Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

As coisas que me irritam



Acho que a impressão que eu passo prá vocês, quando eu falo do Marildo, é a do homem perfeito, não é mesmo? Especialmente prá quem leu o episódio dele atravessando a rodovia Castelo Branco, em meio a caminhões e carros chispando em alta velocidade, só prá salvar um cachorrinho (nesta postagem AQUI).

Mas a questão é que ninguém é perfeito, só Deus.

O Marildo tem um gosto musical que parou no tempo - ouvindo só Raul Seixas, Erasmo Carlos, Antonio Marcos. O fato de eu acompanhar a evolução da música faz a gente discutir muitas vezes, por ele criticar o que estou ouvindo - como se fosse absurdo, como se eu, por estar velha, devesse gostar só de velharias (que eu também gosto, de vez em quando, quando dá na telha...)...

Também parou no tempo em matéria de tecnologia: nunca aprendeu a programar uma gravação na TV, não sabe acertar o relógio, não sabe responder mensagem de celular. Zomba de Facebook, do "zapzap" (como ele chama, sem nem se importar em saber do que se trata...).

Odeia orégano - mas só quando EU coloco na comida. Se for em restaurante ou na casa de outra pessoa, ele come e elogia - e ainda fala assim: "Prova só, benzão, que delícia que tá isso aqui! Dona Fulaninha acertou na mão, faz tempo que eu não como algo assim tão gostoso!" - e eu mordendo a língua por dentro de raiva, a têmpora pulsando, o acidente vascular cerebral se acercando de mim...

Quando empaca numa ideia nunca sai dela. Tipo: minha filha diz que não é prá fazer gargarejo com vinagre e sal que não adianta nada, que não pode bochechar com isso que enfraquece o esmalte dos dentes - mas ele acha que sabe mais e faz. Daí fica com dor nos dentes quando bebe água gelada e pergunta com carinha de bobo: "Por quê será que isso tá acontecendo, hein, Naninha?!!!".

Ronca. Ronca. E ronca. Mas não é um ronco normal: imagina um daqueles porta-aviões da Segunda Guerra Mundial (não do jeito como eram naquele tempo, mas como são agora, depois de carcomidos pela ferrugem e queimando combustível prá fazer o céu mudar de cor prá preto...) e multiplica o barulho por 2 - é assim que é o barulho. Tem até sua própria numeração na escala Richter - por volta de 0,000000001, pois juro que faz tremer a cama, o quarto, a casa...

Se quer que a gente faça alguma coisa, explica como quer que seja feito um milhão de vezes - e não estou brincando: perde mais tempo explicando como quer que eu faça do que eu demoro fazendo. Do jeito que ele explica parece que tá falando com alguém com QI de ameba e não com uma descendente direta de Leonardo da Vinci por parte do Pai do Céu...

Irritante esse homem, não é? Também acho. Dou bronca nele o tempo todo, tem horas que as crianças falam prá eu pegar leve, porque ficam com peninha da cara dele, todo perdido igual cachorro que caiu da mudança. Mas homem é assim mesmo: se a gente facilita as coisas prá eles, acostumam mal.

Mas o pior defeito que ele tem, infelizmente, é o ciúmes. Vá lá se eu fosse uma Demi Moore novinha em folha e não a velha requenguela que eu sou, toda acima do peso, com as juntas todas duras, com sérios problemas de privação de vaidade... Mas, quer saber? Nem assim: ciúmes abusivo não tem justificativa, nem se eu fosse linda até dizer chega: tem que confiar, tô errada?

Por esses dias prá trás eu tava pintando as janelas da frente - é só voltar umas postagens aí e vocês vão ver as janelinhas que eu pintei... - e perdi um dia todo nelas. Lá tava eu, pincelzinho na mão, logo cedinho... O vizinho de frente, que tá definhando de câncer, sai de bengalinha dar uma caminhada na garagem e me cumprimenta "Bom dia!", eu cumprimento de volta e sigo pintando. Onze horas da manhã eu entro correndo prá fazer o almoço e dou uma checada no celular, prá ver se alguma das minhas crianças me mandou alguma mensagem e vejo que tem um Whatsup prá mim - mas não é deles! Uma "cabecinha" que eu não conheço (que parece o Super Mário do Vídeo game dos meus filhos...) me aparece e eu chamo a minha Lolinha e pergunto: "Que será isso, Deus do céu?! Como é que essa pessoa conseguiu meu número?" e a Lola, depois de ampliar a tal cabecinha, me fala assim:

-"Mãe, essa cara não parece com a do vizinho aí da frente, só que mais novo?"

E, olhando melhor, eu noto a semelhança... Daí me toco como é que ele tem o número: meu Marildo deu prá ele os números de todos nós mais o alarme da casa, prá quando a gente viajar ele poder desligar a barulheira (prá não incomodar a vizinhança) e ligar em seguida prá gente...

Então veio meu dilema: se eu não contasse pro Marildo ia parecer que eu tava com saldo devedor, escondendo alguma coisa - daí, se o próprio vizinho comentasse: "liguei no whatsup prá sua mulher hoje", o mundo acabava; e, se eu contasse, o Marildo (que foi quem deu meu número...) ia achar, de um jeito ou de outro, que eu dei liberdade pro homem ficar me ligando. Igual quando a pessoa é presa em filme americano e "tudo o que ela falar pode ser usado contra ela no tribunal" - só que, no meu caso, seria usado contra mim mesmo, de um jeito ou de outro...

Meléca.

Me socorri dos filhos e eles concordaram comigo que eu deveria contar - e eu contei. Ainda falei assim: quem deu o número foi você, eu nem atendi a ligação. Provavelmente o homem ligou prá perguntar se eu precisava de pincel ou águarráz, já que eu tava pintando...

Adiantou eu estar com a razão e estar inocentinha como uma santinha? Não. Ficamos de mal, igual duas criancinhas bobas, por quase duas semanas. Tipo dormir cada um virado prá um lado da cama - coisa feia, dois velhos se portando igual dois adolescentes - até parece que o tempo não passa pro coração da gente: o corpo vai indo embora e dentro do peito o tambor ainda bate desgovernado, às vezes...

Daí a gente tinha que ir no centro da Penha comprar umas coisas - eu não queria ir, queria bancar a difícil, "Vá sozinho e escolha do jeito que você quiser, que eu não me importo...", mas ele, dizendo que eu sou a mulher mais má que ele já conheceu na vida, todo ressentido (ao invés de pedir desculpas quando erra, ele age como se estivesse magoado - outra coisa que me irrita MUITO) acabou me vencendo pelo cansaço.

Sábado lotado na Penha, nem dava prá estacionar no shopping. Fomos naquele estacionamento que tem na lateral da Igreja Velha... a gente desce do carro, andamos em passos separados (quando a gente tá de bem a gente anda de mãos dadas, coisinha mais fofa...) e, quando a gente chega na guarita prá pegar o comprovante do estacionamento, ele pergunta assim prá moça lá dentro:

-"A que horas que fecha?"

-"Sete da noite, moço." - ela responde, cabisbaixa, pensativa, fazendo parte dos tijolos da parede, acostumada a ser invisível...

-"Ah, que pena... Pensei que eu ia poder chegar lá pela uma da madrugada, depois de cair na farra, trazendo uma cervejinha prá você..." e dá um sorriso radiante (pelo qual me apaixonei, lá pelos idos de "nem me lembro" ) e a moça desperta, sorri de volta, ganha vida...

Engraçado como o corpo da gente quer ter vontade própria - minha mão já tava coçando de vontade de segurar a mão dele (mas eu resisti bravamente, mulher má que sou...).

Compramos uma panela de pressão - depois de andar de uma loja prá outra, olhando modelos e preços e outras coisinhas que a gente tava precisando trocar na reforma da casa e ele me levou prá comer porcaria (que eu adoro) numa lanchonete de chineses que tem nos fundos das lojas Pernambucanas. Ele detesta, esnoba - prá ele tem que ser restaurante 5 estrelas - mas compra prá mim uma fogazza de queijo e uma empadona de palmito, uma coca cola gelada (e eu me sinto gloriosa, comer tranqueira sem ninguém por perto me azucrinando por causa do colesterol...) e, enquanto eu estou lá, me deliciando, ele atravessa a rua prá comprar um remédio na farmácia. Ele volta, fica parado na porta - e eu me perguntando "Por quê?" quando...

Um rapaz muito magro, relativamente jovem, os olhos fundos, passa pela segunda vez na porta da lanchonete, oferecendo prá quem quiser comprar umas balinhas, "um pacote por 2 reais, 3 pacotes por 5" - e ninguém compra, ninguém pára...

Mas o Marildo pára. Chama o rapaz, dá prá ele uma nota de 5 e diz que outro dia pega as balas, que agora tá atrasado - e me puxa pela mão, eu de garrafinha de coca cola na outra mão, ainda mastigando o último bocado da empadinha!

"Me puxou pela mão!" - eu penso. "Que sorte a minha, nem precisei abdicar do meu orgulho!

Toda desavença acabada ("a gente tava brigando porquê, mesmo???"), tudo está perdoado, sem precisar pedir perdão - como sempre foi e sempre será...

Eu não nasci prá mulher de bandido: sou inteligente demais prá isso, tenho amor próprio demais prá isso. 

Nasci prá ter do meu lado alguém assim: doce com uma pitadinha de sal, repleto de amor (mesmo doente terminal de ciúmes...) e de compaixão, que tá sempre tomando a atitude certa quando parece que não tem nada que possa ser feito...

As orações que ele está sempre fazendo tem sido o meu escudo na vida - já perdi a conta de quantas vezes a fé dele me resgatou dos lugares escuros e feios onde o desespero me jogou...

À noite, quando ele ronca, às vezes eu perco o sono - mas, e daí? Oportunidade prá falar com Deus e agradecer pela boa companhia...



11 comentários:

  1. Ah Rosa, esse seu jeito tão divertido de contar as agruras de um casamento me fez gargalhar logo cedo viu?! 'Uma cabecinha que parecia o Mario Bross'kkkkkk
    Mas você pode falar dos defeitos do seu Marildo o quanto quiser, ele continua sendo uma raridade diante de desse tanto de homens que não valorizam a esposa.
    Bjss

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  2. Ah Rosa, esse seu jeito tão divertido de contar as agruras de um casamento me fez gargalhar logo cedo viu?! 'Uma cabecinha que parecia o Mario Bross'kkkkkk
    Mas você pode falar dos defeitos do seu Marildo o quanto quiser, ele continua sendo uma raridade diante de desse tanto de homens que não valorizam a esposa.
    Bjss

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  3. Rosa, mais uma leitura gostosa, envolvente e divertida. Por outro lado, eu tenho verdadeiro horror a ciumeira, detesto! Me irrita, já que é o título da postagem, dizer que ciúmes é até bom, pois é o tempero da relação. É sim, uma verdadeira perda de tempo das mais chatas que já conheci. Especialmente, porque a gente não tem nada a ver com as ilusões que habitam a cabeça do ciumento ou ciumenta.
    Meu primeiro marido era muito ciumento e toda a família dele era igualmente.
    Um beijo querida e bom final de semana.

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  4. Olá, Rosa =)
    Vou te contar: ler você é tornar a alma leve, fluída, quase, quase levantando vôo até ao céu.
    Incrível essa sua maneira de fazer de toda a situação corriqueira e, às vezes até aborrecida ou ruim, uma crónica gostosa, que a gente lê com um sorriso no rosto.
    Esse amor de você com seu "marildo" é que é "doce com uma pitadinha de sal" e é tão bom de ver, depois de tantos anos, a relação boa que têm - claro que tem que fazer uns reparos de vez em quando, apertar umas roscas, dar uma mãozinha de tinta ali ou acolá: é a manutenção, tal e qual nas maquinarias =)
    Mas é bem bom esse "dar a mão" e seguir ao lado um do outro - merecem muitos anos de namoro pela frente, se Deus quiser ;)

    Agora, fui ler a postagem anterior e me diverti com sua peça de teatro - imaginando o seu empenho para que tudo acertasse, e, também suas artimanhas para "esconder" a timidez. Eu sei, eu também era muito tímida e, ainda hoje sou envergonhada, costumo dizer que "escondo".
    Diz pra sua filha não colocar defeito nos seus temas, porque do jeito que está está bom, "se mexer estraga", como diz aqui. Você dá volta até em temas tristes e de dor.
    Olha, também fui ver a postagem de 2013, que você indica e, Rosa do céu, me emocionei demais - você e seu marido são de matéria rara, dessa que ainda faz a gente acreditar que tem uns genes de gente boa espalhados no mundo. E os bichos estão saudáveis e bonitos lá, enfeitando o campo, que até parece um quadro pintado.

    Um bjo grande a atravessar esse mar

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  5. Rosinha , que texto lindo , mesmo essa zanga bobinha, esses ciúmes e roncos - você e o marildo formam um (o?)casal perfeito.
    Beijinhos. Bom domingo.

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  6. Nossa aprecio muito as músicas de Raul Seixas, Tim Maia, Rita Lee, Benito de Paula e tantos outros cantores nacionais das décadas de 70 ou 80. Músicas muito melhores em conteúdo do que as que são divulgadas atualmente que nem merece meus comentários!!

    Ciúme exagerado?? affe...se o outro não deu motivo!tenho receio de ciúme exagerado, doentio pois é a base de muitas situações tristes pois esse sentimento confunde a razão! Eu não dou força seja vindo de mim ou de meu marido. Não nego que às vezes acontece de surgir, sem que se dê motivo algum, mas não podemos reforçá-lo pois atrapalha o relacionamento. Se o outro não deu motivos, não passa de fantasia na cabeça do(a) ciumento(a), é perda do tempo de amar. Tempo é algo que passa e não volta! Eu não permito ciúmes exagerado sobrepujar o amor e a confiança que se constrói ao longo do tempo.

    Uma pitadinha de ciúme...hãã...aceitável desde que não estrague a relação, afinal há tantas outros modos através de gestos carinhosos, frases sinceras, agradáveis, cuidados atenciosos de demonstrar o amor, carinho, bem querer. Ciúme é como o orégano: se pouco é um tempero bom mas em exagero estraga completamente o sabor.

    Roncos...qual esposa não passa ou já passou por isso com o marido? Tão ruim quanto o ronco é a apnéia. Tanto um quanto o outro tem causa e tratamento médico.

    Acho lindo os casais se darem as mãos mesmo após anos e anos de casamento. Sempre me chama a atenção quando os dois de cabelinhos brancos andam juntos na rua, um ao lado do outro, de mãos dadas. E se param e sentam em algum lugar (restaurante, lanchonete, praça, etc) e conversam, riem juntos. Isso sim quero para mim, é bonito, é cumplicidade, é AMOR. Deus abençoe sempre a união de vocês e, justamente, por ter as bençãos do Pai não permita que o ciúmes faça parte desse lindo relacionamento de anos.

    Boa semana para vocês.

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  7. kkkkk Tenho um desses em casa... e o meu ainda por cima é anti-social... briga, tem ciúmes, mas, como vem vai e a gente fica a perguntar mesmo "porque era a ranhetice?" rsrs
    Bela história!
    O segredo não é querer alguém perfeito... é saber lidar com os defeitos.
    Bjs
    Mara

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  8. Rosa, lindo nome. Adorei as primeiras postagens que li, pois a descobri recentemente. Comecei a leitura e a imaginação rolou através das palavras, e vieram o riso e a surpresa. Como é bom ler a sua narrativa. Parabéns. Filomena.

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  9. Rosinha querida, você é demais minha amiga, mas tem razão,
    seu marido devia acompanhar o tempo, mas ninguém é
    perfeito, bjs amiga e paciência...

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  10. kkkkkk, Rosa estou aqui não aguentando de tanto rir, e tenho que disfarçar porque o marildo como vc diz está perto, e pode perguntar porque os risos, kkkkk. Parece histórias já vividas por mim, quantas vezes morri de raiva por causa dos ciúmes, não dormi por causa do ronco, e mais, mais. Agora não dou trela pro ciúmes e se me chama pra algo, finjo não ter acontecido nada e pronto. Beijão. Boa noite

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  11. Olá Rosa querida! Acabei de ver sua resposta e estou passando aqui para agradecer sua resposta. Obrigada pela ajuda e concordo com tudo o que você disse! Um super abraço! Silvana.

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