Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Crime por omissão



Ontem foi dia de bater perna - coisas prá comprar de última hora antes de ir pro Sítio, resolver uns probleminhas do celular novo dos filhos na loja da Vivo...

Minha Lola me levou prá conhecer o Shopping Metrô Itaquera, no qual eu nunca tinha ido. Até no Shopping JK, totalmente de rico, eu já tinha ido e nesse, em minha amada zona Leste, eu nunca tinha pisado... Já fui várias vezes no PoupaTempo de lá mas, no shopping, nada...

Enorme como qualquer grande shopping, as mesmas lojas de sempre, os mesmos quiosques de comidinhas... Minha Lola diz que esse shopping não é muito famoso - e eu, inocente, disse que se um rico fosse levado de olhos vendados e largado ali no meio não saberia em que Shopping estava, mas minha filha argumentou que eu estava errada: ele é notoriamente conhecido como "shopping de pobre", pois além de ficar nos fundões da Zona Leste, também não tem muita decoração chique. O ser humano nunca deixa de me espantar, acho que eu nunca deixei de ser criança no fundo do meu coração...

Bom, fui ao sanitário várias vezes enquanto estivemos por lá (remédio prá pressão alta é assim, muita sede e muitas idas ao banheiro...) e era muito limpinho - é o que importa, não é? O supermercado Extra era gigantesco, com produtos que não tem nos dois que ficam perto da minha casa - até comprei mais um ovo de páscoa da "Hora da Aventura" - prá ganhar o bonequinho... - e uma cueca boxer pro meu moleque - prá servir de modelo prá eu fazer outras...

Daí a gente foi na loja da Vivo resolver os assuntos das crianças referente ao chip 4G dos celulares novos que o Herks comprou prá ele e prás irmãs. Loja lotada, esperei quase 10 minutos prá ter lugar prá eu sentar. 

Lá estou eu, apreciando o movimento, a morosidade absurda no atendimento (até comentei assim com a Lola: "Será que os problemas das pessoas são realmente tão enroscados, prá essa demora toda, ou os atendentes é que são devagar-quase-parando?" ...) quando, de repente, entra pela grande abertura da loja um senhor com o qual cruzei mais de uma vez enquanto caminhava no shopping e pega uma senha no aparelhinho.

Era um homem em torno dos sessenta anos, com mais de 1,90 m de altura, de pele negra e roupas bem humildes. 

Até aí nada de anormal, eu mesma não estava vestida como se fosse à cerimônia do Oscar - mas não era somente pela estatura que ele chamava atenção: seu peso devia ser próximo dos duzentos quilos, o pobrezinho sofria de obesidade mórbida... Devido a esse fator e também à sua idade e altura o homem se locomovia com extrema dificuldade, usando uma bengala - ele praticamente arrastava os pés pelo chão. 

Pelo contorno da sua calça de moletom cinza notava-se os joelhos enormes e redondos, sinal de inflamação. Os pés, de sandália havaiana, pareciam duas bolas inchadas.

Ele aguentou de pé por uns 4 ou 5 minutos e então se dirigiu vagarosamente para se sentar entre duas pessoas que se acomodavam num banco de madeira do lado de fora da loja - não dei meu lugar prá ele porque as cadeiras eram diminutas, de plástico transparente, muito frágeis mesmo.

Nessa hora me vi chocada com a falta de acessibilidade da loja: pessoas na condição dele - que mais precisam se sentar prá esperar! - não tem sequer uma cadeira própria!

Falei prá minha Lola que, quando chegasse em casa, eu ia reclamar disso no site da Vivo e no da Anatel e onde mais eu achasse que precisava, mas pedi prá ela ir falar com o gerente da loja e reclamar também pessoalmente - só não fui eu por dois motivos: gente jovem e bonita sempre obtém mais atenção quando abre a boca e, prá falar a verdade, depois de tanta "bateção" de perna, eu também estava "entregue à rapadura"...

Demorou prá minha filha conseguir ser atendida - tinha duas pessoas na frente... - e, quando foi ouvida - pasmem! - foi questionada se era parente do tal homem prá estar reclamando por ele!!! 

O absurdo do mundo em que vivemos: só se encara de modo natural a luta pelos direitos de outro se tivermos ligação com ele...

A gerente trouxe de uma sala lá dentro uma outra cadeira - a qual não serviria prá acomodar nem metade do quadril do homem - e, devido ao fato dele se sentir mais seguro no banco do lado de fora, ali ele continuou a esperar atendimento. O máximo que foi obtido com a reclamação foi que uma funcionária fosse destacada prá resolver o problema do homem indo ela mesma até o banco, sem ele precisar se levantar...

Na saída minha Lola disse que se orgulhava de mim porque eu não deixava nada "passar batido" e eu pensei como eu é que me orgulhava dela, pelo seu modo de conversar e expor o que achava certo de modo firme e coerente... Também pensei: "Isso não é o que deveria ser feito por qualquer ser humano?"...

Domingo passado eu tive um sonho... Eu e o Marildo estávamos dirigindo por um lugar desconhecido seguindo uma procissão de gente que ia pro mesmo lugar que nós. Me lembro de sentir uma preocupação infinita e desesperadora de chegar logo no destino e pegar meus filhos - eu, que ia sentada no maior conforto dentro do carro - enquanto passava, em relativa velocidade, por milhares de pessoas a pé, carregando crianças no colo e os mais variados pertences. 

A cada quilômetro do caminho as condições do mesmo iam piorando: a chuvinha fina que caía ia se tornando mais e mais forte, a lama do chão ia se tornando uma tremenda enxurrada. Partes do trajeto tinham deslizamento de terra, crateras enormes iam surgindo do nada...

Em determinado ponto à nossa frente tudo havia ruído: tudo o que se via era um mar de lama revolto, pessoas se debatendo e afundando entre gritos de desespero...

Em nenhum momento no sonho eu pensei em descer prá ajudar quem quer que fosse. Gritei nervosa pro meu marido fazer a volta e, mais apressados ainda, retornamos por onde viemos, em busca de um caminho diferente... 

Me lembro de olhar pros rostos dos que por mim passavam e saber que todos se dirigiam prá morte certa - e não abri o vidro prá avisar ninguém, preocupada somente com os meus problemas...

Acordei enojada comigo mesma, sem aguentar nem mesmo me olhar no espelho por todo aquele dia...

Eu - que sempre me considero tão consciente do mundo à minha volta!

Eu - que sempre abro a boca quando encaro uma injustiça, que não deixo uma lâmpada ou semáforo continuar apagado nas ruas por onde passo (e sempre reclamo na Prefeitura, por telefone ou internet...)...

Eu, infelizmente, sofro do mesmo mal que acomete a grande maioria das pessoas: só enxergo a ponta do meu próprio nariz, mesmo que em sonho. 

Porque - se eu sonhei - eu tenho isso, em maior ou menor grau, dentro de mim - e ter consciência disso me choca...

Sou - afinal - como todo mundo: humana. 

Egocêntrica, cheia de falhas, imperfeita,..

Uma obra em andamento que se arrasta indefinidamente...

Mas uma obra que tem conserto, cujas falhas não podem (nem devem) ser permanentes...

Mediante observação do mundo à minha volta eu sempre posso tomar atitudes prá melhorá-lo - e acabar me melhorando, por consequência natural dessas mesmas atitudes...

No Código Penal brasileiro está tipificado o "Crime por Omissão", aquele no qual uma pessoa vê um outro crime acontecer, vê uma pessoa em situação de perigo E NÃO FAZ NADA... 

É crime, embora eu não me lembre de ter jamais ouvido falar de alguém que tenha ido prá cadeia por ser omisso...

E a Lei Divina - aquela na qual não precisa existir testemunha do delito prá que ele exista - é muito mais perfeita, atuante em 100% dos casos...

Imaginem como vai ser o mundo quando a dor de um for a dor de todos... 

Quando - ao olhar prá um irmão caído ou em necessidade - enxergarmos a nós mesmos naquela condição ou situação, num grau que ultrapasse a empatia e alcance verdadeiramente o "Amar ao próximo como a si mesmo"?...

A fome do outro vai doer no meu estômago, a tristeza e a dor do outro vai tirar o meu sono...

Nós - cristãos - acreditamos que Jesus morreu e renasceu na Páscoa, não é mesmo?

E no que tange a nós mesmos sempre é tempo de renascimento da nossa alma - e  a Páscoa é uma boa hora prá se lembrar disso: de ressurgir por detrás da pedra rolada da sepultura do nosso egoísmo como uma versão mais iluminada de nós mesmos, prontos prá mais um passo da jornada...

Feliz Páscoa e até mais, se Deus quiser!


9 comentários:

  1. Rosa...por aqui já se vai tendo atenção aos que são diferentes e cujas necessidades também o são...mas ainda há muito caminho a percorrer!
    Renovemos nossa alma...pois seremos bem mais felizes!
    Uma santa Páscoa!!!

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  2. Rosa mas você e sua filha enxergaram e auxiliaram esse senhor que visivelmente precisava de atenção mas que muitos ignoram ,os atendentes da loja poderiam ter visto isso ,mas preferiram ignorar e pode ter certeza que ele só foi atendido lá fora no banco por que sua filha foi ao seu favor .Hoje em dia as pessoas só pensam em seu bem estar ,mas se cada um fizesse sua parte ,como vocês fizeram o mundo seria bem melhor e menos sofrido .Feliz Páscoa para você e sua família .

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  3. Rosa, parabéns para sua filha que defendeu o senhor e a você que a incentivou.
    Uma Feliz Páscoa para você e sua família!
    Bjs

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  4. Sorte que você não trabalho no centro de São Paulo... ou você não conseguiria carregar a culpa... são tantas e tantas pessoas nas ruas...
    Boa Páscoa pra você e pra família, na paz.
    E, quando voltar, lembre-se que ainda estou aguardando o endereço.
    Bjs

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  5. Lindooo post ... feliz Páscoa .... bjinhos venha me visitar se desejar ... fik com Deus

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  6. Muy variado e interesante todo lo que veo por tus entradas.
    Me ha gustado mucho volver a verte y con detenimiento sigo observando ,tb admirando.Miu bonitos trabajos.
    Gracias por tu comentario.
    Un beso.

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  7. Olá, Rosa, rosinha...saudades d'ocê!!

    Infelizmente, as repartições, os ambientes públicos, não estão preparados para a real inclusão!!

    As conquistas acontecem, mas...tudo a passo de tartaruga...

    Rosa, querida, que bom que você é humana e faz a diferença no dia a dia...mesmo que uma minúscula diferença, mas faz...e, como você mesma reconhece...está em evolução, em andamento, com falhas, mas nada permanente!!

    Amar ao próximo como a si mesmo...um ideal, uma meta, um treino constante e diário...porém...um objetivo de ...poucos!!!

    Há tantas coisas negativas em todos os sentidos, acontecendo ao nosso redor, nos atingindo direta ou indiretamente que essa máxima tão bonita acaba sendo esquecida pela grande maioria. (Infelizmente é o que a gente vê em relação às pessoas, aos animais, ao meio ambiente...à tudo o que nos cerca).

    Rosa, não sei porquê. ma...nunca lembro o que sonhei....ás vezes tento lembrar, mas...

    Você é muito especial, siga sem culpa!

    Tenha uma semana bem bonita,

    beijinhos, fique bem, descanse bastante no sítio...ahhhh...os ares do interior, da natureza...que delícia!!

    Lígia e =^.^=

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  8. Rosa

    Quanta coisa para se pensar!!! neste belo texto.
    A 1ª questão que me faço é...Por onde começo? e eu mesma respondo...tente se colocar no lugar da outra pessoa.

    É assim mesmo, Rosa, que o mundo melhora pouco a pouco. Cada um tomando consciência do que pode fazer de melhor para o mundo e agindo a favor do próximo até com atos simples e anônimos.
    Uma vez li uma frase: "É Bom ser do Bem" e você, sua filhota são exemplos disso. Quem disse que anjos não vivem entre nós? rsrsrsr

    :-D

    Bjs

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