Quer nome mais meigo, que mais que todos evoca doçura?
Pois é: assim mesmo ela era.
Evangélica, sempre a vestir saias bem abaixo dos joelhos, lenço amarrado na cabeça - não importando a ocasião - um jeitinho tímido de falar, sorriso discreto...
Mas não se diz por aí que não se pode julgar o livro pela capa? Que as aparências enganam? Pois eu já devia estar escolada - afinal já havia trabalhado com uma moça de mesmo nome, que de doce não tinha nada...
Dulce começou a trabalhar na minha casa no estilo "prá ontem", pois uma outra empregada havia sido mandada embora (depois de me afanar uma porção de coisas...) e lá estava eu toda atrapalhada, filhos pequenos que ainda não frequentavam a escola, afazeres de casa se amontoando uns por cima dos outros, trabalhando fora...
O Marildo a trouxe encomendada por um amigo dele, "Joe" - apelido americano prá um jardineiro demais de brasileiro, boa pessoa - mas sossegado demais prá se dar bem na vida no que quer que fosse. Mas, como eu disse, boa pessoa - isso é que importava.
Dulce se provou ser uma excelente doméstica, extremamente eficiente: ao chegar em casa por volta das treze horas tudo estava brilhando, cheirando limpeza, agradável demais da conta. Daí ela ia pro tanque ou pro ferro de passar roupas - que nunca mais se acumularam...
Umas duas semanas depois que começou ela me veio com um pedido: sua filha (sua única...), que tinha a idade regulada com as minhas, estava de favor na casa de uma vizinha - que agora não podia mais tomar conta dela, pois arranjara emprego...
Me pediu - com a cara mais humilde do mundo - se podia trazer a menina junto pro trabalho, até arrumar quem ficasse com ela...
Eu - inocente que eu era naquele tempo, só não amarrava cachorro com linguiça, mas de resto... - deixei, falei que podia! Pensei que seria bom meus filhinhos terem uma companhia prás brincadeiras - na nossa vizinhança tinham sido frustradas as tentativas de fazer amizade, uma criança até me disse na cara que sua mãe não queria que ela brincasse na minha casa porque eu era "nojenta"...
E assim foi: quando a Dulce chegava, por volta das oito da manhã, eu já estava no trabalho desde as sete horas. Ela era recebida pelo Marildo, preparava café da manhã prá ela e prá filha (os meus eu mesma alimentava antes de sair de casa, como sempre foi e será, se Deus quiser...) e fazia o serviço pelo qual a pagávamos.
Pouco mais de um mês depois que ela começou cheguei mais cedo em casa, pois havia passado mal no trabalho, com febre. Ao girar a chave na fechadura do portão me aparecem dois dos mais lindos rostinhos na janela - a Nana e a Lola - agoniadas, desesperadas, falando: "Mamãe, mamãe! Solta a gente! A Nana quer fazer xixi!!!"
Quando entrei na casa - apressada - já a encontrei brilhando, o chão encerado e lustrado, o cheirinho de pinho sol a vir do banheiro e, sentadinha no sofá comendo biscoitos estava a filha da Dulce, assistindo desenhos. Do lado de fora do meu quarto a chave enfiada na fechadura, deixando lá dentro trancados meus filhos...
Quando abri a porta a Lola me abraçou, feliz - a Nana correu pro banheiro. O Ike, ainda tão pequeno, com apenas três aninhos, estava triste, a carinha lavada de choro.
-"Cadê tua mãe?" - perguntei prá menina, que, com cara azeda, não me respondeu nada, continuando a lamber o recheio da bolacha...
-"Oi, Dona Rosa! chegou cedo...".
-"Dulce, porque meus filhos estavam trancados no quarto?"
-"Ah, foi só enquanto eu encerava a sala, não queria eles escorregando na cera...".
Minha Lola, firme como uma mocinha, sempre muito bem articulada desde que aprendeu a falar, me disse assim:
-"É mentira, mamãe. Todo dia ela tranca a gente, mesmo quando não encera. Só quem pode ver desenho é a filha dela. Nem biscoito ela dá prá gente...".
-"Mentira, Dona Rosa! A menina tá inventando! Imagina se eu ia fazer isso com as crianças, é que elas não sabem se comportar, ficam andando em cima da cera molhada, iam acabar manchando o sofá!".
Mas eu bem sabia os filhos que havia criado...
Perguntei prás minhas filhas - pois agora a Naninha já tinha voltado:
-"Todo dia ela tranca vocês no quarto?"
-"Todo dia, mamãe, desde antes de trazer a filha dela. Ela até disse uma vez que odeia criança, que só gosta de trabalhar em casa vazia!"
-"Vocês nunca brincaram com a filha dela?"
-"Ela até empurrou o Ike, chamou ele de branquelo azedo, mamãe!"
-"E por que vocês não me contaram nada?!"
Os pobrezinhos olharam uns pros outros e daí a Lola falou assim:
-"É que ela disse que, se a gente contasse, ela ia acabar com a nossa raça..."
O rosto que antes me parecia tão doce da Dulce se transmutou numa caratonha de raiva! Foi como se tirasse uma máscara, parecia até outra pessoa, saída de um filme de terror!
-"Menina mentirosa! Eu não falei nada disso! Essa menina tá merecendo umas palmadas, Dona Rosa, prá deixar de inventar esses absurdos!".
O sangue me subiu na cabeça, o coração me batia nos ouvidos. Me lembro de duas vezes na vida nos quais perdi totalmente a compostura, a noção de ser filha de Deus e de ter que me comportar de modo condizente com isso - essa foi uma delas. Virei um bicho, uma leoa: se eu tivesse dentes pontudos, teria pulado na jugular daquela mulher!
-"Pega tuas coisas e some da minha casa, sua *&¨%$$#@! Nunca mais me apareça pela frente, senão eu é que vou acabar com a tua raça!"
Falei todos os palavrões que eu sabia, apanhei a vassoura prá ameaçá-la e fui - com a vassoura - enxotando ela e a menina até o portão da rua. Deu prá ver medo nos olhos delas, eu devia estar assustadora!
Ao abrir o portão eu ainda disse: "Nem se atreva a aparecer aqui prá receber o que eu te devo: meu marido vai te levar lá onde você mora. Nunca mais quero ver a tua cara na minha vida!"
E assim foi feito. Quando o Marildo chegou contamos prá ele o ocorrido e ele, chamando o Joe, mandou por ele o dinheiro que devíamos prá moça.
Meus filhinhos, como era de se esperar, ficaram muito orgulhosos de mim pelo modo violento como me comportei - de vez em quando, ter calma e ter classe é um comportamento totalmente descabido. Às vezes, na vida, a gente tem que reagir à altura - até Jesus, que era Jesus, derrubou mesas e expulsou os vendilhões do Templo...
Dulce foi a última empregada que tive, a última das minhas decepções. Antes dela houve um desfile de outras, preguiçosas, desmazeladas, mal intencionadas criaturas que se infiltraram na minha vida me trazendo mais dores de cabeça do que sossego nas tarefas do lar.
E agora, aqui dentro de casa (até mesmo Tia Joanita, com seus telefonemas...), essa campanha prá me fazer voltar a viver situações que rejeito com todas as minhas forças: não me importa o cansaço, as dores no corpo.
Sei que todos se preocupam comigo, querem o meu bem, querem me poupar...
Mas não me interessa ter mais tempo prá mim mesma, pros meus artesanatos, se eu corro o risco de trazer prá dentro da minha casa uma pessoa e seus problemas.
Em primeiro lugar está minha paz de espírito.
Que Deus me dê forças prá não passar por situações assim nunca mais...