Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Sociedade das Galinhas

Elas muito provavelmente chegam na tua casa assim:

Ou assim: 
 
 
 
Vindas do balcão refrigerado do supermercado...
 

Ou já vem assadinhas, guarnecidas de batatas coradas, crocantes, suculentas e cheirosas - preparadas naquela máquina que estrategicamente se posiciona na porta da padaria, aos domingos...

De qualquer forma que cheguem na tua mesa, foram trazidas de uma granja, onde viviam aos milhões, ciscando ração, fazendo barulho, colocando ovos...
 

Criaturas deliciosas, assim projetadas por Deus para nos servirem de alimento desde os primórdios da humanidade - que ninguém ache que é por acaso que são tão gostosas: nosso cérebro em desenvolvimento necessitava de fontes de proteína e essas criaturas dóceis eram desde sempre fáceis de se criar e de se preparar, segundo os planos do Criador...

Tem gente que as enxerga como coisas - mesmo lá no sítio,  onde são tão comuns (e talvez por isso mesmo...) há quem as atropele com o carro, no meio da estrada, por pura diversão (e daí veio o prato "galinha atropelada...").
 
Nada mais são que coisas que se mexem - dizem eles -, cuja função é ir pro prato - sem personalidade...
 
Apesar de serem a alegria de muitas artesãs...
 


 

E algumas crianças...
 
 
 
Mas, vistas bem de perto, por alguém de inteligência mediana (por acaso eu) e um coração que enxerga (de vez em quando) a fagulha do Amor Divino por detrás de cada vida...

Animaizinhos extremamente medrosos (prá compensar a limitada inteligência...) é o que elas são... Ameace ir na direção delas e eis que já estão correndo lá na frente, antes que você pisque...
 
 
 
São atentas ao mundo, com seus olhos lindos, que parecem contas amarelas, vidradas...

Tem sempre um líder, cheio de responsabilidades na vida - sendo a primeira delas avisar  ao mundo que a luz voltou à Terra, cantando a cada nascer do sol...
 
 

Ele é o maior e mais forte dos galos, o mais bonito - o pai de toda essa sociedade.

Não admite contestação de sua posição, mesmo de seus próprios filhos... Em meu sítio ele se chama Bernardão - um galo de penas brancas e pretas, mescladinho, altivo e belo.

Quando o compramos ele nos chegou vindo do sítio da Dona Gessy, nossa vizinha, acompanhado de duas galinhas - Bernardina e Manoela. Mesmo assim, atravessava a estrada várias vezes ao dia prá ir brigar com seu sucessor, lá no sítio dela - saudades do harém, que era bem maior. Quem lá ficou era um de seus irmãos...

Com o passar do tempo e a abundância de quirela, aquietou-se... Bernardina é que não. Enciumada, contando com apenas uma concorrente, vigiava Bernardão com unhas e bico - e Manoela, partidária da paz, ia prá longe, prá qualquer lugar onde a outra não estivesse.

Gostando dos ovos frescos o Marildo passou a comprar mais companheiras pro Bernardão e Bernardina deu-se, afinal, por vencida - pois, se nas sociedades humanas, existem mulheres que aceitam situação similar, que dirá na sociedade das penas...
 
 
 
 
Foram se multiplicando os ovos, os pintinhos, os frangos...
 
 
 
Bernardão se mostrou um líder exemplar, sempre cuidando de tudo e de todos. Distribuía sua atenção igualmente entre todas as suas esposas - e Bernardina jamais reclamou novamente. Até que um dia...

Era Natal - mais precisamente o Natal passado. Compradas na cidade surgiram duas galinhas brancas, muito gordas, que se destinavam aos almoços do Natal e do Ano Novo dos caseiros. Nem bem chegamos e uma delas teve seu destino arranjado, assada no forno com tomilho...

A outra, por uma semana, continuou a ciscar pelo terreno, alheia ao destino da companheira e ao dela própria - e alvo das atenções de Bernardão.

Dalila - eu a chamei - vivia prá comer (e prá levar coça da Bernardina, que teve o ciúme aceso novamente...). Pois não é que bastava Dalila dar um berro e lá vinha Bernardão, correndo esbaforido, defender sua gorduchinha.

Durante todo o período de férias assistimos a evolução desses relacionamentos - o amor do Bernardão, o ciúme de sua primeira esposa, o total alheamento de Dalila. Acontece que seu coração já tinha dono, desde o momento em que foi selecionada pelo ser humano prá ser galinha de granja, prá comer sem parar prá ganhar peso logo e ser vendida: seu maior amor era a comida. Assim, depois de um certo tempo, Bernardão tinha que expulsá-la do tacho de quirela, senão não sobrava nada prá ninguém - mesmo o Marildo dobrando a ração, prá evitar uma tragédia...

Quando voltamos no Carnaval Dalila tinha morrido, cometido suicídio pulando dentro de uma panela, como tantas outras antes e outras tantas depois dela - na verdade seu destino cruel nos foi contado de maneira diferente pelos caseiros, de forma a nos chocar menos: nos foi dito que um "bicho" a havia devorado no meio da noite e que não haviam sobrado nem mesmo as penas. Só esqueceram de dizer que eram mais de um bicho e que todos andavam com duas pernas...

As galinhas continuaram suas vidas...
 

Bernardão cuidando de tudo e de todas - enquanto elas comem, ele fica atento do lado de fora do galinheiro, prá que as distraídas com a quirela não tenham a vida levada por algum "bicho"- seja lá de quantas pernas... É sempre o último a se alimentar e é um mistério prá mim como se mantém tão lindo, saudável e forte!
 
 
 
Tão lindo que acabou sendo o alvo do amor platônico de uma das galinhas garnizés - que vieram aumentar nosso pequeno bando. Essa nunca teve filhos com seu galinho, Lindolfo - apesar de suas reiteradas tentativas...

Aonde Bernardão vai, a Piqueninha vai atrás, todo o tempo - e ele a defende também, mesmo sem namorarem...

Mas não tenham pena do Lindolfo - ele tem também seu harém e sua prole...
 
 
 
Boas mãezinhas essas pequenas criaturas...

Até Manoela acabou se tornando uma...
 
 

Com Bernardina surgiu Bernardão Júnior, aqui em primeiro plano, na frente do pai; Lindolfo entre eles - não é lindinho e minúsculo?
 

 
Pai e filho já estão disputando terreno (os outros irmãos sumiram todos... Terão fugido com o circo???) e, cedo ou tarde, um dos dois vai ter seu destino - vendido prá um outro sítio, se lá estivermos (tomara que não cometa suicídio pulando dentro da panela, destino comum por aquelas bandas...).


 
Chega a noite e as primaveras viram prédio de apartamentos - a exuberância dos galhos altos bem verdes, cheios de flores e espinhos, lhes garantem poleiros seguros para poderem dormir, longe dos predadores.


 
"Apaga a luz da lanterna, dona Rosa!!!"

Tá, tá... Já apaguei...

Predadores como os lagartos, que lhes devoram os ovos e os filhos:

 
Não o viu? Eu aproximo a foto:
 

No sítio tem vários - são mais ariscos que as galinhas  e tem o mesmo gosto que elas, segundo os caseiros (são um petisco muito apreciado - quando se consegue capturá-los...).

Assim elas seguem suas breves vidas, agradecendo a Deus, à sua maneira, pelos dias de sol, pelos insetinhos prá ciscar no chão e por sobre as plantas, pela quirela que recebem sempre à mesma hora, pelas plantas altas onde podem se abrigar. Por mais um dia de vida na Terra.

Aos meus onze anos parei de comer as galinhas que criávamos - por perceber nelas alegria por estarem vivas, preferências, medos... Aos quinze já não comia nem mesmo as que meu pai trazia prontas da padaria. Foi difícil: até hoje, quando passo por um lugar onde elas estão sendo preparadas, minha boca fica cheia de água - ah, se elas nascessem numa árvore...

Já houve tempo no qual cobríamos nossa nudez somente se arrancássemos as peles de outros animais. Aprendemos a tosquiar as ovelhas nas estações quentes e fiar seus pelos para as tramas das nossas roupas... O tempo foi passando e aprendemos a utilizar fibras vegetais - nosso amado algodão, tão versátil em todas as estações, o cânhamo, o linho... Hoje se produz os mais variados tecidos e até couros artificiais!

O mesmo vai acontecer com os alimentos: hoje já é possível obter proteínas de alta qualidade sem recorrer às mortes dos animaizinhos. O próprio Bill Gates, um dos maiores gênios do nosso tempo, é vegetariano e investe no desenvolvimento de alimentos totalmente livres de proteína animal, com muito sabor. Garante que o futuro da alimentação humana é o vegetarianismo...

Acredito que ele tenha razão... Antigamente, com menos população, os animais eram criados livres, alimentados de forma natural. Hoje são bombardeados de hormônios e antibióticos - e tudo isso passa prá quem os consome.  São mortos em larga escala, em matadouros encharcados do cheiro de sangue, que os enchem de pavor - toda essa energia passa para a carne, alguém duvida?

As primeiras coisas que os médicos pedem prá você fazer quando está com câncer é parar de comer carne e laticínios... Os mesmos hormônios de crescimento existentes no leite, programados prá fazer o bezerro se desenvolver, ajudam nossos tumores a ficarem cada vez maiores. As toxinas liberadas pela carne em decomposição, mesmo depois de assada e digerida pelas enzimas do nosso estômago, enquanto retardam nosso fluxo intestinal, libertam mais e mais radicais livres no nosso corpo, ajudando a nos envenenar, por dentro e por fora.

Diz a sabedoria popular que o peixe morre pela boca...

Mas não se preocupem, tudo tem solução.

Está na minha lista de pedidos prá Deus, quando lá chegar, árvores de mortadela e presunto, arbustos repletos de coxinhas e asinhas crocantes de galinhas...

E nenhum bichinho sairá ferido com isso - poderão florescer as Sociedades das Galinhas, das Vacas, dos Porquinhos...

Afinal de contas, sonhar não custa nada. 

 

5 comentários:

  1. Rosinha, querida, deliciosa esta fábula de galinhas. Gosto de aves e como sim, sem pena, sem remorso, com muito prazer.
    Beijinhos, linda.

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  2. ola Rosa, tambem sou vegetariana desde os 14 anos por compaixão aos animais,pois sempre os vi como seres sensíveis e cheios de sentimentos!
    Um abraço!

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  3. Rosa...que texto delicioso!
    As imagens partilham belos momentos!
    A minha mãe...tinha galinheiro...mas quando acamou...eu acabei com ele...pois seria incapaz de alimentar galinhas e depois comê-las!
    Mas reconheço que os ovos davam bastante jeito!!!
    Bj amigo

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  4. Olá, Rosa!!!!!
    Muito bom vir te visitar, tem sempre uma estórinha boa para nos animar.( ops, rimou!!!)
    Adorei as suas bichinhas, as senhoras galinhas, e o Bernardão que fofo!!!
    Bom final de semana. !!!
    Beijokas, Rê!!!

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  5. Rosa, amo seu blog, porque amo ler seus textos, amo sua criatividade e cultura e também o seu humor, conforme expressos nos seus textos. Há muitos escritores por aí, mas muitos deles precisariam primeiro aprender contigo a escrever, para depois serem chamados de escritores. Você escreve como os bons escritores do passado. Deveria publicar um livro: Contos de Rosinha. Você é muito culta, amiga, sinto falta de pessoas assim como você, e receio que esta espécie esteja em extinção, espqcialmetne no BR, sendo você um dos últimos exemplares vivos. Suas filhas fazem o que você pede, por terem orgulho de ter a mãe que elas têm. Também, quem não teria? Continue escrevendo sempre. Bjos.

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