Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Enquanto não chega a hora...


É assim que são as coisas: chega um dia na vida de uma mulher pau-prá-toda-obra em que ela fica entregue à rapadura. Dodói. Querendo bercinho. Minha avó bem dizia que quando a gente vai ficando velha, vai voltando a ser meio criança...

E é justamente aí que a situação se inverte: essa mulher, que sempre cuidou de todo mundo, começa a ser cuidada (até demais, se querem saber minha opinião...).

Fui ao cardiologista, pegar guias prá fazer os exames anuais - mais sérios desta vez, devido a três episódios de uma inexplicável dor no peito. Eu tinha as guias, mas os ladrões que entraram em casa deixaram tudo tão revirado que elas desapareceram - então tive que adiantar a consulta.

Quem foi comigo? Minha terceiranista de Medicina, minha Nana.

Lá estou eu, o médico pergunta "Como é que a senhora está?", eu respondo que bem, que só vim pegar as guias prá fazer os exames anuais - e a Nana me corta, com carinho, e diz prá eu contar das dores no peito e eu "Ah, é, doutor, andei tendo umas dorzinhas no peito meio assim...". Ele examina, a Nana pergunta tudo, fala de uma vez nas férias em que meu olho esquerdo ficou sem enxergar nada e o direito ficou cheio de bolinhas de luz e já fica parecendo que eu tô de passagem comprada praquele país do qual não se volta.

O médico, então, mediante minha calma de velha e as preocupações da minha linda filhinha solicita uma batelada de exames. "Só que eu não vou pedir prá senhora fazer teste de esforço, por causa das dores no peito. Melhor uma cintilografia, que simula o esforço e é menos invasiva, vai ser melhor prá senhora".

Autorizo o exame, marco no laboratório e ninguém me deixa ir sozinha - lá vai minha Lola comigo, toda preocupada, carregando livro prá estudar, mas com cara de "Tadinha da minha mãezinha...". - e eu tudo bem, tranquila, tricô na bolsinha prá deixar o tempo passar sem stress.

Mandam chegar meia hora antes - cheguei 45 minutos. Daí pego a senha, olho pro visor eletrônico e tem APENAS quarenta e uma pessoas na minha frente - sem contar os preferenciais! Percebi que ia ter tricô de monte pela frente...

Eu lá, com as agulhas na mão, olhando pro visor a cada "Piii" da maquininha e, volta e meia, pego a Lola olhando prá mim, com aquela carinha linda de preocupação que ela tem - ao invés de estudar... 

Quem conhece minha Lola, sabe: ela é a mais preocupada da família. A Nana e o Ike também se preocupam, mas costumam ser mais pés no chão, mais racionais - futura médica e engenheiro formado. Mas a Lola tem alma de artista, tem coração de polenta igual à mãe - quando a gente ia prá praia ela não deixava ninguém ficar com água acima dos tornozelos, se desesperava toda...

Lá está ela, triste de fazer dó... 

Daí, a mãe dela - com um olho na linha, outro pulando do visor eletrônico pro seu rostinho lindo, com os ouvidos escutando a enfermeira chamando pelo nome aquelas pessoas que já abriram ficha - começa bem assim:

"Rosangela da Fonseca!

"Aqui" - eu digo bem baixinho, só prá Lola ouvir. Daí, imitando a voz da enfermeira, eu me pergunto: "A senhora é Rosangela da Fonseca?" . "Quase, mas na última hora minha avó quis que o nome fosse só Rosa, só que me atende mesmo assim, por favorzinho..."- e a Lola dá um sorrisinho.

Passados uns cinco minutos e a enfermeira volta:

"Natália Silveira!" - e eu, levantando a mão um tiquinho de nada do tricô, respondo "Eu!".

"Mas a senhora não tinha dito há pouco que se chamava Rosa? Agora a senhora é Natália Silveira?" - eu imitando a voz da enfermeira, meio fanhosa..

"Ainda não..." eu me respondo. "Mas prometo que, assim que você me atender, vou até o Fórum entrar com um processo prá mudar meu nome prá Natália - acho esse nome muito lindo, chique toda vida..." - e a Lola começa a separar as sobrancelhas, relaxando aquela ruguinha de preocupação que ela não tem ainda idade prá ter...

"Agnaldo da Rocha Penteado!" - diz outra enfermeira, chamando num outro lugar próximo.

"Aqui!" - eu respondo. Abrindo o zíper lateral da minha bolsa, pego uma nota de cinquenta reais que Sua Majestade me deu antes de sair de casa e, esfregando ela com discrição no bracinho da Lola, olho nos olhinhos lindos dela, imito a voz da enfermeira me perguntando, incrédula, se eu sou o tal do Agnaldo e, sorrateiramente, respondo:

"Não, mas posso ser quem você quiser que eu seja" - continuando a esfregar o suborno no bracinho dela...

Nem percebi, mas tinha uma moça do lado prestando atenção em tudo, segurando o riso - que vergonha! Eu, palhaçando prá minha filha, nem tinha me tocado que tinha platéia - mas, pelo menos, a Lolinha relaxou um pouco aquela postura.

Esse exame - cintilografia - é assim: você chega no local tendo tomado um café da manhã bem leve, sem nada de cafeína nem chocolate. Eles te injetam um contraste, te mandam comer pães de queijo e beber leite gelado e então caminhar por 20 minutos pro contraste circular (queria fazer esse exame todo dia, mandam a gente comer toda hora, uma beleza - é o meu tipo de exame, prá falar a verdade...). Tomei o leite gelado (do qual não sou fã, mas até que tava bom), caminhei com a Lolinha pelo local e daí eles me chamaram e fizeram uma tomografia do peito - ótimo, beleza.

Saí dali e fui pro cardiologista. Encheram meu corpo de eletrodos, colocaram um ponto no meu braço, prá aplicar injeções. Aplicaram uma medicação prá prevenir infarto e, em seguida, aplicaram algo prá estressar meu coração, prá acelerar as batidas como se eu estivesse correndo.

Eu lá, deitada toda calminha na maca, olhando pro teto e a coisa começou a acontecer. Como é que pode uma química fazer esse tipo de coisa com a gente? Começou a acelerar o coração, comecei a transpirar feito louca - a enfermeira medindo a pressão arterial, o médico acompanhando as batidas do coração. Comecei a sentir como se alguém estivesse enchendo minha cabeça de água, pelos ouvidos, pelo nariz, pela boca, pelos olhos. Olhando a ponta do meu nariz ele estava vermelho como um pimentão e as vozes das pessoas vinham de muito longe, como se eu estivesse mergulhada na piscina e elas gritando do lado de fora... Suas vozes apavoradas, a enfermeira dizendo que minha cor estava estranha demais... O médico mandando ela aplicar sei-lá-o-quê em mim, porque o meu batimento cardíaco estava muito anormal!!!

Eu pensei: "Eita preula! Acho que desta vez eu vou abotoar o casaco até em cima... Será que eu vou ver um túnel com uma luz branca no fim??? Ainda bem que eu tô bem limpinha e de roupa de baixo nova... Minha nossa! O que vai ser das minhas lãs e linhas, dos meus tecidos amontoados, será que ninguém vai dar uso prá eles, vão todos pro lixo?" - já se viu pensar umas bobagens assim nessa hora?

A enfermeira aplicou o que o médico mandou, ele continuou falando alto, esbaforido... Mandou ela aplicar mais outra coisa, depois outra - apareceu outra enfermeira prá ajudar, uma delas me segurava a mão dizendo que já ia passar...

O tempo todo eu calma - na verdade, tenho a maior curiosidade em saber como se morre. Não é algo mórbido, é científico mesmo (não é porque eu sou só uma dona de casa que eu não tenho lá minhas curiosidades...). Passado esse caldo todo, a enfermeira me elogia, dizendo que eu era muito calma, que isso me ajudou muito... Eu respondo prá ela que, se tivesse mesmo chegado minha hora, ficar nervosa não ia impedir de acontecer, então não adiantaria nada... "Ninguém deixa de morrer porque esperneia e grita quando chega a hora, né?" - digo prá ela, no que ela dá risada...

Lá fora, minha Lola toda preocupada, escutando aquele alvoroço todo... Eu saio - com uma cara esquisita que só a preula, a Lola assustada cuidando de mim igual criança...

Vou prá tomografia mais uma vez e então a enfermeira me diz que agora tenho que tomar café prá última etapa do exame - e lá vou eu (sofriiiida, tendo que comer de novo...).

Quando eu chego lá peço um café prá copeira, os pãezinhos de queijo e daí falo prá ela assim - que já é quase meio dia, minha Lola deve tá com fome: "Você pode, por favor, dar um lanchinho prá minha filha também?"

Ela - que o tempo todo que eu espiei, sempre esteve de cara azeda, com um mau humor parecendo uma aura em volta dela - olha prá mim e, com um monte de pedras na mão, mira bem e acerta em cheio na minha cara:

-"Ah, não! O lanche é só pros pacientes que estão realizando exame! Se a sua filha quiser alguma coisa, tem que pagar!!! É um real!"


Foi isso exatamente que eu pensei. Se interessa a alguém saber, passei mais mal desse nervoso do que no piripaque que eu tive no exame - fiquei possuída por uma vontade louca de pular na jugular dela. O monstro trancado no porão gritou assim prá mim: "Pega dez reais na carteira, joga na mesa e manda ela ficar com o troco, prá ver se compra um sorriso prá colocar nessa cara!!!".

E quando eu já tava quase pegando minhas varinhas mágicas prá gritar "Avada Ke..." minha Lola - minha doce Lolinha - me pega na mão e diz:

-"Precisa não, mãezinha. Eu não tô com fome e o teu exame já tá no fim... Quando acabar eu vou te levar lá no Black Dog comer cachorro quente vegetariano...".

Vejam só como é: o que prá algumas pessoas seria somente um dia comum prá realizar um exame médico, comigo se torna uma novela, uma epopeia, quase uma tragédia grega (isso se eu tivesse dado ouvidos ao monstro do porão...). 

É por isso que eu ando evitando sair de casa: é muita emoção pro meu coraçãozinho...

(Já tá programado - PAP de cuecas prá sexta feira, dia 2 de maio. Apareçam!)

20 comentários:

  1. Ô minha Rosinha querida, que perrengue hein….
    Minha mãe também fez cintilografia e passou muito mal, mas o resultado foi bom. Cuide-se bem, com o coração não se brinca.
    Não se esqueça de contar prá gente o que deu no exame, até eu estou curiosa…
    Bjs querida e ótimo feriado
    P.S. Deixe a casa prá lá, descanse, a vida é mais importante.

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    1. Ficar parada é pior, parece que a gente acomoda e enferruja, Doutora querida... Mas eu estou me cuidando, pode deixar.

      Beijos e tenha um lindo feriado!

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  2. Rosa querida, graças à DEUS correu tudo bem.
    Sem dúvida nenhuma nossos filhos são nosso maior tesouro.
    Depois que meu marido morreu, minhas filhas se preocupam mais ainda comigo e como ninguém está livre de ficar doente ou até morrer, vamos trabalhando essas emoções juntas.
    Lindo dia para vc e para os seus.
    Beijo.

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    1. A gente sabe que pode confiar neles, não é? Se sentir amada é tão bom, é alimento... Mas também me preocupa que eles fiquem tão em cima.

      Beijos, Rosangela querida, e tenha um lindo feriado junto das filhinhas.

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  3. Rosa

    Algumas vezes não entendo você que me deixa curiosa!!

    Suas postagens são tão joviais, alegres, divertidas que fica difícil aceitar quando você se intitula como sendo "velha".
    Apesar de você ter filhos criados, eu te percebo como uma menina de 20 e poucos anos, com cara de muito sapeca e ao mesmo tempo te percebo uma mulher madura (mas sempre jovem) ensinando o que tem aprendido com a vida.

    Você é uma incógnita para mim quando se diz "velha", parece que você se vê com 80 anos ou mais!! e velha você não é!! Parece que fala de outra pessoa!!

    Rosa...mas continue cuidando da saúde e espero que seus exames dêem tudo certo mas esse episódio de você se sentir como "se desligando" (???) até me deixou preocupada. Você tem tanta vida que me custa aceitar que seu organismo físico (seu coração) esteja com problemas de saúde. E veja bem o que é esse negócio de ficar sem enxergar do olho esquerdo e ficar vendo bolinhas com o olho direito. Será que não é diabetes?

    Bjs

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    1. Não é diabetes não, minha glicose tá ótima - obrigada pela preocupação.

      Quanto à idade, eu me sinto nova e me sinto velha. Nova porque sou curiosa, porque sou alegre, tenho disposição e sonhos. Velha porque sinto que já vivi muito, já vi muita coisa e também porque o corpo já não corresponde como antes a tudo o que eu gosto de fazer. Igual todo mundo, na verdade...

      Mas eu sei que tudo vai dar certo, eu só preciso deixar de ser uma comilona sem-vergonha - que o peixe morre pela boca mesmo e eu sou uma peixona muito gulosa...

      Beijos, Fatinha querida e obrigada pela preocupação. Tenha um ótimo feriado.

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  4. Ai Rosa!!!!
    E então, qdo vc pega o resultado?
    Sinto muito pelo que vc teve que passar no exame, espero que sua saúde se recupere.
    bjo

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    1. O resultado vem semana que vem pelo correio, mas eu sei que vai dar tudo certo, Elisana querida. Beijos e obrigada por se preocupar...

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  5. Rosa, "se não fosse trágico... seria cômico"?
    Vejo bolinhas desde criança, não tenho diabetes, a pressão alta não me dá esse efeito, mas a falta de chocolate sim.
    Nada de ficar chorando as pitangas, isso molha as lãs.
    Você ainda vai escrever muito, crochetar e tricotar muito mais!!!
    Fica com Deus. beijinho

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    1. Pode deixar, Claudia querida. Aliás, não faz meu estilo chorar as pitangas - eu nunca me faço de dodói, mesmo estando. Nunca falho com quem precisa de mim e procuro ser sempre uma companhia agradável, afinal os outros não tem culpa do que a gente sente e se a gente resmunga demais, fica sozinha. Beijos, minha querida e tenha um lindo feriado!

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  6. Rosinha, que bom esses cuidados, é preciso quando já passamos
    dos vinte, espero que esteja tudo bem amiga, beijos

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  7. Rosa é sempre um gosto ler suas vivências!
    depois de ler lembrei de duas situações:
    ...tirei um lipoma nas costas...grandinho e desmaiei só de sentir o médico mexer e quando estou no dentista...estou sempre de sobrolho cerrado...nervosa...à espera da dor que não chega!
    Vai correr tudo bem amiga! Bj

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    1. Eu só tenho medo das coisas que acontecem com as pessoas que eu amo, de resto eu sou tranquila... Acho que esse é sempre o maior medo de todo mundo, não é mesmo?

      Beijos e muito obrigada, Maria da Graça querida.

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  8. Olá minha linda Rosa!
    Em primeiro lugar desejo do fundo do meu coração que tudo dê certo e
    que isso seja só mais um exame com bons resultados!
    Lembra que falei prá você que tínhamos muita coisa em comum?
    Passei por uma situação parecida com a sua fazendo um exame e estava acompanhada do meu amado filho,que assim como sua filha,é
    a ternura em pessoa! Como é bom sermos amadas por eles não é mesmo,Rosa querida?
    Não nos deixe sem notícias!Sempre vamos querer saber de você!!
    Que Jesus Nosso Maior Consolador te abençoe sempre!
    Beijos no Coração..........Cristina Peres RJ

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    1. É, realmente somos parecidas, Cristina querida - e somos muito sortudas, por sermos tão queridas e cuidadas. Muito obrigada pela gentileza, pelas lindas palavras.

      Beijos!

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  9. Rosa que sufoco!!
    Parabens vc é muito forte!!
    Se fosse eu ja estava sufocando de agonia...srsrsr.
    Até para tomar soro uma vez fugi...kk
    Em compensaçao para nascer meu segundo filho fiquei horas na mesa com ele encaixado,sem conseguir q tirassem e eu la cortada...Que dor,que agonia...Mas no final deu tudo certo,Deus sabe o que suportamos né...e na hora ele da força e a gente aguenta firme...
    Beijo,amei vc la no Blog espero que viremos amigas :)
    Decorehouse

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    1. Muito obrigada, Tais querida. Eu também espero que nos tornemos boas amigas.

      Dor de parto? Sofri muito também, com minha Naninha - mas ela valeu cada segundo daquelas horas tão sofridas...

      Beijos, minha querida.

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  10. Rosa espero que você fique bem e que seu exames mostrem saúde, muita saúde! Liga não pra moça do café, porque coitada, o dia e a vida ainda não foram bons pra ela e ela não sabe que as pessoas não tem culpa de sua sorte! bjs e tudo de bom...gostei do pap das coecas, bjs Nina

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    1. Que bom que você gostou do pap das cuecas, Nina querida, espero que ele seja de boa utilidade a quem precisar.

      Quanto à moça, só fiquei nervosa na hora - eu sempre deixo prá lá esse tipo de coisa, graças a Deus.

      Beijos, minha querida.

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