Mas Maria, a cabeleireira, era gente boa, comprava uniforme, sapatos, livros e cadernos, ajudava a Gracinha a estudar prá ela algum dia ser alguém na vida - só que ela acabou aprendendo e pegando gosto por ser cabeleireira mesmo.

Se mudaram prá São Bernardo e quando a Maria resolveu voltar pro interior depois de ficar viúva a Gracinha herdou o salão. Perdi contato com ela durante muitos anos, um tempo atrás ela visitou minha mãe e disse que sentia saudades minhas. Minha mãe, como sempre, não disse onde eu morava e assim nunca mais a vi. Minha mãe tem problemas, eu sei...

Sabe, muitas vezes quando eu assisto um filme ou um seriado com o Marildo a gente entra em discordância sobre algum ponto e a gente pausa e conversa e eu sempre digo prá ele que o que é certo prá nós pode não ser certo prá outros.

Sempre dou este exemplo: o fato de que eu não leio pensamentos não significa que não exista ninguém no mundo que possa ler - pode ter, não pode? Eu não conheço todo mundo do mundo, não sei... 

Que porque eu gosto de jiló frito no pão não significa que todo mundo goste ou tenha que gostar e isso vale prá tudo: cada ser humano experimenta a vida com seus próprios sentidos, tem percepções diversas uns dos outros e a não ser pelas regras de ouro da moralidade contidas - por exemplo - nos dez mandamentos, todo o resto é pessoal, cultural, de paladar e gosto, nascido de cada pensamento  e experiência individual, mas também familiar, coletiva... Que colcha de retalhos todos nós somos...

Meu marido criticou as manifestações violentas após a morte do homem no estacionamento do Carrefour, dizendo que violência não resolve nada e que a tragédia ocorrida não teve fundo racista e eu veementemente discordei dele - e ficamos nesse impasse, cada um pensando do seu jeito.

Ele tem uma visão muito "açucarada" da vida. Ele assiste comigo filmes onde aparece menção à pedofilia ou onde há estupro e ele sempre repete: "Ainda bem que isso é um filme", como se a realidade fosse diferente, mais limpa, menos dura. 

Já não fui assim também?

Me lembro da primeira vez em que me dei conta do racismo: tinha essa noveleca da Globo onde a primeira atriz que representou a Chica da Silva (não lembro o nome dela e não tô a fim de dar um google) fazia casal com o falecido ator Marcos Paulo - e a Globo foi inundada de cartas de telespectadores revoltados com uma "negra feia" beijando um branco, queriam que a Globo desmanchasse o casal, até mesmo matasse a negra.

Isso me chocou tanto!

Acordei e me senti perdida na minha ilusão de que havia igualdade.

Cometi, naquele tempo, o mesmo erro de que acuso hoje o pobre Marildo: pensei que, porque meu coração não via cor, nenhum outro coração via e, ao acordar, me reconheci na condição de - se não cega social - pelo menos daltônica. É preciso abrir os olhos prá ver.

Nossa sociedade tem um débito inimaginável para com os negros, débito esse que não vai ser saldado apenas com cotas - e como as pessoas brancas se queixam das cotas! Quanto mimimi porque a cota não é deles - isso sim (pois se houvesse cotas prá brancos, todos eles iam se candidatar e achar válido, merecido e justo...).

Nossa sociedade foi erguida pelos negros - seu sangue está na argamassa de cada construção, cada prédio, cada casa - passem na porta de uma construção qualquer e vejam quantos negros e quantos brancos tem assentando tijolos, batendo massa, peneirando areia.

E passem também nas faculdades - e nem digo prá olhar quantos professores negros tem lá dentro: vejam quantos alunos negros estão lá sentados, estudando...

Andem de transporte público nas periferias mais retiradas de qualquer grande cidade de nosso país e contem quantos rostos brancos - talvez nenhum - dentro deles...

Passeiem pela manhã pelos bairros de classe média e alta de qualquer cidade do país e vejam de que cor são as mulheres lavando as calçadas das casas...

AQUELE HOMEM NO MERCADO MORREU PORQUE ERA NEGRO! Isso é fato. Porque se fosse branco jamais teria sido admoestado, muito menos agredido. Os seguranças só se acharam no direito de fazer o que fizeram porque ele era negro.

Isso me dói tanto, mas tanto, e no entanto reconheço que minha dor é nada perto da dor que cada negro deste país está (ou deveria estar) sentindo. Sim, porque não importa a cor, há também negros dormindo...

As manifestações foram violentas - mas foram poucas. Tinha que ter pipocado revolta em cada Carrefour do país, em todas as cidades... Às vezes é preciso gritar a plenos pulmões prá ser ouvido... 

Sem ferir funcionários, caixas, repositores, faxineiros (muitos e muitos deles negros também) o Carrefour tinha que sentir nos cofres a revolta popular porque a culpa não é apenas dos seguranças, da empresa contratada - a culpa é da gestão da rede, que não deixa claro para quem lá trabalha o que é humanamente INACEITÁVEL.

E vejam só: as ações do Carrefour, após esse  terrível acontecimento, ainda subiram vinte pontos...

Se fosse um homem branco estaria vivo. Tanto faz se ele tinha ou não ficha policial, quando o mataram não sabiam disso e mesmo que soubessem, ao que me conste, no Brasil não há pena de morte e se houvesse, meros seguranças não teriam o poder para aplicá-la.

Poder - essa é talvez a raiz de todo o mal. 

Pois desde que esse quadrúpede chegou à presidência - os pobres quadrúpedes que me perdoem - todas as criaturas dos esgotos, as cracas de debaixo das pedras, todos os demônios que vagam pelo nosso ar e nosso chão se sentiram autorizados a se mostrarem como são: violentos, racistas, homo fóbicos, misóginos e medíocres. Afinal, se a autoridade maior do país é tudo isso, por que eles se envergonhariam de também sê-lo?

Acordei e me dei conta de que sou uma borboleta de asas rasgadas, incapaz de voar - nunca fui uma mulher. 

Todos esses anos de vida abrindo a cada dia um pouquinho mais os olhos, me acordando prá ser alguém melhor e me pego nesta altura da vida desperta, nesse pesadelo que se tornou nosso país...

E vejam como são covardes as quimeras dos meus pesadelos: o gordinho que distrata e ofende o entregador porque é negro, a loira homofóbica dentro da padaria, o desembargador que dá carteirada e ofende o guardinha na praia, a velha senhora racista no banco em Recife, NENHUM deles responde por seus atos abomináveis porque SIM! são brancos e porque é muito fácil apresentar um atestado de bipolaridade, depressão ou qualquer outro probleminha médico impossível de ser provado prá justificar - sem jamais explicar - as suas almas podres...

O Excrementíssimo Lazarento (que também me perdoem as pessoas que porventura tenham lepra) que nos governa não vai ficar lá prá sempre. Alguns dizem, otimistas, que ele já está "derretendo", face os resultados das eleições municipais - que Deus os ouça!

Um dia essa praga cai fora e então todos esses seres dos esgotos, todas essas cracas de debaixo das pedras, todos esses demônios que escaparam dos infernos e que vagueiam pelo nosso ar e nosso solo vão voltar a se camuflar entre nós, a nos dizer bom dia, a nos mandar florzinhas e gatinhos de purpurina nos famigerados grupos de whatsapp - então, até lá, pelo menos sonhemos com um mundo melhor.

Um sonho dentro de um pesadelo - talvez nesse sonho eu volte a ter asas, quem sabe...

Respira fundo, Rosa. Logo passa.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

As tias

       


Minha mãe não teve irmãs - pelo menos não vivas -  e assim todas as tias que eu tive eram as esposas dos meus tios e as esposas dos primos e as primas que eu também era acostumada a chamar de tias. Um festival de tias de todas as cores e formas e tamanhos, 90% delas belicosas, encrenqueiras, gananciosas ao extremo, sempre querendo levar vantagem sobre a pobre e sofrida minha mãe, costureira de mão cheia e de despensa vazia, com uma escadinha de filhos.

Do lado do meu pai a coisa era ainda pior: a esposa do meu tio Zeca eu jamais conheci - esse meu tio era policial, violento, certamente metido em negócios escusos pois era muito rico e tratava meu pai como um pobre coitado a quem doava suas roupas velhas. Meu pai o adorava, seus olhos brilhavam quando ele aparecia na porta. Tirando ele meu pai tinha apenas duas irmãs, que se encontrassem minha mãe na rua corriam atrás dela prá lhe dar uma surra - afinal ela havia "fisgado" meu pai e cortado pela metade o auxílio em dinheiro que ele lhes dava (sendo que a outra metade a gente mal via, pois minha mãe é que nos sustentava com suas costuras...).

Nenhum dos irmãos de minha mãe se preocupava em dar algum auxílio prá minha avó. Diziam que, se ela não queria viver na miséria, deveria ir morar com um deles - o que ela até tentou, coitada, prá não ser mais um peso nas costas da minha mãe, mas acabava voltando, pois era muito maltratada pelas noras, a casa virava um inferno de brigas e, afinal, tanto ela quanto minha mãe e nós todos ficávamos destroçados de saudades... Em meio à miséria e a fome, nos restava o consolo da mútua companhia...

Que tempos difíceis, meu Deus! Às vezes - como agora mesmo - quando eu paro prá pensar, meus olhos me desobedecem chorando e eu me pergunto como foi que, afinal, sobrevivemos? Se alguém nesse mundo duvidar da existência de Deus basta olhar prá mim, me ouvir, me ler: eu sou um milagre. Minha mãe e meus irmãos somos todos milagres.

Não havia SUS prá gente procurar quando adoecia, não havia nenhum auxílio do governo prá nos mitigar a fome, prá comprar nossos uniformes e livros prá frequentar a escola.

Em um prédio alto da avenida Celso Garcia, quase chegando no bairro do Tatuapé, tem uma pichação que diz: "SOBREVIVI À FOME, VIREI PESADELO". Acredito que sei como deve ser isso, no entanto nós todos sobrevivemos à fome e a coisas ainda piores do que ela e aqui estamos nós, seguindo nossas vidas melhores do que éramos - nem pesadelos nem sonhos.

Minhas tias - pois o tema de hoje são "tias" - só se importavam com suas próprias barrigas, suas jóias de ouro, suas roupas, seus carros, suas viagens, apartamentos na praia, casas de campo, títulos de clube. Nenhum carinho pelas criancinhas famintas da cunhada - pelo contrário. Faziam minha mãe costurar de graça prá elas, mesmo sabendo a falta que o pagamento fazia na nossa mesa.

Um bando de megeras, todas já foram colher o que plantaram. A última delas morreu tem menos de um ano - um dos filhos invadiu o apartamento e furtou as jóias da mãe prá não dividir com os irmãos.

Meus tios todos, que tanto amealharam riquezas pros filhos, no fim de suas vidas só puderam contar com minha mãe prá lhes dar banho, limpar a casa - as esposas e os filhos os deixavam cobertos de moscas, afundados na urina dos colchões.

Não tenho boas lembranças de quase nenhum deles - a não ser de meu tio Antonio, o irmão mais velho de minha mãe, que nos dava 1 litro de leite e uma bengala de pão por dia. Pelo menos isso...

Bom, agora chega de amarguras. Hora de falar das tias que a vida me deu de presente quando eu me casei.

Minha sogra foi a primeira por quem eu me apaixonei. Eu a achava extremamente inteligente, mente afiada, senso de humor ácido. Adorava tudo o que eu ouvia dela - as histórias, as anedotas, as cantigas. Mas infelizmente eu cheguei tarde na vida dela - ela se dava melhor com minha cunhada e meu rosto sempre triste de saudades da minha mãe e dos meus irmãos não ajudava em nada. Ela encarava minha tristeza como sendo descontentamento por morar com ela, pensava que eu me sentia superior por ser mais estudada, mais alta, mais branca. Com o tempo nosso relacionamento foi ficando mais difícil, as irmãs do meu marido vinham passar um tempo com a mãe e punham mais lenha na fogueira até que a gente se mudou dali.

Durante esses quase 3 anos em que dividimos o mesmo teto eu conheci suas irmãs Maria Cícera, Madalena, Maria José, Maria e Joanita. E como minha sogra se chamava Cícera e a irmã adotada do meu marido se chama Madalena dá prá perceber a falta de repertório na hora de se darem nomes...

Foram criadas como batatas jogadas na terra que brotam sem serem plantadas - elas diziam. Lembravam da mãe lavando no rio os panos sujos de sangue e morrendo de tuberculose com pouco mais de 30 anos, deixando uma dúzia de filhos, meninos e meninas. O pai delas chegou prá todos eles e disse que estava indo morar com outra mulher na cidade e "quem quiser vir, venha e quem não quiser, dane-se". 

E as irmãs ficaram todas juntas, a mais velha com uns treze anos, a caçula com dois. As mais velhas trabalhavam em casa de família e sustentavam as pequenas, minha sogra apareceu grávida e nunca contou quem havia feito mal prá ela. Foi mandada embora do trabalho - pois não existiam direitos trabalhistas naquele tempo e, afinal, a quem uma menina de doze anos ia recorrer por ajuda?

Com o tempo algumas das irmãs foram vindo prá São Paulo e, como não tinham documentos, inventaram suas próprias datas de nascimento aumentando anos de vida prá poderem trabalhar registradas...

Minha sogra acabou se casando, teve vários filhos e só veio prá São Paulo quando meu marido tinha quatro anos de idade - foi a última a chegar aqui.

Obteve muita ajuda das irmãs - sempre foram muito unidas. O pouco que tinham, dividiam. Se revezavam a cuidar dos filhos, uma ajudava a outra a arrumar emprego. Um exemplo de mulheres batalhadoras, todas elas...

Com a morte da minha sogra num ano e a do irmão mais velho do meu marido no outro, meu colega de quarto se afastou da família. Só vivia pro trabalho.

Então eu vim com a ideia de visitar as tias que viviam juntas - Maria José, a duas vezes viúva e a Maria, a nunca casada e a mais doce das criaturas.

As crianças adoravam - e as tias, mais ainda... Quase todo final de semana a gente ia, elas já esperavam. Eu adorava ouvir suas histórias, ajudá-las a resgatar as lembranças. Às vezes a gente chegava e já encontrava tia Maria - a quem a Lolinha deu o apelido de tia Cissinha, por causa do personagem de alguma novela - sentada na varanda, fumando um cigarrinho e bebericando um tipo de bebida que ela fazia com cachaça e calda de açúcar com cravo. Ela deixava o copo do lado, soltava uma fumacinha pela boca, enquanto cantarolava as músicas de fossa da Roberta Miranda - pobrezinha, chorando de saudades de algum amor perdido da juventude. 

A gente entrava na casinha e tia Marizé nos recebia com beijos e dizia: "Hoje ela tá meio triste, deixa ela que passa"...

Em outra visita ela vinha bem humorada como sempre - as tristezas eram bem esporádicas - ligava uma música, cantava junto, pegava no colo a cachorrinha pequinês bem velhinha chamada Pepita e lhe caçava as pulgas e lhe espremia as tetinhas do leite velho "prá não dar câncer na bichinha", ela dizia.

Tia Cissinha ia buscar uma jarra com iogurte de morango - que ela sempre diluía em um litro de leite, prá render o dobro. As carçolas que ela ganhava das sobrinhas ela guardava prá me dar no natal - e assim foi que parei de comprar aquelas calcinhas lindas de renda e passei a usar carçolas - muito mais confortáveis, afinal conforto vem em primeiro lugar prá mim, a beleza que se lasque se eu tô me sentindo bem...

Através dela soubemos das dificuldades da irmã mais nova do meu marido, a Madalena. Era um domingo, uns dois dias antes do Natal. Esperei as tias estarem terminando o almoço e disse pro Marildo: "Depois que a gente comer vamos pegar as tias, passar em alguma loja aberta na Av. São Miguel e vamos levar presentes prá tua irmã e prás crianças."

As tias adoraram, as crianças mais ainda e isso acabou virando um ritual. Eu sempre pedia pro Marildo ligar prá irmã prá saber se ela tava precisando de alguma coisa, dinheiro prá comida, prá pagar alguma conta, prá livros de escola.

Quando era início das aulas eu ia bater perna na 25 de março, comprava materiais pros meus filhos e comprava também pros sobrinhos - era chegada a minha hora de ser tia...

Fiz meu esposo matricular a irmã na escola de cabeleireira, pagar o curso, os materiais, a condução. Fiz ele levar a irmã na Ikezaki e montar o salão dela de prestações - eu sou uma tremenda duma sortuda, pois meu marido me ouve...


Tia Cissinha morreu de câncer. Não me lembro de ter chorado tanto na vida, ela tava tão pequenininha no caixão... Os irmãos do meu marido até me ridicularizaram, dizendo que por chorar eu não iria herdar nada pois a "velha" não tinha nem um brinco de ouro prá deixar de herança...

Nenhum deles gosta de mim, nunca gostaram. Acho que eu devo ter sido muito má em outra vida...

Ah, mas eu tive a honra de escrever seu epitáfio: "Fui convidada a uma festa na casa de meu Pai". Ela adorava festa, comer bolo, conversar com todo mundo... Meu marido pagou pro pessoal do cemitério escrever isso. Escolhemos uma foto dela jovem e bonita, como eu imagino que ela ficou quando chegou no céu.

Tia Marizé morreu de um monte de complicações da diabetes e da pressão alta. Por fim até fazia hemodiálise, pobrezinha Também ficou minúscula dentro do caixão, parecia uma criancinha enrugada. Também me acabei de chorar - do meu jeito, calada, sem interromper o fluxo do sofrimento até que ele se esgote e só sobre aquela tristeza marcada a ferros no coração...


E de tias queridas só me sobrou a Joanita - mas essa é mais complicada, mais densa - cuja história fica prá um outro dia.


Penso que a vida acaba nos dando muitas tristezas no gotejar dos dias e dos anos, mas - no meu caso, pelo menos - as alegrias, os ganhos, foram muitos. Entesouro no meu coração cada afeto que conquistei, cada boa lembrança que trago guardada. A tristeza me ensinou, as alegrias me fizeram muito, muito rica.


Quando meu tempo aqui estiver findo eu vou embora com uma tremenda bagagem, fácil de carregar porque não tem peso algum, ...

sábado, 10 de outubro de 2020

Um coração muito longe de ser bom


 

Há muito tempo atrás havia uma mulher de trinta anos chamada Rosa que tinha três lindos e doces filhinhos mais um marido que trabalhava em CINCO empregos prá poderem sobreviver e pagar a casinha recém comprada. 

Essa mulher tinha olhos fundos de muitas e muitas noites mal dormidas, trazendo processos prá serem analisados madrugada adentro até as 2, às vezes 4 da madrugada. A casa ainda nem estava toda pronta: sem dinheiro prá comprar uma porta que fechasse a casa e a separasse da área de serviço, isolsndo-a dos perigos que rondam à noite, a mulher tomava café prá se manter acordada e volta e meia era assustada por algum gato da vizinhança que vinha atrevidamente andar pela casa...

Depois de amamentar muito os três filhos que havia tido, um atrás do outro, a mulher tinha também o rosto encovado, pesava pouco mas tinha os braços e pernas muito fortes - pois a luta diária é a maior das academias. 

Fazia tudo dentro de casa sozinha - limpava, cozinhava a comida dos filhinhos de madrugada, antes de ir trabalhar, voltava 6 horas depois, alimentava as crianças, comia o que sobrava da alimentação deles (com pressa) e corria feito louca durante a tarde prá dar conta de tudo: lavar roupas sociais do Marildo (duas mudas de roupa por dia), cozinhava seu jantar caprichado (única refeição do dia do pobrezinho) e então se sentava com os filhos, assistindo um pouco de tv, ajudando-os nas lições e trabalhos escolares. 

Quando as crianças então dormiam ela se sentava na mesa da cozinha, pegava as duas pesadas caixas de papelão cheias de processos de aposentadorias pra serem analisadas - verificar a validade de documentos, contar períodos de trabalhos insalubres, contar contribuições de carnês, rascunhar correspondências a empresas e sindicatos a fim de verificar a veracidade de registros rasurados nas carteiras de trabalho...

O Marildo - como eu disse - trabalhava em cinco empregos. Era funcionário público, trabalhando das 9 as 17:30. Mas antes de comparecer nesse trabalho, ele acordava às 5 da madrugada e dava aulas de estágio de Direito Constitucional numa faculdade - aula feita prá acontecer das 6 as 9 da manhã (pois era essa a disponibilidade dele e essa faculdade queria muito que fosse dele essa matéria...). Chegava sempre meia hora atrasado no serviço público, com o conhecimento das chefias - e cumpria essa meia hora no período do almoço que ele não fazia. 

Às 12:30 ele saía e pegava os filhos na escola e ia buscar a mulher na porta do trabalho, correndo feito louco prá poder voltar pro trabalho e não ficar devendo horas prá ninguém.

Chegava às 18 horas, fazia sua única refeição de pé - apesar da mulher dizer que comer tão rápido lhe faria mal, que também dava prá comer rápido sentado... Em menos de quinze minutos ele já estava tomando banho, trocando de roupa e indo pro terceiro emprego em outra faculdade, dar aulas de Direito Administrativo.

Mas chegava o final de semana e prá nenhum dos dois havia descanso: no sábado ele dava aula em um cursinho preparatório prá concursos no centro de São Paulo, voltando perto da uma da manhã, pois eram várias turmas e ela, alem da faxina pesada da semana, ainda o ajudava a formular provas, digitar apostilas e corrigir trabalhos... 

No domingo de manhã ele fazia serviço voluntário - coisa que não parou de fazer até hoje e que ele diz renovar-lhe as energias prá viver e trabalhar e, depois de um almoço rápido, lá ia ele pro quinto emprego, também num cursinho preparatório prá concursos, desta vez em Guarulhos.

Tanto o pobrezinho corria e tão pouco se alimentava que um dia passou mal enquanto estava dirigindo e por proteção divina parou o carro num acostamento da via Dutra, evitando uma tragédia, e ali perdeu os sentidos.

Acordou no Hospital Carlos Chagas, tendo sido socorrido por um bom samaritano que ainda voltou prá buscar seu carro e o deixou estacionado no hospital...

Pagaram sempre em dia as prestações da casa - conseguiram finalmente comprar a porta que faltava para protegê-los dos perigos do mundo lá fora e, aos poucos, foram fazendo melhorias, sempre aos pouquinhos, sempre trabalhando e economizando muito.

Sempre que batia alguém precisando de ajuda na porta eles ajudavam com o que tinham e, às vezes, até "cortavam na carne" prá poder fazer isso...

Havia uma moça em especial que a mulher ajudava com tudo o que podia:

Uns bons dez anos mais jovem que a mulher, essa moça aparecia na porta vestida praticamente de trapos sujos. Seus peitos enormes pendiam soltos por debaixo da camiseta ralinha, a enorme barriga grande escondida numa saia comprida e cheia de remendos.

Um bebê no colo, menino. Duas meninas andando de mãos dadas, um ano no máximo de diferença entre as crianças. E dizia que estava grávida de novo.

Eu - pois que a mulher era eu mesma, como vocês já desconfiavam - sentia uma pena enorme da moça...

Acho que esse é o problema com a pena: a gente acaba automaticamente se colocando numa posição superior à daquela pessoa de quem sentimos pena. "Aqui estou eu, que estou melhor do que você, e assim sendo vou te ajudar prá deixar de me sentir culpada por ter uma vida melhor do que a sua".

Madre Teresa era diferente, provavelmente. Eu nunca tive queda prá ser freira, mas tive uma boa criação católica e todos sabemos o quanto de culpa sentimos por conta de quase tudo. Mea culpa, mea máxima culpa e etc...

Pois toda vez que essa moça vinha eu lhe dava arroz, feijão, leite e  pacote de biscoito prás crianças, óleo, café, macarrão, óleo prá cozinhar, um pedaço de queijo... Roupas. Sapatos. Sapatinhos. Absorvente, sabonete... Às vezes até dava frutas... Dei a ela meu carrinho de fazer feira - senão como ela iria levar tudo aquilo? 

Ela vinha toda semana, a barriga cada vez maior.

Uma bela tarde eu estava na casa da minha mãe - a máquina de costura dela não estava funcionando e eu havia ido lá prá desmontar e lubrificar as peças, como normalmente eu fazia...

Escutamos bater palmas na porta, minha mãe espiou na janela e falou: "Já vai!".

"Rosa, deixa eu ir lá fora levar um pouco de comida prá essa moça. Ela sempre passa aqui, pobrezinha, eu sempre ajudo. Pena que tô precisando fazer compras, nem fiz feira no domingo. O Tato deve tá voltando do Cobal então tenho pouco prá dar... Mas pouco é sempre melhor do que nada, né?"

Minha mãe dividiu em dois o restinho de arroz que tinha no pacote, pegou dois ovos e 1/4 de um repolho e foi lá levar prá moça.

O som entrou fácil pela janela aberta, através da cortina de renda fininha.

"Que porcaria é essa que a senhora tá me dando? Não vê quantos filhos eu tenho? Enfia no "u" essa merda!"

Eu voei - devo ser uma bruxa, afinal de contas. 

No caminho agarrei a vassoura de varrer o quintal, a moça me viu e saiu correndo.

Eu tenho um coração que parece normal nos exames mas, escondido dentro dele, tem um pedaço de granito bem duro e pesado - infelizmente prá mim.

Alcancei fácil a moça na rua, agarrei-lhe o braço e ela se virou prá olhar prá mim e, como se nada tivesse acontecido, sorriu com aquele sorriso 90% banguela e falou:

"Oi, moça, eu já tava indo lá na tua casa, tô precisando de tanta coisa prás crianças..."

Eu, fuzilando de ódio, praticamente rosnei na cara dela:

"Onde foi que você mandou minha mãe enfiar a comida que ela ia te dar?"

"Sua mãe? Eu não conheço a tua mãe..."

"É a senhora daquela casa ali, a que tá no portão!"

"Ah, aquela... Mas olha, eu não mandei enfiar nada não, tua mãe deve ter entendido errado!"

"Errado meus ovos! Você mandou ela enfiar a comida que ela ia te dar no 'u' mesmo, eu ouvi, sua safada sem vergonha!"

"Mas... Mas... Moça, você é tão boa, você sempre me ajuda tanto!"

"A-JU-DA-VA! Nunca mais apareça na minha porta! Melhor ainda: Nunca mais apareça nesta vizinhança! Se aparecer vai tomar uma surra de vassoura na frente dos filhos! Sua pilantra! Se precisasse de ajuda mesmo não desdenhava da doação da minha mãe! Ela não é rica não! Ela dividiu meio a meio com você tudo o que ela tinha em casa, sua sem-vergonha! Agora chispa daqui, nunca mais quero ver a tua cara!"

E até hoje eu lembro do rosto assustado das crianças.  

Eu fui um monstro. Eu, volta e meia, sou muito, muito monstruosa...

E não pensem que eu aprendi minha lição após ver aqueles rostinhos assustados, pelo contrário. Aquela pobre moça ficou gravada da pior forma dentro de mim: a partir dela fiquei com o pé atrás prá quem aparece e especialmente pra quem volta repetidamente a pedir coisas na minha porta...

Tem uma mulher fortona que sempre aparece pedindo dinheiro prá comprar remédios prá Aids, Câncer... Eu chego perto, peço prá olhar a receita, onde os nomes dos medicamentos são meus velhos conhecidos: nomes genéricos emitidos por algum médico de posto de saúde, Dipirona, hidroxido de alumínio, prednisona... Coitada, tentando enganar com esses nomes genéricos uma mulher praticamente especialista em dor, azia e inflamações e medicamentos... Eu digo isso prá ela, que esses são medicamentos comuns e não medicamentos caros prá doenças que ela não tem, que ela devia sentir vergonha de ser tão jovem, grande e forte e viver pedindo dinheiro pros outros e ela sai me xingando de tudo que é nome feio...

Pior é que ela volta tempos depois - deve andar por tantos lugares e se esquece dos rostos - e tenta aplicar de novo o mesmo golpe - dessa vez ela fez um transplante e precisa de remédio prá rejeição - tá sempre faltando 50 reais prá inteirar o dinheiro.

E eu digo: "Moça, você tá precisando se benzer, cada vez que você vem aqui tem uma doença grave diferente! Tem que procurar um médico melhor também, esse ai só te prescreve balinha...

E novamente ela vai embora me xingando.

Tem um outro que aparece aqui e eu desconfio que seja marido dela. Ela começou a rarear as visitas e ele passou a vir. Ele sempre diz que é meu vizinho "daquela outra quadra", diz que precisa comprar remédio prá ele mesmo, prá um filho doente e a receita é só de genéricos que o próprio posto fornece gratuitamente com receita...

Outra hora ele é vizinho da rua de cima, tá precisando comprar leite especial pro filho...

Vizinho da rua de baixo, o pneu do carro furou, ele tá precisando de dinheiro prá pegar um uber e levar a mulher grávida prá dar a luz no hospital.

Eu sempre pergunto qual o número da casa dele e se ele conhece alguém daquela quadra, daquela rua - espertamente eu sempre pergunto por alguém que já morreu - e ele fala que conhece sim, que são bons vizinhos e assim eu trabalho a constatação da mentira.

Da última vez foi num domingo, meu marido já ia dar dinheiro prá ele pegar o uber e eu, da janela, perguntei em que número ele morava, se ele era vizinho de fulano. Meu marido então disse que daria o dinheiro pro uber sim, mas que ele trouxesse a esposa até a nossa porta enquanto ele ligava pro vizinho prá tomar conta do carro.

Não voltou mais.

Isso sempre existiu no mundo: gente que se aproveita do coração dos outros. Vemos isso em livros antigos - "O Principe e o Mendigo" é um exemplo, onde os mendigos profissionais criavam feridas ulcerosas falsas prá si mesmos usando cera de vela vermelha derretida em meio à sujeira de suas peles...

Desacorçoa, né? 

E num Brasil como o de hoje, no qual pelo menos 10 milhões de pessoas estão passando fome mesmo, sem ter absolutamente nada prá comer, no qual a miséria vem crescendo dia a dia, os pidões profissionais vem fazer um des-serviço à prática da caridade...

Meu marido normalmente não passa por esse dilema - tenho certa inveja do coração dele. Ele ajuda - mesmo se achar que a pessoa é apenas mais uma trapaceira... Ele conversa, diz algumas palavras boas acerca da fé em Deus na adversidade, acerca da força que temos que ter prá superar os desafios e procurar honradamente ganhar o pão de cada dia e ajuda.

Ele diz que toda boa palavra é uma boa sementinha, que um dia vai brotar no coração daquela pessoa, senão nesta vida, em outra e então ajuda.

Ele é um homem muito bom e eu tento ser melhor prá acompanhá-lo.

Num Natal passado - e vocês pensando que todo meu palavreado tinha acabado... - bateu na nossa porta um rapaz e meu marido, tocado pelo sagrado do dia e pela chuva forte que castigava o tal pedinte levou prá ele comida e vinte e cinco reais...

Eu - por causa do pedaço de granito dentro do meu peito - fiquei brava. Disse que agora o moço ia vir toda semana - e me enganei.

Ele passou a vir um dia sim e no outro também.

E como durante a semana todo mundo trabalha fora, quem atendia a porta sempre era eu.

Fui lá fora, protegida pela grade alta, conversei com o rapaz e disse que naquele dia nao tinha nada.

No outro dia lhe dei uns biscoitos embrulhados num guardanapo - que ele jogou no chão e pisou, saindo me chamando de maldita.

Alguns dias eu pressintia sua chegada pelos latidos desenfreados de todos cachorros da vizinhança e pela gritaria desconexa que vinha chegando... Então, da janela toda aberta, ao identificar o show de palavrões pesados, ameaças, impropérios, ouvi a campainha tocar.

Depois do meu "Pois não?" o rapaz gritou comigo, disse que ninguém tinha dado nada prá ele e que ele tava precisando. Se fazendo ameaçador propositadamente, como se pelo fato da minha cabeça ser quase toda branca e eu ser mulher e velha eu fosse me sentir constrangida e compelida a ajudar pro pior não acontecer...

Da janela mesmo eu, de voz firme e autoritária como uma professora que dá bronca num aluno malcriado, respondi:

"Rapaz, você tem que aprender a ter educação! Esta é uma área residencial calma, você vem desde lá de baixo gritando palavrões e ameaças e acha que alguém vai te ajudar assim? Tome vergonha! Não vou ajudar coisa nenhuma e você não apareça mais por aqui com esta atitude senão eu vou fotografar você com o celular, vou ligar prá polícia e vou dizer que você me ameaçou".

De uma vez eu estava do lado de fora do portão, conversando com uma amiga e ele virou a esquina e apareceu tão rápido que nem deu tempo de abrir o portão e entrarmos. 

Ele tava vermelho (de beber), fedendo a álcool curtido e, agressivo, avançou prá minha amiga dizendo que era culpa da coitada que "essa velha maldita" nunca lhe dava nada e, antes que ele tocasse nela, eu o parei com a minha bengala. Brava como sou eu disse que ia arrebentar ele a bengaladas se ele tocasse nela, que a "velha maldita" não lhe dava nada porque ele era um pilantra sem educação e que ele fosse embora naquele momento curar a bebedeira senão eu ia falar pro meu marido nunca mais lhe dar nada.

Mas meu marido sempre vai lá fora, conversa direitinho com ele, tenta fazer com amor o que eu tento fazer na dureza. Sempre ajuda.

Quer dizer: ajudava. 

Desde maio ele não voltou mais. Tenho no meu coração que ele morreu de COVID. Devia ter algum problema psiquiátrico sério - ser esquizofrênico, bipolar - situação ainda agravada pelo uso de álcool e tudo isso devia fazer dele grupo de risco...

Agora ele é mais uma pessoa prá eu sentir que fui dura em excesso...

Jesus dizia para sermos simples como as pombas e prudentes como as serpentes e isso é muito difícil prá eu interpretar. 

Eu fui uma menina tão doce... Quando foi que eu perdi aquela inocência, aquela boa vontade para com todos? Quando foi que comecei a adivinhar segundas intenções em tudo? 

O decorrer da vida fez minhas carnes molinhas e meu coração deu uma empedrada...

Bom, mas prá isso Deus me deu os melhores filhos do mundo, que volta e meia me dão merecidas broncas como se - eles sim - fossem os professores da aluna indisciplinada que eu sou. Me sinto pequena perto deles, precisando sempre de suas amorosas mãozinhas prá me guiar e de suas palavras prá despertar o que adormeceu dentro do meu coração.

E preciso do exemplo de fé do Marildo, meu companheiro de quarto que agora dorme longe de mim prá eu não adoecer...

Dentro desta casa que nos custou tanto pagar eu sou a obra que constantemente precisa de reparo, construção em andamento de um coração que mereça ser chamado de bom.

Mas um dia eu chego lá...


domingo, 4 de outubro de 2020

As Quatro Estações


 

E como continuar acreditando que existem quatro estações nesse mundo de hoje? Quase 40 graus no começo de outubro - eu aqui imaginando como será lá prá dezembro, janeiro, com pandemia, com o Pantanal e a Amazônia sendo incinerados do planeta...

Me vejo de coração apertado pensando em toda biodiversidade que se vai sem retorno, tudo em nome do lucro. E nosso Excrementíssimo Presidente culpando os índios, as Ongs, que segundo ele estão queimando tudo prá sujar o nome e a reputação dele.

Aliás eu não paro de perguntar a Deus POR QUÊ isso tudo está acontecendo com nosso amado país... 

Não sei se Ele responde e eu não ouço ou se a pergunta já tem sua resposta clara e gritante: Bolsonaro é o reflexo do nosso próprio povo - algo que estava o tempo todo na minha frente e eu inocentemente ou propositalmente não percebia...

Um tempo atrás - um ano ou dois, não me recordo - meu cunhado nos convidou prá um duplo aniversário: dele e do seu casamento. Foi numa comemoração na Igreja dele, na qual um pastor foi "contratado" prá fazer uma pregação especial pela ocasião.

Meus filhos não quiseram ir, pois não tem paciência prá frequentar quaisquer tipo de festas familiares que não sejam os aniversários dos sobrinhos - especialmente pela eterna ladainha de nos arregimentar prás religiões deles. 

Fomos então apenas eu e o Marildo. 

Foi como era esperado. Pregação privilegiando o Antigo testamento, com menção de nomes como Efraim, Manassés - nomes que na minha cabeça eu sempre interpreto como Jambolão (que é nome de fruta mas que me lembram aqueles nomes mencionados no Antigo Testamento...). 

Prá mim, como pessoa formada em Direito e razoavelmente bem informada, o próprio nome "Antigo Testamento" significa algo ultrapassado pelo Novo - tanto é que no antigo se pregava extermínio em nome de Deus e o próprio Filho Dele veio derrogar tais leis primitivas e contrárias ao amor e ao perdão...

Mas, continuando... 

Lá estava eu sentada no templo - que fica a uma quadra da minha casa - ora ouvindo uma pregação sem pé nem cabeça, um monte de palavreados bíblicos inócuos, ora escutando canções entoadas pelos fiéis com uma ou duas estrofes apenas, repetidas à exaustão, frases que diziam prá Deus o quanto queriam estar diante do Seu Trono, o quanto Ele era grande e poderoso, o quanto esperavam que Ele destruísse seus inimigos - com meus sobrinhos tocando os instrumentos, minha sobrinha puxando o canto. O de sempre.

Então, quase ao fim do culto o pastor resolve falar sobre o motivo da reunião - o aniversário do meu cunhado e a comemoração de mais um ano do seu casamento.

E de forma absurda prá mim - pelo menos - o pastor começou a discorrer sobre homossexualidade. Sobre como isso era pecado e as pessoas que viviam dessa forma iam queimar no fogo do inferno. Como isso era abominável, vergonha prá família, crime...

Vários familiares da minha cunhada foram ao microfone dar os parabéns e também deram suas opiniões sobre homossexualidade.

E eu pensei: "Que negócio é esse? De onde tiraram isso?"

Bom, acabou o culto, fomos todos pro salãozinho da igreja comer as guloseimas - eu desesperada por uma cremosa fatia de bolo - cumprimentei todos que eu conhecia, outro tanto de desconhecidos e, sentadinha confortavelmente numa cadeira fiquei quietinha observando as pessoas enquanto era servida pelo Marildo, sempre preocupado com a moela trituradora de sua amada esposa.

Reparei nas pessoas conversando coisas do tipo; "Acho que dessa vez ele se toca", "Ele precisa entrar no caminho do bem" "Do jeito que tava não podia continuar, só causa vergonha prá família"...

Terminei de comer e fui no jardim do templo pegar um ar fresco, dentro do salão tava muito cheio de gente, muito abafado, muito barulhento. Lá estou eu sentada no banquinho de madeira em meio às folhagens frescas, aquela noite linda estrelada, aquela paz da barriga cheia de gostosuras quando eu ouço...

O filho mais velho da irmã da minha cunhada conversando emocionado, quase aos prantos, com alguém do outro lado da linha que parecia ser muito íntimo dele, a quem ele confortava e era por sua vez confortado, a quem ele repetia que tudo ia dar certo.

Ao me ver ele desligou às pressas o telefone e caminhou rápido de volta pro templo e aí eu entendi tudo.

Essa irmã da minha cunhada queria desde sempre ser mãe. Era a mais velha, tia dos filhos das irmãs e dos irmãos mas nunca nem ficava grávida. Cansada de esperar e com muito amor de mãe prá dar ela e o marido adotaram um menino - e, como é comum nesses casos, ela finalmente engravidou.

O tempo foi passando, o marido dela cada vez mais demonstrando de que material era feito - beberrão, violento, preguiçoso - acabaram se separando. E ela continuou trabalhando e mantendo a casa e os filhos, como já fazia antes, só que sem ter que carregar um peso morto.

O menino mais velho - o adotado - era a criança mais doce, bem comportado, estudioso, logo começou a trabalhar prá ajudar a mãe. Frequentador da igreja, se dando muito bem com os primos, cantando no coral.

O segundo filho, entretanto  - o de sangue - uma verdadeira peste: sempre malcriado, desobediente, brigão. Sempre com as piores companhias desde cedo, agressivo com a pobre mãe, se tornou usuário de drogas, praticante de pequenos furtos aqui e ali até ser preso na FEBEM.

E - por incrível que possa parecer - era contra o menino mais velho aquele sermão encomendado pelo meu cunhado, sua esposa e a mãe do rapaz.

Ser homossexual é, para eles, o maior dos crimes. Preferível ser desordeiro, violento e ladrão a ser homossexual. De que adianta ser responsável, carinhoso, companheiro? Se você é tudo isso mas é gay você é um pária, um condenado ao inferno.

E esse é o país em que vivemos. 

Uma nação que se escondia atrás do politicamente correto fermentando no peito todo tipo de preconceito. E, com a ascensão de uma criatura corrupta e mentirosa, que não tem filtro nem vergonha de se expor com toda sua baixeza, todos os insetos e cracas que se escondiam debaixo das pedras resolveram vir à luz.

Está aberta a caça aos homossexuais, a todos os que pensam diferente desse grupinho torpe e vil que nos governa, a todos que não tem a pele branca e que não se encaixam nas religiões por eles aceitáveis: está completamente dentro da lei ser racista, misógino, zombar do fraco, do diferente...   

Acha-se no direito de se candidatar à Prefeitura de São Paulo um reles cocôzinho de mosca que fez fama no Youtube e que, com a atual conjuntura do país, se vê no direito de ofender e incitar agressões contra um padre idoso que trabalha em prol dos moradores de rua... Afinal, vivemos numa democracia...

Não sei mais o que dizer e tenho tanta coisa prá falar mas, de que adianta?

Essa é a atual estação climática do Brasil. Nada da Primavera trazendo a esperança da renovação, nada da calmaria do Outono...

A lua está vermelha das queimadas no Pantanal e na Amazônia, o Sol está escaldante como os ânimos acirrados de todos os demônios disfarçados de gente caminhando pelo nosso solo amado...

Mas não são todos demônios - meu Deus, longe disso! Pessoas simples, desinformadas, facilmente manipuladas por notícias falsas nas mídias, nos grupos de WhatsApp...

Nesse panorama infeliz, um simples comentário que a gente faça pode ter consequências desastrosas na nossa vida - eu sei bem disso.

Quando o fogo no Pantanal já estava totalmente fora de controle eu comentei com um dos meus irmãos que tinham 160 pessoas tentando combater os focos de incêndio e que nenhuma delas havia sido enviada pelo Governo Federal - eram todas voluntárias. Prá quê? Bolsonarista roxo meu irmão usou essa brecha prá destilar veneno, prá ofender, prá desejar que as reformas do governo acabem com a estabilidade do meu marido e dos meus filhos - todos funcionários públicos - que é pros meus filhos verem "como é bom trabalhar pela CLT ou mesmo perder o emprego, que é prá deixarem de ser um bando de mimadinhos privilegiados"... Meus filhos, que entraram em concurso público depois de estudarem muito - concursos esses que meu irmão também prestou, mas que achou que entraria por merecimento divino e assim nem se deu ao trabalho de estudar.

Desde esse dia ninguém mais da minha família fala comigo. Não atendem ligações, não respondem mensagens...

Em nenhum momento ofendi meu irmão nem ninguém, só comentei que com um contingente tão grande de soldados no nosso exército, todos parados, sem fazer nada, mais lógico seria mandá-los combater o fogo na Amazônia e no Pantanal - apenas isso.

Que tipo de mãe corta relações com a filha que mais cuida dela por uma absurda questão política? Que tipo de mãe só ouve um lado da história? Que tipo de mãe não dá a uma filha sequer o direito de falar?

Todo dia eu acordo triste. Às vezes sinto vontade de continuar na cama, simplesmente olhando pro teto, esperando o sono voltar, o tempo passar, a tristeza ir embora.

Mas essa vontade dura apenas alguns segundos: dentro de mim uma voz me diz que não fazer nada não muda coisa alguma, então eu respiro fundo e vou prá máquina de costura. 

Agora estou fazendo calcinhas e cuecas prá doar pros moradores de rua. Padre Lancelotti disse numa entrevista que os moradores de rua ficam muito felizes quando podem vestir uma peça íntima que é só deles, que usar calcinha e cueca velha dos outros é muito triste - e como acabaram meus moletons e como o frio já foi embora eu agora estou me dedicando às calcinhas e cuecas. 

Com o dinheirinho das costuras comprei cortes de malha de algodão, cortei centenas de peças e estou costurando. Comprei também pacotões de absorventes femininos e quando as peças costuradas estiverem prontas eu vou montar kits com 3 calcinhas e dez absorventes para as mulheres e kits de 3 cuecas para cada homem.

Às vezes me dá agonia de ficar aqui trancada, longe do Marildo, longe da família, sem bater minha hora diária de papo com minha mãe e meus irmãos. Sou humana e sinto solidão, fazer o quê.

Mas não cai um só fio de nossa cabeça sem que nosso Pai assim o permita, não é o que Jesus dizia?

Olhando agora, tão de perto, no olho desse furacão, tudo o que vemos à nossa volta é desordem, discórdia, cataclisma, dor... 

É assim mesmo. Em meio a toda comoção sempre existe essa sensação de que nada vai mudar, que tudo está perdido, que não tem conserto...

Mas o tempo passa. 

Tudo passa.

Quando minha família precisar de mim de novo sei que eles voltam a falar comigo. Já aconteceu antes e essa não vai ser a última vez em que se portam como idiotas.

Esse governo também vai passar.

Os direitos que foram tomados dos trabalhadores voltarão a ser conquistados, pois é prá frente que o carro anda, mesmo quando momentaneamente ele pára por causa de um pneu furado.

Algumas sementes morrem com o fogo, outras tem a casca tão dura que só eclodem em meio às chamas.

"Coragem!" - eu grito prá mim mesma. "Não desanima!". 

"Trabalha!"






"Cria coisas úteis prá combater essa sensação de mãos amarradas, tenta produzir beleza prá combater a feiúra da situação.

E segue vivendo, que se a genética se cumprir você ainda tem bem uns 40 anos pela frente neste mundo" - haja paciência...

Ah, se por acaso você é um dos eleitores do "coiso", por comungar com as ideias dele ou por haver sido enganado pelas mídias, saiba que eu te perdoo. Afinal acredito nas palavras de Jesus e perdoar é uma das suas mais lindas lições de vida. 

Mas saiba também que os comentários continuam sendo moderados pelos meus filhos - então não perca seu tempo me ofendendo se discorda de mim, afinal o blog é meu.

Que Deus te abençoe e vamos todos rezar prá vir logo a Primavera...

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O valor das coisas perdidas


"Mas que postagem esquisita é essa, Dona Rosinha do Céu, começando justo com um besouro que rola cocô"

Eu também quero ver onde vai dar isso - já que a ideia brota e meio que a gente não se dá conta de prá onde o caminho leva...

Vamos ver...

É meio assim: tem coisas no mundo que muitas vezes passam batido à nossa percepção - estão lá como pano de fundo de tudo de espalhafatoso que acontece ao nosso redor, mesmo se a gente olhar prá elas logo desviamos os olhos atraídos por outra coisa e seguimos vivendo. Meu marido diz que a gente não perde calorias pensando nisso.

As pedrinhas que a gente encontra pelo caminho - pedrinhas mesmo, e não os estorvos que nos atormentam a jornada.

O morador de rua prá quem a gente lança um olhar de pena e segue a vida, às vezes se sentindo magnânimo por ceder-lhe uma moeda...

Os sacos plásticos de que a gente se desfaz quando chega do mercado, da feira e que não servem prá mais nada, por estarem rasgadinhos...

As embalagens de papel e papelão que um dia já foram uma árvore...

Os trapos que sobram de uma costura e que não nos inspiram a fazer nada...

Nós mesmos, perdidos neste mundo tão lindo e às vezes tão sem sentido, tão cruel...Numa existência que às vezes parece ter somente o propósito de ocupar espaço, fazer barulho, consumir e ser consumido, sem um propósito superior...

Eu mesma, por diversas vezes, já me senti perdida. Sem valor. Impotente. Coisa minha, derivada da falta de alguns hormônios no sangue ou de uma voltinha torta nos cordões do cérebro ou de uma alma titubeante na fé (talvez uma mistura de tudo isso...). Às vezes - vocês hão de concordar comigo - é muito difícil e complicado ser humano.

Eu presto atenção em tudo. Eu reparo em ovinhos que alguma aranha depositou na grade do meu portão, olho eles bem de perto, admirada de sua fragilidade e beleza. Admiro as plantinhas que nascem nas rachaduras da minha calçada, me perco nos desenhos intrincados dos meigos olhos das minhas cachorrinhas, ouço os cantos dos diversos passarinhos que visitam meu jardim, abstraindo os diversos sons que competem com eles, sejam pessoas conversando, carros passando, música tocando ao longe, o chiado da panela de pressão cozinhando o feijão.

Percebo tudo e tudo assimilo - sou uma esponja.

Mesmo em tempos de pandemia eu ainda continuo conectada ao mundo, ora catando uma alegria escondida numa fresta da vida, ora açoitada pelas notícias ruins que chegam e para as quais volto a pensar na minha impotência. Porque vejam: mesmo se eu não fosse uma velha, mesmo se eu não fosse doente, ainda assim praticamente tudo me escaparia ao controle. Nossos braços já nos mostram o limitado alcance do nosso ser.

Muitas vezes já me senti perdida, sem valor. Muitas vezes fui aquela ovelhinha perdida da parábola de Jesus - e sempre fui resgatada do barranco onde me encontrava caída. Muitas vezes fui carregada nas costas - sem que, naquela hora, me desse conta disso...

Todos nós precisamos do tempo prá aprender, prá crescer ou simplesmente prá avaliar as situações pelas quais passamos. Tempo prá construir nosso castelo com as grandes pedras que encontramos pelo caminho. E também prá acrescentar algo na nossa vida com as pedrinhas pequenas, sem nenhum valor aparente.

Chegamos então naquele besouro do começo da postagem. 

Besouro de Esterco, Besouro Rola Bosta, um besouro africano hoje espalhado sabiamente pelo homem ao redor do mundo todo. 

Esse inseto que nos causa repulsa à primeira vista é, prá mim, mais uma prova da sabedoria de Deus. 

Ele não come o esterco - como pensam algumas pessoas. Ao invés disso ele coloca no esterco seus ovinhos - como o fazem também as moscas (só que estas, ao eclodirem, empesteiam a natureza, adoecem os animais e as pessoas), se apodera daquele pedaço de esterco que contem sua descendência e segue rolando ele na terra, misturando tudo. Fica uma bolinha bonita, bem redondinha - e ele a empurra, sobe em cima dela como um palhaço equilibrista o faria num circo, movendo as perninhas com rapidez prá chegar ao seu destino. 

Daí ele cava um buraco na terra e enterra lá sua bolinha. Ali a bolinha aduba o solo pro plantio, enquanto a natureza se encarrega de trazer mais besourinhos ao mundo - e, de quebra, controla a população de moscas e outras pragas.

Tudo bem orquestrado por Deus prá nada se perder - afinal Deus é o maior dos recicladores, nas suas mãos nada se perde, nem mesmo as almas, acredito eu.

Eu assisti outro dia uns vídeos no youtube  onde pessoas estão fazendo tijolos de construção com garrafas pets derretidas - o homem tinha um fogão de lenha no fundo do quintal onde ele colocava uma panela bem funda e, no fogo alto, ele ia colocando garrafas pets e empurrando com um pedaço de madeira - elas derretiam como se fossem feitas de gelo. Ele ia jogando garrafas e mais garrafas até a panela ficar cheia daquela matéria derretida e então, com cuidado, ele derrubava o líquido fumegante em formas de madeira e as prensava. Quando esfriavam ele retirava tijolos lindos prontos prá fazer um muro, erguer uma casa - sem poluir o mundo com mais plástico que não é biodegradável.

Uma universidade no sul do Brasil faz diversas coisas com  tábuas produzidas a partir de saquinhos plásticos descartáveis usando um processo semelhante - bancos que já duram anos, que não são corroídos pelas intempéries, que não mofam como acontece com a madeira.

O tipo de coisa que me diz que a humanidade tem futuro.

Então eu reparo em mim mesma - já que, como eu disse, reparo em tudo - e nesses momentos em que me vejo por dentro eu enxergo além da mulher que envelheceu tão depressa, que adoeceu sem perceber porque achava normal sentir dores e tristezas: eu enxergo a criatura sonhadora e curiosa, pró-ativa e guerreira e vejo que não sou, de forma alguma, impotente.



Do papelão no qual veio a televisão da sala eu fiz um enorme quadro, medindo 0,80 por 1,5 m, pintado com tinta acrílica, tinta à óleo, tinta PVA e até esmalte de unha, que meus filhos amaram tanto que mandaram emoldurar. Inspirado nas obras de Tarsila do Amaral - que são bem simples e coloridas, com a ajuda da Fernanda prá criar uma mistura de vários quadros dela em um só.



Do papelão de uma caixa de ovos eu fiz papel maché e com ele fiz um presépio.

Numa viagem às cachoeiras de Capitólio/MG eu fui catando pedras e mais pedras - pobrezinho do meu filho, carregava todas numa mochila nas costas durante nossos passeios.

Fiz casinhas de fada pras floreiras e pros vasos:



Criei uma cidadezinha em cima de uma fatia grossa de árvore - meu filho fez da rachadura da madeira verde um laguinho no meio da minha cidade, que tem postes de luz feitos de palitos de dente, ponte de palitos de sorvete, casinhas, montanhas e até o sol dourado feito de pedra - e carros minúsculos feitos de pedrisquinhos perdidos na natureza (tem até ônibus escolar...).



As fotos não ficaram à altura da Cidade da Rosa.



Um bule velho virou um vaso onde também habitam fadas - está faltando só meu filho fazer furos no fundo, prá encher de terra e plantar talvez uma samambaia - ou petúnias, adoro petúnias.



De sementinhas caídas no chão na porta do convento onde a Irmã Dulce morou eu fiz este lindo colar - meu filho teve o maior trabalho prá me deixar feliz, furando uma a uma com uma broquinha minúscula!

Eu não paro de costurar. Fiz centenas de máscaras, algumas minha filha doou no hospital prá pacientes sem máscara no começo da pandemia, mas a maioria (como eu disse em uma postagem anterior) eu vendi, bem baratinho - mas ainda com lucro. Comprei chinelos em uma fábrica e uma pessoa amiga doou prá moradores de rua na praça João Mendes, no Parque D. Pedro e no Largo da Concórdia.

Fiz muitas bolsinhas porta-celular e as vendi como água, também no hospital onde minha filha trabalha. Muitas toucas cirúrgicas e necessaires, costurei tanta coisa que muitas vezes me espantei comigo mesma - como esta velha é poderosa, afinal de contas!

Comprei retalhos de diversos tamanhos de moletom grosso e fiz centenas de toucas, também distribuídas pros moradores de rua.

Com duzentos reais de retalhos comprados na mesma fábrica de malhas que fica aqui na Penha eu fiz 35 blusas de frio prá quem mais precisa e agora estou dando cabo daqueles retalhos que comumente vão pro lixo:




Não tá nada que se diga "Nossa! Que blusa mais linda maravilhosa!" mas, prá quem mora no relento, mais vale uma blusa toda feita de emendas do que tiritar de frio, não é mesmo? 

E prá amanhã minha família já vai buscar nessa fábrica mais trezentos reais de retalhos prá mesma finalidade: fazer do mundo um lugar melhor, um pouquinho por vez.

Eu acabei fazendo amizade com o encarregado da malharia, ligo prá ele e peço prá ir juntando os retalhos prá mim, das peças que saem das máquinas com algum fio puxado num pedaço, uma mancha de óleo, um defeitinho... (Até pensei assim: ele deve conhecer muita gente que fabrica agasalhos e que joga fora retalhinhos pequenos, eu bem que podia pedir prá ele falar com o dono de uma delas e ver se me davam os retalhos que vão pro lixo - mas escutei na minha cabeça minha família me chamando de lixarenta, que não tem espaço em casa prá esse tipo de tralha e que eu tenho que me satisfazer com o que a gente compra - e eles estão certos...).

Bom, tô "milionária". Ganhei um bom dinheirinho e ele será totalmente usado com quem tá precisando. Deus me dá forças, me dá minha Nana que percorre o hospital na sua pausa de almoço vendendo minhas peças e com isso posso ser feliz trabalhando, produzindo e ajudando. Me dá inspiração e propósito.

Imaginem vocês: uma pessoa que mora na rua, que não tem ninguém no mundo por ela - ou porque tem problemas mentais, ou é drogado, ou não tem mesmo prá onde ir. Faz suas necessidades na rua, sem privacidade nenhuma. Não tem onde tomar um banho quentinho, dorme no chão frio - às vezes, com sorte, em cima de um papelão. Se tiver uma dor não tem a quem recorrer, não tem alguém que se preocupe se ele vive ou morre. Come do que implora prá quem passa. Veste aquilo que ninguém mais quer.

Dá prá sentir a solidão? A tristeza? O abandono?

"Porque tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Estava nu e me vestistes. Estava doente ou no cárcere e fostes me visitar. Porque quando fizestes isto a um destes pequeninos, a mim o fizestes" 

Mas Jesus, Você está bem. O pouco que faço, na verdade, não sinto que faço por Você. Sinto que faço por eles e por mim, porque eu sou eles. Eu fecho meus olhos e sinto o frio e a fome, a solidão e a dor. 

Cada blusa de retalhos é uma pessoa a menos com frio no mundo. E o mundo, naquele momento, se torna um mundo melhor.

Então, se posso dar um conselho a vocês - não apenas prá esses tempos de pandemia, mas para a vida: auxiliem o próximo em necessidade. Façam o melhor que puderem sempre. Prestem atenção à sua volta, vejam no que podem ajudar, seja com um prato de comida, uma peça de roupa quentinha, um trocado acompanhado de um minuto de atenção prá quem se sente invisível, abandonado e só. 

Alguém muito sábio já disse: "Seja a mudança que quer ver no mundo".

E aqui sigo eu, rolando minha bolinha de retalhos e pedrinhas, coisas que ninguém quer e sementinhas, a fim de fazer eclodirem meus sonhos...