Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Prima Celeste e o Destino


Algumas vidas são cheias de acontecimentos tão assombrosos, tão fantásticos, que se a gente não está por perto e vê acontecer, poderia acreditar que foi tudo invenção de alguém... 

Fico até pensando se, em algum lugar, há muito tempo atrás, um rei chamado Édipo realmente casou com a própria mãe e matou sem querer o pai; se houve uma mulher que - enquanto esperava o marido voltar de uma guerra sem fim - tecia uma tapeçaria durante o dia e a desmanchava à noite. 

Se realmente houve um Romeu e uma Julieta...

E pensando assim eu desejaria saber escrever melhor, a fim de passar realmente a cor e o sentimento da história de vida de minha prima Celeste - sei que vão me faltar as palavras certas, mas sinto que uma história deixa de existir se deixa de ser contada, então...

Celeste é minha prima em segundo grau - pelo menos, assim me foi dito: minha mãe e a dela é que eram primas. 

A única coisa que tínhamos em comum além de alguns genes era, talvez, a aparência: ambas somos muito branquinhas, com os cabelos originalmente castanho-escuros (atualmente brancos em nós duas). Fora isso, mais nada.

Eu - a oitava de treze filhos, escola pública, pobre, eternamente faminta. Até meus sonhos eram poucos e bem modestos: sonhava ter comida na mesa, poder fazer faculdade, ter um emprego. Encontrar alguém que gostasse de mim...

Ela - filha única, colégio de freiras, rica e mimada ao extremo. Nem precisava sonhar: era só pedir, que ganhava... 

Na infância eu me lembro de tê-la visto muito pouco - somente nos casamentos. Nos velórios ela não ia - seus pais a poupavam das tristezas da vida. 

Era linda - parecia com a atriz que interpreta Amelie Poulain, até o corte de cabelo; delicada, feminina, chique...


Ela tinha onze anos a mais do que eu, então nunca houve uma amizade. No entanto, a mãe dela - a quem chamávamos "Tia Júlia", vinha quase toda semana na nossa casa - geralmente trazer alguma costura, roupa prá consertar, trocar zíper, camiseta prá eu bordar. Sempre "de graça". É incrível: quanto mais dinheiro a pessoa tem, mais abusa do parentesco prá pedir favor...

Não fomos convidados pro seu casamento - éramos pobres demais, poderíamos fazer feio perante a família do noivo. Rapaz rico, empresário. 

Se ela já tinha tudo, depois do casamento tinha tudo em dobro e mais um pouco...

A bem da verdade eu nem me lembrava que ela existia. Vivia minha vida do jeito que dava, frequentava a escola, sonhava com dias melhores que nunca vinham.

Um dia - eu já tinha terminado o segundo grau e lutava prá entrar numa faculdade pública ou arrumar um emprego... - tia Júlia veio chamar minha mãe prá ir na casa da filha, medir as janelas prá fazer cortinas novas e eu fui junto. Fomos de ônibus, sem conhecer o lugar e ficamos boquiabertas com o que vimos - coisa de novela!

Não era uma casa - era um apartamento. O prédio em si era inacreditável, lindo, todo arborizado na base, piso de granito, com porteiro uniformizado, interfone (coisa que eu nem sabia que existia!). Um apartamento só por andar: eram tempos nos quais os apartamentos eram feitos prá se parecerem com casas. 

Tinha vista nos quatro lados do prédio, com janelas enormes. Só a sala era maior que a casa em que eu morava - e que sala! Lustre de cristal, dois ambientes, mesa de madeira maciça bem escura, cadeiras estofadas de veludo cor de chocolate, uma linda varanda...

A empregada usava uniforme azul escuro, com enfeites de renda branca - parecia mesmo coisa de novela. Tinha televisão até na bancada da cozinha - uma pequena, preto e branco (ah, como eu sonhei ter uma daquelas...).

Os filhos frequentavam escola particular e iam às aulas em carro com chofer - também particular.

Celeste nos tratou com aquela cortesia distante de quem está alguns degraus acima na escada.

Depois de tiradas as medidas ela deu à minha mãe a soma destinada à compra dos tecidos - e tivemos que bater perna na 25 de março prá comprar tudo o que precisava, pois ela nos deu o dinheiro bem espremido.

Ajudei minha mãe pregando os rodízios - só tínhamos uma máquina de costura, de pedal, e ela costurava melhor, mais seguro e mais rápido.

Terminadas as cortinas, uma semana depois, pegamos condução prá levá-las até a malharia onde Celeste ficava a maior parte do tempo. Era dona - juntamente com o marido - de três confecções, nas quais era terceirizada a produção das peças de várias marcas - Hering e Malwee, entre outras. Tinha ainda duas lojas, grandes, onde se vendiam tanto roupas quanto artigos de cama, mesa e banho.

Enquanto eu e minha mãe esperávamos para sermos atendidas eu falei assim prá ela:

-"Mãe, vamos ver se a prima Celeste me arruma um emprego aqui ou em qualquer outro dos prédios dela! São todos tão grandes, com certeza ela pode arranjar alguma ocupação prá mim... O que a senhora acha?"

Minha mãe concordou - sabia que minha vida estava parada, que eu precisava dar um rumo nela...

Um homem saiu da sala pouco antes de entrarmos - o marido de minha prima. Ela nos apresentou e me lembro que simpatizei com ele. Tinha um jeito de homem simples - em nada se parecia com a imagem que eu havia formado dele, do homem rico que havia casado com minha prima...

Depois que a prima Celeste nos mandou entrar, perguntou se a gente queria alguma coisa - um café, uma água... - vistoriou as cortinas meio por cima (que haviam deixado nossas mãos vermelhas, face carregarmos num trajeto tão longo o peso delas...) minha mãe perguntou se ela podia me arranjar um emprego.

Ela - por detrás da mesa - me olhou por alguns minutos (parecia que eu estava exposta numa vitrine de padaria...) e então disse assim:

-"Tia, a senhora esperou por mim quanto tempo ali, fora da minha sala? Vinte, trinta minutos? Quantas mulheres a senhora viu passando?"

Minha mãe disse que só tinha visto a mulher que havia nos atendido...

-"Minha secretária. A senhora reparou como ela é feia? Feia só não: tem a pele negra, o cabelo ruim, um nariz do tamanho de uma batata. Esse é o tipo de mulher que eu emprego - ou então só emprego homem. Não sou mulher que dê espaço pro azar - meu marido trabalha aqui do meu lado, debaixo do meu nariz".

Olhando de novo prá mim, disse:

-"Nada pessoal, tia. Mas de jeito nenhum emprego moça jovem e bonitinha."

Saí dali tão triste! Paramos num bar, minha mãe pediu instruções de onde pegar condução prá ir prá casa, me comprou uma Coca Cola. Remoí as tristezas por uns dois dias, ela foi diminuindo, diminuindo e logo dei por mim estudando prá prestar mais um concurso - porque a vida não pára.

Menos de dois anos depois soubemos que o Destino tinha dado uma rasteira na prima Celeste - daquelas que derrubam a pessoa de um jeito que ela dificilmente se levanta de novo. 

Aquela secretária - "feia, negra, de cabelo ruim e nariz de batata" - lhe havia "roubado" o marido, bem "debaixo do seu nariz"... Não apenas ele, mas tudo o que ela tinha: dentre as papeladas que ela assinava todos os dias, na confiança e no stress (pois prima Celeste queria dominar todos os aspectos do gerenciamento das três malharias e das duas lojas...) haviam sido assinadas procurações e mais procurações.

O marido, louco de paixão pela mulher que prima Celeste julgava não lhe fazer frente, havia vendido tudo! Até mesmo o apartamento gigante, com vista pros quatro lados do prédio, prima Celeste perdeu. As duas lojas, as três malharias - tudo foi vendido. Os carros.

Prá não dizer que ficou só com a roupa do corpo lhe sobraram algumas jóias - não todas, pois até mesmo as mais valiosas o marido passou a mão prá dar prá "outra".

Prima Celeste e seus dois filhos foram morar na Mooca, na casa da tia Júlia  - viúva já há algum tempo. Escola pública, esporte publico. Hospital público prá tratar da depressão.

Toda a beleza se foi - a pele branquinha ficou pálida, esverdeada. Nem mesmo banho ela se animava mais a tomar, virou um trapo de mulher. Perdeu dez quilos - e isso, prá uma mulher magra, é o mesmo que dizer que virou um cadáver ambulante.

O filho mais velho, ao completar 14 anos, abandonou os estudos e foi trabalhar e a menina mais nova seguiu o mesmo caminho, tempos depois.

Quase nove meses depois de ser despojada de tudo lhe apareceu na porta da casa da mãe um mendigo - ou assim parecia: era o marido dela, uns 20 quilos mais magro, uns 20 anos mais velho, arrependido como um cachorro que fugiu de casa e se arrebentou todo no caminho. 

Pois arrependido ele estava mesmo: depois da canalhice que havia feito com a mulher e os filhos, foi-se prá Bahia com a amante - pro lugar de onde ela vinha. Quando lá chegou, nem lua de mel teve: a família dela lhe tomou tudo - ele sim ficou só com a roupa do corpo. Ainda lhe deram uma baita surra, o largando quase morto.

Veio da Bahia até São Paulo à pé, de carona... Dormiu no relento, mendigou comida, chorou um rio inteirinho.

Confiou no amor dos filhos prá ser aceito de volta - e se enganou redondamente. Nenhum dos dois quis sequer olhar prá ele, a sogra chamou a polícia prá levá-lo dali. 

Socorrido por parentes, viveu ainda um tempo - faleceu de câncer, uma amargura de quase fazer dó.

Pobre prima Celeste... Nunca mais recuperou a saúde, treme quando anda, quando fala, mantém os olhos baixos e sem brilho. Fico imaginando se tudo isso estava escrito prá acontecer...

Muitas vezes, quando pensamos fugir de um destino que nos mete medo, tomamos atitudes perante a vida que, na verdade, nos fazem cair direto nos braços dele...

22 comentários:

  1. Se você escrever suas recordações em um livro, virá best seller!
    Adoro a forma que você escreve!
    Qualquer dia tomamos um chá da tarde? Podes me contar mais?
    Grande beijo,
    Claudia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Claudia querida, eu não tenho esse talento todo, nem saberia por onde começar e cometeria muitos erros...

      Quanto ao chá da tarde... Quem sabe, não é mesmo? Beijos!

      Excluir
  2. Um desfecho de uma vida repleta de momentos emotivos!
    Adorei a forma como encerrou esta história!
    Venha daí o livro!!! Bj

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Maria da Graça querida! Você sempre é gentil demais nos seus comentários. Beijos e tenha uma linda semana!

      Excluir
  3. Rosa

    Lamentável essa história. O marido dela, infelizmente, tomou atitudes difíceis de serem compreendidas e ser perdoadas pela esposa e filhos. Deixar a família dele se nada por causa de aventura! Ele deve ter perdido totalmente a auto estima e dignidade pessoal.
    A sua prima, felizmente, teve a mãe para ajudá-la nesse momento tão crítico. É realmente difícil ela se reerguer após essa decepção em todos os sentidos. Espero, de coração, que ela e os filhos consigam ser felizes da maneira que puderem ser.

    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, o marido pagou muito caro por seu erro - e o restante da família acabou sofrendo junto... Quando à felicidade, é uma conquista diária - nem sempre quem tem dinheiro é mais feliz do que aquele que trabalha prá viver, não é mesmo? Acredito que Deus é bom, tá sempre dando oportunidades da gente ser feliz.

      Beijos, Fatinha querida!

      Excluir
  4. Nossa Rosa eu creio mesmo no destino mas o da sua prima.... se la vi

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa é mesmo a questão, não é, querida Thelma? Se estava escrito prá acontecer ou se as atitudes deles é que levaram a isso... Muito triste, realmente. Uma tragédia digna de um livro...

      Beijos!

      Excluir
  5. Que história, minha amiga! É, mas a vida não é como nos contos de fada, ela muitas vezes passa rasteiras que nem um escritor muito hábil e inventivo criaria numa história. É como se diz: "Aqui se faz, aqui se paga!", e o preço é alto, geralmente!
    Adoro ler suas histórias, parece que estou vendo um filme, de tão bem narradas. Minha amiga, fique na paz do Senhor. Grande beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A vida é surpreendente, muitas vezes mais do que a ficção, não é mesmo?

      Obrigada por sempre gostar das histórinhas, Ligia querida. Beijos e tenha uma linda semana!

      Excluir
  6. E essa história dava uma novela para o SBT, mexicana!
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dava mesmo um dramalhão, Helena querida! Se eu não conhecesse todos os personagens, custava acreditar que realmente aconteceu...

      Beijos!

      Excluir
  7. Nossa Rosinha do meu coração, esta história é assombrosa!
    Mas uma grande lição: quem pensa controlar tudo, na verdade não controla nada…
    Bjs querida e ótimo final de semana
    P.S.: Querida, se puder, diga o dia e o mês do seu aniversário.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O aniversário é 3 de dezembro, Doutora querida - por mais que eu me esqueça da data, tem sempre alguém que me lembra que eu tô ficando velha nesse dia...

      Beijos e tenha uma linda semana!

      Excluir
  8. Puxa!! Que triste história!

    Infelizmente sua prima aprendeu de uma forma bem difícil, que devemos cultivar a gratidão no coração e a humildade nas atitudes, lembrando sempre que nada, absolutamente nada é nosso. Tudo temporário...tudo passa... espero que ela encare a realidade dessa nova fase de sua vida e aprenda a ser feliz!

    Querida, tenha um ótimo final de semana,

    beijinhos,

    Lígia e =^.^=

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A vida nos obriga a aprender, por bem ou por mal, não é mesmo? Infelizmente minha prima teve que aprender do pior jeito possível, coitada... Mas Deus é bom, não abandona ninguém...

      Beijos e tenha uma linda semana!

      Excluir
  9. Rosinha, apetece dizer "pobre menina rica!"!
    O enredo de um filme!
    Bom fim de semana, querida.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é: já pensou se eu realmente tivesse talento? ganhava dinheiro escrevendo, que histórias prá contar eu tenho aos montes...

      Beijos, Nina querida!

      Excluir
  10. Não fosse você contando, seria difícil de acreditar, viu! Como sempre, mais uma de suas maravilhosas histórias , muito bem escrita, sim senhora!
    uma linda semana
    beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Luci querida. você é muito boa, sempre tão gentil nos comentários!!!

      Beijos e tenha uma linda semana!

      Excluir
  11. é acho que todas as comparações que a senhora fez são verdadeiras, e eu tenho também exemplo em minha família meu tio ( aquele que ja é falecido), no começo não aceitava meu casamento por meu marido ser negro, ele era contador e começou nesse escritório com 14 anos e depois de 45 anos de trabalho no mesmo lugar comprou o escritório do dono, 1 ano depois descobriu um câncer em estado bem avançado, meus 2 primos nenhum seguiu a profissão dele,ele morreu 6 meses depois de saber do câncer, e adivinha quem esta tomando conta do escritório ate hoje uma funcionaria que já trabalhava com ele que é negra.........minha tia também não gosta muito de negros,e é ela que esta garantindo o conforto que meu tio dava pra minha tia. olha ai a vida ensinando novamente ....... bjs.

    ResponderExcluir
  12. Mais uma vez a prova de que a humildade está acima de tudo.
    Muito lindo Rosa, parabéns por nos alegrar com seus contos real.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...