Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

domingo, 10 de junho de 2012

A Lenda Singular do Vaso Torto

Era uma vez um velho oleiro na cidade de Samarcanda, de nome Amid, que todos os dias fazia a mesma coisa: terminada a tarefa, ao cair da tarde, examinava atentamente, um por um, os vasos que o jovem Namedin, seu dileto discípulo, havia modelado. 

Orgulhava-se com o progresso daquele adolescente na difícil e delicada arte da cerâmica. Revelava o principiante, na execução das obras mais finas e delicadas, invulgar talento. 

Havia, entretanto, uma particularidade que fazia surgir uma dúvida no espírito do mestre. Todos os dias, dentre os vasos impecáveis, esguios e bem torneados, repontava, fabricada pelas mãos ágeis desse mesmo discípulo, uma peça (e somente uma!) lamentavelmente malfeita, torta e deformada.

Como explicar aquele aleijão único no meio de tantas perfeições e belezas? Seria decorrente de uma falha insanável ou não passaria tudo de um simples capricho do aprendiz?

Amid, intrigado com o caso, resolveu que iria, a todo custo, desvendar o mistério: decidiu observar o trabalho do aprendiz, a fim de precisar o momento em que ele tropeçava e errava.

Com isso em mente, um certo dia, de manhã até a quarta prece, o mestre acompanhou atento o trabalho do jovem: para ele, era preciso descobrir a razão de ser do vaso torto...

Afinal, o velho oleiro, sempre vigilante, viu satisfeita a sua curiosidade.

Todos os dias, a uma certa hora, graciosa menina que residia para além da mesquita cruzava vagarosamente a rua. Namedin apaixonara-se por ela e, por isso, ao vê-la passar, sentia-se confuso, perturbado.

Ali estava, afinal, a explicação do mistério. Quando o vulto sedutor da namorada surgia, o aprendiz desorientava-se; suas mãos tremiam e o vaso que se achava, naquele momento, na roda gigante, sob os cuidados de seus ágeis dedos, sofria as consequências daquela desatenção.

Como poderia o enfeitiçado oleiro, naquele instante de comoção, guiar com segurança os seus dedos, dominar os voos do seu pensamento e aquietar os anseios do seu coração?

Rejubilou-se o mestre oleiro de Samarcanda com a descoberta e, a partir daquele dia, com mais carinho e interesse dedicou-se à nobre tarefa de orientar o discípulo querido. Ao amor, sim, e não à imperícia do artista, deveria ele incriminar o aparecimento do vaso defeituoso. E que importava, afinal, a mutilação de uma peça no meio das outras? A mulher amada, com sua presença perturbadora, fazia surgir uma peça defeituosa; mas, com sua ausência, inspirava dezenas de perfeições.

Ao ter notícia do caso, um poeta árabe, servo de Allah, escreveu três ou quatro poemas admiráveis que foram gravados em ouro e bronze no deslumbrante palácio de Tamerlão. O terceiro poema - lembro-me até hoje, muito bem! - começava exatamente assim:

Ao ver aquele vaso torto
Entre outros de forma esguia.
Penso no destino, absorto:
- A mão do oleiro tremia!...

Louvado seja Allah, que criou a Poesia, a Beleza e o Amor!


(Conto extraído do livro "Minha Vida Querida", do escritor brasileiro Malba Tahan)

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