Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fim de ano



Foi num fim de tarde desses, prá trás... Meu marido chegou em casa, buzinou prá eu abrir o portão, como sempre faz. Eu - tão rapidamente quanto consigo... - me encaminho até o portão e pergunto, mais gesticulando do que usando minha voz:

"- Comprou pão?"

E ele, de dentro do carro, faz aquela cara de esquecido que eu já conheço e começa a manobrar o carro prá voltar prá padaria.

Eu resolvo ficar ali na garagem, em meio as minhas plantinhas, aproveitando os últimos raios de sol, o barulhinho dos pássaros se ajeitando nas árvores prá dormir...

Subindo minha rua vem então uma moça - mais uma senhora, na verdade... - vestindo tudo branco, cantarolando baixinho num passo lento e ritmado, voltando prá casa depois de um longo dia de trabalho, com um semblante calmo e parecendo ser o tipo de pessoa que sempre traz um sorriso no rosto.

Me cumprimenta "Boa noite!", eu me pergunto "Eu a conheço?" e respondo mecanicamente ao cumprimento, continuando a me perguntar...

Ela sobe lentamente a ladeira, meu marido chega e eu abro os portões da garagem - e quando faço isso, automaticamente me coloco do lado de fora, na calçada, a fim de vigiar desconhecidos com más intenções e aí percebo...

Na quadra de cima a moça de branco pega a chave dentro da bolsa e entra numa casa... "Eu conheço aquela casa! Ali mora..." e os meus pensamentos, tão competentes viajantes do tempo, me mostram uma história antiga na qual fui coadjuvante e que me ensinou tanto sobre a vida e as pessoas...

Eu tinha quase nove anos de idade, tinha cinco irmãos menores do que eu, uma avó velhinha e doente que morava conosco, uma mãe costureira que trabalhava de dia e de noite e que não vencia as dificuldades e um pai desempregado...

Estávamos todos famintos. Eu menos que todos, a bem da verdade, pois eu frequentava a escola pública perto de casa e lá serviam merenda...

Minha mãe - me lembro bem, o rosto encovado, os olhos fundos, tão magra que até parecia nunca ter tido um filho na vida! - estava física e moralmente abatida. Sabe aqueles momentos da vida nos quais parece que tudo dá errado, que todos nos voltam as costas? Pois ela estava vivendo um momento assim: seus irmãos prosperavam a cada dia e não se lembravam da existência dela - nem de seus filhos pequenos e muito menos da própria mãe deles, que lhes partilhava a sorte...

Pois minha mãe me fez calçar os sapatos da escola - os meus únicos sapatos - e me disse que a gente ia sair, que do jeito que estava não podia continuar.

Lavou o rosto, tentando disfarçar os olhos vermelhos de chorar escondido, penteou os cabelos tão ralinhos, ajeitou a roupa e me pegou pela mão. Andamos alguns metros até a esquina e então descemos a ladeira (pois o bairro da Penha é cheio de ladeiras, prá todos os lados que se ande...) e viramos em direção à avenida principal. 

Ela não me disse onde a gente ia e eu não perguntei.

Chegamos num açougue pequeno, cujo dono (a quem nós crianças conhecíamos como "o português") era um homem baixinho, pouco maior que a minha altura, de quem nós raramente comprávamos carne - haviam lugares mais baratos prá se comprar, na verdade...

Minha mãe foi até o balcão e depois de remoer pensamentos por um período que me pareceu eterno, ela assim se dirigiu ao açougueiro:

-"Bom dia, seu açougueiro. Meu nome é tal, eu moro aqui na rua de cima, eu sou costureira, uma boa costureira, na verdade. Mas ultimamente as freguesas andam custando a me pagar, meu marido está desempregado...

A questão é que eu tenho seis filhos pequenos - esta aqui é a minha mais velha - e comigo ainda mora minha mãe, que está velhinha e doente. Já falei que meu marido está desempregado? Bom, é que...

Nós estamos passando muita dificuldade, eu queria saber se o senhor podia... Se o senhor podia me vender um quilo de carne prá eu pagar depois, porque as crianças estão com fome, o senhor sabe... Eu juro pro senhor que eu pago, o senhor pode perguntar por toda essa vizinhança, todo mundo me conhece, eu nasci aqui. Eu não sou caloteira, eu pago pelo quilo de carne..."

O "português" olhou muito prá minha mãe - mas foi um olhar diferente dos olhares que outros homens lançavam prá ela (que era uma mulher muito bonita, apesar dos maus tratos da vida...) e depois de algum tempo ele perguntou:

-" A senhora não é a irmã do dono da quitanda ali na rua Omachá e do dono da padaria que fica ali perto e dos dois donos do armazém naquela outra esquina?"

E era. Irmãos tão ricos, bem estabelecidos e prósperos, que trabalhavam em seus comércios mais prá ocupar o tempo, pois tinham dezenas de imóveis alugados... Irmãos que faziam questão de ignorá-la...

Minha mãe, abaixando os olhos envergonhada, disse que era e já se preparou prá ir embora sem o quilo de carne. Pensou, num lapso de tempo, que deveria estar passando pela cabeça do "português" que se os próprios irmãos não vendiam fiado prá ela, ele também não deveria...

Mas os pensamentos dos outros são um mistério, não é mesmo?

O "português" deu um sorriso simpático, disse que venderia fiado o que minha mãe precisasse, sempre que precisasse, que sabia que ela não era caloteira. Que ela podia mandar a mim ou a um dos meus irmãos buscar carne sempre que a gente precisasse.

-"Ah, e minha esposa e minha filha estavam mesmo precisando duma costureira, vou mandar elas irem lá na sua casa...".

E assim foi. 

Minha mãe sempre curou fraqueza com carne - sempre que ela se sente mal ela adora comer um bifinho, diz que lhe dá forças...

A "portuguesa" apareceu com a filha na nossa casa, naquela mesma semana. Viraram freguesas, muito embora nunca tenha se estabelecido uma amizade entre qualquer das crianças da minha casa e a menina deles, uns 3 anos mais nova do que eu. Acho que, no fundo no fundo, nós sabíamos nosso lugar... Às vezes a necessidade de receber caridade alheia nos coloca longe do alcance do convívio com os outros, especialmente aqueles que nos são benfeitores.

Mas depois de tanto tempo que se passou eis que passa pela minha porta e me cumprimenta aquela menina do passado - trabalhadora da saúde, toda vestida de roupa branca, talvez uma enfermeira, talvez uma fisioterapeuta... Uma mulher de fisionomia tranquila, que como era de se esperar mora na minha rua, na mesma casa onde residia com seus pais - o açougueiro português, já falecido.

Eu não me lembrava dela - coisas estranhas da nossa memória. Mas ela aparentemente não se esqueceu de mim...

As coisas passam por nós - ou somos nós que passamos por elas - e restam as lições prá gente aprender.

Minha mãe me ensinou que uma mulher nunca pode pedir um favor a um homem estando sozinha. Voltando prá casa, naquele dia, carregando na mão o quilo de carne embrulhado num pedaço de jornal minha mãe me falou que muitos homens aproveitam a necessidade que uma mulher está sofrendo prá tirar vantagem dela - e que ela me havia levado junto como um escudo, como um lembrete de que ela não era uma mulher, era uma mãe... Se os tempos fossem hoje eu me atrevo a pensar que poucos homens se sentiriam movidos pela presença de uma criança, mas chego a ter certeza, dentro do meu coração, de que aquele "português", mesmo se minha mãe estivesse ali sozinha, jamais teria se aproveitado dela...

Aprendi que existem boas pessoas no mundo - Deus me ensinou isso mais vezes do que posso contar.

Naquela visita ao açougue eu aprendi a humildade de me socorrer de um estranho prá sobreviver à fome. Aprendi a fazer bainha - prá ajudar minha mãe a fazer os vestidos daquela menina - eu fui a única das filhas que se interessou em aprender um pouco do ofício da mãe, menos por curiosidade e talento e mais prá aliviar o pesado fardo dela... E no final essa vontade de ajudar minha mãe acabou rendendo bons frutos em mim, que até sei costurar muitas coisas...

Aprendi que a gente tem que seguir vivendo, que dias melhores sempre virão, sucedendo os dias ruins...

Esta é minha última postagem do ano. Foi um ano duro prá mim, com a saúde mais abalada do que nos anos anteriores - decorrência natural da passagem do tempo, gastando o maquinário que habito.

Mas sonho com um ano melhor, como todos aqueles que entregam seu destino a Deus enquanto trabalham e fazem a sua parte prá fazer deste mundo um lugar melhor, mesmo num cantinho esquecido do mundo, mesmo com um pequeno alcance.

A vocês que aqui ficam eu desejo um Natal cheio de paz e com saúde, um Ano de 2017 com muitas oportunidades de trabalhar e seguir vivendo - que (como eu já falei antes) enquanto a gente trabalha e ora, o tempo passa e logo a gente volta prá casa, com a graça de Deus.

Até o ano que vem, se Ele assim permitir.


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