Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Luzes da Cidade


Existem dois tipos de pessoas que bebem: aquelas que, quando o fazem, ficam retraídas, taciturnas, que choram todas as tristezas da vida de forma ainda mais sofrida e aquelas que se expandem - para o bem ou para o mal. 

Destas últimas, umas ficam brincalhonas, descontraídas, riem das coisas mais bobas - são engraçadas essas - enquanto outras colocam prá fora toda sua revolta, maldade e violência.

Minha mãe tinha um primo, chamado Darcy, que era do primeiro tipo: quando bebia, voltava prá casa chorando, pedia perdão sem parar prá esposa por ter feito isso, se deitava prá dormir no sofá da sala pois dizia não merecer compartilhar a cama com ela, fedendo a bebida. Era um homem muito bom, eu gostava quando ele vinha nos visitar...

Meu pai nunca perdeu um dia de trabalho - nunca me lembro dele ficar doente, nunca teve nem mesmo uma gripe. Mas no final do expediente, dava uma passada "religiosa" no bar e só então vinha prá casa - e ele era do segundo tipo. Se você olhasse prá ele, apanhava. Se falasse perto dele, apanhava. Se você respirasse, apanhava... Então, todo começo de noite, tinha alguém - ou muita gente - chorando em casa.

Quando tudo se acalmava eu saía de fininho, subia as escadas - pois minha casa era abaixo do nível da rua - me sentava no muro, apoiada na parede da casa vizinha e ficava olhando ao longe todas as luzes acesas, indicativas das centenas de casas à minha volta. 

Quem conhece o bairro da Penha sabe que ele é totalmente formado por morros e ladeiras em todos os lados então, dependendo  de onde você esteja, consegue ver muita coisa.

Eu ficava pensando que cada uma daquelas pequenas luzes que eu via à distância era uma casa, onde morava uma família, onde se estava colocando arroz e feijão nos pratos, se estava assistindo televisão, conversando, rindo... Pensava em quantas delas estaria havendo uma briga naquele momento... E também pensava que Deus estava olhando tudo o que acontecia e me perguntava por que Ele deixava certas coisas acontecerem...

Mesmo assim, eu adorava ver todas aquelas luzes - ainda hoje eu adoro. Quando saio de casa à noite, prá mim, é melhor do que assistir televisão: ver luzes atravessando cortinas, vozes e risadas, luzes nas varandas, nos postes das ruas. Acho aconchegante existir a luz prá espantar os medos da noite... Penso que é por isso que eu sempre mando email prá Prefeitura quando vejo uma luz de rua apagada - detesto lugares mal iluminados.

Ontem à noite lá estava eu na mesa da copa, costurando cuecas novas pro "Marildo" - eu já devia ter ficado esperta com essa idade que tenho: tudo o que eu faço uma vez, tenho que fazer prá sempre, porque sempre fica muito bom e ninguém mais quer comprar pronto. Nunca mais o patrão vai querer comprar cuecas... Então, lá estava eu costurando, ele assistindo na sala um filme que eu gravei prá ele, sobre a Segunda Guerra Mundial e, entre o barulho da TV e o do motor da máquina eu escutei, bem baixínho, quase inaudível, o som de alguém batendo palmas no meu portão.

Algumas horas antes (pois já eram oito e meia da noite), quando fui abrir o portão da garagem pro "Marildo", reparei que toda a rua estava escura, um breu total. Todos os postes da minha rua e os das travessas adjacentes estavam apagados - detesto isso. Fechei o portão e corri telefonar prá Prefeitura (email ia demorar demais prá sair o resultado). 

Pedi pro "Marildo" que deixasse a luz da garagem acesa, assim quem estivesse voltando do trabalho aquela hora teria ao menos a nossa luz acesa na rua...

Dei o jantar prás crianças, uma vitamina pro "colega de quarto" e fui me divertir na minha maquininha.

Daí escutei as palminhas - fraquinhas, pareciam de criança. Falei pro "Marildo" ir ver quem era, embora eu já imaginasse quem fosse.

Tem essa senhora muito pobre, que anda pelas ruas do meu bairro catando latinhas prá vender. Na maioria das vezes ela vem com duas filhas, a mais nova uns 11 anos, a mais velha pouco mais que isso. Sempre que ela bate na nossa porta, é de cortar o coração: são tão magrinhas, tem olhos enormes muito fundos, de fome mesmo. 

Eu sempre acabo chorando quando elas vão embora - existe tanta dor anônima neste mundo, dores que só Deus conhece e que, às vezes, batem na nossa porta! 

Graças a Deus casei com um homem muito bom, ele sempre ajuda. Atende ela na porta, entra todo esbaforido pedindo prá eu fazer um rapa nas roupas, nos calçados, vai na despensa buscar mantimentos...

Quando ele foi atender, mal escutava a voz da senhora e, bravo, se virou prá mim e disse que não conseguia ver nada, pois lá fora tava tudo escuro e a luz da garagem (que EU mandei deixar acesa...) atrapalhava... Que se essa luz estivesse apagada, ele conseguiria acostumar a vista com a escuridão e veria, mais ou menos, quem batia à nossa porta...

Eu disse prá ele que não precisava ver, que era aquela senhora - só ela bate palmas, tão humilde, com medo de nos atrapalhar com o som da campainha...

Ele andou prá todo lado, pegou o que tinha que pegar, foi até nossa farmacinha atrás de um xarope - pois a senhora estava com uma tosse horrível (caminhou por toda a Penha, debaixo de chuva, dias atrás, prá pegar latinhas...). Dei prá ele um pote de mel, uma cartela de Coristina e tudo mais que passei a mão em meio à minha abundância de classe média baixa, meus trocados da carteira e - mais importante - minhas preces, pedindo a Deus por suas melhoras.

Quando entrou, o "Marildo" apagou a luz da garagem - e eu, brava como sou, dei uma bronca nele.

-"Eu quase não conseguia ver nada com essa luz ofuscante na garagem! - ele disse. "Tinha mais que apagar mesmo!!!"

-"É, mas, se essa luz não estivesse acesa, essa senhorinha não tinha encontrado nossa casa...".

Ele me olhou, desfranziu o cenho, abriu novamente a porta e acendeu a luz. 

Como é bom poder acender uma luz no escuro...


(O título da postagem de hoje é igual ao daquele filme lindo de Chaplin, de 1931. Se você nunca assistiu, não sabe o que está perdendo; toda vez que um filme desses é feito, Deus lá no céu fica muito contente...) 

22 comentários:

  1. Querida Rosa, que linda história e que linda atitude! Sem maiores comentários, pois diante dos fatos não há o que comentar. Tenho certeza de que vocês terão lugar especial junto à Jesus, por suas atitudes e fraternidade. Beijos, beijos, beijos.

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    1. É o Marildo que me arrasta, prá onde ele vai, eu vou junto... Beijos, Ligia querida, muito obrigada mesmo por suas palavras sempre tão gentis.

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  2. Meu Deus!!! E eu que pensava que pessoas como vc e o Marildo, não existissem mais!!!
    Parabéns pelo belo gesto!!!
    Fique com Deus, Rosa!!!
    Bjos!!!
    http://binacombina.blogspot.com.br

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    1. Ah, Zilnete, o mundo tá lotado de gente melhor, gente boa de verdade, que não espera que lhes batam à porta. Beijos e tenha um lindo final de semana, minha querida!

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  3. Rosa querida, que história linda!
    Amiga, estou trabalhando até tarde para dar conta.
    Agradeço seu carinho de sempre.
    Beijos

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    1. Que bom! Que Deus abençoe todo esse trabalho, que ele te renda dinheiro e muita satisfação de se ocupar fazendo coisas lindas. Beijos, Carla querida!

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  4. Oi Rosa!
    Quem sabe somos parente?Para mim seria uma honra ter parentesco com uma pessoa tão inteligente como você.
    Seus textos são lindos e você escreve muito bem,Você tem o dom da escrita minha amiga!
    Sem contar que você é uma pessoa iluminada, e a recompensa de nossos atos vem de cima,né?
    Bjus e tudo de bom.

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    1. Nem sei o que dizer, Márcia querida... Muito obrigada pela gentileza, tudo o que você vê de bom em mim é obra do teu coração. Beijos e tenha um lindo final de semana!

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  5. Rosa...é um belo texto de vida!
    Também adoro ver o brilho das luzes na escuridão!
    Tudo de bom e obrigada pelas palavras sempre carinhosas!
    Bj amigo

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    1. Eu é que agradeço, Maria da Graça querida! Beijos e tenha um lindo final de semana!

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  6. Quando pequena também gostava de ver as luzes das casa , e ficava imaginando o que estavam fazendo,era um tempo muito sofrido e ficar sonhando era um refrigério.
    bjs
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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    1. O tempo e a vida são mágicos, não são? A gente consegue superar as tristezas e enxergar tudo com outros olhos, ao mesmo tempo apreciando a beleza e até sentindo saudades... Beijos, Simone querida!

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  7. Rosinha, somos o que somos muito graças às nossas memórias!

    Tu és única!
    Definitivamente!
    Costuras as cuecas do marido?
    Grande Rosinha!
    Beijo

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    1. Pois é: mais um encargo na minha lista. Agora tenho que fazer também pro moleque, que gostou das do pai...

      Beijos, Nina querida!

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  8. Engraçado, acho que isso é coisa de criança mesmo,principalmente quando tem problemas em casa....eu também ficava olhando as janelas das casas imaginado como seria lá dentro, a felicidade que reinava!
    Gosto de ler as histórias e o filminho vai passando pela cabeça ...
    bjs Nina

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    1. Acho que Deus é muito bom, nos dando imaginação - assim a gente não ficava com o coração somente preso na nossa casa, nos nossos problemas... Nos deixava vaguear em pensamento nas sombras e nas luzes de outras histórias, não é mesmo, Nina querida.

      Beijos e muito obrigada!

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  9. Rosa, lindo texto. Deu vontade chorar.
    Beijos

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    1. Às vezes, chorar é bom, Helena querida. É até terapêutico, chorar de felicidade, de gratidão, de emoção, de saudade... Espero que a vontade de chorar tenha sido positiva, minha querida.

      Beijos!

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  10. Rosa querida, meu pai também bebia muito e era muito violento, quando começava a quebrar as coisas dentro de casa uma tia que morava conosco corria com minha irmã e eu para o mato pois morávamos em uma fazenda, as luzes que víamos eram as das estrelas no céu. Eu as olhava implorando à DEUS que protegesse minha mãe, e DEUS sempre ouviu minhas preces. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito calma e não o enfrentava, não emitia uma única palavra. DEUS também mandava um japonês que trabalhava com meu pai lá em casa, e ele com jeito conseguia acalmar meu pai que acabava por se entregar ao sono. A gota d'água foi um dia em que ele derramou gasolina no nosso carro e quase ateou fogo, eu grudei em suas pernas e implorava por nossas vidas... Minha mãe criou coragem e se separou dele, eu estava com dez anos e minha irmã nove. Criou a mim e minha irmã sozinha, ela é a luz que DEUS colocou em minha vida. Meu pai seguiu sua vida. Hoje estou com 44 anos e nesses 34 anos ele nunca me procurou, eu é que o visitei em algumas ocasiões., enfim a vida não para e com FÉ em DEUS sigo em frente.
    Linda semana para todos aí.
    Fiquem com DEUS.
    Beijo.

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    1. Nossa, Rosangela querida... Que bagagem pesada a tua - e você conseguiu achar perdão prá dar, no final das contas. Parabéns pelo teu coração tão bom. Parabéns para tuas filhinhas, que tem esse exemplo de mãe em casa.

      Beijos e obrigada por compartilhar comigo a tua história.

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  11. Rosa

    Infância difícil!! mas Deus sempre ampara. Teus pensamentos durante a infância te ajudaram a ter sempre o teu anjo guardião ao teu lado a te aconselhar. Quantas e quantas pessoas se revoltam e acaba afastamento a ajuda espiritual, não é?
    Fiquei com vontade de chorar ao te imaginar criança sentadinha no muro e vendo as luzes. as também percebo a força de caráter que você possui.
    A história vivida por essa senhora e as filhas dela é bem triste, deve ser angustiante passar por essa experiência. Que elas sempre encontrem pessoas boas e fraternas como você e o marildo.
    É por isso que eu ainda acredito que neste mundo há muita gente boa porém são anônimos.

    Bjs e muita luz na vida de sua família.

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    1. Esse mundo tá cheio de gente boa - é que a gente não percebe, porque os noticiários só mostram as desgraças... Mas a gente não pode perder a fé em Deus, porque ele tá sempre tomando conta.

      Beijos, Fatinha querida!

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