Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Fim de expediente

Foi assim o final de "expediente" da minha Naninha, dia 28: chegou em casa cansada, esbudegada depois de pegar ônibus, trem da CPTM e metrô e a mãe desnaturada que ela tem pediu prá ela vestir as regatas e posar prá essas fotos - e ela, 100 % princesa, disse que sim (mesmo tendo uma prova importante no dia seguinte...). Maravilhosas essas minhas filhas - e merecem ser mimadas, não merecem?

Desta vez, as mimei com regatinhas novas... As de bolinhas:





No dia em que comprei as malhas floridas prá fazer os vestidos da minha velhinha (desta postagem AQUI)comprei 70 cm de cada malha de bolinhas, prá fazer as regatinhas. São tããããõ fáceis de fazer, ficam prontas tão rapidinho, que mesmo você não tendo overloque dá prá mandar brasa num presentinho charmoso e muito útil - porque elas ficam lindas somente assim ou com uma camisa por cima ou um agasalho, se o dia tá mais friozinho...

Você apóia uma regata que você tenha que te cai bem sobre um pedaço grande de papel (eu usei sacolas de loja feitas de papelão resistente, bem abertas - que assim o molde dura...). Com a camiseta bem esticadinha, copiei seu contorno no papel,usando lápis (caneta pode manchar a blusa, se encostar). Com a ponta do lápis bem fininha eu dou uma leve perfurada no local que fica o decote da frente e faço no papel algumas marquinhas leves - quando tirar a camiseta, é só seguir as marquinhas e desenhar o decote. Recorto com a tesoura somente metade do molde, dobro ele sobre o outro lado e vejo se o contorno dos dois lados estão iguais (como é malha, às vezes você esticou mais um lado que outro e nem percebeu...). Só recorto o molde totalmente quando vejo que está 100% simétrico. Faço o molde das costas da mesma forma.

Na hora de cortar no tecido eu faço assim: corto 1 cm maior que o molde em todo o contorno dos lados, do decote e das cavas das mangas e 2 cm maior na barra. 

Acabamentos: o melhor de todos, prá malha, é o viés. Espia como fica lindo, perfeito:



E o melhor: pode cortar de qualquer sentido do tecido, pois todo ele estica. Costura no contorno do pescoço e da cava, vira prá dentro e prende com pontinhos à mão - muito fácil.

(Ah, com as sobrinhas ainda vai dar prá fazer calcinhas ou mais vestidinhos prá minha "prisioneira"...).


Semana que vem estou planejando fazer outra blusa e vou fazer um passo a passo, se Deus quiser.

Essas duas regatinhas de malha foram feitas de liganete, preço por metro R$13,90 na loja ModaModa, ao lado do Shopping Penha. Comprei 70 cm de cada, então com menos de 10 reais eu fiz cada uma delas...

As de listras:

(Reparem que as mechas azuis da Naninha já quase desapareceram - é que ela lava o cabelo todo-santo-dia... Mas estão com uma cor de loiro muito linda, nada de amarelão...)




Espia os acabamentos em viés:


Repararam que usei tecido da horizontal e da vetical? Tem hora que o acabamento é cinza liso, tem hora que é listrado - malha estica, não dá trabalho. É só perder o medo prá se apaixonar por costurar com ela...

Outra coisa: cortei as duas no sentido contrário ao que se corta roupa: as listras eram na horizontal, ia "engordar" minhas meninas. Cortei com as barras no sentido da ourela e, com isso, gastei só meio metro de tecido - ao invés dos 70 cm habituais... E não tem problema, pois é malha!!!

Essas blusinhas eu fiz com tecido comprado no Varejão Chaves da Av. São Miguel - loja que fechou... Paguei R$3,50 cada pedaço de 70 cm e cada um rendeu uma blusinha e sobrou - mas, na verdade, cada blusinha saiu por R$2,50, por causa do sentido em que eu cortei e da largura enorme do pano (1,40 m)...

Agora a melhor, que eu guardei pro final:




Lembra dos dois retalhos pretos, que comprei por peso, nesta postagem AQUI? Essa eu fiz com o menor - e o custo foi (pasmem!) R$0,30 (trinta centavos!!!). Uma blusinha linda, novinha de tudo, impecável - por moedinhas!!!

Ai, acho que sou uma sentimental - me apaixonei por todas, mas essa pretinha é xodó da mamãe...

Vocês nem calculam quantos elogios e quantos beijos me renderam essas peças... A trabalhadora faz por merecer seu salário...

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Enquanto gira o mundo...


Minha mãezinha se formou - com diploma e fotografia prá posteridade - como costureira aos doze anos de idade. Na foto, mulheres adultas com seus vestidos todos brancos, rendados, flores no busto, batom escuro - e minha mãezinha no cantinho, ao lado da professora, toda pequenininha e magricela... Criança de tudo. 

Estudava e costurava prá fora - chegava da escola e nem almoçava, tomava um "Vic-maltema" - que é como o Ovomaltine se chamava naquele tempo, antes de 1950 - e já sentava na máquina. Vinham mulheres de longe, fazer com ela os vestidos da Elisabeth Taylor e de outras atrizes de Hollywood. Ficou tuberculosa aos quatorze anos - por milagre não morreu. 

Ela nos sustentava com o dinheiro obtido das suas costuras - e cobrava baratinho, que era prá nunca faltarem freguesas. Mas, mesmo assim, o que mais tinha no bairro eram costureiras ...

De vez em quanto, prá gente não passar fome, ela oferecia seus serviços numa casa - e me levava sempre junto. Lá ela passava o dia todo costurando, fazendo lençóis, cortinas, roupas, da manhã até a noite chegar - foi assim que eu aprendi o pouco que eu sei.

Outras vezes ela pegava trabalho em oficinas de costura e trazia prá casa - prá não ficar longe da gente... Era um serviço sacrificado, sacolas e mais sacolas de roupas... Tudo pago a preço de miséria - mas na matemática da necessidade, pouco sempre é melhor que nada.

Na minha rua tinha uma dessas oficinas, meia dúzia de casas prá baixo da minha, na casa de uma conhecida de infância da minha mãe. A mulher tinha um cômodo da casa reservado, com duas máquinas de costura e duas de overloque e nelas trabalhavam ela e três funcionárias. Várias outras costureiras buscavam ali suas sacolas de roupas prá terminar em casa - incluindo, esporadicamente, minha mãe.

Estávamos com quase nada na despensa, a luz cortada - tempos difíceis dos quais ninguém sente falta.

Fui com minha mãe buscar as sacolas de roupa - eu tinha uns 10 anos de idade, ia com ela prá todo lado, pois era a mais velha. A mulher garantiu a minha mãe que, se ela terminasse as costuras até sexta feira, recebia na hora - e minha mãe varou a noite costurando. "Tléc, tléc, tléc" sem descanso, prá lá e prá cá seus pés no pedal da máquina velha...

Amanheceu sexta feira, minha mãe aprontou a gente prá escola sem café - mas quem ia prá aula tinha sorte, pois lá tinha merenda... Beijou a mim e a minhas irmãs e prometeu que, quando a gente voltasse, ia ter comida na panela, "Se Deus quiser...".

Onze e meia da manhã nós três chegamos juntas em casa, a barriga colando nas costas de fome, imaginando felizes o que ia ter prá comer...

No silêncio da casa sem TV dava prá se ouvir bem alto o choro triste do meu irmãozinho mais novo - mas não era somente ele quem chorava. Com os olhos inchados, sentada num canto da cama, se apoiando na cabeceira, minha mãe balançava o neném junto do peito, a própria imagem da tristeza...

Minha irmã Cida pegou meu irmão no colo  e o levou pro sol, em busca de alguma luz e alegria, enquanto eu me sentei na cama, prá entender e partilhar daquela desesperança...

Minha mãe desabou no choro de novo - tão criança quanto eu, talvez mais... Me contou que entregou a costura prá dona da oficina e que ela disse que havia mudado de ideia, que só ia pagar semana que vem. Explicou que, no dia seguinte, era aniversário da filha dela, que ia dar uma festa - e que o dinheiro que devia prá minha mãe teria melhor uso na compra de cervejas e refrigerantes pros convidados.

-"Mas Lúcia! Você sabe que eu tô sem comida em casa, a luz cortada! Trabalhei a noite toda prá poder receber hoje, tô precisando muito, você me prometeu..."

Tem momentos na vida em que tudo aquilo em que a gente acredita parece mentira - que Deus não existe, que o Bem nunca vai vencer o Mal, que a vida não faz sentido algum, que é tudo uma grande perda de tempo, uma piada de mal gosto do Universo... Esse era prá ter sido um desses momentos em nossas vidas.

Sentada na cama, minha mãe era o retrato da desolação. Da fome.

Sabe o que a mulher teve coragem de dizer prá ela?

"-Olha, minha filha, não sei por quem você me toma. Vou te explicar como eu sou: se eu estiver na beira de um poço e ver uma pessoa batalhando prá subir, me estendendo a mão por ajuda, eu piso na mão dela. Não tenho nada a ver com a fome dos teus filhos, com a tua luz cortada. Na minha vida, tudo vai bem - e isso é que me interessa. O resto que vá à m*."

Eu até podia dizer prá minha mãe que Deus tava vendo, que ia dar o pago prá ela, que tudo ia dar certo - mas eu também não pensava assim, eu também estava sem esperança nenhuma. 

Aquela mulher havia pisado na mão da minha mãe e na minha. No fundo daquele poço, tudo o que eu fiz foi chorar com ela.

O dia passou, a noite chegou - e todos fomos dormir com fome. 

Na manhã de sábado meu tio Antonio veio visitar minha avó e, vendo nossa falta de tudo, nos trouxe algumas coisas - pão, leite, óleo, arroz e feijão - porque Deus se lembrou de nós... 

A noite de sábado chegou, com a música alta e a barulheira da festa da menina.

Domingo de manhã bate palmas na nossa porta aquela mulher, descabelada por ter acabado de acordar, vestindo um roupão mal amarrado - parecia uma louca fugida do manicômio...

Minha mãe começou a subir as escadas e a mulher, antes que ela chegasse ao topo, lhe atirou em direção ao rosto umas notas de dinheiro amassadas, com um ódio infinito estampado na cara.

Gritou "Toma aqui o teu dinheiro, sua maldita! Nunca mais apareça na minha oficina em busca de trabalho e vá rogar pragas prá p* que te pariu!"

Minha mãezinha, atordoada, perguntou o porquê daquilo, o que tinha acontecido!

-"Como se você não soubesse!" - e, virando as costas, foi embora.

Ficamos sabendo depois, por uma das vizinhas dela, que na noite da festa, os portões e as portas da casa se mantiveram abertos, prá livre circulação dos convidados - principalmente porque a casa era pequena prá tanta gente. Em dado momento, três marginais, passeando pelo bairro em busca de oportunidades, invadiram a casa, roubaram tudo o que puderam e ainda agrediram várias pessoas, acabando com a festa. Deus também se lembrou dela...

Gozado... Na minha casa, cada minuto gotejou devagarinho - parecia que o tempo não passava nunca, as horas de fome se estendendo até meu tio providencialmente aparecer prá nos ajudar...

Na vida dessa mulher, o mundo deu uma volta rapidinho - mas ela colocou na conta da minha mãe o mal que lhe aconteceu...

Nunca mais minha mãe costurou prá ela.

Hoje, minha mãezinha mora numa das casas mais lindas da rua e essa mulher ainda vive no mesmo lugar, do mesmo jeito, uma vida pequena que se arrasta a cada volta que o mundo dá.

E minha mãe nunca mais achou que Deus não estava vendo... 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Estilosa e econômica

Como se tudo que eu fizesse não fosse assim... Mas, desta vez, é também necessária e prática: uma bolsinha, tipo necessaire, prá minha Nana levar dentro da bolsa o estetoscópio.

Os colegas de curso dela - a maioria muito bem de vida e filhos de médico... - tem uma maleta, na qual carregam o esteto mais os "trocinhos" que tem luzinha prá examinar ouvido e garganta. Mas ela, filha de quem é, ganhou uma bolsinha do tipo "que ninguém mais no mundo tem", só dela e muito lindinha.


Primeiro: um retalho de tricoline preto, cheio de joaninhas, daqueles comprados dobradinhos na bancada prá fazer patchwork - preço R$3,00. Dobrei ao meio, cortei - esse é o tamanho da bolsa. Ficou um retângulo quase quadrado (o retalho media 30 x 70 cm, daí cortado virou 30 x 35 cm). 


Daí tem que providenciar a fofura: um pedaço de plumante de 30 x 35 cm.


Então tem que pensar na proteção da bolsa: um pedaço de plástico resistente (desses de cobrir a mesa da copa prá proteger a toalha) de 30 x 35 cm.


Providenciado tudo isso, precisa de um zíper de 30 cm - eu tinha esse preto, jacaré que é mais charmoso.

Feito o sanduiche: o plástico no centro, os dois retalhos de tricoline em volta dele, um olhando pro outro através do plástico, avessos prá fora e o plumante mais prá fora que tudo. 

Separei e encaixei cada metade do zíper em uma das bandas da futura bolsa, bem assim:


Costurei o zíper e desvirei - as laterais ficam sem costurar.



Cortei as beiradas duras do zíper, senão quebra a agulha da máquina, e passei viés preto dos dois lados, prá fechar as laterais. 

Se não tivesse o plástico, dava prá acabar a lateral com viés na máquina - mas fica grosso demais, ela não aguenta. Terminei na mão, com agulha grossa e comprida de costurar, de ponta bem fina - e dá-lhe dedal prá empurrar a agulha!





E pronto! Forradinha por dentro, maleável - se ela precisar dar uma dobrada prá se encaixar nos meandros da bolsa!

"Chamando Doutora Nana! Chamando Doutora Nana!" - e lá vai ela, escutar os corações e os pulmões das pessoas, levando seu estetoscópio numa bolsinha charmosa - quiném ela...

Agora deixa eu "dedurar" minha filhinha...

Ela já está atendendo pacientes, mesmo estando apenas no terceiro ano de Medicina. São três hospitais-escola, três vezes por semana. Ela me disse que, a maioria das vezes, as pessoas que ela vai atender estão rabugentas e mal humoradas - muitas vezes já estão internadas há algum tempo e "de saco cheio" de tanto estudante examinando prá lá e prá cá. Daí, quando chega a vez dela, a pessoa percebe a doçura escapando dos poros e vem com pedras nas mãos, reclamando...

Eu perguntei: "E então, filha, como é que você faz?"

Ela me respondeu que começa sempre pedindo desculpas, que sabe como deve ser difícil estar doente e ficar sendo incomodado o tempo todo; que ela vai procurar ser bem rápida e muito gentil, que se ela estiver machucando ou qualquer coisa é só avisar. 

A pessoa já se desarma um pouquinho, ela conversa falando suave, dando um sorriso, perguntando com delicadeza - ela diz que as pessoas precisam mais de gentileza do que de qualquer outra coisa... 

No final, ela agradece muito à pessoa e diz que, graças à permissão dela de fazer o exame, ela aprendeu um pouquinho mais prá se tornar uma boa médica e, futuramente, ajudar mais e mais pessoas...

Eu olho prá ela e anoto no meu coração: um dia vou perguntar prá Deus por que, dentre todas as mulheres do planeta, ele mandou logo três desses nascerem da barriga desta aqui...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Escândalo!

Se você perdeu o Globo Repórter e o noticiário do Datena de ontem, não sabe o que perdeu - e vamos reprisar (na íntegra!) o último escândalo do Sistema Carcerário no Brasil.

É de conhecimento público que as prisões brasileiras estão super lotadas. Celas onde deveriam viver dois presos abrigam 32 sentados e 45 de pé (ou será que isso é o que cabem nos ônibus???...). 


Também não é segredo prá ninguém o tráfico de influência, objetos e serviços prá dentro desses ambientes: drogas, celulares, cigarros...

E olha que nem todos os presos são fumantes: esta detenta, por exemplo, nunca fumou na vida - mas utiliza os cigarros como moeda de troca:


Já começa errado: onde já se viu um ambiente lotado de indivíduos, saindo gente "pelo ladrão" e todos eles desocupados? A ociosidade não leva a nada de bom. 

Que tal trabalho e estudo - prá prepará-los para o dia de sua liberdade com dignidade, ao invés de soltá-los no mundo, piores do que quando entraram?


Reformas precisam ser feitas urgentemente. Mas - antes delas - tem-se que acabar com abusos. Chegou ao nosso conhecimento (através de uma denúncia anônima) que uma detenta, encarcerada no Centro Carcerário da Penha, situado na residência da Dona Rosa (uma blogueira obscura, com poucas - mas fiéis visitas - ao seu blog...) tem sido obrigada a coisas inomináveis prá sobreviver à vida na cadeia. 


Segundo nossos informantes (certos vizinhos da dita Dona Rosa), a detenta em questão vem se sobressaindo no ambiente carcerário, obtendo vantagens ilícitas perante as outras detentas.


Chegaram na redação do nosso jornal fotos extremamente comprometedoras da detenta (de nome Lillo, vulgarmente conhecida também pelas alcunhas de "Pequena", "Trubufu", "Xixizenta", "Bebezinha" e "Gostosa" - entre outros) vestindo um vestidinho de Minie, com lacinho na cabeça e tudo - ao invés do uniforme da detenção.


Relatos de fonte segura nos informam que o vestido foi presente da Dona da Penitenciária e sua Diretora, a tal de Dona Rosa, presente esse em virtude da detenta - pasmem! - dormir corriqueiramente com ela!!!

Procurada pela redação do nosso jornal, Dona Rosa não foi encontrada - seus vizinhos dizem que ela pode ser vista sempre na área de serviço, lavando roupas, mas esse fato ainda não foi confirmado.

Seus familiares se negaram a dar entrevista.

A detenta Lillo, em troca de imunidade e pedacinhos de bacon, respondeu a algumas perguntas e nos permitiu tirar as fotos que expusemos nesta reportagem. Ficamos penalizados com a situação da bichinha - como pode existir tamanha crueldade neste mundo!


Dona Rosa está sendo procurada pela polícia prá prestar esclarecimentos. Se comprovada a veracidade dos fatos, a dita senhora responderá por Corrupção de Cachorros, Tráfico de Salaminho e Conduta Imprópria, podendo - se condenada - cumprir até 50 anos de cadeira elétrica.

Veiculamos um retrato falado dessa senhora e pedimos à população que nos ajude a encontrá-la, ligando gratuitamente para o número 191 da sua cidade.


(Como fazer a roupinha? AQUI. Depois faz uma tirinha cheia de plumante, amarra no meio prá virar lacinho e prende um pedaço de elástico bem macio e folgadinho, prá prender na cabeça da bichinha sem machucar e deixar lindinha...)


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Só porque me faz feliz!


Adoro quando minha velhinha vem me visitar... Ela toca a campainha e eu espio pelo vidro da porta: aquele espirrinho de velha, segurando com a mão na grade do portão porque já não tem mais tanta firmeza nas pernas...

Essa velha deveria ser clonada: costureira, bordadeira, tricoteira... Pedreira, azulejista, encanadora, eletricista... Pintora de quadros e cantora de fados - tudo o que ela se predispuser a fazer, faz bem feito!

Dias atrás, na sexta-feira anterior ao Dia das Mães, ela veio me visitar trazendo um corte de pano - prá eu fazer um vestido fresquinho prá mim. 

Disse que ia fazer e me presentear, mas não enxerga mais prá enfiar a linha na agulha - mácula degenerativa nos dois olhos. Triste, não é? Tá ficando ceguinha - ela, que sempre enxergou as dificuldades com fé em Deus, que carregou o mundo nas costas por tantos anos, agora precisa de quem lhe tire os pelinhos da sobrancelha e lhe leve pros lugares pela mão (meu irmão estava com ela...), igual criança.

Mas é lúcida! Ontem mesmo esteve no Pronto Socorro do Tatuapé com meu irmão, que há dois meses está sofrendo com uma unha encravada infeccionada no dedão do pé - discutiu com o médico até fazer exame de diabetes, pressão  e receitar antibiótico (e o médico a chamou de "velha danada", disse que ela é uma boa argumentadora e muito inteligente, que meu irmão tinha sorte...).

Bom, no dia em que ela me trouxe o paninho de presente, reparei que ela usava seu vestido favorito de malha, feito por ela, anos atrás. Estampadinho de flores miudinhas, como ela gosta... Mas, olhando de perto, reparei que tinha um montão de desfiados, de furinhos pequenos - o vestido tá indo embora de tanto uso... E ela ganha vestidos prontos de todos os filhos, mas teima em usar aquele, por causa da estampa... Pensei que chegou finalmente a hora de se inverterem os papéis: agora eu devo costurar tudo prá ela, não somente o que ela me pede, mas principalmente o que meu coração pede...

Quando ela foi prá casa, liguei pro celular do meu irmão e pedi prá ele "passar a mão" sorrateiramente no vestido, assim que desse, sem contar prá ela, e trazer prá mim, prá eu fazer o molde. Por sorte ela estava no banho, se preparando prá ir na missa da tarde, com ele - ia ser "pá-pum" fazer um vestidinho novo prá ela.

Meu irmão desceu correndo a rua, com o vestido na sacolinha e disse que ela nem ia dar pela falta, pois tava no cesto prá lavar...

Eu falei prá ele dar uma passada na minha casa depois da missa que o vestido estaria pronto - pois eu tinha um pedaço de malha guardado, com o qual pretendia fazer um vestidinho prá mim, uma hora dessas...

Num instantinho fiz o molde, cortei o vestido, passei ele todinho no overloque e fiz as bainhas com agulha dupla na Janome 2008, imitando galoneira - ficou tão profissional, lindo demais. 

O tecido foi este aqui - esqueci de fotografar o vestido, devido à pressa:


Lindo, não é mesmo?

Aí meu irmão passou em casa, duas horinhas depois e levou o vestido de surpresa prá ela. Passados alguns minutos ela me liga, toda feliz, que o vestido era lindo, que tinha adorado, já estava até vestindo; "Ai, filha, que tecido delicioso! Parece que eu tô pelada..." - essa minha velha...

Mas por que só um? Pedi pro filhão e ele me levou na loja, onde comprei mais dois cortes de liganete (também conhecida como malha fria) e fiz mais estes dois aqui:





(Esta última foto eu tirei prá vocês verem o detalhe do viés no decote e apreciarem o cabelo azul da minha Naninha - lindo, né? Vai desbotando com as lavadas, daí fica louro platinado... Da próxima vez vou pintar de rosa...).

Ela amou todos, especialmente o preto - achou muito chique. Óbvio que nela fica mais certinho - a modelo é minha filha Nana, mais magra que minha mãezinha.

Olha de perto os dois paninhos:



São lindos, você acha na loja ModaModa, aqui no bairro da Penha, na rua lateral do Shopping Penha (rua Antonio Lobo, acho que o número é 50...). Tem estacionamento no Shopping, mas dá prá vir bem fácil de transporte público: desce na estação de metrô Penha, pega o ônibus Limoeiro ou qualquer outro que passe em frente ao Shopping (pergunta antes pro motorista...) e desce quase na porta! Você só acha lá essas estampas miudinhas em malha, mas tem um montão de coisas lindíssimas, de fazer a gente pirar de vontade de comprar... Não tô ganhando prá fazer propaganda deles - na verdade, eles nem sabem... - mas é porque o preço é bom, o atendimento é muito atencioso e eu quero que eles tenham muito sucesso, que assim eles vão continuar abertos e eu sempre vou ter loja de tecidos prá comprar perto de casa...

Quanto ao vestido, não passa de uma camiseta de malha encompridada - mais fácil de fazer, impossível! O decote é um "V" arredondado na ponta, prá ficar mais fácil aplicar viés. Foram feitos na overloque, mas poderiam ser feitos com ponto elástico da máquina.

O metro desse tecido está custando R$13,90 e gastei 1,20 m em cada um deles - custa tão pouquinho fazer minha velha feliz!!!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

As portas que a vida fecha...


A primeira vez que a gente faz alguma coisa sempre fica marcado... 

A primeira vez que atravessou a rua sozinha (mesmo que você não se lembre, está lá - bem guardadinha na sua memória, como um marco de independência...), a primeira vez que alguém especial te disse que você era linda, o primeiro beijo (tenha sido ele maravilhoso ou uma meléca, como foi o meu...)...

O primeiro emprego com carteira registrada.

Eu até ia contar prá vocês antes disso da primeira vez que eu realmente trabalhei prá alguém - lá pelos idos de "não interessa", sem registro, ganhando meio salário mínimo - mas vou deixar essa história prá uma outra hora, pois às vezes o carro tem que ir na frente dos bois.

Eu fiz bem assim: entrei na loja de lãs e linhas, fui até o caixa (onde estava uma moça japonesa chique e bonita) e perguntei prá ela, sem meias palavras, como é que eu fazia prá trabalhar naquela loja. 

Calhou dela ser a dona - uma das donas, junto com seus dois irmãos. Era aqui no bairro da Penha, se chamava Bazar Tókyo e tinha duas filiais - lojas enormes, lindas, muito bem sortidas de fios maravilhosos. Algumas vezes eu ia numa delas comprar uma coisinha ou outra.

A moça parece ter ido com a minha cara, me entrevistou e falou que eu podia vir no dia seguinte, bem cedo, conversar com o irmão dela - e assim comecei a trabalhar...

Arrumei esse emprego somente prá poder mudar de período na escola - estudava à tarde e queria ir prá noite. Estava de coração partido por causa de um Zé Ruela (nesta postagem AQUI você confere todo o dramalhão...) e queria ir o mais longe possível dele - e o jeito era me ocupar o dia todo e terminar os estudos num turno diferente.

E eu adorava o trabalho - desde pequena e por quanto tempo eu viver neste mundo, sempre vou adorar lãs e linhas. 

O convívio com as outras funcionárias era maravilhoso - todas balconistas como eu, gente muito simples e alegre, rindo e conversando bobagens o tempo todo... 

A loja ficava a quinze minutos à pé distante da minha casa e a apenas cinco minutos do colégio. Eu chegava cedo, antes da loja abrir e apesar de poder almoçar comida fresquinha em casa eu trazia marmita (quando eu preparava a do meu pai, fazia uma também prá mim...) só prá poder comer junto das outras moças... Era tão gostoso! As conversas, as risadas, os sonhos e planos... As confidências dos namoradinhos, dos bailes aos quais elas iam nos finais de semana - eu, que fui criada presa, achava tudo o máximo! Nem reclamava de ficar de pé das oito e meia da manhã até as seis da tarde!

Um belo dia, lá estava eu organizando uns novelos que uma mulher tinha desistido de levar quando entrou na loja uma pessoa conhecida, mãe de uma grande amiga minha dos tempos de ginásio. Toda feliz eu disse prás minhas colegas que eu é que queria atender a mulher e lá fui eu, com meu melhor sorriso...

Era uma mulher muito chique - apesar de não ser rica. A postura, o jeito de olhar prá todo mundo de cima, torcendo o nariz, como se o resto do universo cheirasse a m* - sempre tive um pouco de medo dela, prá falar a verdade... Mas eu e a filha mais velha dela éramos inseparáveis até quase cinco anos antes!

Não podiam existir duas meninas mais diferentes para serem amigas. Ela era bem alta - 1,75m (eu tinha dez centímetros a menos...), muito loura, olhos verdes, linda de todos os ângulos que você olhasse. Sabe a beleza que a Xuxa conseguiu depois das plásticas? Ela já nasceu com aquilo tudo... E com a postura da mãe, parecia que ambas andavam com um livro equilibrado no alto da cabeça... Já eu... Se o Gasparzinho e a Olívia Palito tivessem uma filha, essa seria eu.

Todos os trabalhos de escola a gente fazia juntas. Quer dizer, eu fazia por nós duas, pois o que ela tinha de linda tinha de lenta - mas só no que dizia respeito aos estudos. Quando se tratava de arrumar namorados, era um gênio - sempre os arrumava lindos, endinheirados e mais velhos...

Muitas vezes, sentada na sala dela, pintando com guache um cartaz, datilografando alguma coisa, lá batia palmas um rapaz, ela atendia a porta, apresentava o novo namorado, alto como um guarda-roupa, lindo como um artista de cinema, já maior de idade, com carro do ano - e ela com 12, 13 anos... Ele se sentava no sofá, a mãe se desmanchava em sorrisos, eu me tornava ainda mais invisível na mesinha, trabalhando sozinha e ela ia se trocar no quarto, prá sair com ele... 

Eu sinceramente não me importava - em qualquer grupo que eu ficasse, quem sempre trabalhava mais prá coisa sair era eu mesma e ela sempre foi muito gentil comigo, muito carinhosa... Eu adorava quando era época de amoras ou pitangas: ela tinha muitas árvores de fruta no quintal e, enquanto eu trabalhava, ela e o primo catavam do pé e me traziam uma cumbuquinha cheia - eu adorava. 

Quando chegamos na sétima série a mãe dela resolveu que estudar não ia levar a nada e a tirou da escola - e ela foi morar com o pai no litoral de São Paulo - nunca mais a vi, ela nunca respondeu minhas cartas.

Imaginem a surpresa e a curiosidade quando me apareceu pela frente a mãe dela, o quão feliz e curiosa eu fiquei.

A mulher se parecia muito com a madrasta da Cinderela do desenho da Disney - esta aqui:


Uma Marieta Severo grisalha, de olhos verdes e expelindo mau humor por todos os poros...



Foi me pedindo prá ver uma lã, depois outra e mais outra - o balcão foi ficando cheio. 

Enquanto a atendia eu ia perguntando: "E a Magali, como é que está? Nossa, que saudades dela, ainda tá morando com o pai no litoral? Ela vem visitar sempre a senhora? Fala prá ela dar uma passadinha lá em casa, sinto tanta saudade dela..." - e a mulher não respondia, só perguntava se tinha tal lã, em tal ou qual cor, se eu podia pegar aquela lã naquela prateleira lá de cima...

Teve uma hora que ela me pediu uma lã que estava na prateleira mais alta de todas, mais coberta de pó e que era apenas estoque de outras que já tinha bastante nas prateleiras de baixo. Eu peguei a mesma lã e mostrei prá ela, mas ela teimava que a lã lá de cima era outra, em outra tonalidade e ríspida disse que, se eu não pegasse logo, iria reclamar com a gerente.

Eu subi na escada e mesmo assim só consegui agarrar o saco ficando na ponta dos pés. Quando o puxei, veio no meu rosto uma nuvem de pó e eu quase despenquei de lá de cima.

Meus olhos ficaram cheios de sujeira, ardendo como se tivessem cheios de pimenta. Lacrimejavam em profusão, na tentativa do meu corpo de expulsar todos aqueles ciscos - e até que funcionou, num dos olhos. O outro eu não conseguia manter aberto, parecia que tinha um prego dentro.

Mostrei prá mulher a lã, ela viu que era a mesma que eu tinha mostrado antes e disse assim: "Humpf, não encontrei nada que me agrade" e se virou prá ir embora. Eu, bobamente, olhei com o olho bom prá montanha de coisas em cima do balcão e perguntei prá ela: "A senhora não vai levar nada?".

Ela interrompeu o passo, virou prá mim, ergueu mais ainda o nariz que ela já empinava mais do que devia e, dando um sorriso bem debochado, disse assim:

"Era bem o que você esperava, não é? Que eu fosse levar todas essas lãs, prá você ganhar uma gorda comissão às minhas custas? Ah, era só o que me faltava... Olha, garota, vou te dizer uma coisa: fiquei feliz em ver você aqui, sendo uma mísera balconista - você, que sempre se achou tão inteligente! Como eu odiava quando você ia lá em casa, bancando a sabe-tudo, esfregando na cara da minha filha o quanto ela era burra! Deus é grande, você está pagando direitinho! E quer saber mais uma coisa: minha filha é tão linda que não precisa dessa sua inteligência prá se dar bem na vida: ela foi escolhida Miss Caraguatatuba, está noiva de um empresário rico, vai se dar muito bem como você nunca irá."

Daí foi até o caixa e disse prá dona da loja que nunca mais ia comprar lã ali, que achava que o tipo de funcionária que ela empregava depreciava a loja.

Desse ponto em diante eu já nem sabia se meus olhos lacrimejavam da sujeira ou se eu estava chorando mesmo... Fui pro banheiro, lavei o rosto, enchi a mão de água e abri o olho dentro e nada daquele "prego" sair. Trabalhei do jeito que deu e faltei na aula à noite - fui até o Hospital da Penha e, na emergência, o médico oftalmologista acendeu uma luz esquisita no meu olho e tirou um treco que estava preso - por isso não saía com água. Encheu meu olho de pomada, fechou com um curativo, prescreveu um colírio e me deu o dia seguinte de licença remunerada.

Dois dias depois, quando voltei prá loja, o irmão da dona me chamou e disse que eu estava despedida - e eu nunca soube se foi porque tirei licença de um dia ou se foi porque a mãe da minha amiga falou aquelas coisas de mim...

Trabalhei lá exatos um mês e vinte e dois dias. Meu primeiro salário foi uma sensação tão boa - dei parte dele prá minha mãe, comprei uma blusa nova, comi um queijo quente com tomate e bebi uma coca cola numa lanchonete (um gostinho totalmente novo, de coisa comprada com o suor do meu rosto...).

Nunca mais vi as meninas que trabalhavam comigo - fiquei com vergonha de voltar na loja. 

Depois de um tempo, as duas lojas fecharam - o Brasil passou por uma fase em que o artesanato em si e o tricô em particular não estavam na moda, então acho que ficou difícil pros donos as manterem abertas. Alguns anos atrás eles abriram uma de novo, ao lado do Shopping Penha, mas não foi adiante. Cheguei a comprar algumas coisas lá, fui atendida pela mesma moça japonesa que era dona e ela não demonstrou me reconhecer - e eu também nem falei nada...

Ainda hoje me entristece um pouco o que aquela mulher disse - me machuca o fato de que alguém tivesse tanta coisa contra mim sem que eu tivesse a mais leve suspeita... 

Eu gostava da filha dela, ajudava com prazer, jamais me senti melhor que ninguém, nem mais inteligente, nem nada... 

Acho que nossos corações deveriam ser mais espertos e nossos rostos deviam ficar de uma cor especial quando pensamos o mal - assim as pessoas poderiam fugir da gente... Eu, com certeza, ficaria bem longe dessa mulher. 

O gozado é que eu nem trabalhava por comissão! Se vendesse um retrós de linha ou dez sacos de lã, recebia a mesma coisa!

Acredito que acontecem dois tipos de coisas na nossa vida: as coisas boas, que são todas obras da vontade de Deus, que é pai amoroso e bom - e quer sempre nos dar o melhor de tudo. E as coisas ruins, que acontecem com a permissão Dele, porque tem uma serventia na nossa vida, que nós não somos capazes de perceber de imediato - só enxergamos o sentido depois de passado o tempo. 

Se eu não tivesse sido despedida, teria trabalhado ali a vida toda. Provavelmente não teria feito faculdade, não teria prestado concurso e trabalhado como funcionária pública. Talvez não tivesse conhecido meu marido - todo meu destino teria sido outro...

Já dizia Paulo:

"Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo para convosco."

As linhas nas quais Deus escreve a história de nossas vidas podem nem sempre ser perfeitas, retinhas... Mas se a gente se dá o trabalho de voltar as páginas e ler, com cuidado e atenção, cada passagem, sempre encontra a letra Dele escrevendo coisas incríveis...

(O nome da minha amiga foi trocado, só pro caso de ter algum seguidor entre seus familiares. A praia da qual ela foi Miss também, pois não me lembro se era Guarujá, Ubatuba, Caraguatatuba...)
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