Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Natal em Setembro


Eu tinha nove anos de idade quando minha mãe adoeceu gravemente. Não que ela alguma vez na vida tivesse sido saudável: quase morreu de tuberculose aos 14 anos, teve um aborto atrás do outro até eu nascer e todos os filhos que teve foram prematuros e retirados dela à fórceps - inclusive eu... Sofreu de pressão alta em cada uma das gestações e só teve 13 filhos porque era a vontade de Deus e sua sina...

Depois do meu irmão mais novo ela ainda engravidou algumas vezes, mas esses filhos não eram prá ser deste mundo, assim como os sete antes de mim... Quando começou a ter hemorragias que não paravam mais foi diagnosticada com um tumor e encaminhada prá cirurgia, lá no Hospital Leonor Mendes de Barros, no Tatuapé - o mesmo hospital onde eu e meus irmãos nascemos. 

Nunca teve muita instrução - parou de estudar na 6ª série e foi fazer Corte e Costura. Assim sendo, ela mesma não sabia direito o que tinha de errado com a saúde dela - só sabia que era grave. Assim sendo, fez o melhor que pôde prá se despedir da gente sem fazer drama, pois - no fundo, no fundo... - achava que ia morrer. 

Nas semanas que antecederam sua internação trabalhou feito uma desesperada, pegou costuras e mais costuras em oficinas, fez faxina, lavou e passou roupa prá fora, fez pé e mão de uma freguesa ou outra e, com o dinheiro, abasteceu como pôde o armário com comida... Meu pai estava desempregado, só fazendo bicos (ou "biscates", como se chamava naquele tempo...).

Mas ela não pensou apenas nas nossas barrigas: no dia anterior ao que ia partir minha mãe nos entregou brinquedos - adiantados, pelo Natal no qual ela pensava que não estaria mais entre nós. Uma boneca Susi pra mim e uma prá cada uma das minhas irmãs: a minha tinha cabelos castanhos, a da Cida tinha cabelos loiros e a da Fátima os tinha quase brancos, platinados como eu nunca tinha visto - essa era a que eu queria, mas a minha irmã pegou primeiro...

Meus irmãos eram muito pequenos - dois deles ainda usavam fraldas - então ganharam carrinhos e uma bola de capotão, prá jogarem juntos quando estivesses maiorzinhos...

Me lembro que minha mãe foi embora levando uma pequena sacola com os poucos pertences que tinha e nenhum de seus irmãos teve no coração a caridade de levá-la de carro - pegou ônibus sozinha, ali na Avenida Amador...

Me lembro que chorei como se o mundo tivesse acabado... Minha avó - mulher forte - consolava a mim e às minhas irmãs, disfarçando corajosamente a tristeza que certamente sentia... 

Quando perguntei a ela se minha mãe ia morrer ela não soube o que responder - então não disse nada. 

Questionada se a gente podia fazer alguma coisa prá ajudar ela me disse prá rezar... Quando eu disse que já estava rezando fazia tempo, mas que parecia que eu não estava fazendo nada, ela me disse - talvez por pena - que eu podia fazer uma promessa.

-"O que é uma promessa, vó?"

-"É uma coisa que você diz prá Deus que vai fazer em troca de algo que você pede prá Ele. Você pode prometer não brigar mais com uma pessoa, não comer nunca mais um tipo de comida... Alguma coisa que seja difícil de fazer e que exija esforço e determinação da tua parte... Um sacrifício."

Eu pensei, pensei... então combinei com minhas irmãs que, por três anos, nenhuma de nós ia cortar o cabelo se Deus fizesse nossa mãe voltar prá casa curada... 

Minha avó disse que estava bem, que na Bíblia se dizia que Deus gostava dos cabelos compridos nas mulheres e assim nós prometemos. 

Em seu coração minha avó deve ter prometido não chorar, pois não a vi fazer isso nem uma vez sequer, embora seus olhos estivessem sempre vermelhos...

Era mês de julho e minha mãe ficou internada por 45 dias. Quem conhece hospital público sabe como é difícil ficar internado neles tanto tempo - e assim dá prá se fazer uma ideia da gravidade da sua condição...

Minha avó não pôde visitá-la nenhuma vez - pois nem meu pai se propunha a cuidar algumas horas dos filhos prá que ela pudesse fazê-lo e nenhum dos meus tios sequer pensou em trazer a esposa prá essa finalidade. Hoje, eu mesma mãe já madura e pensativa, imagino a dor e a saudade que minha mãe e minha avó devem ter sentido, distantes uma da outra tanto tempo...

Meu pai foi visitá-la uma única vez, prá pedir prá ela voltar prá casa. Disse que minha avó não estava aguentando cuidar da casa e de tantas crianças, que nenhum dinheiro estava entrando em casa pois lhe faltavam serviços e que todos estávamos passando fome...

Minha mãe então mentiu pro médico: disse que estava melhor, que já estava conseguindo se alimentar e fazer suas necessidades sem o auxílio das sondas e, assim, teve alta.

Dizem que os seres humanos não podem voar, pois não tem asas - mas quem diz isso não se dá conta dos voos que nossas almas são capazes de dar: ao ver minha mãe descer as escadas da nossa casa eu juro que voei de felicidade dentro do meu peito, da mesma forma que fazem os passarinhos quando o céu está bem azul e o dia está lindo!

Minha mãe e minha avó se abraçaram e choraram juntas - choramos todos, prá falar a verdade, até mesmo os pequenos, que pouco entendiam do que estava acontecendo...

Com minha mãe voltaram o sol, as risadas, as toneladas de fraldas estendidas no varal - por um dia apenas.

No dia seguinte, ardendo de febre e com a barriga enorme e dura ela voltou pro hospital - sua bexiga ainda não estava funcionando direito, tinha retido urina por aquele tempo todo...

Em setembro, finalmente, ela voltou em definitivo prá casa. Não tinha mais o útero - então as hemorragias acabaram. Não tinha mais o tumor - graças a Deus! - e continuou levando a mesma vida, de trabalho e sacrifício...

Em 25 de dezembro o Natal não nos trouxe nada - pois meu pai continuava desempregado. Nossas bonecas estavam descabeladas - como ficam todas as bonecas que brincam sem parar nas mãos das meninas... - faltavam-lhes sapatos, as roupas nem eram mais as mesmas (substituídas por modelos exclusivos feitos com trapos...). A bola de capotão dos meus irmãos foi furtada do quintal - pois há quem não respeite a pobreza e furte o pouquinho que pertence a ela... Os carrinhos deles nem rodinhas mais tinham...

Sentada na calçada apreciando as caixas de brinquedos exibidas do lado de fora das casas vizinhas eu pensei em como eu era feliz: meu Natal tinha sido em setembro e meu presente não tinha caixa prá jogar fora...

Essa não era bem a história que eu queria contar a respeito do Natal - tenho uma outra história, guardada no meu baú de tesouros da memória... Mas acho que muita gente ia achar triste - talvez eu fizesse alguém cansar de ler minhas histórias...

Então, por agora, deixo vocês com essa lembrança antiga de um final feliz e desejo a todos um Maravilhoso Natal, cercados de pessoas amadas - porque, cedo ou tarde, não apenas os pacotes, mas também os próprios presentes, vão todos parar no lixo. 

Só o que importa é o amor - dado e recebido...

Já estou de férias - então as postagens vão parar por um tempo. Mesmo esta foi programada prá estar aqui muitos dias atrás... Final de ano é corrido aqui em casa, são tantos presentes prá fazer, a casa fica de pernas pro ar, meu coração fica tão acelerado que nem preciso de café...

Assim sendo, quero desejar a todos que me visitam aqui no blog (mesmo os que não comentam, por falta de tempo...) um Natal cheio da presença de Deus: aproveitem bem as festas de fim de ano, comam muito panetone, bebam champanhe sem álcool (que álcool mata as células do cérebro, prá quem não sabe - e elas não nascem de novo...) e um 2015 cheio de saúde e de paz prá todos nós...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Duas de uma só vez...

Prá duas irmãs - duas sobrinhas...





Feitas ambas em peça única (manequim 40/42), sem costura nos ombros - você já tira a blusa pronta prá fechar dos lados e fazer os acabamentos. Cada uma delas usou menos de um cone de linha Brisa Verão (ou seja, cada um desses presentes de Natal lindos me custaram algumas horas de trabalho prazeroso e meros 11 reais...)

Detalhes da blusa vinho:





Prá uma amante da série "Crepúsculo", uma blusa cor de sangue com chatons negros aplicados aqui e ali - o trabalho são meios-corações, que já expliquei como faz neste meu vídeo (indicado ao Oscar) aqui:



Os acabamentos foram feitos assim: uma carreira de pontos baixíssimos (um em cada ponto tricô de base). Na segunda carreira faz isso de novo, só que pula um em cada cinco pontos de base. Na terceira carreira faz dois pontos baixíssimos, um picô e pula um ponto de base - que assim fica plana, sem enrolar. Mas depende muito do ponto da pessoa, da firmeza de sua mão, então teste como fica melhor prá você...

Receitinha de mãe:



Detalhes da blusa creme:




Romântica, coraçõezinhos de vários tamanhos em vários lugares, sendo que cada um deles recebeu a aplicação de um strass, costurado à mão.

Acabamentos em crochê, uma carreira de pontos baixíssimos, um ponto em cada tricô de base. Na próxima carreira fiz ponto caranguejo, pulando cada quarto ponto de base.

Receitinha de mãe:



O coraçãozinho ajurado foi feito com o transportador também, seguindo um gráfico e mudando as agulhas de lugar e dentro dele costurei 3 pedrinhas. Gráfico:



Feitas com amor, únicas no mundo - até agora. Podem copiar - é prá isso que o blog existe, afinal de contas. 

Fico feliz demais quando alguém faz uma receita que eu inventei...

Agora: o cabelo da Nana. Tava assim ontem, quando fotografei de manhã:



À noite ela foi dar uma cortada na cabeleireira (acredita que ela queria cortar na altura dos ombros??? Sacrilégio!!! Blasfêmia!!! Horror!!! Eu e a Lola conseguimos convencê-la a não cometer esse crime! Ela deu só uma aparadinha...). Chegou em casa 8 da noite e adivinha o que ela trouxe? Um kit de escova progressiva, prá mãe dela "pau-prá-toda-obra" fazer AQUELA HORA, pois hoje (sexta-feira) ela ia passear com o namorado, também estudante de Medicina, que está de férias (como ela...). Fim de semana ela tem outras coisas prá fazer, então tinham que passear hoje. 

Resultado: fiz a escova, ficou um arraso, mas não fotografei ainda - muitos tricôs e costuras prá fazer. Mas na próxima foto vocês verão como fica cabelo descolorido com progressiva, feito com amor pela mãezinha (e como se economiza 300 reais aqui no subúrbio - he, he, he...).

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Custo Zero!!!!!







Pois é: nem tudo de bom na vida custa os olhos da cara - tem coisas maravilhosas que são totalmente de graça. Beijar os pés do meu filho, por exemplo: não pago nada pelo privilégio. Apesar de ser alto como um guarda-roupa e cheio de barbas na cara, apesar de ter a voz grossa e calçar 41 tem os pés com a pele de um recém nascido (as mãos também...). Nunca vi uma pele igual, tão macia, tão limpinha, tão cheirosa... Está em Brasília, só volta dia 20 - e eu tô contando cada segundo, só não tô definhando porque sei que ele tá bem e que logo volta prá casa... Daí vou beijar os pés até cansar...

Mas o "custo Zero" da postagem de hoje é dessa blusa, que levei sábado de presente de Natal prá Tia Joanita (tia do Marildo que peguei prá mim...).

Não gastei nada prá fazer a blusa - eram sobras de linha Cléa 1000 que eu tinha nos meus guardados... Caprichei nas listras - que assim some totalmente a cara de sobra, parece que foi proposital o design... 

Chegamos lá carregando um ventilador novo, bem silencioso - pois o dela tava agonizando, pobrezinho... Ela adorou, mas parecia que estava faltando alguma coisa - daí eu entreguei a blusa, ela abriu o pacote e disse: "Ah, agora sim!!! Agora eu tô feliz!!!". Pensou que eu não tinha dispendido meu tempo com ela, então o ventilador era bom - mas nem tanto...

Toda semana ela liga pro Marildo, umas duas vezes pelo menos, prá dizer prá ele me mimar, cuidar de mim, que me adora e que eu valho ouro e que ele é sortudo pois casou com a melhor mulher do mundo (Ah, como é bom ser amada!!!).

Daí, enquanto a gente fazia a visita - e depois dela experimentar (toda vaidosa) a blusa nova, ela entrou na cozinha, trouxe um pote de plástico com um negócio que havia feito prá mim: caroços de abacate picados, descansados duas semanas no álcool, prá eu passar nos cantos que me doem... Mas não ficou só na entrega: enquanto eu estava ali, sentada no sofá, ela se agachou e foi esfregando o líquido marrom escuro nos meus joelhos e pés, que era prá eu melhorar logo!!! E eu falando: "Não tia, deixa que eu passo!!!" - mas quem diz que ela me deu trégua?!! Tão velhinha e se preocupando comigo - eu dei muita sorte com as tias que herdei quando eu casei, não dei? Todas me amaram infinito...

Bom, as listras da blusa você faz assim:

Depois que você teceu um pedaço, traz prá frente toda quarta agulha - deixa três no lugar e a quarta empurra bem prá fora.

Não precisa cartela - embora exista. Você vai colocar no carro da tua máquina a alavanca de retenção de pontos na posição "H" - com isso todas as agulhas que estão prá frente não vão tecer, a linha vai passar por cima delas... Ah, não reparem o pó no meu carro: tô fazendo tanto tricô que as linhas soltam fiapos - e eu tô sem tempo de ficar espanando toda hora, o máximo dos máximos é espirrar silicone na coitada...

Espia só: teci duas carreiras com o salmão e as agulhas permaneceram paradinhas, bem quietinhas descansando do trabalho...

Na verdade, prá fazer o visual desse ponto, teci as três carreiras iniciais de cada cor com a alavanca no "H". Na quarta carreira eu coloquei a alavanca no "N" - daí todas as agulhas foram tecidas - vê aí embaixo como ficou:

Não fica lindo? Parece quase uma florzinha... Já usei esse ponto em uma cor só, nesta blusa AQUI...

Fica assim o lado do tricô - eu acho mais bonito. Mas todo mundo aqui em casa falou prá fazer a blusa do outro lado, porque a Tia Joanita é velhinha e ia se confundir - e acabar vestindo a blusa do avesso...

E esse é o lado do ponto meia - o lado que eu usei. Reparem que o ponto que ficou retido fica alongado, formando um efeito bonitinho também...

Bem de perto...

Receitinha de mãe (para manequim 46/48):



Essa receita é uma mina de ouro: primeiro porque é super econômica - mesmo se você não usar sobras, como eu usei... A linha Cléa é baratinha, tem cores lindas que você pode combinar e criar uma diferente da outra... Segundo: é 100 % algodão, então não irrita a pele de ninguém. Terceiro: usada dupla, na regulagem 10 - fica pronta rapidinho. 

Tem gente que tem dificuldade em usar essa linha na máquina, falam de usar parafina... Na minha máquina ela vai super bem - mas acho que é porque eu tenho enrolador elétrico e nele tem uma velinha de parafina por onde a linha passa enquanto eu enrolo, então acho que deve ser por isso... Mas você pode fazer assim: pega uma vela normal e, com a ajuda de uma outra pessoa, vai passando a linha na vela enquanto enrola...

Dinheiro certo no Natal - faz que vende, colega! E presentes lindos e de baixo custo - mas ninguém precisa ficar sabendo, é segredo nosso...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Para duas meninas...

Uma blusa e um vestido:




A blusa prá minha sobrinha Bibi (manequim 40), que vai ganhar no Natal. Não fiz muito esburacada pois o pai dela não ia gostar... Notem que as costas não tem desfiados e na manga só tem um coraçãozinho:




Ainda não tá pronta: vou costurar um strass no centro de cada coração, prá dar uma "emperuada" na blusa - pois ela adora brilhos...

O vídeo ensinando a fazer esses corações desfiados está nesta postagem AQUI. A receitinha de mãe é esta:


Agora o vestidinho: é prá uma menina de 9 anos, que veste roupas tamanho 12 anos, chamada Melissa, que eu nunca vou ver na vida. Antes de viajar meu filho participou daquela distribuição de presentes no trabalho: tem que vestir e calçar uma criança, dar brinquedos, doces - ser Papai Noel. 

Eu fui bater perna e comprar tudo mas, na hora de comprar vestido, só achei lixo. Ou eram baratos e feios ou caros e feios - não sei que mania é essa de vestir criança igual adulto, uns vestidos pretos com estampas horrorosas... Detestei. 

Passei na loja de tecidos, comprei esta malha rosa de bolinhas brancas, aproveitei uns retalhos que eu tinha prá fazer os acabamentos e o lacinho. Foi feito no capricho, olha só:



E o Molde eu pequei GRÁTIS neste site AQUI, da incrivelmente generosa Marlene Mukai. Tá cheio de moldes em vários tamanhos, todos grátis - foi dica de uma amiga maravilhosa do Face! 

Agora, dica preciosa: os moldes são para tecido plano - então, se forem fazer em malha, como eu, cortem na exata medida, não deixem margem prá costura, OK?

Adorei fazer o vestido e aposto que a menina que vai receber vai adorar também, pois além de bonito, é único...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Corrida de Obstáculos


É como diz na música do desenho Robin Hood, da Disney: Tem dias ruins, mas também tem os bons... 

Depois de terminar o segundo grau, sem conseguir entrar numa faculdade pública, parti em busca de um emprego - e como foi difícil!!! Fazia fichas e mais fichas, ia em entrevistas onde o Judas perdeu as botas, cheia de esperança - e nada... Prestava concursos atrás de concursos - e nada...

Até que passei em um deles - e numa boa colocação! Deus, finalmente, tinha se lembrado de mim (eu pensava...).

Fui no Departamento de Recursos Humanos da Previdência Social pensando que já ia ser contratada, até levei a Carteira Profissional - mas tinha que passar por uma bateria de exames médicos. 

Fui tirar sangue, marquei a consulta com o oftalmologista que me encaminharam, marquei a do dentista também (tudo sozinha, pois não tinha dinheiro prá pagar ônibus prá minha mãe ir comigo, meu pai tava desempregado...). 

Nesse mesmo dia, voltando prá casa, sem ter o costume de andar pelo centro de São Paulo, fui assaltada: abriram minha bolsa sem eu perceber e me furtaram uma bolsinha bonita que eu levava, onde ficavam meus óculos de grau. Eu - tonta - andava prá todo lado sem óculos, espremendo os olhos igual o Mister Magoo, só porque me achava feia com eles (e, naquela idade, eu queria MUITO ser bonita...).

Que desespero me deu!!! Como é que eu ia passar pelo exame do oculista sem os óculos? E se ele me reprovasse por causa disso???

Daí, guardada de outros tempos, eu tinha UMA única lente de contato gelatinosa, dos tempos do colégio (a outra eu havia cortado ao meio fechando a caixinha...). Fui no exame assim, com um olho de lente e o outro ceguinho de tudo. Falei pro médico que tinha coçado o olho no elevador e que a lente tinha caído... Ele foi bonzinho, me aprovou assim mesmo - apesar do grau da lente de contato estar fraco demais pro meu olho esquerdo...

O exame de sangue deu tudo certo, eu tinha anemia - mas expliquei pro médico que eu era vegetariana desde os 11 anos, então ele só me mandou procurar uma nutricionista prá suprir minha falta de nutrientes e tudo bem...

Só faltava o exame do dentista - que ficava numa travessa da Avenida Paulista. 

Primeira vez ali, tudo enorme e assustador... Subi de elevador até o 11º andar e aguardei ser chamada, nervosa e cheia de esperança ao mesmo tempo - logo, logo eu estaria trabalhando (finalmente!).

O dentista se chamava Ataliba. Um homem muito alto, muito bem arrumado e perfumado, com corrente de ouro, relógio de ouro - um consultório chique como eu nunca tinha visto na vida...

Me examinou como se eu fosse um pedaço de carne, torcendo o nariz prá uma menina de 22 anos, magrinha e tímida...

Terminado o exame ele me disse que eu tinha 5 dentes que precisavam de obturação.

-"Ah, tá bom, pode deixar... Esse concurso que eu passei tem convênio médico e tem dentista também, assim que eu entrar vou lá arrumar os dentes, o senhor pode deixar..." - eu disse.

Ele me olhou sem me ver, como se eu fosse uma imagem que ele tava olhando à distância, que não tinha nada a ver com ele e com seu mundo e disse:

-"Não posso te aprovar pro emprego com esses dentes sem conserto. Você tem até quinta feira prá voltar aqui com isso resolvido, senão..."

-"Mas meu pai tá desempregado, a gente tá sem dinheiro, eu não tenho como obturar nenhum dente agora, doutor!"

-"Isso não é problema meu."

Saí dali desnorteada, mas achando que ia chegar em casa e minha mãe ia dar um jeito em tudo, ia pedir dinheiro emprestado e tudo ia se resolver, com a graça de Deus.

E ela foi - em cada um dos seus irmãos, em cada freguesa de costura que ela considerava amiga... - e pedia "Me empresta algum dinheiro prá Rosa obturar cinco dentes, eu logo devolvo porque ela passou num concurso!...". Mas ninguém quis emprestar. 

-"Tô sem dinheiro agora" - diziam meus tios, donos de comércio, com diversas casas alugadas - várias delas tiradas da minha mãe quando meu avô morreu, pois a enganaram na divisão de bens...

Eu tinha chegado tão perto... Tão perto de ter um emprego, uma vida - poder fazer faculdade, ajudar em casa, comprar as coisas que eu precisava... 

Sabe o que é mais irônico? Minha irmã tava cursando o último ano de Odontologia na USP de Ribeirão Preto - se eu tivesse dinheiro prá passagem, ia até lá e ela me obturava os dentes...

Prá complicar, pela primeira vez na vida eu tinha um namorado - não tinha nem dois meses de namoro ainda. Enquanto muitas meninas já estão namorando com 12 anos, eu comecei com dez anos de atraso... Esse meu namorado, vendo minha tristeza, me emprestou cinquenta cruzeiros (que era o dinheiro da época) e me disse prá ir num dentista popular que tinha quase em frente ao Supermercado Pão de Açúcar - e eu fui, o mais rápido que pude (era uma terça feira...).

Chegando lá expliquei prá ele a minha situação mas ele disse que não podia obturar cinco dentes por aquele dinheiro - o máximo que podia fazer era obturar um e colocar curativo em um outro - porque eles não ficavam próximos e ele não podia ficar anestesiando todo canto da boca. Além do mais o dinheiro era pouco, ele não me conhecia, não podia fazer o serviço fiado.

Me deu um desespero danado, daqueles que a gente decide o que tem que decidir no impulso e eu perguntei:

-"O senhor me arranca esses cinco dentes por esses cinquenta cruzeiros?"

Ele, espantado, me disse que era loucura, que os dentes estavam bons, só um deles precisava fazer canal, que era um pecado, um desperdício...

E eu falei de novo: "Arranca?"

E ele, acho que por dó de mim, disse que arrancava sim...

As anestesias nem pegaram direito e, prá piorar, as raízes dos dentes eram tortas, quando ele puxava os dentes elas se quebravam - e daí ele tinha que pegar outro tipo de alicate e abrir mais ainda o buraco prá arrancar tudo...

Foi um sofrimento maior que dar à luz aos meus filhos. Foi uma carnificina, isso é o que foi...

Terminado o serviço o sangue não parava de sair e o dentista me dispensou, me dando antes um rolo de papel higiênico Sublime - daqueles cor-de-rosa, que pareciam lixa de parede... - prá eu ir cuspindo o sangue, no caminho de casa...

Andei pouco mais de um quilômetro a pé - nem sei como consegui chegar, tão tonta que eu estava... Minha mãe tentou me consolar mas eu nem tristeza tinha, só dor, pois a anestesia passou bem depressa com a caminhada...

Tomei Novalgina, tentei dormir um pouco - mas não consegui pregar o olho nem mesmo à noite, pois o sangramento não parava...

De madrugada minha mãe fez meu pai  me levar no Pronto Socorro do Tatuapé prá ver se eles conseguiam parar a hemorragia. Chamei a atenção por onde eu passei, pois parecia um cadáver andando, sem sangue na pele, os olhos fundos por não dormir e não me alimentar...

O médico do Pronto Socorro que me atendeu se chamava Roberto - o mesmo nome do dentista que me arrancou os dentes - e eu me lembro que senti pena dele, pois não parecia médico. Tinha a barba por fazer, o cabelo despenteado, os olhos muito tristes... E então ele falou assim:

-"Meu Deus... você é ainda tão menina prá perder tantos dentes de uma vez...".

Eu me lembro de sentir vergonha por ser o alvo da pena de alguém... Quis chorar, mas parece que a perda de sangue tinha me deixado seca, nem lágrimas me saíam dos olhos...

O médico aplicou a anestesia - mas não pegou, mesmo depois que ele aplicou uma segunda vez. Acabou costurando os buracos comigo sentindo dor mesmo - e eu fiquei quietinha, pois queria parar de sentir gosto de sangue na boca... Me mandou prá enfermaria tomar uma injeção de vitamina K - prá ajudar a controlar o sangramento e eu fui prá casa.

Chegou a hora do almoço e minha mãe me fez uma sopinha rala de batata - e me forcei a comer, pois tinha que estar de pé no dia seguinte (quinta feira).

Meu namorado veio me visitar e eu mandei minha mãe dizer que eu não estava em casa - eu sabia que esse namoro não ia durar mesmo, quem é que ia querer namorar uma garota feia, magrela e com a boca faltando dentes?

No dia seguinte fui sozinha até a Paulista, de ônibus. Subi de elevador até o 11º andar, entreguei meu RG prá atendente e esperei o dentista me chamar.

Ele me atendeu com o mesmo desprezo cortês que me havia dispensado anteriormente, me mandou sentar na cadeira e, ao ver minha gengiva inchada, ferida e costurada, ao ver os vãos que ficaram no lugar dos dentes que me impediam de arrumar um trabalho, boquiaberto, ele disse:

-"Mas... menina... O que você fez?"

-"Eu arranquei os dentes que o senhor falou. Eu disse pro senhor que não tinha dinheiro prá obturar agora, meu pai tá desempregado..."

Ele me pareceu envergonhado - mas eu posso estar enganada, afinal além de me doerem os buracos eu ainda sentia raiva...

Me disse: "Você realmente quer esse emprego... Tá aqui o teu papel, eu te aprovo prá poder trabalhar..." - e disse isso como se fosse um favor que me fazia...

Peguei o papel, saí dali atordoada e nem esperei pelo elevador. Comecei a descer pelas escadas,  parando um pouco em cada lance, me apoiando nas paredes - até que a tristeza foi tanta que eu me deixei cair sentada nos degraus, prá chorar...

Sentir pena de si mesmo não é coisa boa, não recomendo prá ninguém. Não resolve nada e faz a gente parecer mais fraco do que realmente é - mas, naquela hora, cedi à tentação de sentir pena de mim mesma e chorei feito criança, me perguntando porque Deus não gostava de mim...

Chorei tudo o que tinha prá chorar - pelo menos assim eu pensei. Fui prá casa, me joguei na cama e cobri a cabeça com a coberta - e descobri que tinha mais lágrimas guardadas em algum lugar...

À noitinha meu namorado veio me visitar de novo - e, desta vez, disse que não ia embora sem falar comigo. Disse prá minha mãe que tinha ido no dentista, perguntar de mim, e que o dentista tinha contado que eu pedira prá arrancar os cinco dentes de uma vez. 

Assim sendo, como ele já sabia, não adiantava mais me esconder. Apareci prá ele de olhos inchados, pálida como um fantasminha, disse que logo ia devolver os cinquenta cruzeiros prá ele e fui virando as costas prá entrar de novo.

Daí ele me segurou pela mão, me perguntou o que tava acontecendo, porque eu não queria vê-lo mais...

Eu respondi:

-"Olha, não precisa ficar com pena de mim. Melhor cortar o mal pela raiz de uma vez, eu sei muito bem que tá cheio de meninas lindas que gostam de você, cedo ou tarde você ia me deixar mesmo - ainda mais agora, que me faltam cinco dentes... Não precisa fingir que se importa, eu entendo..."

Ele me puxou pela mão, me abraçou bem forte, disse que não ia me deixar a não ser que eu quisesse. Que era do meu lado que ele queria ficar, mesmo me faltando cinco dentes...

*    *    *

Pois é... alguém pode dizer que o dia do meu aniversário não é dia prá contar uma história tão triste - pois meus filhos chamam essa história de triste, não gostam quando eu a conto...

Mas aí é que tá: ela não é uma história triste de verdade. Ela é a história de um obstáculo que a vida colocou na minha frente, na minha corrida e de como eu o resolvi, pulei, atravessei, passei por cima e continuei correndo!

É uma história de superação e vitória!

O emprego que eu arrumei garantiu o meu sustento e o dos meus filhos. Pude fazer minha faculdade, pude ajudar a pagar o aluguel, comprar comida no mercado, pagar a conta de luz... Ajudei a pagar a prestação do carro e da casa, quando a gente finalmente pode comprar...

Pude fazer tanta coisa boa nesse emprego, pude ajudar pessoas que nunca tinha visto na vida...

O tal namorado acabou sendo o único que tive e me casei com ele em menos de dois anos.. Algum tempo depois, quando perguntei a ele por que ficou do meu lado, ele me respondeu que foi porque eu era corajosa, alguém bom prá se ter do lado por toda a vida, alguém que não tinha medo de tomar uma decisão importante quando era necessário...

Ah, nunca paguei os cinquenta cruzeiros que ele me emprestou...

Recentemente, antes do meu filho passar no concurso, ele andava meio triste, desiludido... 

Muito prá estudar, muita concorrência... 

Eu disse prá ele que tudo ia dar certo, pois deu tudo certo prá mim, não deu?

-"E olha, filhão: você nem vai precisar arrancar dentes prá conseguir trabalho, tenho certeza...".

E foi assim mesmo que aconteceu.

*    *    *

Na vida a gente consegue ser feliz - consegue mesmo. 

É só ter fé, paciência, trabalhar muito e fazer o nosso melhor - perseverar, não desistir nunca. 

Por pior que estejam as coisas, tudo vai ficar bem no final, se Deus quiser - porque Ele nunca se esquece da gente e nos ama, pois, afinal, Ele é Pai...

(Agora só porque eu adoro este desenho:



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...