Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Irmãos e irmãs


Algumas coisas que hoje acho fácil - e até prazeroso - fazer já foram um bicho de sete cabeças prá mim. Escrever, por exemplo. Embora meu blog esteja meio abandonado às traças - por falta de tempo, diga-se de passagem... - escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. 

Às vezes acho que se me fosse dada a chance, se eu não tivesse obrigações para com a minha casa, minha família, minha saúde e diversas pessoas que precisam de mim à minha volta eu poderia me sentar na frente do computador e digitar uma história atrás da outra - principalmente porque minha cabeça vive atolada delas e à cada dia que vivo neste mundo mais e mais histórias chegam para abarrotar meu baú...

Esta é uma história de dois tempos: um pedaço dela é passado e uma corrente invisível a prende a sua parte no presente - e, se querem saber, muito provavelmente será uma história de três tempos, pois muitos personagens foram surgindo e participando dessa novelinha triste...

Uma vez - eu estava na terceira série do primário - minha professora Dona Antonia nos deu uma redação de uma folha ou mais sobre os passeios que tínhamos tido nas férias do meio do ano. Coisa mais fácil para a maioria das crianças, com seus passeios para a praia, suas idas ao clube ou visitas às casas dos parentes. Não prá mim. Acreditem se quiserem: minha redação foi toda sobre minhas visitas ao cemitério da Penha junto de minha avó, para ajudá-la a pintar o túmulo do meu avô e replantar as flores. Foi uma redação muito difícil de fazer, pois eu bem sabia que aquilo não era passeio. 

Mas eu não podia entregar uma folha em branco prá minha professora...

Nem preciso dizer a cara de pena dela e a zombaria de que fui alvo por conta das outras meninas...

Acontece que o único outro passeio que surgia era um que eu odiava fazer: visitar minha nona. Eugênia era seu nome e Deus me perdoe, mas eu não gostava de visitá-la. Ela havia morado um tempo conosco e não havia dado certo: ela passava o dia todo sentada na varanda apreciando a vida ou deitada na cama descansando - ao contrário da minha avó Leonarda, que sempre vivera conosco, e que era o braço direito e esquerdo de minha mãe: dava banho nas crianças, lavava as roupas, fazia comida, enquanto minha mãe costurava, trabalhava de manicure, vendia roupas - o que precisasse e aparecesse e fosse honesto prá colocar o pão na nossa mesa. 

A nona não ajudava com nada: dormia na melhor cama, se servia da maior parte da comida - a ponto de beber sozinha o pouco leite que tínhamos, deixando os pequenos sem mamadeira... Quando qualquer pessoa dizia prá ela que o leite era pros mais pequenos ela respondia que tudo ali era do filho dela e que, por isso, era dela.

Pobrezinha. A vida havia sido muito dura com ela e, por causa disso, ela abocanhava tudo o que podia, quando aparecia na frente dela, sem pensar em mais ninguém... Mas, naquele tempo - ao contrário de hoje - meu coração ainda era um pouquinho duro (enquanto hoje tá mais prá uma polenta...) e eu não tinha muita paciência com ela... Também era difícil: minha avó Leonarda deixava de comer prá dar prá gente - dava prá não comparar?

Infelizmente, no final, eu acabei falando pro meu pai que ela tinha que ir embora - sempre eu, pois se dependesse da minha mãe ela não abria a boca, de medo de apanhar e as coisas ficavam como ficavam. Eu disse pra ele que ela não podia ficar porque comia tudo sozinha e ela voltou a morar com uma das filhas - e eu levei uma bela surra, daquelas bem dadas de cinta com fivela...

Tadinha. Com qualquer filha que ela ficasse sua vida era um inferno. Tão pequenininha - menos de um metro e meio - corcundinha, quase cega... Me lembro que quando ela bebia café a ponta do nariz encostava no líquido e ela o queimava - tão nariguda que era... Acho que vou ficar igual - maldito gene italiano esse que de algum lugar da Itália gerou essa napa...

Bom, como eu ia dizendo antes de ser interrompida por mim mesma e minhas lembranças, o pior passeio do mundo era visitar a noninha. 

Fosse na casa da tia Clarice - uma mulher enorme e extremamente branca, com cabelos encaracolados compridos pintados de preto retinto e lábios finos mal pintados de batom vermelho - ou na casa da tia Ivone - que fazia o tipo mulherão, muito peito, muita bunda, olhos verdes enormes e cheios de maquiagem - o passeio era sempre assustador.

Ambas eram mulheres repletas de vícios e cujas virtudes eu desconheço completamente - embora deviam tê-las, como todo ser humano, mas nunca vi, então não posso falar.

Posso falar que bebiam como homens, riam e falavam alto, diziam muitos palavrões e tratavam a mãe pior do que algumas pessoas costumam tratar seus cachorros. Era costume a gente encontrar a noninha cheia de hematomas - e, com as filhas perto, ela dizia ter tomado um tombo, daí as filhas saíam e ela agarrava a gente e praticamente gritava nos nossos ouvidos um pedido de socorro, que as filhas é que batiam nela...

Meu pai então descia o sarrafo nas irmãs - coisa imbecil de se fazer, pois depois que a gente saía sobrava prá pobre velha...

As casas de ambas eram sujas, paredes encardidas, fogões cheios de crostas, banheiros imundos e fedorentos. Elas eram mulheres fortes e saudáveis, mas sofriam de preguiça crônica. Na aparência andavam alinhadas - limpas, bem penteadas (especialmente a tia Ivone, que era muito bonita) mas fora isso... 

Hoje também sinto pena das duas - como eu disse, a gente vai ficando velha e somos diferentes das galinhas: dizem que as galinhas velhas só servem prá caldo, pois ficam com as carnes duras - mas nós, mulheres humanas, vamos ficando molinhas por fora e por dentro, eu acho. Pelo menos eu tô ficando mais mole a cada dia...

Então... Num desses passeios (forçados) à casa da minha tia Ivone - prá piorar foi num fim de tarde, chegamos lá já tinha anoitecido e qualquer lugar deprimente à luz de uma lâmpada de 60 velas fica ainda mais deprimente - e lá meu pai bateu palmas à porta.

Minha tia Ivone apareceu, arrumada e perfumada e questionada por meu pai disse que ia sair daí a pouco com uma amiga, visitar alguém doente (e parece que naquele tempo essa desculpa ainda era fresca, pois meu pai nem fez cara de "sei...")...

Meu pai foi até o sofá de molas quebradas, afundado no meio, onde a nona se sentava curvadinha e cega, naquele cômodo escuro e mal ventilado.

Cheirava a urina a pobrezinha... Hoje eu me lembro e sinto vontade de chorar o que não chorei, de sofrer o que não sofri - e amaldiçoo a passagem do tempo, que está me fazendo ficar assim... Mas dou bronca em mim mesma e me digo que de nada adiantaria, que já passou, daquela gente gente toda a única que tá viva ainda sou eu e chorar não vai fazer ninguém mais feliz nem mais nada...

Meu pai foi até ela, a levantou no colo como se fosse uma boneca, a encheu de beijos piniquentos de barba por fazer (que ela reclamava rindo e rabugentando ao mesmo tempo) e ele a chamava de "Catatau" - minha Catatauzinha velha, Catatau "fidida", Catatau linda... As pessoas mais malvadas, de coração mais duro, muitas vezes tem um afeto sincero e comovente por alguém - e pro meu pai essa pessoa era a mãe dele. Ainda bem, fico feliz por ele. Seria muito duro se ele não amasse ninguém...

Enquanto ele passava um tempo ali, com sua mãezinha velha, eu tive minha atenção chamada prá uma pequena prateleira que ficava presa na parede entre o fogão e a geladeira, tão encardida quanto tudo o mais na casa, mas que adquiriu um fascínio imediato aos meus olhos de criança: dispostos na prateleira haviam miniaturas de garrafas de Coca Cola, Guaraná Antártica, cachaças e vinhos, todos enfileirados e bonitinhos - parecendo terem sido criados especialmente prá crianças brincarem com eles! Todos amostras que minha tia recebia por ser promotora de bebidas (o emprego certo prá ela - seria como se me colocassem prá vender chocolates, praticamente...). 


E dentre as garrafinhas haviam dois bonequinhos de comercial de televisão, de uma marca de arroz conhecida naquele tempo. Um deles era o arroz Brejeiro - um grão de arroz alto e bonito, de chapéu, todo alinhado - e seu rival arroz Marinheiro, que representava as marcas de arroz inferiores, cujos grãos vinham quebrados no pacote, que era um grão meio torto e baixinho, com uma perninha de pau.

Meus olhos quase saltaram da cara e eu pedi prá minha tia se ela podia me dar o bonequinho!

-"Qual deles?" - minha tia Ivone disse.

-"Ora, o marinheiro, é claro!" - pois era claro prá mim, o grandão branquinho era tão sem graça, sem personalidade em sua perfeição de formas! O Marinheiro era feio mas era ele, não era qualquer coisa branca e perfeita, era perfeito na sua feiura e rabugice...

Minha tia Ivone me disse que podia me dar o Brejeiro ou qualquer garrafinha que eu quisesse - mas não podia me dar o Marinheiro, de jeito nenhum.

Como eu insistisse muito, como as crianças fazem,  minha tia pegou o boneco da prateleira, me levou prá mais longe do meu pai e me mostrou o motivo de não poder me dar o bonequinho:

-"Não posso te dar este boneco porque ele é teu pai! Tá vendo o chapéuzinho dele? Eu cortei aqui em cima e enchi de pinga - é uma mandinga pro teu pai, menina boba. Se contar prá alguém faço uma prá você também, não duvida. Por causa deste bonequinho teu pai vai beber até morrer..."

Saí dali tão assustada...

Cheguei em casa contei prá minha mãe e prá minha avó, que se puseram a rezar, dizendo que isso nunca ia acontecer, que Deus não ia deixar.

No entanto, demorou muito prá Deus não deixar... 

Meu pai bebeu quase a vida inteira, como sua irmã havia dito. Contudo, depois do primeiro derrame, sem forças nas pernas prá andar sozinho na rua, após pedir ajuda prá meu irmão Tato prá ir resolver "problemas inadiáveis" que acabaram sendo no bar, ficou permanentemente preso por minha mãe em casa - onde não lhe faltava Uma boa televisão colorida sóprá ele, boa alimentação com frutas e verduras em abundância, bolinho de fubá sempre que lhe apetecia, barba e cabelo aparados no capricho por minha mãe e apenas 4 cigarros por dia - e nenhuma cachaça, nem mesmo cerveja.

Viveu por onze anos após o segundo derrame, sem uma gota sequer de álcool no sangue. Viveu quase vinte anos a mais que essa irmã, que tanto mal desejava a ele.

Passou, se foi, ainda dói quando eu lembro - como não. Mas passou.

Dia desses um dos meus irmãos ficou cercando de atenções e gentilezas uma das minhas irmãs - a que é solteira, muito doente de asma, sofre de obesidade mórbida - até aparecer com um papel prá ela assinar, abrindo mão em favor dele da parte da herança que ela tem direito pela morte de meu pai. 

Disse que era só prá ver se ela era uma pessoa de Deus, que também não se apega aos bens materiais, como ele, a esposa e as filhas são. Pastor evangélico, diz que ele e sua família "não são deste mundo" como o resto de nós, que só queria esse papel assinado por ela como "uma prova de fé"...

Depois disso minha mãe me pediu ajuda prá fazer um testamento, no qual ela pretende doar a parte que a lei lhe permite pros filhos mais necessitados, tentando assim protegê-los como não foi protegida...

Fui com ela no tabelião me informar, com o coração na mão. Eu de bengalinha azul, nós duas de Uber - que aprendi a usar (Uhuuuu!), nós duas de coração apertado no peito.

Duro saber que depois de tanta dor, tanta fome, tanta privação que passamos todos juntos um dos meus irmãos quer tirar o pouquinho do pão da boca dos outros!

Minha mãe sabe que eu não quero nada - renunciei em favor do Tato. Meu marido concorda comigo, também meus filhos. Minha mãe insiste que eu tenho direito, que eu sou filha, que pela lei uma parte é minha - mas meu coração tem outra lei, preciso obedecê-la em prol da minha paz.

A vida já me deu tanta coisa - batalhei por tudo, mas a vida me deu. Toda vez que agi certo a vida me ajudou, sempre - nunca Deus me deixou na mão, então... Tem gente que batalha a vida toda e não consegue nada - eu consegui. Meus irmãos precisam mais do que eu e assim não quero nada.

E olhando por uma outra perspectiva, é tudo uma questão de lógica na educação. Vejam bem: falar pros meus filhos se amarem e se ajudarem sempre é uma coisa - acaba caindo no blá-blá-blá. Muito do que se ouve entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas se eu vivo a coisa, se eu demonstro pros meus filhos como eu acho certo agir, sirvo de exemplo. Mais do que através de palavras eu vivo e deixo gravado nos corações deles que, em qualquer momento das vidas deles, se um precisar do outro, tem que ajudar. Trabalho de irmão nunca acaba - assim como trabalho de mãe. Tem que amar sempre, estar sempre pronto prá estender a mão e ajudar.

No fim, a gente vai embora mesmo e não leva nada...

Meu marido só fica bravo de eu ter que andar com minha mãe prá lá e prá cá, ora confortando, ora levando no médico, ora cuidando de documentos. Diz que eu tenho outros irmãos, "ninguém mais pode ir, tem que ser você?" e eu respondo que nem me pergunto isso. Nem quero saber se outro pode ir no meu lugar. "Minha mãe não vai viver prá sempre e eu não quero ter nenhum arrependimento, é pesado demais carregar isso pela vida toda..." e faço o que quero, com todo o respeito que devo a ele.

O meu seriado favorito de televisão - Doctor Who - me diverte e me ensina muito. Tem uma frase que o Doutor diz que é assim:



"Somos todos histórias no final. Apenas façamos com que seja uma boa história"... Tão simples, não é mesmo? E tão verdadeiro! Hoje compartilhei um pouquinho das histórias minha e de outras pessoas que já se foram. E se eu contei, elas ainda não caíram no esquecimento - ainda vivem neste universo, servindo de testemunho de sua passagem, distração e exemplo prá quem lê. Infelizmente, nem todas tiveram final feliz...

Querem mais uma alusão televisiva, do tipo "a vida imita a arte"? Big Brother Brasil. Ô programinha de m*, representação maior do que a humanidade tem de mais medíocre! Um bando de gente desocupada... Pois bem: todos nós vivemos num grande Big Brother, no qual somos assistidos o tempo todo por nosso Pai, que está em toda parte e não apenas no céu, mais nossos anjos da guarda e todos aqueles que amamos e que se foram antes de nós. Que audiência devemos ter! E que tristes imagens devemos transmitir às vezes... Então façamos o melhor de nós, sempre - se não por nós mesmos, se não pelo próximo, pelo menos pela audiência!

Mudando de assunto: meu segundo neto nasceu - olha ele e o mais velho aí:


Lindos, não são? E eu fiz um pikachu pro mais velho, estilo naninha, enorme e muito fofo, totalmente lavável... Adorou.





Ando fazendo uns tratamentos muito doidos - além de acupuntura uma vez por semana estou também fazendo auto-hemoterapia (espia os hematomas que eu posso mostrar):




Também tô bebendo kefir de leite e kefir de água e caroço de abacate batido com água, tomando água com cloreto de magnésio, esfregando nos dodóis álcool com rama de melão caipira e rezando mais do que nunca - acho que se acreditasse em macumba prá ficar melhor, tava fazendo... 

O problema é que quando eu melhorar não vou saber o que foi que deu certo...

Minha mãe precisa de mim, meu irmão, meu marido e meus filhos... Tia Joanita me liga duas vezes por dia prá conversar as coisas mais banais só por conta da solidão e lá se vão mais de duas horas da minha vida. Queria acreditar numa daquelas religiões nas quais, depois de morta, a gente fica dormindo - pois me sinto tão cansada às vezes...

Mas seja o que Deus quiser. Enquanto precisam da gente a gente arruma forças, não é assim? Então, se eu sumir de novo, saibam que estou viva, muito viva. Só que na vida real, não na virtual...

Até qualquer dia!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um gato e alguns passarinhos

Primeiro que tudo - o gato:


É um saco de dormir prá bebê, pro meu netinho Fernando que vai nascer em março. Eu não pude ir no chá de bebê dele, não estava boa prá ir em festa (e foi maravilhosa, tantos docinhos, um bolo lindo, muita Coca Cola... Eu teria me esbaldado, "deitado o cabelo" nas guloseimas, mas minha família disse que eu não estava em condições, então me rendi ao inevitável. Você sabe que a coisa tá feia quando não te deixam ir a uma festa - se bem que eu me conheço, eu ia até melhorar no meio de tantas delícias... Mas, fazer o quê, né?...). Daí eu liguei prá ela, dizendo que não podia ir, que eles iam levar o presente que ela pediu - fraldas GG de montão - mas que eu queria fazer algo especial e tava pensando em fazer um saco de dormir, pois eu nem sabia que os tais existiam, tinha descoberto uns lindos no Pinterest e queria fazer... Ela então me pediu prá fazer grandão, pois já tinha ganhado um pequenininho de presente adiantado de uma prima e quando o inverno chegasse não iria servir mais.

Fiz esse de brim branco - ia fazer de soft ou de plush, tecidos mais macios, mas não são tecidos naturais, algodão é que é bom prás criancinhas - e brim é 100% algodão. 

Fiz ele bem grande, recheado com manta R2, todo matelassado. 

Comprei um travesseiro bem fofo, tirei ele do forro original, fiz um forro novo, oval, prá se acomodar no formato do gatinho. Depois do formato do gato ter sido dado, recheei as perninhas, bracinhos  e orelhas com manta acrílica e costurei um pedaço de tecido redondo, do tamanho de cada abertura, por dentro, fechando essas partes, pro enchimento não escapar - pois seria muito ruim fazer o forro também com orelhas, braços e pernas. Essas partes ficam fixas. Isso porque eu o fiz lavável - e só dava prá fazer desse jeito com a intenção de retirar o travesseiro de dentro.

Vejam que ele tem um zíper atrás:


É só abrir o tal zíper, remover o travesseiro, colocar na máquina prá deixar bem lavadinho, secar no sol e rechear com o travesseiro de novo.


E o zíper da frente é prá abrir e colocar o bebê dentro - o travesseiro de dentro é bem fofinho, afunda bem macio e vai caber o bebê confortavelmente lá dentro - e ele vai dormir quentinho e quietinho, sem se descobrir a toda hora.

Tem uma carinha simpática... Bordei com pedacinhos de feltro e linha de crochê.


Depois, quando não está sendo usado, pode servir prá enfeitar o bercinho, que ficou um gatinho bem engraçadinho - copiei de um gatinho que eu vi vendendo no Etsy, mas esse era pequeno, prá criança brincar...

Quando meu netinho crescer e não couber mais dentro o gato pode ser usado como almofada ou como porta pijama em cima da cama...

Agora vou ter que fazer um do Pikachu pro meu netinho mais velho, mas prá ele vou fazer menor, prá ele dormir abraçado - pois ele dorme abraçado num travesseiro... Acho que esse eu vou fazer de plush ou soft, pois acho que não tem mais perigo de dar alergia, ele já tem 4 anos de idade...

E então? Gostaram?

Agora vamos aos passarinhos...

Ano passado minha mãe me ligou no final de uma tarde chuvosa, toda alegre, me dizendo:

-"Ai, Rosa, você nem sabe... Tô toda ensopada..."

-"Por quê, mãezinha? A senhora saiu na rua num tempo feio desses?"

-"Não, filha... Eu tava lá fora segurando o guarda-chuva no ninho da passarinha... Ainda bem que teus irmãos chegaram e amarraram o guarda-chuva em cima do ninho, prá proteger os ovinhos..."

Essa minha mãezinha... Tá ficando cega, sofre de mácula degenerativa. Lê a Bíblia usando uma poderosa lente de aumento, pois os óculos estão praticamente obsoletos pros olhinhos cansados dela... Mas graças aos meus irmãos ela soube onde uma rolinha tava fazendo ninho: numa árvore violeteira que fica do lado da escada de entrada da casa... Então, estando sozinha em casa quando o temporal começou, ela imediatamente pegou o guarda-chuva e foi proteger o ninho da rolinha e se ensopou toda!

-"Mas mãe? E o teu reumatismo?"

-"Ah, filha... Deus protege! Tô tão feliz que nem me lembro das dores..."

Daí meus irmãos, prá isso não se repetir, pegaram uns arames e prenderam o guarda-chuva permanentemente protegendo o ninho, de forma que o mesmo não saísse voando com o vento. A passarinha parece ter entendido que estava sendo protegida, pois se deixou ser fotografada e até filmada pelo meu irmão... Eu peço prá ele me mandar as fotos pelo zap, prá eu poder postar - e ele, apesar de ter aprendido (comigo) a mexer, sempre esquece...

O guarda-chuva ali permaneceu enquanto os ovos eram chocados. Os filhotinhos nasceram, ela os alimentou - e o guarda-chuva lá, fazendo sombra e protegendo da chuva. Minha mãe acompanhou todo o processo, até os filhotinhos aprenderem a voar e todos eles abandonarem o ninho, seguindo suas vidas pelos céus afora da nossa Penha.

Minha mãe garante que a passarinha aparece volta e meia na janela prá visitá-la.

Então, duas semanas atrás, logo depois de uma chuva, um filhote de passarinho que não sabia ainda voar caiu do ninho bem no meio do jardim da minha mãe - que está ficando cega, sim, mas escuta que é uma maravilha e tem a cabeça afiada, melhor que a minha...

Ela escutou os pios do coitadinho e foi procurar, no meio das plantinhas... 

Ele fugia andando, com as perninhas fininhas igual palitinhos, e se escondia no meio das plantas. 

Meu irmão Tato havia comprado uma casa de passarinhos, sonhando que aquela passarinha do guarda-chuva e seus filhinhos quisessem permanecer no jardim prá sempre - ficou tão triste que isso não aconteceu! 

Ah, se vocês conhecessem meu irmão Tato! Ele é tão lindo!!! É alto, muito forte, tem a pele bem bronzeada, pois sempre trabalhou de pedreiro, dois olhos verdes que parecem faróis, brilhando no rosto... Mas só começou a falar papai e mamãe com 7 anos, tem a mentalidade de um menino de 12 - e as mulheres que o veem o acham lindo, paqueram, convidam prá sair - e ele fica todo vermelho, envergonhado... 

Acorda todo dia antes das 6 da manhã prá rezar o terço prá Nossa Senhora, de joelhos, e fica falando assim: "Cuida da minha Rosa, Nossa Senhora! Cuida da minha Cida, da minha Fátima..." e vai desfiando os nomes de todo mundo na família - nunca reza prá si mesmo...

Pois eu aqui divagando, falando do meu Tatinho... Ele foi lá pegar aquela casinha de passarinho, que ele havia guardado todo triste, colocou ela apoiada na terra do jardim e ficou espiando da janela da sala - até ficar todo satisfeito que o passarinho tava se escondendo lá dentro, quando ameaçava chuva...

Durante 6 dias o passarinho viveu na casinha sobre a terra. Comeu dos bichinhos do jardim - e lá tem muitos, pois minha mãe e ele fazem compostagem com todos os restos de verduras e de frutas e adubam a terra - e era visitado por outros passarinhos - talvez os pais, quem sabe. 

Daí ele aprendeu a voar e se foi - livre como os passarinhos devem ser. Se os passarinhos das gaiolas pudessem sonhar, sonhariam ser ele, eu acho...

Então ontem, no final da tarde, minha mãezinha me liga.

-"Ô, filha, você tá bem? Não falo com você desde ontem de manhã!"...

E eu peço milhões de desculpas, pois realmente pisei na bola. Fui na dentista, cheguei em casa cheia de coisas prá fazer, uma correria doida essa minha vida, acordei e montanhas de coisas prá fazer e, no vai-prá-lá e vem-prá-cá me esqueci de ligar prá ela. 

Depois de muita desculpa e muitos "eu te amo, mãezinha" ela começa a me contar de mais uma aventura entre passarinhos.

-"Sabe, filha, um passarinho cismou de fazer ninho naquela minha roseira maior - e, pobrezinho, ficou todo enroscado!"...

-"Mas, enroscado como, mãezinha?"

-"É que eles usam de tudo prá fazer ninho - galhos fininhos, folhas secas, fiapos de vassoura... Esse usou fios de linha - que sei lá onde arrumou... Eu sei que ele tava tecendo o ninho e deve ter vindo um vento, os fios começaram a se enrodilhar nas perninhas dele e, de tanto se debater, acabou ainda mais preso. Eu escutei a barulheira vindo do jardim e, quando fui ver, o pobrezinho estava pendurado de ponta cabeça pelas perninhas! Que dó..."

-"E daí, mãe? Me conta o que aconteceu com o pobrezinho?"

-"Ah, teu irmão Paulo chegou bem nessa hora - eu tava até com medo de pegar no passarinho e machucar ainda mais ele, medo de lhe quebrar as perninhas, ou as asinhas quando ele se debatia... Teu irmão pegou uma tesoura e separou o passarinho da roseira, levou ele prá dentro de casa e, sentado na mesa da cozinha, onde bate bastante luz, pegou uma gilete e com todo cuidado do mundo, foi cortando fiozinho por fiozinho que prendia as perninhas dele. Parecia que ele sabia que a gente tava ajudando ele: ficou tão quietinho, não bicou teu irmão! Bom, quando o Paulo cortou o último fio o passarinho voou todo satisfeito pela janela!"...

A voz da minha mãe tava toda feliz, toda remoçada. Minha salvadora de passarinhos, minha menina sonhadora, tão velhinha, com cabelinhos branquinhos e fininhos como os de uma criança!

Como gosto de vê-la feliz - ela, por incrível que pareça, é como eu: se contenta com pouco, um passarinho voando livre já lhe arranca um sorriso e um suspiro...

Eu sei que, às vezes, passo outra impressão - especialmente depois da postagem sobre a tristeza. Não posso fazer nada - cada um é como é. Podemos culpar alguém que nasceu diabético, ou surdo, ou cego, por ser do jeito que é? Eu sei que eu sou privilegiada, muito amada, muito cuidada, tenho uma família linda... Se eu vivesse com os olhos apenas voltados prá minha vida, tudo seriam risos - mas não é assim que vivemos, não é mesmo? O meu mal é ser muito consciente do mundo à minha volta - não consigo ser alienada, cabecinha fresca (bem que eu gostaria...). Jesus já dizia: a boca fala do que está cheio o coração e o meu tem uma quantidade de tristeza bem acima da média... E como poderia ser diferente, gente do céu? A gente liga a televisão e vê tudo o que acontece no mundo - e nem precisa ir tão longe no planeta, viram o caos que está no Espírito Santo? A filha vem e conta prá gente todas as maldades que falaram na morte da mulher do Lula (gente sem cristandade nenhuma, por mais que alguém errasse comigo eu não falaria os absurdos que falaram, eu jamais desejaria o mal assim - nem pro Hitler, como é que pode ter gente de coração tão duro nesse mundo, Deus do céu?!)... Isso tudo machuca meu coração: maldade, ignorância, preconceito, falta de fé. Mas foi Deus quem me fez assim... 

No entanto eu prometo me policiar, falar de coisas amenas, flores e passarinhos - o mais que der. Afinal eu não quero que este blog tenha uma trilha sonora ao som de violinos tristes.

Eu gosto muito de ouvir aquela música boba dos minions, sabe qual é?

"Because I'm happy!"...

Porque eu sou - feliz, de verdade.

Mesmo tendo um coração meio triste...

Até.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Tristeza



Não quero deslocar o ar 
com minha passagem
Não vou pisar pesado
e nem bater a porta...
Almejo seguir com a vida
tão despercebida
quanto aqui cheguei.

Não quero respingar
quando cair na água,
quero chegar ao fundo
com peso muito leve
e ali ficar prá sempre
sem causar nem onda
nem tremulação...

Quero mais que tudo
ser levada pela correnteza,
igual folha liberta
do galho seco onde estava presa.

Matar a sede
com as gotas que caem da goteira.

Ver a luz somente
através das frestas na madeira.

E só comer fruto ou semente
que não faça falta à ninguém...

Quero ficar esquecida naquele canto escuro
do qual ninguém se lembra
de tirar o pó...

Desaparecer como fumaça ao vento,
me dar por perdida em meus pensamentos
sem razão que baste prá me encontrar.

Quero carregar no peito
apenas a carne e o sangue
de que o pobre é feito.

Não quero ter sonhos
dos quais possa acordar...

Vou carregar comigo somente
a tristeza que não me abandona.

Só quero ser deixada em paz...

Quero apenas amar pela metade
Mentir
Com tamanha força e tanta vontade
Até crer que é verdade
Que eu não quero nada...

A tristeza.

Como temos medo dela...

Acho que se houvesse uma pílula que a gente pudesse carregar na bolsa e que pudéssemos tomar quando necessário prá mandar a tristeza embora - seria o remédio mais consumido no mundo inteiro.

Talvez grande parte dos alcoólatras e dos drogados busquem em seus vícios o remédio prás suas tristezas - não sei dizer, nunca bebi nem fumei, nunca experimentei nenhuma droga (a menos que café seja droga - o que, segundo meu marido, é...).

Jesus ficava triste - era humano também. Ficava bravo. Expulsou vendilhões que comercializavam dentro do templo, distribuindo chicotadas prá todo lado (imagina se fosse hoje em dia, pobre Jesus, iria chicotear noite e dia, mas não ia conseguir expulsar nem uma fração deles...).

Lembram como ele chorou quando soube que seu amigo Lázaro havia morrido? E olha que ele já sabia que ia trazê-lo de volta à vida - mas acho que Jesus chorava de ver os outros sofrerem, quem sabe...

Nas vésperas de ser preso prá ser crucificado ele também chorou - mostrando prá gente que, fortes ou fracos, todos nos tornamos pequenos diante da tristeza.

Humanos.

Em dezembro fomos viajar de carro prá conhecer Florianópolis - ideia do meu filho. Fez roteiro de todas as praias que deveríamos conhecer, todos os pontos turísticos. Levei várias caixas de remédios prá dor, relaxantes musculares, anti-inflamatórios, pois a última coisa que eu queria era atrapalhar as férias da família com os meus problemas.

Caminhei com eles em todas as praias (com minha bengalinha), entrei nas águas geladas (sempre de mãos dadas com alguém...), visitei fortes, subi escadarias, visitei as alturas dos mirantes - até fui elogiada por minha coragem por uma moça, que disse que muita gente de saúde não se arriscava a ir tão longe, que eu estava de parabéns!

Pois é: a gente tem que se esforçar prá não ser um fardo prá ninguém - especialmente para as pessoas que amamos.

Sejam as dores físicas ou morais. Analgésicos para umas, orações para as outras.

Mas às vezes: os analgésicos são fracos demais... Às vezes as orações não bastam...

Estávamos numa praia chamada "Praia Mole". Começou errado logo no início: meu marido estava procurando um lugar seguro prá deixar o carro, vimos uma placa na calçada indicando "Estacionamento" e entramos. Era uma casa grande na beira da tal praia, com um quintal enorme usado para estacionar carros. Estava em obras, pois na parte mais próxima da areia estava sendo construído um restaurante. Quem nos recebeu foi um homem que parecia ser o chefe dos pedreiros e foi logo nos dando um preço que era o dobro do que estava marcado na placa. 

Mal humorada eu disse pro meu marido que queria procurar outro estacionamento, que os outros não seriam malandros a ponto de cobrar o dobro de nós (porque eu percebi no rosto do homem que ele era meio pilantra, medindo a gente pelo carro, por sermos de São Paulo) mas fui voto vencido: todo mundo queria ficar por ali mesmo.

Fomos então arranjar um local tranquilo na areia prá montar o guarda-sol, estender as cadeiras. Praia lotada, homens marombados, mulheres plastificadas. Podem pesquisar: a "Praia Mole" é o ponto de encontro do pessoal que adora se cuidar e se exibir... A mim não incomodavam, até porquê, depois de uma certa idade, nós meio que nos tornamos invisíveis: apenas uma velha de maiô andando devagarinho pela areia.

E devagarinho é pouco: de todas as praias em que fomos, a Praia Mole tem a pior areia que se possa imaginar: uma grossa camada de areia extremamente fofa na qual nossos pés afundam como se fosse um pudim - e que faz o ato de caminhar um exercício desumano prá alguém normal de uma certa idade (imagine alguém usando uma bengala... Aliás: a bengala morreu, pobrezinha. Não sei se foi a água do mar, as mãos cheias de protetor, a diversidade das areias - só sei que ela ficou colenta, um nojo. Chegava em casa e tinha que lavá-la e passar maisena, ela então ficava menos pegajosa, mas feia de doer... Pobrezinha, tão prestativa...).

Meus filhinhos, depois que a gente achou um cantinho prá se esparramar, foram dar voltas pela praia e lá ficamos eu e o Marildo (ele lendo, eu apreciando o mar e tomando um solzinho nos palmitos enormes que chamo de pernas). 

Sabem como são as praias: vendedores de churrasquinho de queijo, castanha de caju torrada, sorvete e churros. Meu marido não gosta que a gente compre nada dos vendedores de praia - diz que não tem higiene e que tudo vem coberto de areia (eu não me importo, mas não me compram nada, bando de sovinas do caramba...).

Lá fico eu bebericando da água que eu mesma trouxe, sentindo o cheiro do queijinho derretido, a fome aparecendo (e eu discutindo mentalmente com o meu estômago, afinal de contas não haviam nem passado duas horas do meu café da manhã...) quando me passa pela frente um vendedor de churros - mais um, como qualquer outro... Mas não.

Eles vendiam os churros assim: uma assadeirinha de alumínio redonda. Uns 20 pedaços de canos de pvc (de construção, de fazer encanamento) serrados numa altura de uns 7 cm, um ao lado do outro dentro da assadeirinha - e dentro deles os churros, de pé, recheados de chocolate ou de doce de leite e cobertura de açúcar e canela ou granulado...

Tá, tá... Primeiro eu olhei porque queria o churro, mas aí reparei no braço do rapaz e seguindo o braço cheguei no próprio - talvez a idade do meu filho, mais baixo, pele curtida de sol, boné vermelho na cabeça, camiseta preta. Suado. Cansado de caminhar prá lá e prá cá naquela areia fofa. Parecendo tão triste.

Triste não. Eu reconheço desespero quando vejo. Depois de receber não das pessoas mais ou menos próximas de mim eu o vi caminhar um pouco, limpar o suor da testa, respirar fundo prá criar coragem e seguir na minha direção com a bandeja...

Antes dele chegar eu falei pro meu marido:

-"Quero churros. Me compra, por favor, quero churros"...

O rapaz chegou, ofereceu, meu marido agradeceu e ele foi embora, a tristeza personificada.

Meu marido nem percebeu - mal ergueu os olhos do livro. Me disse que outra hora me comprava churros limpinhos no shopping, que não ia comprar aquela porcaria prá eu comer e passar mal.

E eu - enquanto o rapaz não saiu do meu campo de visão - fiquei repetindo, implorando que queria churros, "churros daquele moço ali!", que ele precisava muito vender algum churro, já quase chorando...

Nessa hora nem percebi e meus filhos estavam voltando - e sabem ler a cara da velha muito bem. Vieram perguntando o que tinha acontecido, porque eu estava triste e eu falei:

-"É que o papai não quis me comprar churros de um rapaz que passou aqui, que tava muito triste, meu coração tá apertado por causa dele... Sabe quando a gente sente que alguém não está bem e tem que fazer alguma coisa prá ajudar? Eu queria comprar churros dele, talvez assim ele ficasse menos triste...".

E meu marido, achando que era só coisa imaginada por mim, ainda dizendo que os churros deviam até ser de ontem, cobertos de suor e de areia e eu dizendo "Eu queria comprar um montão de churros dele, daí podia até jogar no lixo depois, sem ele ver, mas pelo menos eu ia fazer alguma coisa..." (quando, na verdade, sem problema algum eu comeria algum churro, pois não tenho esses fricotes...).

Meu filho então, com aquela doçura que ele tem para comigo, me pegou na mão e disse:

"-Dentro da tua bolsa tá a minha carteira e dentro dela tem uns cento e vinte, cento e cinquenta reais - são todos teus, velhinha, prá comprar todos os churros que você quiser, todos os queijinhos que te der na telha comprar. Não precisa pedir, que o meu dinheiro é teu. Agora me descreve o rapaz que eu e as meninas vamos atrás dele comprar os teus churros...".

Levantamos todos, desmontamos o guarda sol, dividimos as cadeiras e saímos andando pela praia, caçando o vendedor de churros - pois eu queria estar junto, prá sentir que era mesmo minha imaginação todo aquele desespero que eu vi, me olhar depois no espelho e me chamar de boba, rir da minha própria cara...

Mas não o achamos mais. Talvez tenha voltado prá casa, talvez tenha ido prá outra praia. Estranho, pois eles trabalham circulando pelo mesmo lugar, prá lá e prá cá.

Nunca vou me esquecer dele e prá sempre vou me sentir um pouco culpada - sei lá pelo que eu tenho culpa, mas tenho.

Tem pessoas que nascem diabéticas. A vida inteira vão ter que lidar com a doença, com as restrições alimentares, com os remédios...

Algumas pessoas nascem daltônicas - não existem óculos prá corrigir isso. Meu filho mesmo, meu doce Ike, confunde verde com vermelho, bege com cinza e com rosa... Minha Lola tinha que escrever o nome de cada cor nos lápis dele, senão ele pintava tudo errado na escola - naquele tempo ele nem contou prá mim, prá não me preocupar, ficou só entre ele e as irmãs...

Eu tenho olhos que enxergam a tristeza, a solidão e a dor.

Tem um grafite no meu bairro que diz assim: "Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que tem beleza dentro de si." e eu acho isso muito verdadeiro. Podem reparar: as pessoas que enxergam maldade, perversão e sujeira em tudo geralmente é porque tem isso dentro delas mesmas. Quem mais é cheio de moralismos, quando a gente vai ver, tem o rabo preso, não é assim? 

Eu, seguindo essa linha de pensamento, sou muito triste, pois meus olhos sempre acham a tristeza onde ela se esconde. Se eu estiver andando de carro estou olhando dum lado pro outro e sempre encontro os cachorros abandonados, os mendigos se encolhendo nos cantos, as meninas tristes e sozinhas...

Mesmo assim sou uma pessoa feliz: se você vai na minha casa eu estou picando legumes ouvindo músicas como "Jump", do Van Hallen, ou estou costurando assistindo Irmão do Jorel na TV. Fazendo pratos e mais pratos gostosos prá minha família comer, todos satisfeitos...

Nas doze horas que levou a viagem de volta paramos num posto de gasolina onde havia duas cadelinhas sarnentas mendigando comida pros viajantes - e lá vou eu choramingar de novo. Volto do banheiro pro carro caçar dinheiro prá comprar comida prá elas e me avisam que "o papai já comprou e tá lá dando"... 

Vontade de adotar as duas, trazê-las prá São Paulo no colo, cobertas de sarna e de pulgas.

Tentar fazer deste mundo um lugar melhor, de pouquinho em pouquinho, mesmo com o coração pesado.

Dentro do meu coração eu pensei em como eu seria mais feliz se não enxergasse a vida como eu enxergo... Como seria bom andar no mundo de olhos e ouvidos fechados, prá não ver nem ouvir toda a tristeza que percebo através deles - e sabe o que aconteceu?

Peguei uma conjuntivite daquelas, mais de duas semanas com os olhos enevoados e leitosos, acordando com eles lacrados de pus seco, vermelhos e queimando.

Como se não me bastassem os ossos doendo...

Então, domingo passado, oito da noite - hora do evangelho no lar. Mesmo com os olhos ruins é minha tarefa ler dois capítulos na sequência - estou quase chegando no final de Lucas. Deixamos uma jarra de água na mesa e, ao final, dividimos os copos.

Bebi parte do meu e a outra parte lavei os olhos, pedindo perdão por reclamar dos olhos que tenho.

Amanheci com eles limpos - embora ainda enxerguem a vida da mesma maneira.

Mesmo se existisse a tal pílula que cura a tristeza eu não a tomaria. De que ia adiantar eu não sentir o que ainda existe no mundo? Enquanto eu for assim sempre vou poder tomar alguma iniciativa, fazer alguma coisa prá ajudar, mesmo que seja quase nada...

Minha avó me ensinou a rezar uma oração católica chamada "Salve Rainha", na qual se fala de um vale de lágrimas. Quando eu era pequena eu perguntei prá ela que vale era esse e ela me respondeu que era o mundo. Que aqui o que mais se faz é chorar...

Não sei. Acho que aqui é um vale de lágrimas e de risos, um caminho permeado de espinhos e de flores. Alguns de nós parecem ter uma armadura - parecem até não se ferirem nos espinhos. Às vezes dá até inveja... Enquanto isso, outros de nós parecem atravessar pelos espinhos carregando o coração nas mãos, um ferimento após o outro e seguem sem parar prá onde quer que estejam indo...

Aquele poema bobo do começo da postagem fui eu escrevi muito tempo atrás, quando a tristeza não queria sair de mim nem chorando - então eu a pus no papel.

Dá pra ver que não nasci pra poesia...

Aquela tristeza? Passou. Vieram outras e outras virão - pura matemática da vida.

Não quero jamais amar pela metade - quanta bobagem. Quero amar o triplo, cem vezes, mil vezes mais. Porque o amor é que é o remédio.

Na próxima postagem eu mostro um saco de dormir que fiz pro meu futuro netinho que vai nascer em março. A gravidez da minha enteada segue firme e forte, com a graça de Deus.

É assim que seguimos vivendo.

Ah, lixei e pintei minha bengala - ressuscitei ela, por assim dizer. Meu filho disse que ia me comprar outra, mas prá quê? Ficou linda. Se vocês virem uma velha na Penha atravessando devagar a rua com uma bengala azul, por favor, não atropelem. Sou eu.
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