Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um homem de Deus


Sábado que passou meu irmão caçula foi, com uma amiga da faculdade, participar de um culto na Igreja que ela frequenta. Essa amiga em questão está sofrendo de câncer nos ossos e está dependendo da ajuda dos amigos - inclusive e principalmente da ajuda do meu irmão - prá poder estudar, cumprir com os trabalhos e (acima de tudo) não desanimar, seguir vivendo... Como ela pediu a companhia dele, ele foi, mesmo não professando a mesma religião que ela - não faz mal algum, concordam? Louvável a atitude dele. Mas ele voltou de lá muito triste: disse que a pregação girou praticamente só sobre dinheiro; que o pastor disse que não adiantava "dar uma de 'João-sem-braço', que se não dessem dinheiro "prá Deus", não tinha milagre, não tinha vida transformada..." Disse que quem alegasse não ter dinheiro, tinha outras formas de "ajudar a Deus" e ficou chacoalhando, na frente de todos, uma máquina de cartão de crédito. "É só enfiar o cartão aqui, digitar a senha e já vai estar dando a Deus o que pertence a Ele de direito"...

Chocante, não é mesmo? Acho que Jesus precisa urgentemente nascer de novo, mas não vai dar conta de expulsar tantos vendilhões, de tantos templos... Parece que isso está se multiplicando como praga, na maioria das religiões que eu olho - já vi venderem fita pornô evangélica; ter, na entrada da igreja, sex shop evangélica! Me perdoem - eu não generalizo. Um dos meus irmãos é evangélico, é um homem bom, um excelente trabalhador e pai de família - é uma religião maravilhosa. Mas onde tem ser humano...

Já contei prá vocês que trabalhei na Previdência Social, junto às Assistentes Sociais. Contudo, não trabalhei somente nesse setor: tive um pequeno tumor nas cordas vocais e fiquei completamente sem voz - e, nesse meio tempo, fui transferida pro Setor de Inscrição de Segurados, prá fazer serviço interno. Eu analisava processos de funcionários públicos, de segurados autônomos, empregadas domésticas, etc - e também fazia Averbação de Serviço Religioso. Prá quem não sabe os religiosos - padres, freiras, pastores - também precisam contribuir prá Previdência Social se quiserem receber aposentadoria. Fazem uma inscrição e pagam carnezinho. Porém, houve um tempo em que a lei não pensava neles - não podiam contribuir, nem se quisessem, pois não se enquadravam em nenhuma lei. Daí, quando a lei veio, muitos deles se inscreviam a partir dali, mas ficavam com um tempão prá trás, sem contribuição - e só iam poder se aposentar por velhice. Então a lei abriu uma brecha: aqueles que provassem, através de declaração do órgão religioso do qual faziam parte - há quanto tempo exerciam essa atividade, podiam indenizar a Previdência retroativamente e aposentar por tempo de serviço, como qualquer segurado autônomo que comprove efetivamente uma atividade. Bom prá eles e muito justo, não acham?

O meu tumorzinho teve remissão com tratamento - graças a Deus - e voltei a ser a tagarela de sempre (e fui colocada prá trabalhar, além das análises de processos que eu já fazia, na linha de frente novamente, atendendo guichê de segurados...). Eu sempre fui boa prá lidar com público, modéstia à parte. Não voltei pro Serviço Social pois, além de agora a chefe ser outra, com quem eu não gostava de trabalhar, o Setor estava sendo desmantelado aos poucos: Fernando Henrique Cardoso (ou como "carinhosamente" o chamamos aqui em casa - "O Pior Presidente que o Brasil já Teve") decidiu que os segurados da Previdência Social não precisavam da intercessão das Assistentes Sociais e parou de concursá-las: elas foram se aposentando, morrendo e não foram sendo substituídas. Hoje são "moscas brancas" - procure muito prá achar uma. Fiquei no Setor de Inscrição mesmo.

E, um belo dia, me vem às mãos o processo de Averbação Religiosa de um dos maiores pastores de uma das mais antigas e conceituadas igrejas evangélicas do Brasil - um de seus fundadores, prá falar a verdade. Não vou dizer seu nome e nem de que igreja é pois tem muita gente boa que o segue - não merecem isso... Antes de convocá-lo, passei seu nome por um sistema de dados e descobri um homônimo dele que havia trabalhado esporadicamente em metalúrgicas pequenas em vários estados brasileiros - um itinerante, tentando a sorte aqui e ali. Só que, após análise mais minuciosa, reparei que não era somente um homônimo: tinha a mesma data de nascimento, era proveniente da mesma cidade ao nascer, tinha a mesma mãe: era ele. As únicas coisas diferentes eram os números de suas identidades: em cada estado ele tirava uma nova (era comum naquele tempo, a cédula de identidade era diferente prá cada estado do Brasil). E eu pensei, analisando: como é que ele podia estar trabalhando de pastor aqui em São Paulo, se ele estava trabalhando estes 4 meses em Alagoas? Como podia estar no Mato grosso ou no Rio de Janeiro e em São Paulo ao mesmo tempo? Milagre - ele era o novo Santo Antonio! Não dizem que Santo Antonio conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo, rezando uma missa e salvando o pai da forca, quilômetros de distância?

Bom, como sou meio cética com milagres, convoquei o tal pastor e expus a ele minhas dúvidas. Disse que não podia averbar todo aquele tempo, principalmente porque não tinha como ele ser pastor trabalhando período integral, mais de oito horas por dia, seis dias por semana. Detalhe: sabe aquela indenização que os segurados religiosos tinham que fazer à Previdência após averbarem o tempo? Era, em grande parte, apenas simbólica. Devido à desvalorização monetária, vários desses períodos eram indenizados em centavos - bom prá eles, né?

Eu finalmente disse para o homem que o processo seria indeferido e que ele poderia, posteriormente, dar entrada em outro, averbando um período menor de tempo de serviço.

O pastor virou um bicho! Começou a me ofender, dizer que eu não era nada, que eu não passava de uma funcionáriazinha mal paga, que eu tinha mais que averbar o tempo todo, que era direito dele se aposentar o quanto antes!

Eu mantive a calma e disse a ele que nada podia ser feito, pois tinha dupla atividade e tinha impossibilidade física de ele exercer as duas ao mesmo tempo, em locais tão distantes - ninguém em sã consciência averbaria aquele tempo todo prá ele...

Ele então se debruçou lentamente do outro lado da minha mesa, baixou o tom de voz e disse assim:

" - Se eu fosse você, menina, averbava todo esse tempo que eu estou pedindo... Tanta coisa pode acontecer! Uma hora dessas você vai estar andando na rua e uma bala perdida vai te acertar bem na cabeça... Vai estar atravessando a rua e um carro pode te atropelar ou pode levar uma facada no meio de um assalto... Eu tenho muitos seguidores por aí, aqui dentro mesmo - se você sabe o que é melhor, averba esse tempo logo, pro teu próprio bem..."

Meu sangue gelou: aquele homem estava ameaçando minha vida!

Respirei fundo e disse: "O senhor acabou de me ameaçar de morte?"

Ele deu um meio sorriso irônico, se ajeitou bem confortável na cadeira e rebateu, animado:

"Eu? Imagina! A senhora entenda como quiser, mas não tem como provar nada..."

"Realmente, estamos só nós dois nesta salinha, não tenho mesmo como provar nada. Mas o senhor, como um 'homem de Deus,' sabe bem que nesta conversa que estamos tendo, não estamos realmente a sós: Deus está aqui, testemunhando tudo. Se eu tiver que morrer atropelada, ou com uma bala perdida, ou ser morta a facadas num assalto, será com a permissão Dele e não a mando do senhor. Perante Deus o senhor não manda nada."

Ele engoliu o sorriso e a petulância, olhou prá janela e perguntou prá mim como é que ia ficar o processo dele, no fim das contas. Eu respondi que estava mantido o indeferimento, que a este ele poderia interpor um recurso anexando novas provas e que se retirasse da minha frente, que eu tinha mais o que fazer. Ele se levantou e foi embora. Nunca mais o vi pessoalmente - e continuo viva prá contar essa história.

Meses depois pedi PDV - Pedido de Demissão Voluntária. Depois de anos trabalhando pro FHC, tendo menos de 1% de aumento salarial ao ano, tendo que levar café e papel higiênico de casa quando saía prá trabalhar, tendo que comprar caneta do meu próprio bolso prá escrever, finalmente cheguei no limite: aceitei a indenização que ele me ofereceu prá cair fora (indenização essa que se provou mentirosa e que só me foi paga pela metade, diga-se de passagem...). 

Uma pena, realmente... Gostava de trabalhar, de lidar com pessoas, de exercitar o cérebro diariamente - mas não me arrependo. O Marildo e os filhos tomam conta de mim e eu tomo conta deles - sou feliz assim. Mas a Previdência perdeu uma boa funcionária...

Como o apóstolo João disse em uma de suas cartas:

"Meus amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque se levantarão muitos falsos profetas no mundo."

Se o Filho do Homem não tinha uma pedra onde encostar a cabeça - nasceu numa manjedoura e foi sepultado em uma tumba emprestada, é de desconfiar quem vem guiar os filhos de Deus seguindo seus passos e fica cheio de mansões, carrões, fazendas - não é mesmo? 

Falar "Senhor, Senhor" até papagaio fala...


25 comentários:

  1. Rosa, do Céu, foi Deus que te iluminou e colocou palavras em sua boca para enfrentar esse horroroso!!

    Eu nem sei o que faria...iria denunciá-lo, iria na polícia, sei lá...

    Infelizmente o mundo está cheinho de lobos em pele de ovelhas.

    Rosa, eu fiquei sim muito saudosa dos peludos...ai...mas, sabia que estavam bem...

    Menina, eu gosto de lavar louças, mas, na próxima reforma da cozinha, vou incluir uma máquina de lavar pratos..kkkk...assim ganharei masi tempo...kkkkk

    beijinhos,

    Tenha um ótimo dia,

    Lígia e =ˆˆ=

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    1. Ah, agora você falou a minha língua... Há tempos quero uma máquina dessas, só não comprei ainda por falta de espaço onde colocar - talvez, numa reforma futura, quem sabe...

      Beijos e um lindo final de semana!

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  2. amiga aqui (italia) quase não existe igrejas evangélicas, talvez por ser a terra do papa.
    mas fiquei chocada e indignada com isso.
    nao sabia que eles, os pastores fosse descarados assim .
    pensava que bastava uma moedinha, como na igreja católica.
    acho que corrupção tem em todo lugar, mas essas igrejas evangélicas estão exagerando.
    espero que a amiga do seu irmão, consiga vencer essas doença terrrivel

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    1. Olha, prá ser sincera, adoro esse Papa atual - acho ele uma pessoa muito inteligente, caridoso, especial mesmo. Que Deus lhe dê inspirações prá fazer as mudanças de que a Igreja tanto necessita e vida longa para tanto.

      Quanto à mistura da avareza com a religião - cedo ou tarde, quando Deus achar que "chega", tenho certeza de que ele dará um "basta!".

      Beijos e muito obrigada!

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  3. Nossa, vocẽ foi corajosa amiga!
    Mostrou que tem mais fé que aquele homem.
    Infelizmente o mundo está cheio de falsos profetas.
    Bjus

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    1. Infelizmente está sim, minha querida Márcia. Por isso que eu acho que Deus nos fez inteligentes: a fé não pode ser cega, a ponto de anular nossa razão - jamais!

      Beijos e um lindo final de semana.

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  4. Nossa, fiquei pasma! Por pior que sejam essas pessoas ainda choca ler o que vc relatou. Eu sempre fui contra a igreja católica e as outras então, nem se fale, mas isso é coisa minha.
    bjs

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    1. Olha, querida Edir, eu não me considero contra religião nenhuma, pois tem gente muito boa em todas elas. Os erros que a maioria das religiões tem são de origem humana: os preconceitos que são embutidos como sendo questões de fé, as cobranças desnecessárias feitas em cima das pessoas, afastando-as do que realmente importa: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Por isso que eu cultuo Deus dentro do meu próprio coração, longe das igrejas e das interpretações humanas. Se é prá interpretar, interpreto eu...

      Beijos e mujito obrigada pelo comentário!

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    2. Rosa, gosto muito da sua postura. Tens a minha admiração!
      Beijos

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    3. Obrigada, Helena querida.

      Beijos!

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  5. Eu sabia que tu irias enfrentá-lo, tinha certeza!
    Rosa, eu já estive na Igreja Universal do Reino de Deus. Em um dos muito períodos de depressão que eu tive, peregrinei em v´rias igrejas. Estive lá com minha cunhada. Presenciei o mesmo que o teu irmão. O pastor dizia: "Quem teme a Deus, não se nega a ajudar a sua obra. O que é 10% do que você ganha, perto do que Ele opera em tua vida".
    Olhei para uma senhora muito humilde próximo de mim, e tive dó de ver ela contando o dinheiro da 'contribuição'. Era um monte de notas miúdas, um monte.
    Fiquei imaginando se ela não estaria ali entregando o dinheiro da comida, do dia seguinte.
    Passei dias pensando nisso, minha depressão aumentou, em ver como o ser humano pode ser sórdido.

    Eu tive uma empregada doméstica, cujo o marido trabalhava num carro forte, que fazia o transporte do dinheiro, da dita igreja. Ele nos contou, que o carro-forte ia lá todos os dias, duas vezes ao dia buscar dinheiro, e era muito dinheiro.
    Parabéns, minha amiga, pela firmeza de caráter, e por usar o coração nos teus caminhos.
    O que entristece ainda mais, é perceber amigos e parentes que se deixam iludir por esses 'vendilhões'.

    Realmente, falar Senhor, Senhor!, até papagaio, fala.

    bjs

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    1. Você falou o termo corretíssimo, Lia querida: SÓRDIDO. A forma como determinadas pessoas usam a religião prá rechear suas contas bancárias, passando por cima das necessidade das pessoas simples de coração e cheias de boa vontade é sórdida mesmo. Mas Deus está vendo...

      Beijos, minha querida, e um ótimo final de semana!

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  6. Rosa, querida, cada história!!!!
    Eu amo o Brasil, mas reconheço que tem coisa que só aí acontece!
    E que a religião pode ser um grande negócio,pode!
    Grande Rosa, grande mulher.
    Meu orgulho!
    Beijo

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    1. Obrigada, Nina querida! Um lindo final de semana prá você - com certeza cheio de pratos deliciosos, de dar água na boca...

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  7. Ai Rosa, você tem toda razão. É por isso que eu sempre digo: ao invés de buscar religiões busque a sabedoria. Ficar coma Bíblia embaixo do braço é fácil, o difícil é colocar em prática...
    Bjs e ótimo final de semana

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    1. Ah, doutora, como sempre muito sábia! Se a gente buscasse sabedoria, praticasse tolerância e perdão e aprendesse a amar de verdade, nem precisava mesmo de religião: já estaríamos em harmonia com Deus e com nós mesmos.

      Beijos e um lindo final de semana!

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  8. Ah Rosa, também não sou católica não, mas respeito todas as crenças.
    Bjs

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  9. Olá Rosa...na VIDA temos de estar atentos aos
    inoportunos e aos oportunos!
    Religião...a gente sente e dá-se sem contrapartidas...
    como tudo na vida deveria ser!
    Espero que lições de vida...nos abram os olhos!
    Bom fim de semana!

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    1. Muito boa a tua colocação, Maria da Graça: atentos ao inoportunos e aos oportunos... Realmente.

      Religião deve servir para nos melhorar, nos unir ao Criador e não nos dividir, nos separar uns dos outros e nos desgostarmos mutuamente, não é mesmo, minha querida?

      Beijos e um lindo final de semana!

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  10. ai d rosa é realmente um horror, as vezes assisto o programa de um famoso evangélico, gosto da parte de quando ele explica as passagens da bíblia, mas são 15 minutos de explicações e mais 15 pedindo dinheiro, eu só assisto os primeiros 15. também vou as vezes na igreja, no centro espirita, procuro tirar o melhor de cada uma delas, e concordo com a senhora que em todas as religiões tem as pessoas boas e as ruins, infelizmente. bjs

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    1. Verdade, Elisabete. Por isso que eu prefiro acreditar em Deus do meu jeito...

      Beijão e um ótimo final de semana!

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  11. Putz, que boa chacoalhada você deu no pastor! Muito bem dito!!

    Bjs

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    1. Acho que foi Deus que me inspirou no que eu devia dizer...

      Beijão!

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  12. Amiga Rosa Fiquei feliz em saber o que ouve as testemunhas de Jeová se morasse perto provavelmente ia bater na sua casa.
    assim como vc eu respeito todas as religiões pois a regra áurea deve ser o amor ao próximo.e todo ser humano deve ser respeitado independente de qualquer diferença .amei sua postura.bjs

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