Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Rosa, a Malvada


Quem dera - malvada e linda... 

Tava mais prá magricelinha invisível, com carinha de fome eterna... Mas dentro da cabeça tinha milhões de coisas acontecendo - ah, se tinha...

Eu era repetente da primeira série do segundo grau - o antigo primeiro colegial. Não que eu fosse burra, muito pelo contrário, não posso jamais me queixar da inteligência que Deus me deu...

Mas eu passei uma fase meio revoltada com a vida... Minha avó morreu, eu fui buscar respostas na Bíblia - li ela de cabo a rabo aos treze anos... Acontece isso quando a gente passa um bocado de coisas e é muito jovem - às vezes perde a fé, perde o rumo...

Eu cabulava aulas. Me arrumava, pegava a bolsa, os livros, ia prá escola e ficava fazendo nada. Não estudava, ia no cinema, passeava com alguma amiga... A escola deixava a gente ficar fazendo nada no pátio, assistindo as aulas de educação física das turmas de outro período - e eu ficava ali, desperdiçando tempo. 

O engraçado é que as pessoas com quem eu ficava me respeitavam muito: garotas e rapazes que fumavam, bebiam - mas eu nunca sequer toquei num cigarro ou numa bebida alcóolica. Eles não me ofereciam, eu não tinha curiosidade... Nunca fumei, nunca bebi, nunca usei nenhum tipo de droga. Só tive um namorado na vida, com o qual estou casada até hoje - e o único beijo que dei, sem ser dele, me foi roubado num passado muito remoto, durante umas férias na praia (mas isso já é outra história, estou divagando...).

Bom, eu cabulava aula com minha amiga Wilma, não assistia quase nenhuma, não estudava prás provas - e acabei sendo reprovada.

Quando eu finalmente tomei vergonha na cara, cursei direitinho o primeiro ano de novo - e dessa vez era a melhor aluna da classe. Só nota máxima em tudo (exceto Geografia, que era decoreba e eu detestava, achava um desperdício de tempo estudar algo que tinha que ser decorado prá saber... Nessa matéria eu entrava num "arranjo" com o professor: fazia trabalhos extra-curriculares, preparava cartazes que a escola precisava, arrumava o palco do teatro prá tudo o que fosse necessário o ano todo e ele me dava a nota mínima prá passar, porque eu sempre bombava nessa matéria...).

E eu era nota máxima especialmente em Química - minha matéria favorita. Até que um dia...

O professor de Química morreu - ataque do coração. Que pena, fiquei triste, ele era muito bom. Ficamos uma semana sem ter aulas dessa matéria e então veio a substituta.

Devia ser proibido ter professoras como ela: jovem, muito bonita, sorriso lindo. Mas até aí tudo bem - tava cheio de alunas assim, lindas (eu seria invisível de um jeito ou de outro...). O maior problema era que a "disgranhenta" não usava sutiã! Pro mundo de hoje em dia isso é até normal, muitas mulheres (burras, diga-se de passagem... a gravidade é implacável, senhoras...) não usam. Mas era lá pelos idos de "muito antigamente", mais de trinta anos atrás - era um escândalo de proporções épicas! 

Prá falar a verdade verdadeira, eu também não usava. Mas, enquanto ela carregava no peito dois melões de bom tamanho, eu escondia debaixo da camiseta dois ovinhos fritos - de codorna. Meléca de vida.

Ela ainda era mais despudorada: sem sutiã, jaleco sem mangas, todo bordadinho, usado aberto de cima abaixo, CAMISETA COM DECOTE... Daí ela ia na lousa, escrever qualquer coisa, balançava tudo - e os garotos da sala só faltava terem a cabeça transformada no lobo do desenho do Picapau, babando...

Prá piorar ainda mais ela era um doce com eles, conversava toda meiga... Agora, quando era uma menina que perguntava alguma coisa, ela respondia toda seca - uma falsa, um demônio de duas caras (isso é o que ela era - e a minha inveja não tem nada a ver com o meu julgamento...)...

Pobre de mim - tão invisível...

Mas até uma pessoa invisível pode fazer um baita estrago, quando bate aquela vontade destruidora na gente...

A mulher era uma tremenda preguiçosa: já se viu fazer só prova teste? Quer dizer, química até tem uns decorebas (eu, por exemplo, sabia a Tabela Periódica de cor e salteado, de trás prá frente, todos os nomes, números atômicos, de que família cada elemento fazia parte...), mas ela era paga prá ensinar e prá  testar se os alunos sabiam mesmo: em prova teste é só colocar um x, fácil demais colar...

Então eu fiz assim: contei prá meia dúzia de pessoas que eu ia dar as respostas na mesma hora em que estivesse fazendo a prova, de forma que todo mundo que quisesse poderia colar de mim e tirar nota dez.

Avisei que ia dar as respostas, uma a uma, durante a prova, na cara da professora, enquanto conversava com ela, sem ela se dar conta, da seguinte forma: 

Eu ia perguntar prá ela alguma coisa da questão "1", tipo "Na questão um a senhora quer só um tipo de ácido ou servem dois?" - uma pergunta bem besta. Se eu mexesse na orelha direita enquanto fizesse isso, significava que a resposta certa era "a"; se fosse a orelha esquerda, era "b". Se eu coçasse o alto da cabeça, a resposta era "c". Se eu desse uma tossida enquanto falasse, era "d" e se eu me remexesse na cadeira, era "e" a resposta certa...

A coisa foi se espalhando pela sala... No dia da prova, lá fiquei eu, tagarelando o tempo todo, me coçando, tossindo e me remexendo - e a professora dizendo que eu não parava quieta, que eu tava atrapalhando a concentração dos outros...

A grande maioria da sala tirou nota dez - só dois garotos não quiseram colar, eram orgulhosos demais prá colar de uma menina... Bobões, era o que eram, não quiseram participar da brincadeira...

Mas não acabou muito bem prá mim... A danada da professora me chamou, disse que sabia que eu tinha armado tudo - só não sabia como. Tava fula da vida...

Mandou chamar minha mãe, pois queria ter uma conversa séria com ela. Quando a pobre da minha mãe chegou, dando uma parada nas costuras só prá estar ali, a professora falou um monte de mim. Que eu era uma malcriada, que eu havia passado cola prá todo mundo da sala, que eu não tinha o menor respeito por ela...

Depois de todo o blá-blá-blá da professora minha mãe falou assim:

-"A senhora me chamou até aqui por causa disso? Porque minha filha passou cola pros outros? Ela não colou de ninguém, não é mesmo? Se a senhora fizer uma nova prova, só com ela, ela vai tirar nota dez, não vai? Agora, essa história de passar cola pros outros: a senhora tem como provar? Pois se não tem, me dê licença, que eu tenho que entregar um montão de costuras, senão meus filhos não comem...".

A professora ficou de boca aberta, sem ação... O monstrinho que mora no meu porão me mandou mostrar a língua prá ela, na hora de sair da sala - mas Deus é testemunha de que eu não fiz isso, embora tenha olhado longamente nos seus olhos, enquanto fechava a porta.

No caminho de casa minha mãe me perguntou se eu havia feito mesmo aquilo de que a professora havia me acusado - e eu respondi que sim... Minha mãe deu risada, falou que a professora era uma arrogante e que bem deve ter merecido - mas me mandou não fazer mais isso, que era errado.

Dizem por aí que esse é o motivo pelo qual, hoje em dia, quando os professores dão provas teste, fazem mais de um tipo por sala, trocando o lugar das questões em cada uma delas, gerando vários gabaritos... Também por isso ninguém mais pode abrir a boca durante as provas...

Esse é o meu "efeito borboleta", meu legado prás gerações futuras: por causa de uma patética invejinha que eu senti, compliquei a vida de todo mundo que entra prá escola, enquanto existirem provas com questões de múltipla escolha...

26 comentários:

  1. Rosa...histórias próprias de quem viu na adolescência...a beleza da VIDA!
    Adorei! Bj

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    1. Verdade, e a gente não esquece tão fácil, não é mesmo?

      Beijos!

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  2. Rosinha, mázinha, isso faz-se? coitada da professora e da mamã,
    coisas de outros tempos, que é bom recordar, beijos amiga

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    1. É, às vezes quase sinto dó da professora...

      Beijos, Mira querida!

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  3. Malvada, malvada, malvada!!!! (hehehe)

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    1. Me declaro culpada, meritíssima (hi, hi, hi...).

      Beijão!

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  4. O pior foi o olhar, esse olhar fixo enquanto fechava a porta ... Sua má!
    Também eu tenho uns quantos recuerdos bem negros.

    Rosinha, mando-te o link da mala na próxima semana. O meu PC não está de boa saúde e estou utilizando o IPad.
    Não vou esquecer!
    Prometo.
    Beijinhos

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    1. O olhar foi mal mesmo - acho que pior que mostrar a língua...

      Vou esperar o link, Nina querida.

      Beijos!

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  5. Oi Rosa querida, quanto tempo que não passo por aqui né?
    Deixei o bloguito um pouquinho de castigo, mas pretendo voltar com as atividades nele e visitar regularmente as amigas...
    Adorei a história, que a ideia foi boa foi rsrsrs
    Sempre gosto de suas histórias, fico lendo e tendo as reações de acordo com os acontecimentos!rsrs
    Beijão e bom final de semana pra você viu!
    Cris...

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    1. Fico feliz que tenha voltado então, Cris querida! Vou acompanhar o teu retorno lá no blog.

      Beijos!

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  6. Olá amiga!
    Vim fazer uma visita, seguir seu blog com meu novo perfil e convidar você para conhecer, se gostar participe, será um prazer. Uma noite abençoada lindos sonhos. Bjuss
    Lourdes Duarte
    http://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.com.br/

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    1. Já fui lá, minha querida, obrigada por me convidar. Beijos!

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  7. kkkk...muito bom ter recordações....

    Nunca colei na escola e também não passava cola.

    Deixava minhas folhas a vontade...quem quisesse que espichasse o olho...kkkk

    Fui professora, isto é, a pedra do sapato dos alunos...nem um leve levantar de sombrancelhas, me passava desapercebido...hehehe...também fui mázinha!!!

    Rosa, rosinha, grata pelo carinho.

    Eu pinto porcelana há mais de 20 anos, porém, fiquei 5 ou 6 anos sem pegar nos pincéis, pois paizinho era minha prioridade. Agora que ele virou uma estrelinha, estou voltando aos pouquinhos.

    E eu é que fico admirada com os seus talentos, que não são poucos...tricoteira, crocheteira, costureira, escritora, poetisa, quituteira, mãe dos filhos e da peluda fofa, esposa...

    Você é mesmo uma rosa, Rosa!!...é só olhar no marcador ai do lado, para ver todos os seus lindos talentos!!!!

    Querida, tenha um ótimo e luminoso domingo,

    beijinhos,

    Lígia e =^.^=

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    1. As tuas porcelanas são inacreditáveis de tão lindas, Ligia querida. Parabéns por esse talento - só esse já é fantástico, se você ficasse só nele já estava bem suprida... Mas ainda tem outros, que eu sei...

      Beijos e obrigada, minha querida!

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  8. kkkkkk quantas coisas a gente faz e ri muito
    hj mais velhinhas achamos graça dos bons tempo
    esse que não volta mais...bem legal seu texto
    Deixo um abraço de saudade

    Abraços
    Rita!!!
    ╰✿✿╮

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    1. É verdade, coisas que a gente na hora nem pensou muito, viram motivos de risada com o passar do tempo, não é mesmo?

      Beijos, Rita querida!

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  9. kkkkkkkk ! essa é boa ! kkkkkkkkk

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  10. Boa estoria..KKKKK..... mas mudando de fio a pavio, vc sabecomo fazer calcinhas com pernas, como aquelas do tempo da vovo?Bjs

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    1. Nunca fiz, mas deve funcionar o mesmo processo: pegue uma calcinha já velhinha, desmancha, usa como molde e copia as costuras, usando ponto elástico.

      Beijos, Celia querida!

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  11. Ah ....ja colei mas me arrependo pois tirava notas baixas. ..achei melhor estudar mesmo. ....kkkkkkkkk
    Bjs

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    1. Eu nunca colei, mas passei cola de monte, adorava o desafio...

      Beijos, Mimika querida!

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  12. Rosa li seus ultimos pos e amei mas oue me chamou mais atenção foi o sobre a menina do teu sito ,acredito que Deus tenha poto ela no seu caminho para tornar a vida dela mais façil,quem deranaminha adolecencia encontrasse uma dona rosa assim tão meiga,que me mostrasse o que é a vida ,tive de aprender com meus erro da maneira mais doida.e um previlegio poder ajudar alguém sinta-se merecedora dessa honra concedidapelo pai. conheci uma menina meiga assim que se tronou amargurada por não ter tido a sorte de encontar uma rosa no seu caminho.abraços

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    1. Concordo com você, realmente é um privilégio quando a vida nos permite ajudar alguém, fazer a diferença em uma vida...

      Beijos, Rose querida!

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  13. culpa da Rosa!
    hehehe

    mas essa professora, hein?!?!? ainda bem que você já gostava de química, senão ia ter desgosto da disciplina por causa de uma deseducadora dessas...

    bjo!!!

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    1. Ah, culpa minha mesmo - e da minha criancice...

      Beijos, elisana querida!

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