sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A Galinha Expiatória




Quem é que nunca se arrependeu de criar uma tempestade em copo d'água? Tornar maior um acontecimento que, em circunstâncias normais, passaria totalmente despercebido? Pois é... Já dizia minha finada sogra: "Quando a cabeça não pensa..." - o resto vocês devem saber.

Nós, seres humanos, somos especialistas em fazer muito barulho por nada - e cedo ou tarde bate o arrependimento, às vezes quando a situação já não tem mais remédio...

Aconteceu bem há uns três carnavais atrás e eu conto esta história hoje porque o próximo carnaval já se aproxima e ela se torna ainda mais viva na minha já meio caduca memória.

Sempre vamos pro sítio nessa época. Viajar prá outros lugares no carnaval é se expor a todo tipo de dissabores: pessoas embriagadas, música alta, bagunça... Eu e o Marildo estamos velhos e nossos filhos - embora jovens - são adeptos de paz e sossego.

Não que no sítio seja estritamente pacífico: muitas pessoas por lá também chegam das cidades prá suas casas de campo e ficam fazendo churrasco regado a bebida com músicas de Zezé de Camargo e Luciano no último volume - mas prá isso Deus inventou os protetores de ouvido de silicone.

Já comentei com vocês que ninguém da minha pequena família come carne: eu parei de comer na pré-adolescência, prá pirraçar meu pai; meu marido parou quando começamos a namorar e meus filhos nunca comeram. Então criamos galinhas pelo prazer de vê-las andar pela terra, galinhas de todos os tamanhos e raças, pacificamente vivendo suas vidas, ciscando e cacarejando, chocando seus ovos para dar lugar a mais galinhas. Dormindo empoleiradas nas primaveras, protegidas de predadores pela fartura de espinhos.

Naquele Carnaval, pleno sábado depois do almoço lá estava eu brigando com o sono, deitada na rede, quando reparo no maior dos nossos galos com as penas do peito bem estufadas, a crista orgulhosamente parecida com o topete do Elvis Presley, a cauda (ou rabo) parecendo um espanador fazendo um barulho que meio parecia o ronronar de um gato e mais ou menos lembrava o gorjeio de um pombo, cercando uma nunca vista galinha branca.

Ela era enorme, a Montserrat Caballé das galináceas - só que muda. Ou talvez não muda, apenas desinteressada em qualquer coisa que não pudesse ser digerida pela sua moela...

O galo a cercava, todo viril, imponente - enquanto as galinhas marrons e pretas do seu harém o olhavam ao mesmo tempo curiosas e desinteressadas (somente as galinhas conseguem ser assim, tão misteriosas, tão contraditórias), ciscando nas proximidades.

Ai, o tempo passa e não perdemos o romantismo. Talvez eu tenha perdido a batalha contra o sono de após o almoço: só sei que aquele galo e a galinha branca ficaram meio parecidos com o John Travolta e a Olívia Newton-John, um fugindo do outro, um perseguindo o outro, as outras galinhas fingindo que não estavam olhando mas xeretando tudo.

Eu perguntei pro meu marido de onde é que tinha vindo aquela linda gorduchinha e ele me informou que Seu Zé, o caseiro, cansado talvez de sempre justificar o sumiço de nossas galinhas em suas panelas (depenadas no próprio fundo do seu quintal, aliás...) como sendo obra de um predador, a havia comprado na cidade. A pobrezinha ia ser o almoço do domingo da família...

"Mas... Mas... O galo tá apaixonado, coitado! Não quero ver ele de coração partido... Vai lá e compra a galinha deles, não deixa a pobrezinha morrer!"

E como meu marido sempre resmunga, morde a língua, estufa as veias das têmporas mas acaba sempre se rendendo e fazendo o que eu quero lá foi ele comprar a tal galinha - mais uma vitória de Rosa, a mais chata das esposas. O placar já nem se anota.

Como é pacífico o coração que salva uma vida, por mais insignificante que ela seja - já tentaram? Recomendo. É como respirar fundo ao deixar um quarto abafado, dá um alívio misturado com felicidade - você sente que fez a diferença de modo positivo no curso da sua própria existência, embora a vida salva não seja a sua e nem te pertença.

Mas essa minha alegria durou tão pouco... 

Na manhã de domingo desapareceu a galinha! 

Lá fui eu incomodar o patrão, insistindo prá ele procurar a coitadinha - tão branca, se sobressaindo em meio ao verde do campo e os tons escuros e terrosos de suas companheiras - vai que uma raposa ou uma jaguatirica a tivesse pegado!!!

Meu marido rodou o sítio todo e voltou trazendo uma pena branca na mão - meus piores receios se tornaram realidade! Um leão havia pego a coitada!

"Só se for leão que anda de duas pernas! Atrás da casa do caseiro tá repleto de penas, ela já deve estar numa bacia curtindo os temperos..."

Eu fiquei tão triste! Me senti traída, apunhalada nas costas - e meu marido se sentiu ainda pior, pois ele havia pago pela vida dela. 

Nervoso, lá saiu ele prá tirar satisfação com o caseiro, saber porque ele não havia respeitado o combinado, porque tinha matado a galinha!

No fundo acho que foi mais ou menos assim: uma luta de classes - nós, os famigerados patrões, donos do capital, do carro, da casa da cidade e da casa do campo e eles, os pobres empregados. E também foi uma batalha ideológica, entre eles, os Carnívoros Normais, seguidores das leis divinas da Bíblia que apregoam que os animais existem para serem comidos e nós, Anormais Vegetarianos, que estupidamente acreditam que toda vida merece continuar vivendo. 

Não houve vitoriosos.

Eles na verdade estavam de saco cheio de nós. Das cobranças verbais por todas as plantas que morreram sem regar, pela horta sempre mal cuidada e vazia, por todo desvio de ração dos nossos pangarés (sempre magrelinhos) para o cavalo deles, forte e lustroso. Sempre havia uma conta prá gente pagar no armazém - muito maior do que a gente se lembrava... - uma ligação no meio do mês pedindo dinheiro prá consertar a mesma bomba ou a mesma cerca. 

Eles disseram na cara do meu marido que não precisavam se justificar, que a galinha era prá ser comida mesmo, que não se arrependiam e que, na verdade, fazia tempos que queriam ir embora.

Meu marido se calou e veio embora, magoado. 

Quantas vezes havia socorrido aquele homem com dinheiro sem cobrar retorno, levado ele ou a esposa dele no médico, no mercado... Sempre que a gente ia na cidade a gente se lembrava deles - trazíamos pão fresco, um pote de paçocas prá dona Margarida...

Eu disse pro meu marido que ele não podia deixar eles irem embora de cabeça quente. Ambos eram doentes, seu Zé já era velhinho, com uma válvula vencida no coração esperando cirurgia, dona Margarida sofrendo do ciático... Ali eles tinham menos gasto, sobrava dinheiro pros remédios. Que comessem quantas galinhas quisessem, mas...

"Eu não vou falar nada. Eles são adultos, já tomaram sua decisão."

"Pois eu vou lá embaixo falar com eles, não vou deixar eles irem embora!"

Lá fui eu, de bengalinha descendo a ladeira quase escorregando nas braquiárias, coração na mão sem saber nem por onde começar o que queria dizer... Mas as palavras nunca me faltam, pareço ser dona de uma infinidade delas, todas se atropelando prá sair - ainda mais quando estou nervosa...

"Não vão embora, a gente é praticamente família! Família é assim mesmo, briga por bobagem, fala sem pensar coisas das quais depois se arrepende!"

"Não, dona Rosa. A gente vai. Já ficamos tempo demais aqui, tá na hora da gente cuidar do que é nosso, da nossa terra, sem ninguém prá palpitar."

"Pensa bem, seu Zé! Aqui vocês não pagam água, luz, imposto nenhum. É mais perto da cidade, caso precisem ir ao médico. Tem linha de ônibus duas vezes por semana aqui na porta. Voltem atrás! Eu já falei com o "Marildo", se vocês disserem que querem ficar ele põe uma pedra em cima!"

"Não. Agradeço muito a preocupação da senhora, mas já deu. Amanhã a gente se vai."

E foi assim que aconteceu. 

Tudo por causa de uma galinha branca. 

Ou - na verdade - tudo por causa dos complicados relacionamentos humanos. Das cabeças quentes que tomam decisões precipitadas. Do orgulho...

E a galinha só levou a culpa até depois de morta, pobrezinha.

Dia seguinte todos os parentes ajudaram a carregar em seus carros os inúmeros colchões de espuma amassadinhos como panquecas, o sofá rasgado sempre coberto com uma mantinha de crochê colorida, as cadeiras da cozinha todas despareadas, cada uma de um tipo, as panelas brilhando de bombril...

Nem se despediram. Pareciam magoados - nunca descobri de quê...

Prá trás deixaram o chão por varrer, um pote plástico quebrado, teias de aranha nunca espanadas e uma gravura de palhaço emoldurada na parede - assustadora e deprimente...

Dias depois voltamos prá São Paulo deixando um vizinho encarregado das chaves e de procurar um caseiro novo - coisa que nunca aconteceu. Todos que se candidataram ao cargo ou não inspiravam confiança ou pediam um salário absurdo prá apenas morar na casa - ninguém queria plantar nada, capinar nada...

Por fim contratamos o filho do vizinho prá cuidar das galinhas e dos cavalos e esporadicamente o pai dele passa o trator - quando o mato está grande demais...

Num aniversário da dona Margarida eu lhe fiz uma blusa - fomos lá no sítio deles entregar, mas não tinha ninguém. Deixei pendurada numa sacolinha na maçaneta da porta, com um bilhete lhe desejando coisas boas.

Soubemos pelo vizinho que seu Zé, depois de esperar muito tempo pela troca da válvula cardíaca vencida há mais de dez anos teve uma infecção que mexeu com a cabeça dele. Um dia, no posto de gasolina, enquanto abastecia o carro, ele viu chegar um fazendeiro muito rico da região e partiu prá cima do carro do homem, causando danos, esbravejando e gritando feito um desvairado. Prá sorte dele a mulher do tal homem, muito boa pessoa, não deixou o marido nem agredir o seu Zé e nem dar parte na polícia. Reparou que o homem não estava bem e que não podia arcar com o prejuízo causado e tudo ficou por isso mesmo.

No final ele acabou internado, estava mesmo muito doente e não morreu por milagre. Foi encaminhado pro Hospital Dante Pazzaneze, foi operado e tudo correu bem, com a graça de Deus. 

Na Páscoa do ano passado lá estávamos nós no sítio novamente, aproveitando o feriado e eles vieram nos fazer uma visita. 

Fiquei feliz, abracei muito - eu e a minha Lolô somos abraçadeiras compulsórias. Ofereci um café, eles recusaram. Conversamos amenidades sobre o tempo, perguntamos como havia sido a cirurgia, como dona Margarida estava passando das dores - mais uma a fazer parte do clube dos anti-depressivos...

A neta deles, a quem eu ensinava crochê e tear largou os estudos. Os pais se separaram, o irmão ficou com a mãe, ela com o pai. Com ele aprendeu mecânica de motos e trabalha nisso...

Em meio a um momento de silêncio um encabulado seu Zé, olhando prás mãos nervosas, me disse:

"Eu devia ter ouvido a senhora, dona Rosa. Nunca me arrependi tanto de algo na vida quanto me arrependi de ter saído daqui. Acho que eu já não devia estar bom da cabeça naquele tempo. 

Fomos tão felizes aqui por mais de quinze anos e paramos de ver isso, nem sei por que... Se a gente pudesse voltar atrás no tempo..."

Eu não soube o que dizer - o que é geralmente constrangedor prá dona de todas as palavras.

Fiquei calada por um tempo que durou uma eternidade, eles começaram se despedir e eu levantei dizendo "Peraí" e fui lá dentro na cozinha, agarrei uma caixa de chocolates que havíamos trazido prá comer no feriado e dei prá eles. Os olhos da dona Margarida brilharam - eterna formigona.

Assim que eles saíram fui falar com o Marildo prá recontratar eles, mas nem ele nem meu filho quiseram. Disseram que agora com a Nana fazendo tantos plantões em hospital sobrariam pouquíssimos feriados prá curtir o sítio, não fazia mais sentido manter caseiro.

Desde essa vez não voltamos lá. Vamos agora, no Carnaval...

Assim é a passagem do tempo. Perdemos coisas, ganhamos outras, pessoas cruzam o nosso caminho e seguem em outra direção. Ficamos tristes, sorrimos. Fazemos planos e, quando tudo dá errado, começamos de novo ou desistimos.

Quando aprendemos alguma coisa é lucro.

Uma coisa que a vida tem me ensinado é que o maior peso que podemos carregar nesse caminho é o arrependimento - eu não gosto de sentir ele. Por isso sempre tento ajudar, fazer o que acho certo, não importa o que eu perca, não importa o prejuízo. 

Arrependimento é caro demais prá eu poder bancar. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Coliseu



O que fazer quando a vida se torna um fardo que você pensa não ter forças pra carregar?

A cada dia que passa sinto menos vontade de sair de casa, de olhar o mundo a minha volta...

Mas há uns dias atrás, aceitei o convite do meu marido prá ir até o metrô Penha buscar minha Lolinha, voltando do trabalho. Coisa tão simples, não é mesmo? Mas não prá mim...

Meus olhos sempre estão alertas a tudo o que se passa e usando meus poderes sobre-humanos eu olho cada rosto e adivinho por trás de seus semblantes todas as suas dores na luta pela sobrevivência: as contas prá pagar, o risco do desemprego, a solidão, a dor, o medo... 

Então, após pegarmos minha Lola, contornando o metrô prá irmos prá casa eu reparei um rapaz, a idade pareando com a do meu menino, sentado encostado num prédio abandonado, todo sujo... A Imagem do abandono.

Eu falei: "Pára! Pára o carro!Lolinha, desce lá nos carrinhos, compra batatinha frita, cachorro quente, refri, vamos levar lá praquele menino!...

Meu marido, pés e mãos atrelados mecanicamente à direção do carro, disse que não dava prá voltar, que a gente ia rezar por aquele menino e que no dia seguinte a gente se preparava e trazia alguma coisa.

"Mas ele sente fome HOJE e rezar é muito bom, mas não enche a barriga dele. Vamos dar a volta SIM, senão eu mesma vou, desço de bengala e vou lá comprar!"

Meu marido, a contragosto, deu a volta no metrô, a Lolô desceu e com apenas 15 reais veio com uma batata grande, um cachorro quente no capricho, com tudo que tinha direito e uma Coca. Fizemos o contorno até chegar ao rapaz, meu marido parou o carro aos resmungos de "vou é tomar uma multa, isso sim...", desceu e foi levar o lanche pro tal menino. Conversou com ele uns dois minutos e voltou transformado: "Você tava certa, benzão, ele tava com fome mesmo, você fez bem".

Mas eu tava chorando. Do outro lado da rua haviam outros dois mendigos deitados com um cachorro e prá eles meu marido ia deixar prá depois, de qualquer jeito.

Se a gente contorna todo o metrô encontra vários, e depois no centro da Penha, nos largos e praças, sempre tem tantos...

Eu chorei e disse baixinho, a garganta doendo, as palavras saindo sufocadas de tristeza:

_"Eu não gosto deste mundo. Ele é duro, é cruel. Estou cansada de ser testemunha das misérias da vida, cansada de tanta dor que eu vejo e sinto..."

Dentro de mim até já cheguei a pensar que, se um dia eu encontrar Deus face a face, primeiro vou perguntar prá Ele por quê ele me fez assim. Depois eu ia ver se havia um jeito de Deus viajar no tempo e, lá atrás, quando ele tirou a Rosa da sua imaginação e a fez um ser pensante, se tinha como deletar, me apagar de toda história - igual Jorge pede a Deus no filme "A felicidade não se compra". Pedir a Deus prá não nascer, assim todos os meus problemas estariam resolvidos. Não existiriam minhas dores físicas - que são extenuantes, caso alguém se pergunte... - e principalmente não existiria todo esse sofrimento emocional dentro do meu coração, de imaginar cada vida que começa neste mundo prá carregar fardos tão pesados pela sobrevivência...

Esse pensamento ainda é recorrente dentro de mim - mas todas as vezes que ele surge eu o combato com a seguinte ideia:

Como eu me sentiria se um dos meus filhos se sentisse assim a cerca da própria vida? Como me entristeceria se um deles desejasse nunca ter nascido - e aí eu penso como Deus deve ficar triste comigo, por renegar a ideia dele de me trazer ao mundo.

Aprendi duas coisas fazendo terapia - minha terapeuta é muito boa, me faz usar as células cinzentas prá pensar ao invés de apenas sofrer:

Se alguém me pedir cinco reais e eu os tiver na bolsa eu posso dar. Se não tiver, não posso - ou seja: há limites para a ajuda que eu posso dar. E quando não posso, não é culpa minha.

Segundo: sou uma tremenda egoísta. Quero todo mundo feliz prá viver sem culpa a felicidade que eu tenho. A infelicidade alheia me faz mal. Quero meus filhos habitando um mundo bom.

É isso.

Então estou fazendo mais toucas, bem antes de chegar o inverno - porque quanto mais toucas eu fizer, mais pessoas se servirão delas nas noites frias.

E prá bloquear meus pensamentos tristes eu comecei a brincar de bonecas nas horas vagas, customizando-as. 

Customizei uma blythe xing ling que eu comprei e fiz roupinhas, modifiquei o rostinho e se alguém quiser comprá-la é só fazer uma oferta: o dinheiro da venda será destinado a comprar comida para a instituição que fornece almoço aos moradores de rua.

Mexer com bonecas é muito bom: elas não sofrem, não pensam, tenho total controle sobre elas. Pego uma boneca feia, abandonada, dou-lhe um cabelo novo, rosto novo, faço roupinhas. Esqueço por alguns momentos que sou apenas uma mísera testemunha distante dos incêndios na Amazônia e na Austrália, respiro fundo e deixo de sofrer por todos os direitos trabalhistas que foram roubados dos trabalhadores brasileiros, das grávidas que podem ser demitidas, das pessoas que só vão se aposentar depois de mortas.

Esqueço que somos governados por uma criatura que eu não contrataria nem prá lavar meus banheiros, um ser da mais baixa categoria, racista, homofóbico, cruel e burro ao extremo que me dá ao mesmo tempo nojo e vergonha de ser brasileira.

Respiro fundo e esculpo uma boquinha, uns dentinhos, pinto algumas sardas e parto pro próximo desafio.








No sítio os caseiros pediram demissão numa confusão idiota por causa de uma galinha branca - história prá outro dia. 

Nosso velho cavalo Pé de Pano morreu. Fiquei muito triste... 

Mas um cavalo do vizinho arrebentou a cerca e engravidou a velha Orelhinha e olhem a potrinha que nasceu:




Ainda não tem nome.

Meus três filhos já estão encaminhados: O Ike trabalha no mesmo lugar que o pai, a Lolô passou num concurso e trabalha num fórum criminal - lidando com pedófilos e homicidas o tempo todo (mas se tem alguém que tem força e coração prá conseguir lidar com isso é minha Lola) e minha Naninha está fazendo residência em cirurgia num hospital público. Meu marido sonhava com os hospitais Albert Einstein da vida e ela disse, bem ao estilo da mãe dela :"Nem sonha, pai. Vou fazer em hospital público e depois vou ser médica em um deles. Não quero ser rica. Quero ser útil onde mais se precisa".

Muito orgulho desses filhos que eu tenho. Eu sempre digo que eu poderia fazer o mundo um lugar ainda melhor se tivesse tido uns vinte filhos - já pensou?

Nos momentos em que eu me sinto numa viagem de carro desconfortável, que está se estendendo muito, que está demorando muito prá chegar ao destino, em que eu resmungo pro Pai:"Falta muito? Já chegamos?" eu sou salva dessas ideias absurdas pelos três anjos da guarda que Deus me deu, que ele me fez trazer ao mundo pro meu próprio bem.

Ele sabia que chegaria o dia em que eu ia precisar de muitos anjos prá me ajudar.

Ou porque sou quebrada, ou porque me falta algum hormônio dentro da cabeça ou porque a fé que trago no peito é menor que um grão de mostarda - vai saber...

A todos vocês que partilham comigo este Coliseu de lutas diárias, matando cada um de vocês um leão por dia: tenham força e deem forças uns aos outros. Assim como eu preciso, vocês que são mais fortes auxiliem os mais fracos ao seu lado, como eu sou ajudada.

Senão a vida fica difícil demais prá se viver.

Até outro dia.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A prece do sabiá


Não me lembro quando começou, mas não é de hoje que eu sinto que o tempo está passando depressa demais... Minha avó me dizia, quando eu era pequena, que depois do ano 2000 o tempo ia voar - e eu achava isso impossível de acontecer, pois o tempo, no relógio, anda sempre igual. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Irmãos e irmãs


Algumas coisas que hoje acho fácil - e até prazeroso - fazer já foram um bicho de sete cabeças prá mim. Escrever, por exemplo. Embora meu blog esteja meio abandonado às traças - por falta de tempo, diga-se de passagem... - escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um gato e alguns passarinhos

Primeiro que tudo - o gato:


É um saco de dormir prá bebê, pro meu netinho Fernando que vai nascer em março. Eu não pude ir no chá de bebê dele, não estava boa prá ir em festa (e foi maravilhosa, tantos docinhos, um bolo lindo, muita Coca Cola... Eu teria me esbaldado, "deitado o cabelo" nas guloseimas, mas minha família disse que eu não estava em condições, então me rendi ao inevitável. Você sabe que a coisa tá feia quando não te deixam ir a uma festa - se bem que eu me conheço, eu ia até melhorar no meio de tantas delícias... Mas, fazer o quê, né?...). Daí eu liguei prá ela, dizendo que não podia ir, que eles iam levar o presente que ela pediu - fraldas GG de montão - mas que eu queria fazer algo especial e tava pensando em fazer um saco de dormir, pois eu nem sabia que os tais existiam, tinha descoberto uns lindos no Pinterest e queria fazer... Ela então me pediu prá fazer grandão, pois já tinha ganhado um pequenininho de presente adiantado de uma prima e quando o inverno chegasse não iria servir mais.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fim de ano



Foi num fim de tarde desses, prá trás... Meu marido chegou em casa, buzinou prá eu abrir o portão, como sempre faz. Eu - tão rapidamente quanto consigo... - me encaminho até o portão e pergunto, mais gesticulando do que usando minha voz:

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Projeto Fada Madrinha



Quando eu era menina, durante algum tempo, eu sofria de desmaios. Era uma coisa maluca: cheiros fortes, medo, nervoso e eu Puff! Apagava. Foi no começo da adolescência, eu tinha onze anos. Comecei a fazer educação física no ginásio e volta e meia eu desmaiava. Na aula aconteceu uma vez, aconteceu também na padaria do meu tio. Outra vez eu fui levar um sapato prá colocar sola nova no sapateiro perto de casa e desmaiei lá dentro (já pensou hoje em dia, onde tem um pedófilo em cada esquina? Sorte minha que o sapateiro era um velhinho bonzinho, foi prá porta, gritou prá alguém chamar minha mãe, ficou me abanando...).

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Como fazer seu próprio pé de quilt reto


Esse é um dos apetrechos mais desejados das costureiras de patch: o danadinho usado prá fazer costuras paralelas, regulando a largura através daquele ferrinho lateral. Custa em torno de 90 reais - mas você pode fazer algo que funciona bem parecido, com coisinhas simples e baratinhas que você provavelmente tem em casa.

domingo, 16 de outubro de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Seguindo os dias



Antes mesmo do sol nascer - eram precisamente 5 horas da madrugada... - tocou hoje meu telefone. Nunca é coisa boa quando o telefone toca numa hora dessas. Eu atendi depois da minha Lolinha - que tem uma extensão no criado-mudo ao lado de sua caminha, minha preocupada princesa... - e a voz, do outro lado da linha (reconhecendo a minha voz) foi logo dizendo:

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por que a gente vive?



Essa é uma pergunta que todo mundo se faz, vez por outra... Se você acreditar em Deus - ou numa entidade superior que assista, guie (ou se divirta...) com os destinos humanos - ou se você não acreditar em absolutamente nada (e, prá você, o acaso da existência seja apenas m* no ventilador do Universo...) de uma forma ou de outra você vai se deparar com ocasiões nas quais vai se fazer essa pergunta...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Como fazer uma sapateira vertical de tecido

"Ô coisa de pobre, Dona Rosa!!!"

Pois é. E eu também adoro comer pão com ovo, lambo as tampinhas do iogurte (das do Marildo também, que ele despreza aquela gostosura) e sempre que posso esfrego as páginas do catálogo da Avon nos pulsos, quando me falta o que fazer. Se bem que não me dou bem com perfume, mas como o cheiro vem de graça nas páginas da revista, não custa experimentar (e ainda não achei um que me agrade, infelizmente..).

Bom, voltando à sapateira: tudo começou com essa bendita reforma que nunca acaba, na qual vou ter finalmente o meu quarto de artesanatos (prá poder ficar em paz ouvindo Bee Gees e A-ha sem ninguém que me aporrinhe o juízo - se bem que também é quarto de passar roupas, de guardar as ferramentas fedidas dos homens da casa, abundantes de ferrugem nas caixas...). 

Só que essa reforma não acaba nunca e cada vez arrumam mais e mais coisas prá entuxar no "quarto da velha". E olha que conseguir pintá-lo de rosa goiaba foi um milagre, o "Marildo" dizendo que a cor era horrorosa, que o resto da casa toda é branco, que ia destoar do conjunto, nhé-nhé, blá blá blá - venci: o quarto é rosa.

Daí quero tirar uma das sapateiras - pois MEU quarto também abriga todos os sapatos da família. E passeando pela Penha vi numa lojinha xing-ling uma sapateira vertical, feita de fio plástico, por 50 e tantos reais. Feinha a coitada. 

Em casa, o tic-tac da minha cabeça não me dando paz, fucei nos meus guardados procurando calças velhas do meu garoto (que ele mandou doar, jogar fora e eu guardei prá fazer aventais de cozinha prá mim..) prá fazer com elas a tal sapateira "de pobre" - como chamam as malvadas, as donas de closets onde seus sapatos se enfileiram majestosos como que expostos em vitrine.

E deu no que deu: achei as calças, achei 2 metros de brim preto, achei viézes bonitinhos, sianinhas... 

E foi assim que eu fiz:


Como eu disse no desenhinho de paint que eu fiz prá vocês: eu passo um risco com a régua e divido esse risco em 5 partes de 12 cm. Dividi pelo verso a tira que vai ser o bolso em 5 partes de 24 cm - ou seja, cada bolso tem um volume prá fora da sapateira que é o dobro do lugar onde foi costurado. Alfineto risco com giz.

Reparem que antes eu preparei a tira que vai fazer os bolsos: fiz bainha na parte de baixo e apliquei viés florido na borda.

Costurei usando ponto zig zag apertadinho, bem reforçado. Maior vexame seria se com o tira e põe de sapatos os bolsos se desfizessem...

Então, costuradas as laterais dos bolsos, eu fiz as pregas. É mais fácil do que parece: não precisa medida, só precisa acomodar cada bolso de 24 cm de largura no seu espaço de 12 cm.

Veja só como vai ficar. Se a prega de um lado ficar um pouco maior que a do outro, não esquenta: não dá prá ver e o volume continua o mesmo.

Assim ficam os bolsos, enquanto no alfinete. Daí é só passar uma costura bem reforçada apenas na base, que isso já prende o formato dos bolsos.

Começa a fazer as fileiras de bolsos da parte de baixo e vai subindo, fazendo uma fileira por vez. Deixei 5 cm de espaço entre uma fileira e a outra. Quando isso tá pronto, é só passar viés em toda a volta, fazer uma barra larga em cima prá passar uma ripinha de madeira, que é o que vai dar a sustentação da sapateira.

Prá fazer com as calças jeans velhas do meu garoto eu usei, para a parte de trás da sapateira, partes das frentes de duas calças, sem chegar nos bolsos. Foi só emendar tudo, não tem segredo.

Cada tira prá fazer uma fileira de bolsos foi uma das partes de trás de uma das pernas. Fiz bainha embaixo, passei viés em cima. O tempo todo assessorada pela minha secretária deliciosa cor de chocolate com cheiro de pão de queijo - não me larga do pé, meu chulé.

Passei sianinha branca nas costuras das bases dos bolsos, pois achei que combinava com o viés xadrez - dava um arzinho "country"... Feita a bainha e as alças para pendurar a sapateira, já fui colocando a ripinha de madeira.

Os remendos foram estrategicamente costurados para esconder rasgos nas barras das calças - que, como falei, estavam velhinhas e curtas pro bambino, que tá alto igual um guarda-roupa... Esta sapateira vai ser pendurada na lateral de uma arara de roupas que vai ficar no MEU quarto rosa, na qual coloco as roupas para passar e depois de passadas, antes de lhes dar o devido destino. 

Agora a sapateira preta de brim. Coloquei nela cinco alças, pois a minha ideia era pregá-la no alto da porta desse mesmo quarto, bem na folha (que é arredondada em cima) - mas não deu certo. As taxinhas não penetram na folha, que é de madeira muito dura. Então vou ter que esperar o tempo do meu filhinho prá ele dar um jeito de pendurá-la atrás da porta e não nela...

Ai, ansiedade, ansiedade...

Por que as pessoas não realizam todos os meus desejos na hora em que eu os tenho - isso é um dos mistérios do Universo. Minha vida seria tão mais fácil...


Assim ficou a sapateira - nela cabem 25 pares de sapatos diversos, de chinelos até tênis (já experimentei). Colocarei as solas uma de encontro à outra - não apenas para maximizar espaço, mas também prá manter a sapateira mais limpa.

Espiem os espaços por dentro dos bolsos...

Na sapateira jeans cabem 24 pares de sapatos - mas como cada bolso mede 10 por 20 cm (enquanto que os bolsos da sapateira preta mediam 12 por 24...) nela colocarei rasteirinhas, sapatilhas, coisinhas mais estreitas e leves.

Remendinhos fofos...

Espaço interno razoável...

Aproveitamento excelente de calças jeans a quem ninguém daria valor. Falando a verdade: doo muita roupa na porta, mas vez por outra fico decepcionada: tem gente que anda 4 metros da minha porta, seleciona o que quer e larga no chão, em plena rua, aquilo que não lhe interessa. Daí meus olhos se enchem de água quando eu vejo uma roupinha de um dos meus amores rolando ladeira abaixo - podiam pelo menos jogar fora longe dos meus olhos... Assim sendo, prefiro ajudar só quem eu conheço e sei que vai usar mesmo - o resto eu reciclo se puder.

Minha mãe fez dois edredons maravilhosos usando calças jeans velhas dos meus irmãos - cortou tudo em quadrados e alternou jeans preto com azul - se ela ainda enxergasse teria bordado cada quadrado, que eu conheço minha velha...

Então, IDEIAS!!!

*Faça um troço desses com bolsos mais baixinhos e acondicione neles os seus sutiãs meia-taça - assim eles não ficam rolando nas gavetas. Pendure ganchos auto-adesivos por dentro da porta do guarda-roupa para pendurar sua "sutiãnzeira" e vai ficar tudo organizadinho, sem ocupar espaço...

*Vale fazer um desses prás gravatas do seu marido - que tal agora, pro Dia dos Pais, hein?

*Já pensou fazer um mini, prá guardar sapatinhos de bebê? Pode fazer de patchwork, todo quiltado, cheio de desenhos de bichinhos, uma fileira de bolsos de uma estampa, outra fileira de outra...

*Fazer um de cor única, costurar janelinhas de tecido em todos eles e fingir que é um "apartamento" prás bonecas da tua filha, com telhadinho vermelho em cima e tudo. Garanto que qualquer menininha iria adorar ter um prédio de apartamentos prás suas bonequinhas ao invés de só uma casinha - tão moderno...

*Ah, você pode fazer bolsos mais altos e largos, prá guardar tuas botas...

*Fazer um desses prá guardar tesouras, linhas, elásticos, apetrechos de costura...

*E mais uma ideia pro dia dos pais: que tal fazer uma dessas prá pendurar na garagem, pro seu marido acondicionar as ferramentas? Num espaço chaves de fenda, noutro martelo... Numa garrafinha pet de água vazia você enche de pregos, em outra você põe porcas e parafusos, buchas... Organiza a bagunça dele de presente!

É de pobre? Pode ser... Mas - de verdade - não precisa ser rico prá ser feliz, eu sei bem disso. E, se você quiser, pode fantasiar que só vai ter uma sapateira dessas até ganhar na loteria - daí você compra uma mansão onde vai ter um closet enooooorme, com vitrines prá mil pares de sapatos chiques (sonhar não paga nada...).

E - enquanto isso - dá até prá ganhar um dinheirinho abençoado por Deus fazendo sapateiras como essas prá vender, não dá?

Bom, me perdoem, mas vou sumir mais uma vez. Dia 23 agora é aniversário da minha mãe e ela me pediu muitas meias e muitas toucas, que ela sente frio no corpinho velho - e com tudo o que tenho prá fazer, tenho que me desdobrar prá fazer o presente dela.

Até mais.