Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Foi num domingo


Ainda faltavam cinco dias pro final das férias de verão, havíamos terminado de almoçar e o telefone tocou. Era minha irmã Fátima, pedindo prá gente voltar prá São Paulo, pois meu pai havia piorado muito...

Jamais vi meu pai doente. Gripe, mal estar do estômago, dor de cabeça - absolutamente nada. Forte como um touro premiado.

Meu Marildo diz que, se meu pai não bebesse e não fumasse tanto - por toda a vida - entraria pro Guiness Book como o homem que mais viveu na Terra, ultrapassaria a fama de Matusalém...

No ano em que completou 81 anos, pela primeira vez, apareceu resfriado. 

Sobrevivente de dois derrames - que o deixaram apenas com pouca força nas pernas, precisando de um andador - ele não se queixava de nada. Minha mãe (pequenininha...) lhe dava banho, fazia a barba, sentava ao lado dele em seu quarto - pois já dormiam em quartos separados há muitos anos - conversava, dava atenção... Dizia sentir pena dele, da sua solidão. Não o abandonou de jeito nenhum - apesar dele ter feito por merecer. Assim é minha mãezinha, um poço de amor e perdão, com flores nas beiradas.

E ele adoeceu dessa gripe no final de novembro - gripe que não se curou nem com chás ou anti-gripais. Começo de dezembro, ele ainda abatido, minha irmã o levou ao médico - que pediu um raio X e diagnosticou erradamente uma pneumonia. Antibióticos, inalações e nada do velho melhorar e, indo em outro médico - após muitos exames - veio o diagnóstico definitivo: câncer no pulmão, em estado adiantado.

Ele internado, enfermaria - e minha mãezinha dormindo do lado dele, sentada numa cadeira... Eu e meus irmãos visitando, passando algumas horas do seu lado - abanando sempre, pois ele sentia muita falta de ar... 

O Natal chegou e foi embora sem ar de festa e, com o Ano Novo, veio a tão planejada viagem de férias pro sítio - duas horas e meia de São Paulo. Como eu podia dizer pro Marildo que esse ano a gente não deveria ir, que pelo menos eu deveria ficar? Trabalhando em três empregos - como funcionário público e professor em duas faculdades - ele estava esgotado! Pedi perdão prá minha mãezinha, disse até mais pro meu pai e fomos - quase todos completos, só eu faltando pedaço: deixei o coração prá trás...

É uma coisa engraçada o coração humano: que capacidade de amar e perdoar que ele tem! Os ingleses tem um ditado que é mais ou menos assim: Ame o pecador e odeie o pecado - e é assim mesmo! Tanta dor e sofrimento aquele homem causou nas nossas vidas - especialmente na vida de minha mãe - e ali estávamos todos nós, rezando por ele, sofrendo por ele. 

A psiquiatria humana chama de Síndrome de Estocolmo quando o sequestrado se identifica e simpatiza com o sequestrador, querendo até mesmo permanecer do seu lado - e o que foi meu pai, senão o sequestrador de uma família inteira? Não vou descrever seus erros - ninguém tiraria proveito disso - mas foram tantos que encheriam uma triste enciclopédia...

Nem bem dez dias haviam se passado quando minha mãe ligou prá gente voltar, pois ele havia piorado muito. Na mesma hora largamos tudo e voltamos prá São Paulo e fui visitá-lo no hospital - o Municipal do Tatuapé. Em poucos dias ele estava tão mudado! Frágil, magrinho, os olhos saltando das órbitas. Minha mãe, na cadeirinha, abanando ele com um pedaço de papelão na mão, incansável! Dei a ela um leque que tinha na bolsa, o que facilitou muito as abanadas - que ela não deixava mais ninguém fazer, eram prerrogativas dela. Fui na farmácia, comprei coisas que ele precisava e o hospital não tinha prá dar - sabão líquido pro banho, hidratante prá psoríase (que herdei dele...), fraldas... Meu irmão comprou um colchonete prá prevenir escaras e o puseram sobre o colchão do hospital.

Uma leve melhorada no estado dele e minha mãe mandou a gente prá casa, terminar o descanso de todos - dos filhos estudiosos, do marido trabalhador...

E então, mais alguns dias depois, a ligação da minha irmã Cida, que perto do fim era quem drenava suas secreções, puxando o ar de seu nariz com um pano, porque ele sufocava e as enfermeiras não faziam nada...

Arrumamos tudo e voltamos em definitivo - dando um basta no vai e volta.

Quando estávamos já bem pertinho de São Paulo, onde começa a Marginal em direção ao interior, meu irmão liga e diz prá não correr, que meu pai já tinha ido embora...

Chorei tanto... Meu corpo tremia sentado no banco do carro, aquela dor no peito que não tem tamanho nem cura, uma dor de fim do mundo... Meus filhos me consolando do banco de trás do carro, chorando silenciosos prá não aumentar o meu choro...

Quando chegamos em casa liguei prá minha mãe, prá ver se ela precisava de alguma coisa - segurando a minha dor enquanto me concentrava na dela. Ela me disse que meu irmão caçula é que estava com ele na hora da morte e era ele quem ia vesti-lo pro enterro. 

Fomos todos dormir, prá esperar um dia triste nascer...

Cinco e meia da madrugada e escutamos um estrondo absurdo, parecia que a casa estava vindo abaixo... Como os quartos de dormir ficam no andar de cima, logo todos nos atropelamos nas escadas, prá saber o que havia acontecido no andar de baixo...

Minha casa pode até ser considerada uma casa de tamanho razoável: tem três quartos, dois banheiros, copa e cozinha. Contudo, a cozinha em si é bem pequena, como cozinha de apartamento. Nela cabem apenas uma pia bem grande e, no outro lado da pia, fica o fogão e uma mesa de mármore, onde eu estendo massas, uso o liquidificador, etc. Se eu estou cozinhando estou de costas prá pia, se estou lavando louças, o fogão está atrás de mim. E apesar de ter um armário bem grande na copa, havia em cima da mesinha de mármore uma cristaleira, onde eu guardava copos, pratos, travessas e taças, mais prática pro uso e presa na parede.

Nossa casa estava com infiltração de água, de um vazamento não detectado no telhado. A parede atrás da cristaleira estava como biscoito, os parafusos e buchas nos quais a cristaleira estava presa estavam completamente soltos - mas não dava prá perceber olhando. Ia cair, mais cedo ou mais tarde. 

Coisa comum em casas antigas... Mas o peso da cristaleira em si mais o peso de todas as louças acomodadas dentro dela era astronômico! Se ela houvesse caído durante o dia, quando eu estivesse lavando louça ou cozinhando, por exemplo, teria sido morte instantânea. Eu teria sido cortada ao meio... Se tivesse sido um dos meus filhos, bebendo água no filtro - nem me atrevo a imaginar...

Providencialmente caiu quando não tinha ninguém circulando na cozinha - milagre de Deus!

Eu acredito que o ser humano tem conserto, que a vida ensina, nos modifica, nos transforma! Minha mãe sempre me diz que meu pai era um homem mudado no final da vida. Tão mudado que também mudou ela: toda a mágoa, toda a tristeza, se tornaram perdão sincero e irmandade...

Prá mim foi assim: naquele domingo, quando finalmente sua vida abandonou aquele corpo cansado e doente, antes de ir prá junto de nosso Pai comum, meu paizinho da terra deu uma passeada pelo mundo, visitando cada uma das pessoas que o amaram tanto... Abraçou cada filho, chorou nos braços de um ou outro, pediu mais uma vez perdão prá minha mãe e derrubou um armário pesado que ia cair cedo ou tarde, causando somente um baita estrago e evitando uma tragédia. Ele - mais do que ninguém - seria capaz de diagnosticar o que acontecia naquela parede - porque na vida foi tudo, de pedreiro a pintor, de eletricista a mecânico e funileiro, tudo do bom e do melhor...

Quando mais tarde nos reunimos todos no velório, todos chorando quietinhos, cada um com sua dor guardada, moída e remoída no peito, nos unimos em despedida daquele que Deus achou por bem nos dar por pai, em volta daquela que bem nos ensinou a amar e a perdoar - sempre. 

Beijei seu rosto gelado, segurei em suas mãos que já me deram tanto medo, pedi de coração ao Pai do Céu que se apiedasse dele e que o perdoasse, assim como nós todos - de coração - o perdoamos.

E agradeci por fazer vir abaixo o armário...

Guardo até hoje o leque, quebrado de tanto ser usado prá lhe dar um pouco mais de ar no final da vida - amarrado com um pedacinho de elástico rosa por minha mãezinha (dentro do meu porta joias...).

Todo mês minha mãezinha ainda manda lhe rezar uma missa na Igreja da Penha - e volta e meia chora de saudades, porque o coração de quem é bom é desse jeitinho mesmo: guarda como um tesouro cada um dos bons momentos que viveu e diminui ou despreza tudo o que na vida foi ruim...

18 comentários:

  1. Rosinha, tristeza a morte de pais, o meu morreu com 63 anos, há 21
    anos, o fumo também contribuiu, saudades...beijo querida

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    1. Saudades mesmo - eu sei como é, Mira querida. Beijos.

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  2. Minha amiga, assim é o coração humano, quando quer sabe perdoar, ser misericordioso, assim como nosso Senhor, que é Pai misericordioso, independente do que seus filhos façam aqui na Terra. A misericórdia e o perdão fazem bem para o nosso coração, para o nosso espírito e para a nossa cabeça. Que o Senhor tenha perdoado seu pai (com certeza o perdoou) e que o tenha junto a Si, na paz. Beijos, minha querida.

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    1. Lindas as tuas palavras, Ligia querida. Demonstram muita sabedoria, muita vivência... Muito obrigada.

      Beijos!

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  3. oi Rosa assim como voce já não tenho mais meu pai. Vou dizer minha mãe também muito chorou por suas ações, mas como sabemos, Deus nos dá por pai, mãe, irmãos aquilo que precisamos para crescermos como espíritos e humanos, e tenho por pensamento que por pior tenha sido nosso pai ou mãe, eles nos receberam como filhos e assim se comprometeram na vida espiritual, portanto nos deram a vida e portanto merecem nossa consideração e respeito!
    bjs Nina

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    1. Você está certíssima, Nina querida. Concordo com isso porque, principalmente, quando Deus nos manda honrar pai e mãe, não disse prá fazer isso somente quando fossem bons, não é mesmo?

      Beijos.

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  4. Olá Rosa.
    Lamento muito pelo falecimento do seu pai.
    Quanto à camisola de criança, foi bordada por cima no liso mesmo.
    Beijinhos querida e bom mês de junho

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    1. Muito obrigada pelo retorno, Alice querida, e pelas boas palavras também.

      Beijos.

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  5. Que triste notícia :(
    Que Deus conforte e paz no coração a vc e toda sua família! E cada dia receba forças e alegria nova para seguir em frente
    Bjs

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    1. Muito obrigada, Mimika querida. Beijos.

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  6. Olá,linda Rosa!
    A vida é assim....perdi meu amado pai aos 11 anos de idade,portanto a muuuito tempo!Aquela sensação de perda,um misto de medo e de não sei o quê tomou conta de mim e até hoje este foi um dos sentimentos mais angustiantes que até então, eu já tinha experimentado!As vezes choro de saudade e sinto por não ter tido mais tempo com um pai tão amoroso!Mas tenho ainda minha mãezinha(como a sua!!) pequenina e forte e me sinto privilegiada por isto!Deus é misericordioso!
    A cada vivência,um aprendizado!Posso imaginar o que você sentiu!
    Parabéns querida Rosa por sua capacidade de amar e perdoar!
    Que Deus te abençoe sempre!Lindo fim de semana cheio de sol prá você e família!
    Ah...cuide da queimadura com filtro solar.....
    Beijo no coração!
    Cristina Peres RJ

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    1. Não sei se mereço algum crédito por perdoar, pois quando amamos, perdoar é fácil... Mas agradeço essas tuas tão lindas palavras, tão repletas de sabedoria, minha querida Cristina. Beijos e agradeço a dica prá tratar da minha querimadura.

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  7. Rosa...meus pais ainda vivem e nem quero pensar em os perder!
    Lamento a sua tão grande perda! O tempo vai suavizar a sua dor! Bj amigo!

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    1. Que Deus lhes dê mais cem anos de vida, Maria da Graça querida, com muita saúde e paz. Beijos e obrigada.

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  8. Rosa querida, muito comovente o seu relato. Triste, sim, mas de um imenso amor.
    Um grande beijo, minha amiga linda.

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    1. Obrigada pelo carinho, Nina querida. Beijos!

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  9. Puxa, Rosa, graças a Deus que ninguém se feriu com o armário!!

    Rosa, meu pai fez tantas e tantas...mas, com o meu amadurecimento, cheguei na conclusão que no seu tempo, ele fez o melhor para todos a quem ele amava.

    Sou imensamente feliz por ter compreendido e, mesmo que no finalzinho de sua vida, ter desfrutado do seu amor, de sua presença e dependência por mim!!

    Ganhei um paizinho...e no tempo certo, entreguei-o à Essência...ele precisava ir...gratidão, saudades, gratidão!!!

    Ah, como é bom lembrar com ternura e perdão dos nossos amores que já estão em outro plano de evolução não é mesmo?

    beijinhos e uma linda tarde pra você!!
    (agora vou correr para o laboratório...tenho tomografia dos seios da face marcada...espero que vc esteja bem de saúde)

    Lígia e =^.^=

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    1. Obrigada por repartir isso comigo, Ligia querida... A tua história familiar é muito linda, uma inspiração prá mim.

      Beijos e muito obrigada pela preocupação, estou bem melhor.

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