Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Por que nós amamos?

Quando eu era pequena guardei no coração uma frase que ouvi uma personagem dizer numa novela: " A gente não ama "por causa de", mas "apesar de". Profundo, não é? Volta e meia me pego pensando nisso...

Quem, por acaso, estava a transitar pela Rodovia Castelo Branco, que liga a capital do Estado de São Paulo ao seu interior, no domingo, pode ter tido a oportunidade de presenciar uma cena única: em meio ao trânsito intenso, de velocidades em torno de 120 km por hora, um homem atravessava por entre os enormes caminhões, agitando freneticamente os braços, indo de uma pista à outra, cruzando pelo jardim gramado central, parando mais carros e caminhões, correndo risco de morte...

Tudo isso para salvar a vida de um cãozinho!

Estávamos voltando da nossa Páscoa no sítio quando vimos o pobre animalzinho, assustado, cruzando nossa frente! Meu marido parou imediatamente o carro no acostamento e, descendo em meio àquela multidão de máquinas velozes, corria atrás do pequeno, tentando resgatá-lo. O pobrezinho estava tão assustado que fugia, dando ao meu marido mais preocupações e riscos... Por bondade divina todos os carros - e mesmo os enormes caminhões! - atendiam ao seu pedido e tanto ele quanto o cãozinho escaparam ilesos. Meu marido pretendia capturar o bichinho e trazê-lo para nossa companhia, mas tudo o que conseguiu foi fazê-lo fugir da rodovia, em direção a uma propriedade - e nos fazer rezar para que alguém o acolhesse, evitando que voltasse a fugir...

Anos atrás, quando compramos o sítio, o seu antigo dono queria nos vender junto também suas vacas e cavalos. O dinheiro que tínhamos não era tanto - ou a gente comprava os animais ou construía e mobiliava a casa. Já havia uma casa, mas era pequena e sem conforto, e nós já tínhamos o pedreiro e o orçamento dos materiais e, assim, não compramos os bichos. 

Passados uns meses, com o sítio pronto, começamos a frequentá-lo sempre que possível. O antigo caseiro continuou a trabalhar prá gente e trouxe seu gado prá comer nosso mato, pois a terra dele é bem pequenininha - o que, prá nós, foi bom, pois ajuda a manter as braquiárias sob controle. Trouxe também seu único cavalo - Juma, que servia de montaria e também puxava a charrete. Assim, sempre que queriámos leite fresco ou dar uma volta, estávamos tranquilos.

Contudo, aos poucos, meu marido começou a comprar cavalos - não puros sangues, nem mesmo cavalos de bom porte e saúde, mas um plantel de pangarés. A cada vez o caseiro chegava com uma história triste: "Seu Hélio tá passando por dificuldades, o cavalo tá que é só osso, ele disse que vai abandonar o bichinho pelo mato... "; "Seu Gastão não tá com dinheiro prá tratar da bichinha, tá que é só ferida...".

E assim, por pouco mais de cem, cento e cinquenta reais, o "Marildo" saía e retornava com um animal magérrimo, de se contar as costelas, de pelagem suja e judiada, ferida. Nem nome eles tinham, às vezes... A um meus filhos deram o nome de "Pé de Pano", por parecer o cavalo do Picapau. Outro "Meinha", por causa de manchas brancas como meias, nas patas - embora tenhamos descoberto depois serem comuns esse tipo de manchas... "Orelhinha" chegou com tantas feridas que uma das orelhas ficou caída prá sempre - é a mais dócil prá montaria. "Epona", por causa do vídeogame "Zelda", "Zorro", porque no dia em que este chegou estava passando esse filme na Globo. Cada um deles foi vacinado, tratados os machucados, ganharam ração, milho, cenouras da horta. Cada um deles ganhou uma vida de sossego no pasto, sem puxar arado, sem levar chicote.

Os dois primeiros que chegaram foram motivo de briga. "Esse pessoal tá te fazendo de bobo! Estão vendendo prá você uns animais doentes! O que que a gente vai fazer com cavalo, nem montar a gente sabe!!!"

Da primeira vez ele não disse nada, ficou calado e escutou minha bronca. Da segunda vez, me olhou com aquele olhar de opinião forte, quase escurecendo os olhos, olhar de quem não se importa com o que os outros pensam e disse: "Você acha mesmo que alguém me faz de bobo, mulher? Você acha que eu não sei que o animal talvez nem sobreviva muito tempo? Dinheiro existe, a gente acaba gastando, de um jeito ou de outro. Melhor gastar com coisas boas: salvei a vida do bicho, dei sossego prá ele. Trabalho e ganho mais dinheiro."

E eu me calei, ele estava certo, eu estava errada. 

Os animais se recuperaram esplendidamente. 
Debaixo da árvore, curtindo a sombrinha, está "Pé de Pano". Clica na foto prá ver mais de perto. Comendo matinho está o "Zorro"...

"Meinha", com a pelagem linda...
Os outros cavalos por aí, montados pelos familiares do caseiro, que também vieram prá passar a Páscoa no campo...
Todos nós aprendemos a andar a cavalo - embora eu deteste, nasci prá gastar sola de sapato, gosto mesmo é de um pé depois do outro. Mas o acompanho, às vezes, quando ele me pede muito...

E me apaixonei de novo pelo mesmo homem, como faço regularmente desde que o conheço. 

Acho que a gente tem que estar sempre se apaixonando pelas pessoas à nossa volta - as que a gente já ama e conhece faz tempo e as que entram na nossa vida durante o transcorrer dela. 

E também acho que a personagem da novela não estava 100% certa no que disse. 

A gente não ama "apesar de", nem "por causa de". A gente ama num misto disso, "apesar de tudo" e "por causa de tudo". Prá amar e continuar amando temos que estar sempre de olhos bem abertos e não deixar a rotina transformar o "especial" em "corriqueiro", nem deixar o "irrelevante" assumir proporções gigantescas. 

Defeitos - quem não os tem? As qualidades que nos fazem únicos, aquele sorriso que faz o dia mais bonito, a conversa que faz toda a diferença no momento de crise - precisam ser devidamente apreciados. Nunca podemos deixar morrer o diálogo, jamais devemos ficar cegos às coisas boas, ao que cada um tem de mais bonito...

Agora, respondendo à pergunta do início do post "Por que nós amamos?": porque é assim que a gente cresce. Amando a gente se transporta prá fora de nós mesmos, se preocupa com o bem estar do outro, se importa em fazer outra pessoa feliz. Amando também nos melhoramos, instintivamente, talvez para merecermos esse presente da vida. 

Cumprimos nossa missão na terra dessa forma, amando: começamos a "Amar o próximo como a nós mesmos", amando um de cada vez...

A flor do início do post é flor de abóbora: linda e deliciosa prá se comer - e vou ensinar como.


21 comentários:

  1. Adorei ler teu texto Rosinha. Muito gostoso! E, te digo: se apaixone quantas vezes puder e releve tudo, porque não sabemos até quando Deus nos privilegia com a sua companhia e quando se vão, até o que não é relevante (as brigas) faz falta.
    Bjs.
    Mª Lúcia

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    1. Minha avó me dizia que a gente nunca devia dormir "de mal" de ninguém, pois não sabia se Deus vinha buscar um dos dois durante a noite. Infelizmente nem sempre levo isso ao pé da letra... Mas faço o meu melhor prá estar sempre em paz com a consciência e amar o máximo que posso. Beijos e obrigada.

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  2. Ahh Rosa, que bom conhecer pessoas como vocês!! Também amo os animais, e sofro ao vê-los abandonados, malcuidados e doentes. Que Deus abençoe cada vez mais você e sua família, e que você possa continuar dividindo com a gente esses gestos de generosidade e amor!
    Beijos

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    1. Que Deus abençoe você também, linda Luci do bom coração, que enxerga em mim mais bondade do que tenho. Obrigada, do fundo do coração e muitos beijos prá você.

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  3. Rosa, minha querida, minha linda Rosa, quanto mais te conheço, mais te admiro, mais gosto de ti!
    Tu e o marildo fazem cá uma dupla! Incrível! gente incrível! gente que me faz acreditar sempre na bondade natural do ser humano.
    Rosinha linda e cheirosa, promete,nunca, mas nunca, me vais perder de vista. Preciso de ti para crescer, para ser melhor. Preciso mesmo!

    Os elogios, também são maravilha! Afagam o ego!
    Gostaste mesmo da minha mantinha?
    Uau! Fico super feliz!
    Quanto a não mostrar o rosto, não posso, amor, não posso.
    Toda a gente me conhece por aqui e perderia toda a minha liberdade se fosse idenficada.
    Vou mandar para o teu mail um retrato. Promise!
    Beijos, resmas de beijinhos da Nina

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    1. Uma mantinha de sonho a tua, tão macia e azul como deve ser o céu se a gente pudesse tocá-lo. E eis aqui uma diferença nossa: eu aqui, desconhecida, não mostro o rosto que é prá não julgarem, pela simplicidade da minha aparência, a miscelânea que me vai por dentro... Beijos de montão prá você, minha linda amiga.

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    2. Rosa, querida, no comentário da Nina coloca meu nominho lá juntinho, tá? penso a mesma coisa de você, preciso da sua sabedoria, preciso de exemplos. Preciso de você.
      De tudo o que li aqui esse texto é o meu favorito.
      Hoje, 03.04, faço 20 anos de casada e esse texto caiu como uma luva, como um presente.
      Beijos

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    3. Que bom que você gostou! Parabéns pelo aniversário, mais milhões de anos de felicidade ao lado da sua metade da laranja, com muita paz e muita cumplicidade. E Sucesso (maiúsculo) prá você no novo empreendimento. Beijos.

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  4. Rosa, chorei ao ler seu post.
    Ver que existem pessoas como vocês me faz acreditar na humanidade.
    Que Deus abençoe seu marido com vida longa, saúde e prosperidade para que ele possa salvar muitos outros animais. E a você também por ser essa pessoa incrível que é.
    Adorei sua reflexão sobre o amor. Quanta sabedoria.
    Já te admirava muito e agora ainda mais.
    Bjs

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    1. Obrigada, Cris, é maravilhoso saber que o que a gente sente encontra eco em outros corações. Obrigada principalmente por essa gentileza, mas também por ter feito um post sobre isso: você é mesmo especial. Beijos.

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  5. Rosa querida, fiz um post sobre este seu texto. Espero que goste.
    Bjs

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  6. Cheguei até aqui pelo post que a Cristiane fez para ti e fiquei encantada com o que encontrei por aqui! história linda e um blog super especial...com certeza virei mais vezes aqui! parabéns!

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    1. Que bom, Cláudia, seja bem vinda e obrigada pelo comentário tão fofo. Beijos e continue aparecendo, me faz feliz.

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  7. Rosa:
    Seu post tocou minha alma e coração.
    Sou completamente alucinada por animais e ao ler seu relato, fiquei emocionada e encantada.
    Meu sonho é ter um local, seja uma chácara, um sítio ou qualquer lugar, onde possa abrigar os bichos que são abandonados e mal-tratados.
    Tenho 2 cachorros no apartamento onde moro, sendo que um deles, nas verdade é um cadelinha que eu adotei.
    Eles são minhas paixões.
    Só não tenho mais, por falta de espaço.
    Porque o amor que tenho pelos bichos, não tem tamanho.
    Bjs.:
    Sil

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    1. Que linda, Silvana, eu também sou assim - me corta o coração ver bichinhos abandonados, machucados, maltratados. Um dia, se Deus quiser, você cria esse seu santuário pessoal para os animais, mas cuidando desses dois você já está fazendo parte do trabalho, não é? Devagarinho você amplia o auxílio. Minha sogra tinha uma frase, ela dizia: "Eu planejo e Deus realiza". Uma hora acontece. Beijos.

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  8. Oi Rosa
    Li sobre o teu post no blog da Cristiane e vim espreitar!
    E' impossível não emocionar-se!
    Abraços fraternos ao teu marido, que deu-me uma grande lição de vida com o seu exemplo e um grande abraço pra você que definiu tão bem o que o amor!
    Léia

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    1. Obrigada, Léia. Espero te ver mais vezes por aqui, me alegrando com sua gentileza. A Cris é um doce, graças a ela conheço mais uma amiga maravilhosa. Beijos.

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  9. Ah, Rosa...menina poetisa!!

    Que lindas palavras. Que homem bondoso de alma e ATITUDES Deus preparou para você. Gostei tanto quando você disse que ...se apaixonou de novo pelo mesmo homem!!

    Deus que abençoe e fortaleça esse amor.

    beijinhos,

    Lígia e turminha:)

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    1. Esse "Marildo" é incorrigível. Sabe, eu olho prá ele e lembro de uma poesia que diz "grande é esse amor meu de criatura, que vê envelhecer e não envelhece" - acho que é Soneto de Aniversário... Ele não tem quase cabelo branco, mas a barba tá quase toda branca (gozado, né?) e eu olho prá ele e acho lindo, tenho ciúmes - como se ainda fôssemos jovens... Obrigada e que Deus abençoe você também, minha querida. Beijos.

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  10. Lindo demais... Parabéns! Virei mais vezes!

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