Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

No Fundo do Poço



Minha irmã Cida tinha acabado de fazer 4 anos dia 31 de dezembro - no mesmo mês, no dia 3, eu tinha feito 5... Era dia 14 de janeiro.

Minha avó - que era quem cuidava da gente, fazendo comida, lavando toneladas de fraldas... - estava fora de casa desde o Ano Novo: sua irmã mais nova, Maria, estava doente demais, todo mundo dizia que ela tava morrendo... Minha avó estava na casa da irmã, prá tomar conta dela.

Essa era minha avó: quem quer que precisasse dela, podia contar como certo que ela ia ajudar. Justamente essa irmã, que havia tratado minha avó com tanto desprezo por toda a vida (pelo fato de minha avó não ser casada com meu avô - coisa que, naquele tempo, era certeza de ser mal-falada na família e em toda parte e praticamente uma sentença de eternidade no inferno depois da morte...) agora ali estava, dependendo totalmente dela...

Sim, porque mesmo tendo sido muito rica, agora minha tia-avó Maria se encontrava abandonada pelos filhos... Relegada à menor de suas casinhas, num buraco obscuro da Zona Leste, sem asfalto, meio do mato mesmo...

Acamada, abandonada - só não estava sozinha porque minha avó estava com ela, dando banho na cama, comida na boca...

Mas minha avó também não tinha boa saúde, já estava com quase oitenta anos - fazia o que podia...

Foi então que minha mãe, naquele 14 de janeiro, pegou eu e minha irmã Cida e disse que a gente ia passear - de manhã, bem cedo, ainda nem sete horas eram... Deixou com nossa vizinha Dona Elídia minha irmã Fátima, de 3 anos, e meu irmão Tato, bebêzinho de berço. Dona Elídia era uma santa, adorava criança, sempre engravidava e perdia - custou muito prá conseguir um filhinho... Cuidou dos meus dois irmãos com toda a boa vontade...

Pegamos ônibus - e ficamos enjoadas o caminho todo... 

A pior parte foi passar debaixo da linha do trem, lá na Celso Garcia: tinha o Cruzeiro, onde as pessoas viviam acendendo velas (e as paredes ficavam bem pretas por causa disso...), deixando imagens de santos, flores (minha mãe dizia que era em homenagem aos que morriam atropelados pelo trem - e isso me dava pesadelos...).

Chegamos na casa da tia Maria por volta das 8 da manhã e a melhor parte foi rever minha avó - que saudades!!! Parecia que faziam anos que eu não a via, até doía o peito... Prá minha mãe também, foi tanto abraço e beijo!

Minha mãe foi prá lá prá ajudar minha avó: tinha muita coisa prá fazer... Deixou eu e a Cida brincando no quintal e foi pro tanque lavar toneladas de lençóis sujos, cobertas... Lavou banheiro, esfregou o chão da casa... Comemos pão com ovo, brincamos mais um pouco, cochilamos numa coberta estendida no chão...

Anoiteceu e chegou a hora da gente voltar prá casa - tia Maria deitada na cama, tão pálida e tão fraquinha, os cabelos branquinhos ressecados igual cabelo de boneca velha, que muito foi penteada... 

Beijamos minha avózinha amada e saímos prá noite, cada uma levada por uma mão da minha mãe - que estava no começo de mais uma gravidez, a do meu irmão Leonardo...

Como já era muito tarde minha mãe resolveu cortar caminho por um terreno abandonado, que nem cerca tinha. Mato alto, pinicando minhas perninhas de vestido na altura dos joelhos. 

De longe, pouco mais da distância de uma quadra, uma casa tinha muitas luzes acesas e se ouvia burburinho de vozes e música - alguém fazia uma festa...

Um inseto começou a andar na perna da Cida e ela largou da mão da minha mãe prá espantá-lo e então...

Não sei como foi, só sei que foi esquisito demais: o chão desapareceu de onde devia estar. Não tinha mais chão no chão... Acho que eu caí primeiro, porque eu tava mais embaixo. Apertada na minha estava a mão da minha mãe que eu não parei de segurar - mesmo com os matinhos me pinicando na caminhada (e essa foi a minha sorte!).

O buraco parecia sem fundo, minha mãe segurando na borda dele, desesperada gritando pela Cida, eu me balançando mais embaixo e batendo o corpinho nas paredes ásperas daquele negócio...

-"Cida! Filha! Vai prá algum lugar que tenha luz, pede socorro, pelo amor de Deus!!! Vai naquela luz que tem música, vai pedir ajuda na festa!" - disse minha mãe, a voz escondendo o medo que era meu...

O tempo que passou foi eterno. Escuro. Apavorante.

Mas teve fim, como tudo tem fim no mundo. Mãos salvadoras ergueram minha mãe do buraco - e eu subi junto, pois ela jamais largou da minha! Fomos levadas por várias pessoas até a tal festa, onde nos cercaram preocupados e um monte de gente falava coisas como: "Já deviam ter fechado esse poço!" "Quase que aconteceu uma tragédia!" "Que sorte uma das meninas não ter caído, foi a salvação delas!!!"...

Pois é: que sorte... Porque se minha irmã também tivesse caído, minha mãe não tinha conseguido salvar as duas... 

O poço - pois era esse o caso do buraco, um antigo poço de água abandonado de outros tempos... - tinha mais de treze metros de fundura. 

Minha irmã Cida demonstrou um sangue frio e uma presença de espírito enorme prá uma menininha de apenas quatro anos: rua sem iluminação, chegou na casa seguindo apenas as luzes da casa em festa - ou talvez tenha sido guiada por um anjo, vai saber...

Minha mãe mais uma vez me deu a vida, me segurando na boca de um poço - mãe quando é boa, é boa mesmo...

Mas - diga-se de passagem - Deus esteve presente o tempo todo... 

Não duvido que foi Ele quem mandou aquele bendito inseto pinicar as pernas da Cida... 

Foi Dele que veio a coragem da minha irmã em ir buscar ajuda, se embrenhando no meio do mato...

Também foi Dele a força nas mãos da minha mãe e até mesmo a minha calma - apesar do medo. Lá, no fundo do poço, eu fiquei quietinha, sem gritar nem chorar, prá não preocupar ainda mais minha mãezinha...

As coisas que acontecem na vida da gente... O mato era alto, a gente ia sumir do mundo e ninguém nunca ia saber o que tinha acontecido - já pensou? No dia em que alguém decidisse construir naquele terreno talvez nem achasse o que havia sobrado da gente: iam jogar terra e entulho dentro, prá tampar o buraco e seguir com a vida...

Uma coisa é certa: a gente sempre pode contar com as pessoas que nos amam prá sair do fundo do poço...

12 comentários:

  1. Rosa...que momentos incríveis que vocês viveram!
    Por aqui também vão acontecendo acidentes do género!
    Terminou em beleza com uma bela frase!!!
    Bj amigo

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  2. Literalmente, quem ama puxa para fora do poço, que sorte Rosinha
    ninguém se ter magoado, boa semana amiga, beijo

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  3. Que história, hein Rosa?
    Eu caí em um poço cheio de água com 1 ano!!! Minha mãe me puxou pelo cabelo!!! Acho que fiquei com trauma, pois até hoje tenho pavor de afundar a minha cabeça na água!!!
    Que bom que nossa história teve final feliz, não é?
    Boa semana!!!
    Bjos!!!

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  4. Do fundo do poço e do fundo do bau... muitas histórias. Realmente se ela estivesse com as duas mãos ocupadas ninguém teria se salvado.
    Só pra lembrar, ainda estou aguardando seu e-mail.
    Bjs

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  5. Rosinha querida, essa é uma das histórias de terror que povoaram o meu imaginário infantil. Em casa da minha avó havia um poço e sempre fui alertada para os enormes perigos que representava. O que lhe aconteceu foi quase um milagre.

    Querida, deixe que esclareça que não fui eu quem resgatou a Nux. Foi a minha filha. Eu limito-me a ser absoluta e totalmente apaixonada por ela.
    Muitos beijinhos.
    Tenha uma semana feliz.
    Nina

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  6. Nossa Rosa, que história impressionante!
    Puxa, foi um milagre mesmo, acho que o anjo da guarda de vocês estava de plantão nessa hora...
    Que bom que hoje você está aqui para contar essa história prá gente, muito instrutiva.
    Desculpe o sumiço também querida, mas as coisas não estão fáceis por aqui. Nem duas semanas depois que meu cunhado faleceu, meu sobrinho, filho único dele e da minha irmã foi internado com suspeita de dengue. Dá prá imaginar o estado dela e o nosso, tentando ajudar como podemos. Foi uma febre muito alta, não cedia com nada por vários dias. Mas parece que hoje começou a abaixar.
    Ninguém merece...

    Espero que você tenha melhorado e possa estar fazendo suas arteirices como sempre.
    Bjs

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  7. Certamente teve algo divino, ali. Muito gostoso ler tuas histórias. Ainda mais porque acabou bem.
    Falaste na linha do trem, e eu lembrei das minhas angústias de criança. Aonde eu nasci e cresci, andávamos de trem. E de vez em quando, morria alguém atropelado, e aquilo me causava terror. Eu odiava ouvir os adultos comentando. É por isso que devemos ter cuidado com o que falamos perto das crianças.

    bjs

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  8. Oi Rosa, tudo bem?
    Minha linda vim te desejar um feliz dia das mães!
    Beijos no coração

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  9. Olá, Rosa.
    Que história, Rosa! Mas, ainda nos dias de hoje, acontece muito. Aqui em Portugal, também os poços sem segurança têm sido razão de muita desgraça. Minha avó também contava que havia caído num poço, e eu me arrepiava, só de imaginar.
    Mas, vocês, na dificuldade, tiveram, todas, cada uma dum jeito, muito sangue frio e muita coragem para salvarem-se da situação. E mão de mãe é assim mesmo: tem força que ninguém imagina.
    Tudo de bom,
    bj amg

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  10. Meu Deus, Rosa rosinha!!!!

    Não tenho dúvidas que foi Deus que guardou vocês!!

    Quando eu era pequena, as casas tinham poço e eu lembro que uma vizinha menininha caiu e infelizmente morreu...

    Fiquei tempos com muito medo em puxar água do nosso poço e também cair...tinha pesadelos...

    Sei que seu dia das mães foi muito gostoso, cercada de todo amor de seus filhotes.

    Aqui estamos de luto pela minha prima que partiu hoje.

    Jovem, deixa 2 filhinhos...lutou pela vida durante 2 anos...câncer....

    A gente demora a aceitar os planos de Deus...snif...

    beijinhos, tenha uma semana bem bonita!

    Lígia e =^.^=

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  11. Rosa

    Que história!! felizmente acabou bem e mais uma vez provando que nunca estamos sós quando estamos com Deus ao nosso redor.

    Na casa de meus pais também havia um poço fundo e minha mãe vivia preocupada que eu ou minha irmã mais nova pudéssemos cair embora estivesse sempre bem fechado. Quando meu pai fechou de vez foi um alívio para ela.

    Você teve sorte em poder contar essa experiência para nós pois qtas e qtas pessoas já devem ter caído pelos poços e nunca se soube o que aconteceu a elas? é triste pensar nisso!! mas naquela época era comum haver poços.

    Bjs e ótimo fds para vocês.

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  12. Rosinha querida, vim só para dar um alô, estou com saudades, espero que sua ausência seja porque está fazendo muitas arteirices ou então passeando...
    Bjs

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