Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A prece do sabiá


Não me lembro quando começou, mas não é de hoje que eu sinto que o tempo está passando depressa demais... Minha avó me dizia, quando eu era pequena, que depois do ano 2000 o tempo ia voar - e eu achava isso impossível de acontecer, pois o tempo, no relógio, anda sempre igual. 

Acontece que minha avó, na sua simplicidade e total desconhecimento das leis da física, estava certa...

Parece que foi ontem que eu fiz minha última postagem - e tanta coisa aconteceu depois dela, numa enxurrada de fatos, sentimentos, alegrias e dores!

Abandonei quase por completo a internet - só dava uma olhadinha no celular de vez em quando, matando saudades dos blogs das amigas, lendo um comentário ou outro das pessoas que não se esqueciam de mim, mas não conseguia postar comentários, prá mim algumas coisas são um tanto limitadas no celular...

Alguém deve se lembrar de uma dessas minhas postagens prá trás, na qual eu comentei que estava com problema nos olhos. Pois bem: aquela coisinha à toa, na verdade, era um problema sério. Num período de cinco meses eu precisei recorrer ao pronto socorro oftalmológico por quatro vezes, com infecções horríveis que me impediam de enxergar direito e me causavam muita dor. A cada uma dessas vezes eu usava pomada antibiótica e colírio com corticoide por 20 dias prá poder melhorar, colírio umidificador o dia todo - pois as pálpebras colavam nos olhos, e logo quando eu começava a melhorar, piorava de novo... Voltava ao médico, ele trocava os remédios, mais 20 dias de tratamento, e piorava novamente.

O último oftalmologista finalmente percebeu que eu tenho psoríase - devido a uma ferida na minha orelha esquerda, que não sara nunca. Comentei com ele que estava numa crise braba, que minhas pernas, costas, barriga e braços estavam todos repletos de pequenas feridas eternas, mesmo com as pomadas prescritas pela dermatologista.

Ele me passou uns exames e me mandou procurar um reumatologista, pois ele tinha quase certeza de que meu problema nos olhos estava atrelado à artrite psoriásica.

Eu nunca tinha ouvido falar disso, mas já havia passado em vários reumatologistas e se eles não viram a psoríase, deviam ser cegos!

Conclusão: corri o risco de ficar cega, sofro de dores constantes pelo corpo todo, nos ossos e nos músculos, e tudo poderia ter sido evitado se alguém tivesse feito um diagnóstico correto em 1988, quando a psoríase começou. Ou pouco depois, na gravidez do meu filho, quando a artrite se manifestou pela primeira vez, eu com apenas 28 anos e já com dores, inchaço e vermelhidão nas juntas!

Agora é tarde, Inês é morta. Agora só posso lidar com paliativos, pois muito estrago foi feito. Acho que nunca mais vou andar sem bengala, nunca mais vou conseguir ter uma boa noite de sono...

Estou tomando uma tonelada de remédios prá amenizar os problemas - e as feridas já me parecem mais calmas, menos vermelhas. Não andam sangrando mais.

E chega de falar nisso.

Vou falar de coisas boas, que alegrem meu coração.

Meu marido me forçou a ir com ele fazer serviço voluntário de sábado, por duas vezes. Disse que eu tinha que voltar a andar no mundo, ajudar a amenizar o sofrimento alheio, prá ver se Deus se compadecia de mim e me ajudava...

Num desses dias eu só precisava ficar sentada em uma perua organizando as doações de alimentos - foi um dia gostoso, todos os amigos e amigas dele me trataram tão bem, tão preocupados comigo. 

No final de nosso trajeto, lá na cidade de Itaquaquecetuba, estacionamos na porta de uma vendinha muito simples, onde havia um sofá velho e uma idosa ali sentada, tomando conta do neto com síndrome de down. Meu marido foi comprar refrigerantes para todos, pedi prá ele comprar também aquelas geléias coloridas de amarelo e vermelho, feitas de mingau de maizena (que eu adoro comer geladinhas) e todo mundo adorou comer também. E enquanto eu estava sentada lá, dentro da Kombi, meu marido brincava com o menininho com síndrome de down, correndo prá todo lado, pegando o moleque no colo, jogando pro alto - o menino até chorou quando a gente foi embora. É como eu sempre digo: a gente tem que estar sempre se apaixonando pela pessoa amada, senão o casamento não funciona. Esse homem cheio de energia e de coração bondoso é o homem que eu vou amar prá sempre...

Mas não voltei mais nesse serviço voluntário. Fiquei tão moída de rodar o bairro cheio de altos e baixos, buracos e lombadas - não conseguir pregar o olho naquela noite. Fiquei triste, me sentindo uma inútil...

Meu marido percebeu e me levou em outro lugar. Um grupo de voluntários que prepara e distribui, todo sábado, há mais de 18 anos, marmitas a moradores de rua e pessoas em situação de pobreza extrema, num bairro da periferia da zona leste.

Pude ficar sentada a maior parte do tempo, descascando e picando alho, tomate, cebola, repolho... Piquei e refoguei toicinho prá por no feijão e no macarrão. Cortei fatias de pão sovado e com elas fiz sanduíches de patê de mortadela...

Depois de montadas mais de 200 marmitas fumegantes, fresquinhas e bem fartas fomos para uma praça, onde já nos esperavam homens, mulheres, jovens, velhos e crianças...

Sentaram-se em volta dos canteiros das plantas e árvores da praça e aguardaram receber o alimento. Um pastor evangélico, que faz parte do grupo de voluntários - que reúne espíritas, católicos, evangélicos e até mesmo ateus - fez uma bonita oração e os homens começaram a distribuir as marmitas. A praça é um tanto íngreme, localizada numa ladeira, e com a dificuldade de me locomover eu me pus próxima ao carro, apoiada na bengala, apenas olhando...

Vi rostos encovados, sorrisos escancarados de felicidade quase sem dentes na boca, agradecimentos humildes e sinceros pela única refeição decente da semana...

Arroz, feijão, salsicha com molho, escarola refogada, macarrão alho e óleo com bacon, salada de repolho, sanduiche de patê de mortadela... Tang de laranja... Prá quem queria ganhava uma colherada de molho de pimenta que um dos voluntários prepara fresquinho todo sábado - e que faz o maior sucesso, não sobra uma gota no pote de 5 quilos que ele traz...

Muitas das pessoas vinham até mim... Viam todo mundo trabalhando, atarefados prá lá e prá cá - e eu, uma mulher muito branquinha, parada no alto da praça de bengala e se confundiam, achando que eu era a manda-chuva... Chegavam perto de mim, se curvavam em reverência, me diziam que minha obra era magnífica, se eu fazia ideia de como era importante prá eles receberem esse alimento, essa atenção, se sentirem gente de verdade!

Muitos eram moradores de rua, usuários de drogas... Falavam comigo com os olhos praticamente em chamas, quase delirando de felicidade...

Senti tanta vergonha... Por que Deus deixou eles agradecerem justo à mim, a quem menos ajudou?

Senti tanta tristeza...

Tem tanta coisa errada no mundo - e a gente fica paralisado, reclamando da situação política do país, da própria saúde, perdendo tempo com tanta bobagem enquanto tem gente por aí fazendo realmente a diferença - mesmo que seja apenas uma vez por semana...

No final eles ainda ganharam sobremesa: pacotinhos de plástico, amarrados com um lacinho, contendo 3 bombons cada. A mãe do chefe do grupo de voluntários deu um saquinho prá mim, dizendo que quem trabalha também merece adoçar a boca com um docinho - e eu não me achei merecedora, então caminhei até uma jovem mãezinha, sentada na muretinha da praça, alimentando o filho menor... Seu rosto lindo havia me chamado atenção de imediato, tão menina ainda com três filhos, bem juntinhos dela, tão quietinhos e educados...

Ela me agradeceu e disse que já havia ganhado o suficiente, que podia fazer falta prá alguém que chegasse atrasado na distribuição - sempre tem os retardatários, ela me disse sorrindo, tão meiga...

Tão boa, sem querer tirar de ninguém, mesmo sendo necessitada...

Ela ficou gravada na minha mente, seu sorriso calmo e sem revolta, os filhos tão juntinhos dela, como pintinhos debaixo das asas da mamãe galinha...

Deus sempre me dá boas surpresas na vida, quando eu abro os olhos prá ver.

Eu ainda fico limitada pela minha saúde... Meus filhos tem ido no meu lugar, meu marido...

Acho que meus tempos de voluntária se foram. Senti raiva de mim, que já fui tão ativa, tão cheia de energia e de iniciativa!!!

E então, numa noite fria, coloquei uma touca na cabeça prá conseguir dormir - pois me doíam todos os ossos e até as maçãs do rosto e os dentes que eu não tenho mais me doíam - e eu tive um estalo: vou fazer toucas prá todos!!! Cada um vai ganhar uma marmita, um copo de suco, uma caneca de arroz doce ou um chocolate e uma touca!!!

Se morarem na rua e não tiverem onde lavá-la, depois de suja, que a descartem quando o frio passar - mas neste inverno suas cabeças vão ter uma touquinha prá se esquentar!!!

Fui atrás de todos os meus cones de lá parados, novelos perdidos, peças começadas e nunca terminadas...

Fiz toucas à mão e à maquina, uma de cada vez, em várias cores e tamanhos. A cada uma que eu fazia eu rezava: "Deus pai, abençoa a pessoa que vai receber esta touquinha, que se a cabeça que ela vai aquecer estiver triste, manda consolo, esperança... Que ela não se sinta só e nem abandonada, pois o Senhor, que é pai dela inspirou uma velha a lhe fazer essa touca..."

Cada touca uma prece. Cada prece algumas lágrimas, muitas súplicas, tristeza por ser tão pouco, alegria por ser alguma coisa.

Teve até touca feita de fios emendados, toda colorida:


Quando me dei conta haviam 230 toucas prontas - bem a tempo da chegada de uma frente fria.

Meu marido e meus filhos foram no trabalho voluntário, distribuíram as marmitas e as toucas - que fizeram muito sucesso. Todos adoraram, vestiram - e ainda sobraram toucas prá alguns dos trabalhadores voluntários, que também são pessoas pobres, a grande maioria deles.

Um deles, outro dia, ligando aqui em casa prá falar com meu marido, quando soube quem eu era me agradeceu pela touca, disse que eu era muito talentosa... Quem dera fosse mais rápída, prá fazer ainda mais.

Eis algumas fotos da tal praça, das pessoas que agora tem uma touca minha:
 



E eis a doce mãezinha que me inspirou:



Não é linda?

Quando comecei a fazer as toucas tratei como um projeto: "Toucas prá Jesus", eu pensei em chamar, porque no evangelho Jesus disse que cada vez que a gente desse comida prá quem tem fome, água prá quem tem sede, cobrisse a nudez de alguém, desse assistência a um doente ou visitasse um preso, em nome dele, a ele estaríamos fazendo tudo isso - então pensei que cada touca era destinada a Jesus, mas recebida em seu nome por um pobrezinho...

Mas depois, pensando e pensando muito, me dei conta de que, apesar de amar a Jesus infinitamente, estava fazendo as toucas pros pobrezinhos mesmo... Projeto "Cabeça quente" - não soa melhor, menos pretensioso? Para o ano que vem vou fazer pelo menos  dobro de toucas, começando logo e ajuntando, fazendo um pouco a cada semana. Tem uma favela ali perto do metrô Belem onde voluntários também distribuem marmitas - vou descobrir como entrar em contato com eles e mais e mais pessoas vão ganhar toucas...

Projetos, projetos... A vida tem que ter projetos... Porque assim a gente se ocupa, distrai a cabeça dos próprios problemas, segue vivendo com a felicidade que nos é permitida...

Quando chega a noite eu me pego pensando que em vários lugares existem pessoas com a cabeça quentinha usando uma touca que eu fiz, com muito amor e isso me faz bem pro coração, me alimenta a alma. Não é como se eu tivesse salvo vidas ou mudado o destino do mundo, são só minhas migalhas, mas me faz feliz!

Umas duas semanas atrás eu e a Lola estávamos abrindo o portão prá minha Naninha ir pro plantão - eram 5 horas da madrugada. Tem um sabiá que mora em um dos meus pés de fruta do quintal que começa a cantar por volta dessa hora, canta alto, todo santo dia... Sempre me acorda.

A Lola comentou que ele anuncia que logo o dia vai nascer, daí a uma hora, mais ou menos.

Eu penso diferente. Ele não anuncia a chegada do dia: ele é quem faz o sol nascer.

Muitos anos atrás - eu ainda era uma menina - aqui no meu bairro tinham muito mais árvores, muito mais sabiás... Eles sempre me acordavam antes da hora e eu não conseguia mais dormir - sentia até raiva deles...

Então, um dia, li num livro que o homem primitivo achava que o mundo estava acabando quando acontecia um eclipse. Em sua mente havia o dia, com sua duração, e havia a noite, com a dela. A noite era cheia de perigos; até a descoberta de como fazer o fogo prá espantar os predadores os homens viviam no alto das árvores, como os macacos...

Quando um dia, em sua plena duração, tinha a luz arrancada sem explicação, era um terror! Haviam mortes, sacrifícios, prá fazer o sol voltar a brilhar...

Foi assim que eu entendi: na cabecinha do sabiá (que é bem menos inteligente que um homem primitivo...) toda noite é o fim do mundo. Toda noite o sol desaparece,  morre, vai embora prá nunca mais voltar...

E depois de passar uma noite triste, calado, infeliz, ele resolve tomar uma providência. Levanta do canto onde se escondeu, sacode a tristeza das penas e canta:

"Volta, luz, que sem você não tem vida! Volta a brilhar de novo, amado sol, que precisamos de você prá existirem flores e insetos, pro céu ser azul e eu poder voar novamente. Volta sol, que eu te amo mais que tudo e sem você não sou nada!"

E lá fica o sabiá, corajosamente enfrentando a noite, cantando até que sua canção dê certo.

Quando eu descobri isso seu canto parou de me incomodar. Eu acordo de madrugada e canto dentro do meu coração junto dele, pedindo prá Deus nascer no mundo, nos corações dos seres humanos, prá sua luz inundar cada canto, cada fresta, cada ideia e cada pensamento.

A escuridão nunca vai vencer.

Nem o sabiá e muito menos eu vamos deixar.

Até qualquer dia.

10 comentários:

  1. Estava sentindo falta de suas postagens, que bom você ter voltado, seus escritos sempre me inspiram! Que Deus lhe abençoe sempre e a sua família também.

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  2. Rosinha querida, senti a sua falta e me alegrei imensamente com o seu regresso. Tanta vida correu, tanta peripécia, tanto evento. Essa é minha amiga, que eu queria minha irmã de alma.
    Muita luz, muita alegria, muita paz, são os meus votos de coração.
    Nina

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  3. Obrigdo Rosa ! Quanta emoção é ter você nos inspirando e ajudando à sermos melhores ! Lindo retorno ! Deus te abençoe com força e coragem ,para continuar apesar das dificuldades .

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  4. Rosa, que saudades! Eu também tenho o corpo repleto das dores de uma doença também descoberta tardiamente porém procuro manter minha mente sempre lúcida e assim como você as mãos sempre em prece, ocupadas com o trabalho artesanal. Orando e pedindo a Deus que alivie o sofrimento ainda parte deste mundo. Gosto muito de suas histórias. Elas me incentivam. Obrigada.

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  5. Rosa querida, quanto tempo!!!
    Imagino o que tem sofrido...Não desista amiga, é possível aliviar suas dores sim.
    Eu também tenho psoríase e fibromialgia e passo por longos períodos de crise, cheguei a não conseguir nem andar. Faço tratamento continuamente com medicamentos e fisioterapia.
    Sua filha médica vai te orientar a encontrar o melhor caminho para sua melhora.
    Que beleza de família você tem! Que Deus os abençoe muito.
    E você é um anjo mesmo, apesar do seu sofrimento está sempre tentando ajudar o próximo.
    Grande e carinhoso abraço

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  6. Que lindo texto! A senhora escreve muito bem, suas palavras emocionam e fazem muito bem ao coração.

    Um grande abraço

    Cilene

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  7. Oi, Rosa,
    Também ando distante desse mundo... parece que cada vez tenho menos tempo e quero fazer tanta coisa...
    E... queria entender esse mundo. Teu coração tão bom e tanto sofrimento que você enfrenta... não entendo.
    Que haja paz em sua vida e saúde em seu caminho. Espero que você melhore.
    Bjs
    Mara

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  8. Bem que estranhei seu silêncio, estava com saudades. Mas rezo por você, sei que Deus lhe dará vitória nestas tribulações que tens passado.
    Deus lhe abençoe

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  9. Que saudade eu estava das suas postagens, olhava todos os dias. Estou em lágrimas, e não demora muito para escrever nao bjs mil

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  10. Rosa, eu estava com muitas saudades de você. Não recebi essa última postagem no meu e-mail, não sei porque. Sempre que faço bolo lembro de você, lembro da história que você contou de raspar toda a massa da vasilha rsrsrs... Então hoje eu decidi, vou procurar a Rosa, vou deixar uma mensagem perguntando por ela... me deparei com esse texto novo e fiquei feliz por ter notícias suas, por saber que mesmo diante das dificuldades e limitações você está seguindo e está fazendo o bem, mostrando que não há limitações quando nos importamos com os outros! Sobre os problemas de saúde, tente ler um pouquinho sobre tratamentos com vitamina D, já vi vários relatos de sucesso com esse tratamento para doenças autoimunes, talvez valha a pena se informar e o tratamento homeopático também ajuda em alguns casos (minha filha estava com uma conjuntivite alérgica que não curava com nada, mas graça Deus ela melhorou depois de um tratamento homeopático juntamente com a eliminação de alguns alimentos suspeitos de alergia). Gosto muito de você mesmo sem te conhecer pessoalmente!!! Que Deus te abençoe e esteja sempre contigo!!! bjsssssssss

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