Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Bombom



Às vezes uma história acontece com a gente mas o início dela se dá num tempo muito prá trás, no qual ninguém nem imaginava sequer que um dia a gente ia existir no mundo...

Aqui no bairro em que eu moro, mais de oitenta anos atrás, meus avós possuíram muitas terras. Ouso dizer até que foram donos de boa parte do lugar - trocados por meu avô por duas vacas leiteiras. É até absurdo pensar - parece até mentira de se dizer... - que houve um tempo que uma boa vaca valia mais que muito pedaço de chão...

Meu avô possuía algumas vacas tratadas a pão-de-ló, que ganhavam concursos de produção de leite - chegavam a produzir (naturalmente, sem montes de remédios nem alimentação calculada por veterinário ou mesmo cruzamento de raças...) dezenove litros de leite de ótima qualidade num único dia.

Numa dessas competições meu avô conheceu um homem que possuía muitas terras na Penha e fizeram a troca. Por azar do homem, alguns meses depois, as vacas adoeceram e morreram - e meu avô, que havia ficado muito amigo do tal homem, lhe deu outras duas vacas. Assim era meu avô, não enxergava dinheiro, amizade sempre vinha em primeiro lugar...

Bom, a vida se desenrolou, o bairro foi crescendo, volta e meia meu avô vendia um pedaço de terra aqui, outro acolá... Não dava prá ficar rico especulando e vendendo terras, dava só prá sobreviver.

Aos 14 anos minha mãe teve tuberculose - quase morreu. Meu avô, na esperança de tratá-la, acabou vendendo quase tudo naquele lugar - pois ia levá-la prá Europa, prá se tratar. Por sorte - e também graças às vitaminas de mentruz com leite da minha avó e os remédios prescritos no Posto de Saúde - minha mãe se recuperou sem precisar dessa tal viagem.

A vizinhança se encheu de caras novas, vindas de toda parte. Acabaram-se aos poucos as vacas, foi se urbanizando a cada dia mais o bairro e só sobraram aos meus avós algumas galinhas e cabras num terreno onde estavam construídas duas casas geminadas - aquela na qual eles moravam e a irmã dela, na qual vieram a morar minha mãe e meu pai.

Um pouco antes dos meus pais se casarem, num dos terrenos vizinhos ao dos meus avós, foram construídas 3 casas com um único acesso à rua - uma para o dono delas morar e duas outras menores prá aluguel. O nome desse novo morador era Joaquim Vieira e era um velho muito azedo, que odiava crianças como se todas fossem a peste do mundo - eu incluída. Mas isso, no contexto da historinha de hoje, é irrelevante: o velho azedo não passa de mero pano de fundo.

Seu Joaquim Vieira era viúvo, tinha uma única filha (coisa rara em tempos de Igreja Católica, abominação da pílula anticoncepcional e total desconhecimento dos preservativos...) que era recém casada com o demônio em pessoa - Seu Alfredo. Homem brigão, totalmente desocupado, que vivia às custas do sogro desde que enfiara uma aliança no dedo da filha dele. Agora se pavoneava de ser o homem mais rico do pedaço - simplesmente porque vivia às custas do aluguel de duas microscópicas casinhas no próprio quintal.

Bom, esse tal Alfredo (encrenqueiro de plantão) vendo minha mãe tão fragilzinha da tuberculose, morando com os pais já de uma certa idade (pois minha avó tinha gerado minha mãe aos 43 anos e meu avô ainda era dez anos mais velho do que ela, então...) e sendo que cada irmão de minha mãe cuidava tão somente da própria vida - esse tal Alfredo pulava o muro e pegava o que bem queria, de frutas a galinhas, passando até por ferramentas e roupas do varal... 

Fazia isso sem se esconder - do jeito que fazia podia até entrar pelo portão da frente, mas sentia prazer de pular a cerca. Ia lá meu avô reclamar e ele, zombeteiro, dizia assim:

-"Quer que eu pare de pular o teu muro e de pegar o que bem quero? Vai me obrigar como, velhinho?..." - e meu avô, que era de paz e doentinho, nada podia fazer.

Acontece que foi nesse ano que minha mãe e meu pai começaram o namoro - desmanchado e reatado um zilhão de vezes até se dar o casório. 

A reatada definitiva veio justamente graças ao demônio em pessoa: estando minha mãe no portão ao lado do pai, Seu Alfredo ali, tripudiando após o furto de mais uma galinha, meu pai aparece e o pega pelo colarinho e diz:

-"Se pular a cerca mais uma vez vai perder todos os dentes da boca e ainda as duas pernas..."

Meu pai era um homem de presença - alto, muito forte, lutador de boxe amador - lutava no Clube Esportivo da Penha, quando eu era criança tínhamos guardado em casa um cartaz com o apelido dele anunciando uma luta dessas...

Assim cessaram de vez o furto das galinhas - mas não a inimizade, que veio a me alcançar anos depois. Prá ser mais precisa: meus pais namoraram dos 14 anos de minha mãe até os 21, quando ela se casou. Nasci quando ela tinha 27 e a perseguição veio a me alcançar eu estava com quase 7 anos de idade - ainda não tinha entrado na escola: vinte anos tinham se passado e lá veio a vingancinha do Seu Alfredo. Personificada no filho dele, Marcelo.

Ô menininho bonito aquele - uma das primeiras lições que a vida me deu, de que aparência não importa nada: lindo por fora, estragado por dentro. Mais velho que eu alguns meses, era o quarto filho do Seu Alfredo - e graças a Deus que os outros cuidavam das próprias vidas, senão eu estaria perdida.

Marcelo se parecia - na minha cabeça de criança - com a versão infantil do cantor Wanderlei Cardoso  - que, prá quem tem menos de cinquenta anos, era este homem aqui:


Eu era pequena, ouvia as músicas dele no rádio, via ele na televisão e achava bonito - só que o tempo passou prá mim e prá ele, ambos ficamos acabadinhos (ô Tempo, como você é cruel...).

O moleque então parecia com ele: tinha os olhos bonitos, grandes e bem claros, o cabelo escuro... E também tinha mãos pesadas prá dar tapas e fortes prá dar empurrões - perdi a conta de quantas vezes ralei os joelhos graças a ele...

Se eu estivesse comendo um pedaço de pão com manteiga ele tomava da minha mão, jogava no chão e pisoteava, rindo... Se eu estivesse brincando de boneca ele a tomava das minhas mãos, arrancava a cabeça e jogava no terreno - daí eu tinha que entrar no meio do mato prá procurar...

Então teve um dia - um glorioso dia - em que o Universo conspirou a meu favor.

Primeira vez que eu comi um bombom Sonho de Valsa - ainda guardo a lembrança do sabor na minha boca... Coisa fantástica aquela casquinha crocante coberta de chocolate, o recheio que lembra meu docinho favorito de infância, o dadinho... Minha mãe e minha avó que me compraram, na volta da missa de domingo - ai, ai... Comi devagarinho, dentro de casa, pro Marcelo não tomar de mim...

"Não tomar de mim..." - eu pensei... e daí veio a ideia brilhante, uma lâmpada no alto da minha cabecinha, igual ideia genial de desenho animado! Ele TINHA que tomar aquele bombom de mim!!!

Fui até o jardim de terra úmida recém regada, agarrei uma pelota de barro e fiz com ela uma bolinha bem redondinha. Apertei ela de encontro ao chão prá ficar com aquela base achatada do bombom e aguardei intermináveis horas até que a bolota desse uma secada...

Enrolei com todo o cuidado a bolota de barro no papel cor de rosa do saudoso bombom (que eu havia guardado...) e fui me sentar na calçada, como sempre fazia no final da tarde...

Como que atraído pela minha presença e pelo transtorno que poderia me causar lá veio Marcelo, alegremente - e mais alegre ainda ficou, ao ver o bombom nas minhas mãos...

-"Dá aqui esse bombom prá mim, sua besta! É meu!"

Eu fingi resistir prá dar veracidade ao furto dele e me rendi, afinal - pobre de mim, só uma menininha...

Prá coroar sua maldade Marcelo resolveu comer o bombom bem ali, na minha frente, esfregando na minha cara o quanto ele estava gostoso...

Tão burro ele era... Deu umas boas mastigadas naquela lameira toda - eu teria cheirado o bombom primeiro, dado uma leve mordidinha na casca, apreciado, saboreado... Mas ele não: tinha que enfiar inteiro duma vez na boca...

Saiu dali cuspindo os bofes, lacrimejando os olhos, soluçando a humilhação - e eu é que dei risada.

Logo em seguida ele voltou, acompanhado do pai dele - que, covarde como sempre, veio se impor prá minha mãe. Achou que ia ser fácil pôr medo nela...

Minha mãe respondeu que ia falar pro meu pai ir lá na casa dele ter uma conversa e o "demônio em pessoa" e seu filhinho praticamente desapareceram da nossa frente, como fumaça. Valentões são assim mesmo: cheios de garganta e coragem quase zero, Ótimos prá atacar os mais fracos, mas fogem correndo frente à menor ameaça.

Meu pai até foi lá na porta deles, por insistência da minha mãe - mas bateu na porta à toa, ninguém apareceu.

Tão medrosos eram que, pouco tempo depois, puseram as casas à venda e se foram dali prá sempre - graças a Deus.

Sempre que eu como um bombom Sonho de Valsa eu me lembro dessa história e me pergunto: será que o Marcelo também se lembra de mim? 

Hi, hi, hi...


8 comentários:

  1. Uma história hilariante! Sim senhora Rosinha! Por vezes só nos safamos se conseguirmos ser um pouco mais inteligentes! Bj amigo e sorridente!

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  2. Conta mais, Rosinha! Conta!
    Adorei!
    Malvado do Marcelo ... Nunca sofri bulling e nunca tolerei que à minha frente o praticassem. Virava fera - uma quase wonderwoman!
    Beijinhos, querida.

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  3. É tudo tão breve
    Habitamos as pedras
    Inventamos sonhos
    Vislumbramos quimeras

    Mas, falemos dos suspiros dos pássaros
    Falemos de ti
    Nas irreprimíveis asas dos anjos
    Na noite primeira dos mil encantos



    Um radioso fim de semana



    Doce beijo

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  4. Ai Rosa, essa foi boa hein!! É triste saber que tem pessoas tão más, que só te respeitam por medo de apanhar, por serem mais fracas. Mas pelo menos por isso te respeitaram ... Também adoooro sonho de valsa!!
    bjss

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  5. Merecida lição pro Marcelo... tomara que ele tenha tirado algum proveito dela... também gostaria de saber oque foi feito dele.
    Acho também que todos aprendem algum dia... alguns só demoram um pouquinho mais...
    Amei seus outro posts... suas historinhas.
    E se cuida mesmo minha amiga. Estou aqui orando por ti.
    Fiquem todos com DEUS.
    Beijo.

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  6. Rosa as vezes me pergunto se tuas histórias são reais , tu eras e és danada mas que memória tu tens. Eu não lembro de muitas coisas a ponto de colocar no papel. Mas eu já passei por maldade quando adolescente um garoto mais o menos hehehehe não gostava de mim na escola e um dia por nada pegou uma fatia de bolo que estava comendo olhou pra mim e esfregou na minha cabeça . Só lembro que não revidei em nada sempre fui do tipo quétinha. Mas sem desejar o mal pra ninguém. Depois de anos já adulto passo por ele e sei que me reconheceu. Não pensa que sou orgulhosa mas que gostei de ver a cara dele de espanto. Ele com a cara toda já amassada pelo tempo e modéstia a parte meu rosto mais firme e feliz que do passado. Passei ele fez uma cara de que lembrou que o bolo que esfregou na minha cabeça, o tempo fez ele ficar com a cara do bolo amassado , grudento e nojento. Rosa queria ter sido uma menina mais valente assim como tu fostes mas não importa. O tempo , sim o tempo mostra os vencedores os do bem.

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  7. Rindo do fato...

    Bem feito..quem mandou cutucar onça com vara curta??!!!!
    É isso mesmo, Rosa (aplausos p/vc), deu-lhe uma boa lição. Espero que ele tenha aprendido a respeitar as outras pessoas.

    Bjs

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