Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Duas meninas

Tive uma prima que faleceu há uns três anos, vítima de enfarte. Ela era três anos mais velha do que eu e, quando pequena, eu achava ela o máximo. Ela era loira, com os cabelos prá baixo da cintura, lisos com cachos nas pontas - simplesmente lindos! Um sorriso todo certinho, olhos verdes - era linda demais. 

Tudo o que eu queria na vida era ser como ela... 

Também desenhava - como eu - mas melhor, tinha um talento danado. Quando eu ia na casa dela parecia um sonho - ela tinha um quarto que dividia só com a irmã, com colchas de chenille iguais, quadros nas paredes, vasinho de flor, penteadeira com espelho, vidrinhos de perfume e bibelôs. Tinha até boneca de louça na cama. 

Na sala dela tinha piano - e ela tinha aulas...  Eu - morava numa casa minúscula, compartilhava o quarto com minha avó e cinco irmãos, dividia a cama com minha irmã Cida (uma na cabeceira, outra nos pés...). Não tínhamos sala e o banheiro ficava fora de casa... As roupas e os sapatos que eu usava tinham sido dela - e eu adorava quando minha tia chegava com a sacola...

Um dia fui entregar uma costura que minha mãe tinha feito prá elas, era domingo à noite e estava passando Jacques Cousteau  - colorido! - na televisão. Minha tia me deu um copo de guaraná Antártica - um néctar dos deuses prá mim... - e eu sentei no sofá da sala, imaginando porque, com tanta coisa legal passando na televisão naquela hora (o programa Sílvio Santos, por exemplo, que sempre dava prêmios e que eu sonhava participar um dia prá ganhar alguma coisa...) a TV só mostrava aquela chatice de peixes... 

Meu tio apareceu, pedi sua bênção, beijei sua mão e ele me perguntou como é que eu tava indo na escola. Respondi, toda orgulhosa, que tinha passado de ano (de novo) com a maior nota da sala, que a professora tinha me dado medalha de primeira aluna de novo (era minha terceira, eu ia começar a quarta série no ano seguinte...). 

Meu tio chamou minha prima, repetiu o que eu tinha acabado de contar, brigou com ela na minha frente porque ela era três anos mais velha do que eu e tinha acabado de repetir de ano de novo - e agora estávamos na mesma série ...

Depois que meu tio saiu da sala, minha prima chegou prá mim e disse, bem baixinho, que me odiava mais que tudo na vida.

Óbvio que eu achei que aquilo era só na hora da raiva - eu tinha cinco irmãos, entendia de coisas ditas na hora das brigas...

Muitos anos mais tarde fomos - por sugestão da mãe dela - juntas nos inscrever para um concurso público no fórum. Eu já tinha 18 anos, ela 21, mas nossas mães, que eram super-protetoras, foram junto. A certa altura, depois que a gente tinha se inscrito e comprado as apostilas (minha tia disse que era mais barato comprar juntas e dividir o uso...), minha prima pegou na minha mão (enquanto nossas mães aguardavam a vez na fila do banco, prá pagar a taxa de inscrição) e disse que ia comigo tomar um sorvete.  

Na verdade ela me levou numa cartomante, disse que eu não conhecia, que ia ser legal. 

Quando entramos ela disse prá mulher assim: "Será que a senhora consegue prever um futuro bom prá pobre coitada da minha prima aqui? Ela é uma miserável, morre de inveja de mim, da minha beleza, do dinheiro que eu tenho, não tem nem dinheiro prá fazer faculdade - será que a vida dela vai ter conserto, ela vai arrumar um bom emprego?". 

Nem lembro se a mulher falou alguma coisa - parei no tempo. Saí dali aérea, meio boba...

Quando encontramos nossas mães, minha tia disse que tinham que ir, largaram a gente lá, no centro da cidade e eu e minha mãe voltamos de ônibus. 

Levaram as apostilas de Direito - todas - e deixaram a de conhecimentos básicos de português e matemática - que me eram inúteis, pois eu tinha tudo aquilo nos meus livros. 

Nunca me deixaram usar as de Direito. Me virei sozinha na biblioteca. 

No dia anterior ao concurso meu tio apareceu lá em casa. Disse que eu não devia ir fazer a prova, que eu não tinha estudado Direito e que era o que mais tinha peso. Também eu não devia ir porque era tímida,  magricela, mal vestida - a filha dele era linda, simpática e que isso contava ponto. 

Infelizmente, nenhuma de nós passou.

Era o primeiro concurso que eu prestava, tinha tido só dois meses prá estudar... Acabei prestando outros concursos, me esforcei bastante, passei num melhor e fui cuidar da vida. 

Acabamos nos distanciando mais uma da outra.

Mas, antes dessa história tão absurda acontecer, houve algo tão lindo, um gesto inesquecível e marcante da parte dela... 

Quando eu estava com 12 anos, minha avó morreu  e então o mundo acabou. Ela era tudo prá mim. Não quis ir no velório (que naquele tempo era em casa), pois me recusava a enfrentar a realidade, então me escondi no barracão de ferramentas do meu pai - isso em plena madrugada... 

Minha mãe, transtornada de dor, nem se deu conta. Parentas que cuidavam dos meus irmãos todas achavam que eu estava por aí, ou com uma, ou com outra e nem ligaram. 

Mas minha prima - essa que disse que me odiava - me procurou por todo canto. Quando ela me achou, o dia estava amanhecendo. 

Ela sentou comigo e me disse: "Tá vendo? O mundo não acaba quando alguém que a gente gosta morre, o sol nasce do mesmo jeito. Amanhã vai nascer de novo e de novo e de novo... Quando a gente morrer também vai continuar nascendo, do mesmo jeito. Nem vou dizer que a vó vai ficar triste se você não for ver ela - sei lá onde é que ela tá, sei lá se existe um lugar prá onde a gente vai quando morre... Mas, se você não for se despedir, não vai esquecer disso pelo resto da vida, nunca vai se perdoar."

Eu fui e minha avó estava lá, deitada, serena e linda, rodeada de flores, as mãos cruzadas na altura da cintura e, por incrível que pareça, estava com um leve sorriso nos lábios. Tinha tido uma doença tão triste, tinha sofrido tanto, mas estava ali, tão linda!

Por toda minha vida vou ser imensamente grata por essa bondade da minha prima. Sempre rezo por ela, sempre agradeço e, acho que, daquela vez do concurso, foi isso o que me segurou o coração prá não sentir raiva - como eu poderia? Uma vez na vida tinha me dado um presente tão lindo!!! 

Quando eu fiquei pasma foi pelo inacreditável da situação: como alguém podia ser tão "claro" e "escuro"? Tão "sombra" e tão "luz"? 

E aprendi com isso que todo mundo tem bondade dentro de si, todo mundo é capaz de grandes coisas e também de mesquinharias. Acho que é por isso que "todo mundo vira santo quando morre", já reparou? As pessoas costumam falar só as coisas boas dos que morreram, não tanto porque o mal é esquecido, mas talvez porque nossa parte boa quer comungar com a parte boa deles, queremos nos sentir ligados através de algo que seja maior do que nós mesmos, maior que a vida que levamos e as bobagens que deixamos prá trás...

22 comentários:

  1. Lindo, lindo, lindo...

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  2. Parece até um conto, e não vida real, a sua vida! Sabe, eu não me lembro de muitas coisa de minha infância e adolescência, talvez por não ter acontecido nada tão marcante. Fico feliz quando encontro alguma prima e ela vem com aquela frase: você se lembra... aí vem alguma história que eu vou guardar simplesmente como alguém que ouviu, mas não viveu aquilo.
    É verdade, deveríamos sempre guardar o que a pessoa fez de bom, mas nem sempre é assim.E obrigada por compartilhar esses seus momentos com a gente!
    beijo

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    1. É pena que você não se lembre: com certeza você deve ter histórias boas prá contar também, mas acaba esquecendo porque não é de ficar matutando nelas, como eu... Beijos e obrigada pela bondade, querida Luci.

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  3. Rosa, Rosinha que história!
    A tua vida, amiga, dava um filme e tu serias a atriz principal, linda e loira e fantástica e gigantesca nessa tua atitude única perante a vida.
    Acho que não conheço ninguém igual a ti, Rosa, Rosinha.
    E é pena! Se todos fossem no mundo iguais a você, lai, lai, lai!!!!

    beijo

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    1. Ai, nem linda, nem loira, nem fantástica - só eu, quietinha no meu cantinho, olhando bem prá vida... Beijos, minha linda.

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  4. Legal, mas a verdadeira beleza sempre esteve com você!

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    1. Acho que a verdadeira beleza foi a atitude de minha prima quando minha avó morreu: ganhou um enorme crédito perante minha vida... Obrigada pelas palavras, minha querida. Beijos.

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  5. Poxa Rosa!!!
    Esta história é que nem aquela que tua vó falou a beleza estava em ti e não na outra....Vcs são uma família de sábias.... que coisas lindas nos ensina....
    bjus!!!
    Liege

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    1. Minha avó era sábia mesmo... Ainda bem que um dia vamos todos nos reencontrar na casa do Pai do Céu, não é mesmo? Assim a gente aguenta um pouco a saudade... Beijos e obrigada, querida Liege.

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  6. Puxa Rosa, que história triste....Ainda bem que você foi generosa e a perdoou, mas não é todo mundo que conseguiria.
    Bjs e ótima semana

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    1. É triste, sim, e - ao mesmo tempo, não é... Se você pensar bem, não dizem que "o amor apaga uma multidão de pecados"? Minha prima teve amor no coração quando me impediu de carregar um enorme fardo pela vida toda, e só por isso, já ganhou o perdão de qualquer coisa por seu próprio mérito. Beijos, querida doutora Cris.

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  7. Adorei o seu desabafo eu tb procuro olhar diante de tds as ofensas uma brecha pra agradecer o melhor da pessoa mas confesso que passei por tempos de muita dor e pensei ate no odio mas gracas a Deus esse adjetivo nao me pertence.
    Linda vc Rosa, bjs no coracao

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    1. Que bom, Eloisa querida. É amando e perdoando que a gente mostra que é mesmo filho de Deus, não é mesmo? Beijos e obrigada pelo lindo comentário.

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  8. Rosa, espreita aqui:

    http://365coisasquepossofazer.blogspot.pt/2010/11/185-encontrar-uma-nova-vida-para-os.html

    É uma menina portuguesa completamente empenhada na ecologia.
    Aí recolhi dicas sobre os collants.

    Beijinhos

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  9. Rosa, escreves tão bem, tão viva a sua escrita. Já pensou escrever um livro? Tens muito a ensinar, mulher!
    Sempre leio os comentários da Nina, da minha amiga portuguesa que também escreve lindamente bem - em outro estilo. Aconselho a Nina a publicar um livro - leio a Nina e a Rosa todos os dias. Eu adoro. Eu aprendo. Sempre. E pensar que fui eu que indiquei a Rosa para a Nina, lembra? Sinto orgulho disso!
    Obs: tem como enviar seu e-mail para mim acessando a minha janelinha do blog "contato"? Ele não fica público, só eu leio.
    Beijos,
    Helena

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    1. Que linda, Helena, obrigada. Claro que eu lembro... Beijos.

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  10. São minhas as palavras da Helena Compagno... Eu adoro. Eu aprendo. Sempre...
    DEUS te abençoe sempre e imensamente.
    Beijo.

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    1. Obrigada, Rosangela, você tem um bom coração. Obrigada mesmo. Beijos.

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  11. Vi o diagrama fundamental na postagem anterior, tem tudo a ver com esta postagem. que postagem linda...
    emocionei, inevitável. mas refleti bastante. pagou o dia na net rs
    é. porque tem dias que entro na net e quando saio, tenho a sensação de que perdi meu tempo. hoje não. valeu mesmo!
    Espero que não te importes, que eu compartilhe tua postagem no face.

    bjs

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    1. Pode compartilhar sim, vou adorar. Beijos.

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