Minha avó veio para o Brasil por puro capricho: seu pai havia morrido há pouco tempo e, apesar da vida não estar fácil, ele não deixou sua esposa e filhos desamparados, muito pelo contrário.
Possuíam muitas terras em Portugal, muitas plantações de oliveiras, muito gado... Dava prá viver - e bem.
No entanto, minha avó - afilhada de uma senhora de sociedade, muito rica - sonhava com as viagens da madrinha ao Brasil...
Seu irmão mais velho - aventureiro - já aqui estava há quase um ano, tentando a sorte, trabalhando na Rua do Gazômetro, em uma fábrica de carvão - assim mandava dinheiro prá mãe em Portugal e notícias, de vez em quando. Esse era mais um motivo prá quererem vir prá cá...
E assim foi feito: reunidas muitas economias, atravessaram o oceano e vieram parar no estado de São Paulo, onde minha bisavó assim que pôde comprou uma casa grande prá se manter - enquanto aqui estivesse - alugando cômodos para imigrantes.
Certo dia apareceu na casa um homem, muito bem vestido, proveniente de uma cidade de Portugal distante da de minha bisavó. Dizia-se rico proprietário de passagem prá investir em terras e gado no Brasil - minha bisavó se encantou do homem, um pouco mais velho do que ela mesma. E ele se encantou de minha avó, a filha mais velha, a essa altura já com 18 anos - uma "solteirona" práqueles tempos... - e manifestou a vontade de se casar com ela...
Minha avó o detestou de imediato - antes mesmo de se saber cortejada. "Ele é ainda mais velho que meu próprio pai! Se a senhora gosta tanto assim dele, case com ele a senhora, pois é viúva e não tem impedimento!!!" - foi o que ela disse prá mãe ao ser avisada de seu próprio casamento, já acertado sem seu conhecimento...
-"Pois se não casares com ele, não és mais minha filha e podes te por daqui prá fora!" - minha bisavó disse...
Assim, sem escolha, em um país estranho, minha avó se casou contra a vontade...
Imediatamente após o casamento o marido a levou para um outro bairro - alegando necessidades de negócios - e se instalou com ela num cortiço no centro de São Paulo: um lugar miserável - como minha avó nunca havia visto - um quartinho apenas com uma cama e uns caixotes de madeira à guisa de armários, cadeiras e mesa... O marido a tratava mal, não lhe dava nenhuma satisfação de nada e, um belo dia, sem mais nem menos, não voltou prá casa. Mandou um estranho lhe entregar uma carta - à qual ela, analfabeta, não pôde ler...
Na carta - lida depois por uma vizinha - ele pedia perdão por lhe ter arruinado a vida, pois era casado em Portugal...
Minha avózinha, tendo recém descoberto que estava grávida, passou a mão em seus poucos pertences e voltou prá casa da mãe levando a carta, certa de ali ser bem recebida.
Minha bisavó - que era uma mulher muito dura de coração - a recebeu do lado de fora do portão e não se interessou nem pela filha (obrigada por ela mesma a se casar com um estranho) e muito menos pelo neto que esta carregava: disse prá filha que ali não aparecesse mais, que ela estava perdida prá sempre, era uma vergonha prá família!
Minha avó passou a viver e dormir na rua, se sustentando quando alguém lhe oferecia algum serviço prá fazer, um tanque de roupas prá lavar ou comida de caridade. Numa padaria da rua Guaiaúna o padeiro lhe dava pão velho...
Perto de ganhar bebê, uma família de mudança pro Rio de Janeiro - compadecida dela - lhe ofereceu carona prá lá: ela iria com eles, ganharia o bebê, o deixaria entregue nas mãos das freiras e teria com eles emprego garantido - e ela foi.
Teve o bebê pelo caminho...
Quando chegou no Rio de Janeiro, na Casa da Roda, minha avó carregava nos braços seu pequeno filho - a quem chamou Antonio, nascido forte, pesando mais de quatro quilos ...
Prá quem não conhece: a Casa da Roda era uma instituição prá crianças abandonadas pelas mães - ou por serem pobres e não poderem criá-los ou por serem ricas e terem que escondê-los. Nesse local havia um compartimento, localizado no muro, onde a pessoa depositava do lado de fora a criança, rodava uma manivela e ela ia parar lá dentro. Tocava-se uma sineta e as freiras vinham buscar o bebê, ficando a mãe totalmente no anonimato...
Minha avó tocou a sineta e tocou e tocou... Ao não verem nenhum bebê na roda e a sineta continuando a tocar as freiras abriram o portão e deram de cara com minha avó, que não teve coragem de abandonar o filho: tudo o que queria era um lugar prá ficar, um abrigo...
Ali ela permaneceu por quase seis meses, servindo de ama de leite pros enjeitados... Contraiu sarna deles - ela e o Antoninho... Era mal tratada pelas freiras, que a consideravam uma mulher da vida - só a toleravam pelo leite e por algum sentimento cristão que tinham no fundo do coração.
Cansada e triste minha avó empreendeu a viagem de volta prá São Paulo, pensando que sua mãe, ao ver o netinho tão lindo, teria o coração tocado e a aceitaria de volta...
Por diversos dias rondou a casa, parando na porta. Quando anoitecia voltava prá rua Guaiaúna, onde o padeiro lhe permitiu - por pena do bebêzinho - dormir num barracão de chão de terra batida que tinha nos fundos da padaria: lá ela se deitava abraçada ao filho e dormia sobre uma tábua, que em noites de chuva ficava úmida e fria. Daí tinha lhe vindo o reumatismo, ela dizia...
Então chegou o dia de Natal e uma das irmãs de minha avó - minha tia-avó Ana, uma mulher muito alta e muito forte, com um coração de anjo... - estava em casa, de folga pela festa... Trabalhava de doméstica num casarão na Av. Paulista, trazendo sempre um bom dinheiro prá casa, sendo por isso muito querida pela mãe... Olhando pela janela, tia Ana viu e reconheceu a irmã, mal vestida e suja, magra de fome, carregando no colo o menino. Perguntou à mãe o que estava acontecendo, porque ela estava lá fora, o que havia acontecido!
Minha bisavó havia contado mentiras aos outros filhos, dizendo que a irmã deles estava muito bem de vida, de volta à Portugal com o marido... Quando tia Ana quis trazer minha avó prá dentro foi impedida com os dizeres : "Ela agora é uma mulher perdida, não tem mais lugar nesta casa!".
-"Pois eu então vou me perder com ela, mãe! Se ela não entra mais nesta casa, aqui também não entro mais eu!"
Face perder outra filha (e o dinheiro bom que ela trazia prá casa...) minha bisavó deu permissão pra filha "perdida" e seu neto bastardo ingressarem na casa...
Ali minha avó passou a morar com o filho como se fosse inquilina - trabalhando como burro de carga quando estava em casa e trazendo limpinho todo o dinheiro que ganhava por trabalhar durante longas horas, todo dia, na Tecelagem Matarazzo...
Sua mãe, quando se referia à ela, ainda a chamava de "perdida". Quando minha avó dizia pro filhinho: "Pede a bença prá tua avó, Antoninho!" minha bisavó respondia: "Vai ao diabo que te abençoe!"...
Todo final de tarde ela descia do bonde na ladeira da Penha e ia o restante do caminho à pé, de volta práquela mãe que não a queria, pro filho que precisava dela...
Todo final de dia o dono de uma loja de miudezas vinha prá porta, esperá-la passar - pois que ela era muito bonita, minha irmã Cida saiu à ela...
Num belo dia o dono da loja estava a conversar com um amigo querido quando deu a hora - e lá foram os dois prá porta, prá ver minha avó passar...
Pobrezinha olhava pro chão, não ousando erguer os olhos prá ninguém. Estava perdida - como sua mãe dizia... - nenhum homem iria respeitá-la devido ao seu passado. Iriam querer usá-la como se fosse uma coisa, descartá-la como o marido havia feito... Não tinha direito de ter um lar, um companheiro, uma família. Seu único direito era trabalhar e criar o melhor que pudesse o filho...
Mas Deus tinha seus próprios planos e o amigo do lojista se apaixonou por ela - passando também a esperá-la, puxando conversa o pedaço do caminho que se atrevia a acompanhá-la... Tomando conhecimento de sua triste história, garantiu que cuidaria dela e do menino como se fosse seu - mas como é que minha avó iria confiar? Melhor ficar como estava mesmo...
Contudo - já o menino estando com dois anos de idade - como o coração de sua mãe não se comovia, como todos os seus esforços eram em vão prá ser de novo considerada filha, cansada dos maus tratos e carente de um ombro amigo, minha avó fez uma trouxinha com os poucos pertences que tinha, pegou o menino no colo e rumou, num final de dia, pro endereço do moço que não se cansava de cortejá-la...
Ao bater na porta eis que essa se abre e um lindo par de olhos cor de mel a recebem com felicidade, um sorriso bobo que ia de orelha à orelha - ele era mais baixinho do que ela, tinha a pele mais morena, e no seu jeito manso de falar (que eu nunca me esqueço, pois que ele era meu avô...) disse assim prá minha avó:
-"Se me respeitares, terás marido prá vida toda..."
Minha avó, uma das mulheres mais inteligentes que eu conheci na vida, respondeu:
-"Do meu lado a corda não quebra..."
Jamais quebrou de lado nenhum, viveram juntos por toda a vida. Nunca foram casados, nem no civil nem no religioso - por pura ignorância, falta de conhecimento das leis. Afinal, se o tal marido já era casado em Portugal, o casamento com minha avó não tinha validade...
Minha avó sofreu por toda a vida - não por causa dele, mas por causa do mundo.
Por meu avô ela era tratada como rainha: mandava vir casacos de pele do estrangeiro prá ela, a cobria de jóias de ouro, lhe dava tudo o que ela nem se atrevia a pedir, só porque ela olhava.
Me lembro de espiá-la na pia, a lavar a louça e meu avô chegando e a cobrindo de beijos (ele era um beijoqueiro!) e ela dizendo: "Sebastião, olha a menina espiando!" e ele respondia: "Tudo o que ela está vendo é que o avô ama a avózinha dela...".
O mundo, invejoso e transbordante de preconceito, não perdoou os dois: seus filhos eram chamados de bastardos e minha avó continuou a ser chamada - pelas costas, obviamente - de perdida. As próprias noras, depois de casadas com seus filhos, sempre faziam questão de lhe lançar na cara que tinham todas a vida marcada por ela, por serem casadas com bastardos...
Católica fervorosa foi proibida de pisar na igreja pelo padre, que disse que ela e meu avô iam pro inferno, por não serem casados...
Me lembro de vê-la chorar tantas vezes... De vez em quando ela pedia prá um dos filhos a levar numa igreja distante, onde não a conheciam, só prá tomar a hóstia no final da missa - dizia sentir falta da comunhão com Deus... Toda vez que fazia isso voltava prá casa mais arrependida e mortificada ainda, sentindo que havia cometido mais um pecado mortal, por tomar a hóstia que não merecia...
Por ela - ainda menina - eu fiz uma promessa: "Quando eu crescer, vó, eu também não vou me casar. Se eu conhecer alguém e me apaixonar eu só vou morar com ele, igual a senhora e o vô. Assim, se a senhora for pro inferno, eu também vou prá te fazer companhia, porque eu não quero te ver triste, nunca na vida!"
E das promessas que eu fiz na vida essa é a que mais prazer me deu cumprir... Quando mil anos atrás o Marildo me pediu prá casar com ele, sem pensar duas vezes e prá espanto geral da nação, eu respondi que não... Nem tanto prá ir pro inferno por causa disso - já crescida (e um tantinho mais sábia) eu já tinha certeza que minha avó estava num lugar de honra junto de Nosso Pai: simplesmente prá navegar contra o preconceito que, apesar de bem menor nos dias de hoje, infelizmente ainda existe. Entretanto o Marildo - homem muito sério mesmo ainda um rapazinho - ficou insistindo na legalidade da coisa e... bom... isso é história prá outra ocasião.
As alianças que eu e o Marildo usamos nos dedos eram deles - jamais abençoadas em igreja nenhuma, dadas a nós por minha mãe (que abriu mão dessa lembrança preciosa de seus pais por amor a mim)...
Acredito que ficou tanto amor impregnado nelas que por toda a vida vou viver abençoada por seus antigos donos - será bobagem eu pensar assim?
Talvez...
Mas não se passa um só dia sem que eu sinta a amorosa presença deles - quase chego a ouvi-los falando comigo, às vezes...
Amo tão imensamente minha avózinha que aqui registrei parte da sua história, com o peito doendo a cada palavra digitada. Não tenho medo da morte porque sei que vou reencontrá-la...
Minha Lolinha - gloriosa Lola... - herdou o nome dela.
Minha Lolinha - gloriosa Lola... - herdou o nome dela.






