Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Trazido pelo mar


Dias atrás, visitando o blog da Fatinha, "Costurar e Renovar",  vi uns travesseiros lindos, enfeitados com bordado inglês, que ela ensina a fazer, com pap super fácil.

Eu já estava numa fase meio nostálgica,  por causa da receita da touca furtada do meu varal - da qual dei a receita nesta postagem AQUI.

Uma memória leva à outra, que puxa outra e aí chegou o lençol da Fatinha e pronto! Bateu aquela mágoa ardida que eu nem sabia que ainda tinha...

Uns bons anos atrás eu fiz uns jogos de lençol super caprichados, com tecidos lindíssimos, comprados numa loja chamada "Vulcão dos Tecidos" (que já nem existe mais...), que era a mais antiga da Penha - minha avó comprava nela. Minha mãe comprou nela o tecido pro meu vestido de formatura, pro da minha irmã... Me casei usando um conjunto feito com tecidos de lá...

Sempre tinha tecidos maravilhosos, de uma qualidade que não se acha prá vender em qualquer loja. Até os vendedores eram diferentes, de um outro tempo: atendiam a gente usando camisa social e gravata, muito gentis e educados - parecia uma viagem no Tunel do Tempo...

Com os tecidos comprados lá - em homenagem ao meu aniversário de casamento e porque os lençóis que eu tinha já estavam muito cansados... - fiz 6 jogos, todos com padrão florido e liso combinando, fronhas enfeitadas com babados de bordado inglês em toda a volta, lençol de cima com vira.

Deu uma dor de cabeça daquelas fazê-los, eu trabalhava fora meio período, as crianças eram pequenas - mas me senti tão satisfeita, um poder de mulher! Depois de costurados, lavei prá poder usar - pois arrastavam no chão enquanto eu costurava... - e todos sem exceção desapareceram do varal (e olha que o muro da minha casa tem uns quatro metros de altura...).

Na mesma semana, quando fui lavar umas roupas das crianças, vi os mesmos lençóis na casa do vizinho do lado. Chamei a senhora que os estava pendurando no varal e perguntei:

- "Ei! O que é que a senhora tá fazendo com os meus lençóis?!"

Ela me disse que eu estava enganada, que ela os havia comprado aquela semana nas Casas Pernambucanas, que muitas pessoas deveriam ter os mesmos jogos e que era só coincidência - só tínhamos o mesmo gosto prá roupa de cama.

Eu garanti que isso não era verdade, que eu havia comprado os tecidos e feito eu mesma - mas ela me deu as costas e entrou em casa.

Então me lembrei de um incidente, semanas antes... 

Eu havia faltado no serviço, pois estava com uma gripe violenta. Mesmo assim, como não faço corpo mole, lá estava eu faxinando o quarto, arrumando minha cama, a porta balcão aberta dos dois lados prá arejar o quarto quando percebi alguém caminhando pela área de serviço: era o vizinho, marido dela, que magro e ágil como um gato estava pulando do telhado da casa dele prá minha! Tomei um susto daqueles, dei um grito e ele (tão assustado quanto eu, pois pensava que não tinha ninguém em casa...) disse que estava atrás do gato dele, que andava doente e tinha sumido. Eu nem sabia que ele tinha gato...

Ai, que raiva! Não tinha mesmo nenhum gato de quatro pernas, só um de duas...

Então, depois de umas duas horas, tocou a campainha um senhor, que se identificou como irmão do marido dela. Parecia um bandido, agressivo, todo tatuado - da porta eu sentia o cheiro de cigarro e bebida curtidos. Começou a me ofender, dizendo que o irmão dele ia procurar a polícia prá me processar por calúnia e difamação e que eu tomasse cuidado, pois o muro da minha casa não me protegia e, uma hora dessas, quando eu estivesse distraída, ele vinha tirar satisfação comigo por ofender seu irmão e a cunhada...

Devia estar acostumado a gritar com mulher e ver elas fugirem assustadas - canalha... E burro - não sabia com quem estava lidando...

Eu caminhei em direção a ele e disse, com voz calma e controlada:

-"O senhor pode vir tirar satisfação comigo a hora que quiser, que eu não tenho medo. Se o senhor pensa que eu vou me encolher, sair correndo e me esconder debaixo da cama, está redondamente enganado. Eu cresci com um pai violento, sei me defender muito bem. Quanto a chamar a polícia, não se dê ao trabalho: eu mesma vou chamar e apresentar os retalhos dos tecidos com os quais fiz os jogos de lençol que seu irmão furtou do varal. Com licença."

Dei as costas e entrei, deixando ele parado feito bobo no meu portão.

O Marildo sabia que os lençóis tinham sumido, andava tão chateado, tinha gostado tanto... Contei prá ele dos lençóis estendidos no varal da mulher, mas não contei das ameaças do irmão do homem - o provável é que ele fosse tirar satisfação, houvesse briga, podia acontecer até uma desgraça. Fiquei quieta. Ele achou melhor deixar prá lá, não dar parte na polícia, pois o homem era quase surdo, ele tinha pena...

Eu não - fosse ou não surdo, era ladrão e merecia ser punido. Resolvi que ia na delegacia prestar queixa - só precisava arrumar tempo.

Mas me passaram a perna: no dia seguinte, enquanto eu estava no trabalho (pois não tinha atestado médico e teria desconto no salário se faltasse mais de um dia...) eles foram embora, de mala e cuia. Moravam num quarto, cozinha e banheiro, pequenos, sumiram quase num passe de mágica.

Nunca mais vi meus lindos lençóis, blusas de lã, toucas e cachecóis, toalhas de mesa e banho - agora eu sabia que fim tinham levado todas as minhas coisas que sumiram... Nunca mais os vi - mas fiquei anos e anos, volta e meia, imaginando meus lençóis nos varais dela, descorando com o o sol, desgastados com o tempo e com o uso (lençóis que eu nem tive o gostinho de ver estendidos na minha cama uma vez sequer...)

Devido às fronhas da Fatinha comentei com o Marildo como a internet era maravilhosa, que no blog dela ensinava passo a passo de como fazer fronhas lindas com bordado inglês - e acabei falando prá ele da minha tristeza por aqueles lençóis de tanto tempo atrás...

-"Pára de lembrar disso com mágoa, mulher! Supera, parece criança! Você nem sabe a miséria na qual aqueles dois vivem atualmente..."

-"Como é que é? Você sabe onde eles moram, manteve contato com aqueles ladrões?"

-"Não fala assim, deixa prá lá... Eu sei mais ou menos onde eles moram, já os vi uma meia dúzia de vezes... Sabe aquela favela que tem na Gabriela Mistral, bem debaixo do pontilhão por onde eu passo prá ir trabalhar, cujos barracos volta e meia pegam fogo? Eles moram ali, uma pobreza de dar dó...

Deus sempre ajudou a gente, todo lençol que você quiser ter, você tem, então deixa aqueles prá lá...".

Minha cabeça e meu coração sabem que ele tá certo mas, mesmo assim, como é estranho... É como se tivesse uma farpa bem pequena, em algum lugar que eu não sei definir direito onde, que incomoda quando eu me mexo, quando respiro, quando penso - e eu me questiono se, mesmo sendo cristã e sabendo da necessidade do perdão, em algum ponto do trajeto eu conseguirei realmente deixar prá lá...

Me lembro de cumprimentar aquela senhora todo dia, quando voltava do trabalho - e ela me sorria simpática, enquanto fazia uso das minhas coisas. 

Devia me achar uma trouxa, uma idiota por cumprimentá-la...

Mesmo não sentindo mais raiva, eu me pergunto se consigo, como meu marido, sentir pena..

Pena eu acho que sinto de cachorro abandonado na rua, que a carrocinha vai levar e que ninguém vai buscar... De pessoas idosas, que a família abandona nos asilos e nunca vai visitar. De gente que dá duro, faz o seu melhor todos os dias e não recebe um obrigado de ninguém...

Mas de gente que acha que o que é dos outros deveria ser deles e pega - será que eu consigo sentir pena?

Vocês já viram reportagens sobre a virada do ano, do dia 31 de dezembro pro dia 1º de janeiro? Gente comemorando de um monte de jeitos, com fogos, com festa, comendo lentilha, comendo romã, colocando um dinheiro na carteira e prometendo que ele vai ficar ali até o final do novo ano? Já viram que tem gente que vai pro mar, pular sete ondas e lançar barquinhos cheios de flores e outras coisas prá Iemanjá? Minha irmã foi de lua de mel prá praia e viu, disse que é lindo, tem velas acesas, fica tudo muito brilhante e mágico...

Mas no dia seguinte, tudo o que foi lançado nas águas é trazido de volta pelo mar,  prá praia, que fica cheia de flores já murchas, velas apagadas, tralhas...

Na vida estamos sempre lançando coisas que voltam prá nós - nem precisamos da água do mar prá que isso aconteça. A gente espalha flores e recebe elas de volta. A gente pratica o mal e sofre as consequências dele, cedo ou tarde...

Ação e reação.

Cada coisa que aqueles dois tiram do quintal dos outros, dos varais que não lhes pertencem, voltam prá eles como flores podres e mortas, frutas azedas e estragadas. Ninguém que lança coisas ruins prá vida recebe coisas boas de volta - ninguém...

É nessas horas que eu percebo que realmente sinto pena deles... Por eles acharem que o que as outras pessoas têm caiu do céu - e não é fruto de trabalho duro, esforço - e deveria pertencer a eles (por isso se apropriam...). Pena deles por se acharem espertos, não respeitarem os limites do que pertence a cada um por direito... 

Volta prá praia deles todo o lixo que eles jogam no mar...

Se tem uma coisa que eu sei é que vida é escola, a vida ensina...

Desejo que eles aprendam com a vida, com seus erros - assim como eu também quero aprender (com a vida e com meus erros) a lançar mais amor e perdão, prá receber isso de volta.

Acho que só assim nenhum de nós vai mais precisar sentir pena de ninguém...

(Tô no sítio - então, se vocês comentarem, vou demorar prá responder, mas quando voltar respondo...)

18 comentários:

  1. A escola da vida...nem sempre consegue ensinar um certo tipo de gente!
    Bj e relaxe muito no sítio! Bj

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    1. É, tem gente que é dureza mesmo, a vida dá uns sustos neles e eles nem assim aprendem. Beijos, Maria da Graça querida!

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  2. Rosa, querida, eu odiaria se tal me acontecesse. E não perdoaria o abuso. Já me roubaram a carteira e até hoje vivo com essa "farpa" enterrada fundo.
    Espero que esteja passando dias maravilhosos aí no sítio.
    Beijinhos

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    1. Eu sei como é, mas o tempo se encarrega de tudo, até dos ressentimentos - é só deixar a vida ir passando. Beijos, Nina querida!

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  3. Rosinha, é sempre desagradavel quando somos roubados, bom fim de semana, beijos amiga

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  4. Rosinha querida!
    A ambição voltada para o lado ruim faz com que as pessoas queiram o que não é delas e optam pelo caminho mais curto e feio:roubar!
    Mas nada passa impune ao Nosso Criador e tudo tem consequência!
    Quem foi roubada foi você....e quem está na situação critica são eles....de que adiantou roubar as coisas que você fez com tanto amor?
    Não devemos ter pena...e sim pedir ao Criador que os encaminhe para a Luz!!!
    E por falar nisso............Muita Paz e Amor.pois Luz eu sei que você tem sempre!!
    Beijos doces enquanto você descansa....................
    Cristina Peres RJ

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    1. Na verdade eu acho que quem pratica o mal lesa principalmente a si mesmo, porque tudo na vida é ação e reação, não é mesmo? Beijos, Cristina querida e obrigada.

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  5. Rosinha, está zangada comigo? sempre visito seu blog e você não
    liga, espero que não beijos

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    1. Ai, Mirinha, eu tava viajando... Como é que eu ia ficar zangada com você... Beijos!

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  6. Como eu adoro as suas memórias, Rosa! Eu também acho que a vida é como as ondas do mar, que trazem de volta tudo o que lançamos. A minha última confirmação disso aconteceu muito recentemente. Tenho tido muitos problemas no trabalho, eu e uma colega. A empresa onde trabalhamos obrigou-nos a passar para outras instalações a mais de 30 km do local onde trabalhávamos antes. Eles fizeram isso para que nos demitíssemos e, assim, não tinham que nos pagar indemnização. Embora trabalhemos juntas, eu e esta colega temos profissões diferentes. Tenho uma amiga numa empresa semelhante a esta onde trabalhamos e, em conversa, soube que precisavam de uma funcionária nova e esta colega que vinha todos os dias comigo era perfeita para o lugar. Então pus amiga e colega em contacto e esta conseguiu o novo emprego. Eu podia ter ficado calada, porque sabia o quanto eu ia ficar prejudicada pela saída dela. O meu patrão ia me fazer a vida num inferno, para me impelir a despedir-me. Mas eu acho que a gente deve ajudar sempre que pode e foi o que eu fiz. A colega foi para o novo emprego e adora. E sabe o que me aconteceu? Poucas semanas depois me ligaram de um outro local a oferecer trabalho! Sem eu pedir, ligaram a oferecer! Pergunto-me como é possível, mas também sei que Deus recompensa todos os que descansam n'Ele... Bjs para você e sua família

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    1. Viu só como Deus tá tomando conta? é assim mesmo, devemos fazer sempre o nosso melhor e deixar o restante por conta Dele, que tudo acaba dando certo no final. Beijos, gina querida, e obrigada por compartilhar a tua história.

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  7. Rosa querida

    Roubar é a pior pobreza. Tirar roupas do varal de outra pessoa é o cúmulo da pobreza!! E a pessoa atrai com essa atitude mais e mais infortúnios para a vida dela pois a colheita é obrigatória. Co certeza, colhe-se exatamente aquilo que se plantou!!

    Que história triste, pois eu fiz o jogo de minha cama com tanto carinho e lendo sua história, imaginei alguém roubando meus lençois e fronhas. Eu ficaria revoltada, não esqueceria tão fácil.

    As palavras de seu esposo estão certíssimas e aproveitei para utilizar num contexto que vivencio no trabalho, com uma pessoa que gosta de roubar o que os outros fazem. Nesse caso não é lençol mas o que você escreveu serve também para qualquer outro contexto que possamos passar na vida seja de roubo de idéias, roubo de oportunidades, de clientes, etc.

    Bjs

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    1. É, infelizmente a gente é obrigada, pela vida em sociedade, a conviver com gente de todo o tipo - e haja jogo de cintura e perdão! Mas sei que você tira de letra, Fatinha querida. Beijos e obrigada!

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  8. errar é humano mas perdoar é dívino . Nem esquente por causa de bens materiais , pense assim : Foram feitos com muito carinho , que sirvam de ajuda para alguém que precisa mais do que vc . Alguém pobre de espirito . Graças a DEUS não serviu de atraso para você . Fique em paz , que a paz não tem preço .

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    1. Você está certa. Na verdade, já superei - é como dizem, a gente perdoa, mas não consegue esquecer de todo, não é mesmo? Beijos, Cacau querida!

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  9. Com certeza, sentir pena, é acreditar que a vida ensina, é saber que tudo tem uma ação e reação . E como você disse, só deixaremos de sentir pena, quando vermos que as pessoas aprenderam com seus erros.
    bjs amiga,
    Nina

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    1. é por isso que a gente deve rezar, afinal de contas: não é prá que Deus nos vingue, castigando os maus - mas sim para que ele os ajude a se converterem ao bem, não é mesmo? Quando se tornam bons, todos saem lucrando, o mundo fica um lugar melhor. Beijos, Nina querida!

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