Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A menina e a cabrita



O mundo era outro naquele tempo... A rua não tinha asfalto, as luzes que a iluminavam provinham de lâmpadas de sessenta velas, trocadas pelo homem da Light com uma escada bem grande - sempre um grande acontecimento na vizinhança...

A água era de poço, o esgoto ia parar num outro poço, no fundo do quintal - no qual a gente morria de medo de cair, então nem passava por perto (quanto mais subir em cima...).

A casa onde eu morava dividia parede com a casa dos meus avós - eram geminadas. Coisa de português precavido: construir uma casa só, bem grande, simétrica, daí dividir em dois e, enquanto morava em uma, alugava a outra e tinha uma renda...

Debaixo das duas casas também se alugava o porão - que era pintado de cal colorida, tinha janelas e portas... Em nada se parecia com um porão, pois as casas ficavam numa enorme descida, então tinha altura de casa mesmo.

Nesse porão morava Dona Natividade... Uma mulher muito maquiada, muito decotada, muito mini-saia, extravagante em seus rebolados e risadas... Tomava sol no fundo do quintal, só de sutiã e calcinha - um escândalo, naqueles tempos de quintais de muros baixos...

Meu pai andava com ela - como andava com muitas outras - mas, pro desgosto de minha mãe, ela morava bem ali, no nosso quintal...

Também prá desgosto de minha mãe eu era amiga de suas filhas - cada uma de um pai diferente, pois a Dona Natividade nunca havia se casado.

Eu era um bichinho naquele tempo... Não existiam chinelos de dedo, desses havaianas que são tão comuns nos dias de hoje, somente uns  (também de borracha) que possuíam umas tiras cruzadas no peito do pé e que não me adiantavam de nada: meu pezinho pequeno escorregava pela frente e eu vivia de joelho ralado e pés sujos. Preferia andar descalça mesmo...

Do lado das nossas casas e nos fundos delas tinha um terreno enorme, em formato de "L", que também pertencia a meu avô - onde criávamos galinhas, todas soltas, ciscando a terra, e plantávamos espinafre, couve, batata doce, abóbora...

Tinha um antigo banheiro de tijolos crus, construído no centro do terreno, cuja porta estava quase caindo aos pedaços. Dentro do banheiro nem vaso sanitário tinha: era um buraco no chão cercado de tijolos cimentados em círculo, em toda a volta, e a gente se agachava prá "resolver seus assuntos"...

Ninguém mais usava aquele banheiro - só eu. 

Eu brincava o tempo todo no quintal e no terreno com as duas meninas, alheia aos dramas de minha mãe, concentrada apenas em ser criança - tinha cinco prá seis anos de idade, bebê de tudo...

Usava vestidos compridos, prá baixo dos joelhos - feitos assim porque era assim naquele tempo, naquele lugar...

Um dia, lá estava minha mãe atarefada com meus irmãos menores - três, prá ser mais precisa... - e minha avó, cuidando de meu avô, que estava doente e acamado (poucos meses depois desses acontecimentos ele veio a morrer, pobrezinho...) e eu aproveitando o dia em minhas brincadeiras...

Não tinha ninguém prá cuidar de mim, prá "pegar no meu pé"...

Eu brincando com as duas amiguinhas, comendo goiaba bichada e amora caída no chão, perseguindo os pintinhos amarelinhos e veio aquela vontade de fazer xixi...

Fui até aquele banheiro perdido de outros tempos, fechei a porta escangalhada, levantei a enorme saia do vestido e me agachei, naquela postura natural, quando...

-"Menina, abre essa porta prá eu entrar! Fica quieta e me deixa entrar senão, quando você sair, eu acabo com a tua raça!"

Era o irmão mais velho das duas meninas, recém saído do Juizado de Menores - ancestral da FEBEM, prá onde iam os delinquentes e as crianças sem pais...

Eu não gostava nada dele - na verdade, ele me assustava prá caramba! Tinha uns olhos maus, um jeito de olhar que me fazia correr de perto dele...

Fiquei paralisada de medo... Fiquei muda! Na minha cabeça passou uma porção de coisas tristes, as memórias das surras que eu já tinha levado de meu pai e o pavor da surra que eu levaria se abrisse aquela porta - então não me mexi. Continuei ali, agachada e muda, tremendo do mais puro medo...

O rapaz, que tinha uns dezesseis anos, começou a chacoalhar aquela porta precária - e eu imaginando as tábuas vindo abaixo, ele "acabando com a minha raça" (o que quer que isso significasse, não era coisa boa...).

Foi quando um som me chegou aos ouvidos, alto e claro como o choro de uma criança - eu até pensei que era meu irmão Tato, pouco mais que um recém nascido, chorando pelo que ia me acontecer... 

A cabrita - última cabrita do meu avô - estava amarrada numa viga de ferro aparente, coberta de ferrugem, na parte de trás do banheiro velho... O rapaz se enervou - pois não tinha reparado que a cabrita estava ali - e começou a atacá-la a pontapés e tapas, o que só fez o animalzinho gritar mais e mais, pulando prá lá e prá cá, fugindo dele (assim eu imagino que foi, pois não vi nada e continuei ali, uma estátua agachada esculpida em medo...).

Ao escutarem os balidos da cabra apareceram tanto minha mãe quanto minha avó e, ao ouví-las gritando com o rapaz que atacava a cabrita, acordei do torpor e, abrindo a porta, saí prá luz e prá coragem e comecei a gritar: 

-"Mãe! Vó! Ele queria fazer mal prá mim! Disse que ia acabar com a minha raça!!!".

O rapaz começou a se defender, dizendo que era tudo mentira, a mãe dele apareceu (pois não trabalhava, recebia dinheiro de homens com os quais saía - incluindo meu pai...) e tentou acalmar os ânimos - mas minha avozinha, que era uma mulher muito forte, disse que ia dar queixa na polícia.

O rapaz voltou pro Juizado de Menores.

Minha avó, que era quem cuidava do aluguel, disse que ela estava convidada a se mudar dali, que prá isso tinha até o final da semana - prá nossa sorte não existiam as leis que protegem os inquilinos como existem hoje e a mulher se foi por bem.

Por mal também teria ido, pois minha avó ia fazer os filhos a enxotarem dali - tanto pelo fato dela não valer nada e andar com meu pai como por ter um filho pervertido...

Graças a Deus o rapaz, mesmo sabendo onde a gente morava, nunca voltou prá se vingar...

A cabrita, naquele final de ano, foi assada no Natal - mesmo com meus choros implorando que não. Como ela era grande e não cabia no forno do nosso fogãozinho meu pai a levou prá assar no forno da padaria...

Foi aí que comecei a deixar de comer carne. Primeiro não comia a carne de nenhum animal que eu conhecesse e criasse - só comia um pedaço dos frangos que vinham assados prontos, da padaria.

Apanhava, mas não comia.

E surra é assim: se você apanha reiteradamente, chega uma hora já nem liga mais, não obedece mesmo, pois vai apanhar de qualquer jeito, então nada mais importa...

Com o passar do tempo comecei a ver que não havia diferença entre as galinhas que tinham nome, que eu criava no fundo do quintal e aquelas desconhecidas, que chegavam crocantes e cheirosas na minha mesa - então parei de comer de vez.

Casada com o Marildo voltei a comer peixe - mas um dia largo, se Deus quiser. Me desagrada levar bichos mortos prá dentro da boca...

Aquela cabrita salvou minha vida... Não me lembro o nome dela, como também não me lembro o nome das meninas e do irmão delas.

Dona Natividade, alguns anos atrás, apareceu na porta da minha mãe "prá fazer uma visita", visitar as antigas "amizades"... Só o pó, parecia o cocô que o cavalo do bandido largou prá trás. Pura falta de vergonha na cara...

Ainda teve a coragem de perguntar por meu pai - que havia morrido a menos de um ano. Minha mãe a viu da janela e reconheceu na hora - a "arquitetura" semi-destruída ainda conservava a maioria dos traços da fisionomia... 

Minha irmã foi atender à porta, escutou o que ela tinha a dizer (imagino a cara feia que fez o tempo todo...) e, quando a mulher finalmente se calou, minha irmã disse que ela tinha dois minutos prá sair dali correndo, antes de lhe "acabar com a raça".

O que ela sabiamente fez, o mais rápido que pode... Foi esperta - minha irmã acabaria com ela mesmo, dá até medo de pensar...

Gozado... O tempo passou tão depressa mas ainda tenho, em algum lugar dentro de mim, aquela mesma menina assustada, que precisou da Intercessão Divina através de um chorinho de cabra...

10 comentários:

  1. Rosa

    Que infância difícil mas felizmente você cresceu com Deus sempre te protegendo e assim será sempre. Para todos nós, sejamos bons ou maus, a justiça divina se baseia em "ação e reação". Nunca falha.

    Toda essa experiência serviu para criar essa menina (você) com coragem apesar de apavorada. Eu no seu lugar sentiria medo desse delinquente. A cabrita... tadinha....com certeza, também sentiu medo.

    Você foi uma menina corajosa, enfrentou o menino na hora certa quando havia adultos por perto. Ele, com certeza, colheu o que plantou.

    Desejo ótimo dia para você, olhando e seguindo em frente.

    Bjs

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  2. Puxa Rosa, que história linda…a cabrita salvou sua vida, sabe lá o que aquele rapaz ia fazer com você…
    Que coincidência, também publiquei hoje um post contando como me tornei vegetariana…
    Bjs

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  3. Rosa, que menina valente e esperta você foi. Uma história triste, de uma infância difícil que teve e que soube contar de forma leve e até cômica. Mesmo, parece-me que você soube aproveitar os momentos bons, separando-os dos tristes, não é mesmo?. Beijokas, Rê!!!

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  4. Se recordar é viver... prepare sua vela dos 100 anos! Rsrs Que história Rosa! E que apuro, heim!
    Gosto muito de ler suas histórias. Hoje às pessoas não são mais assim. Quando a família, os amigos se reúnem ou estão entregues ao “bate-papo” com outras pessoas pelo celular, ou mostrando vídeos e postagens do face... as histórias próprias estão desaparecendo.
    Obrigada por sua visita, fico humildemente cheia quando você elogia meus paps...rsrs Porque nem de longe são tão bem explicados e com tantas dicas quanto os seus.
    Um grande beijo
    Mara

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  5. Rosa...a infância nos traz boas e más recordações...e cabe a nós saber gerir esses sentimentos que vão surgindo na nossa memória!
    Adorei o texto e parabéns pelo seu...bem escrever! BJ

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  6. Rosa, estou de volta, já em casa, encantada com o teu relato.
    Muito obrigada por todos os maravilhosos comentários que aqui deixou e aos quais não pude responder.
    Beijinhos, querida.

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  7. Oi Rosa!
    Passando para saber das novidades e te desejar um bom fim de semana.
    Bjus

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  8. Rosinha, que medo, também eu sentiria, ainda caía na fossa, D. Natividade, não tinha vergonha mesmo, a cabrinha foi a protagonista
    da história, gostei como sempre, beijos carinhosos

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  9. Histórias que tocam o coração sempre, Rosa!
    Adoro ler teus escritos.
    Graças a Deus que a cabrita estava lá e fez o papel de um anjinho da guarda! E que bom que a sua vó era uma mulher corajosa e não hesitou em te proteger! Quantos adultos ignoram o que as crianças dizem... Quantos e quantos...
    Mas, como tudo, há o lado bom: quem tem essa criança assustada dentro de si e a reconhece (não tenta sufocá-la, mas sim conviver com ela, acalentá-la, conversar com ela...), tem também o lado da criança doce, alegre, brincalhona, sonhadora... aquele brilho cintilante da infância que todos adultos deveriam ter no seu coração. E você tem esse brilho, Rosa! Lembre-se disso sempre.
    Beijos e ótimo fim de semana,

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  10. Rosa,

    Passando rapidinho por aqui só para te dizer que hoje, domingo, a Ronã estava fechada. Não sei mais se abrirá aos domingos.

    Bjs

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