Este é um pote que ganhei da minha filha Nana, comprado no bazar de caridade da faculdade onde ela estuda. Custou cinquenta centavos, pois é usado - foi doação de alguém que se cansou dele...
Volta e meia ela me traz alguma coisa de lá: já me trouxe uma blusa linda, que serviu de molde prá uma outra, um vasinho prá colocar pequenas flores secas, um anel de prata com abalone que custou apenas um real e é lindo até dizer chega, olha só:
O Marildo odeia essas compras de coisas usadas - tem preconceito. Meu filho diz que o anel foi arrancado de um dedo de morto (menino mau...). Mas ela faz assim porque saiu a mim - não tem frescuras (e também porque tem bom coração: tudo o que é vendido ali reverte prá uma instituição que cuida de crianças com câncer).
Esse potinho tão bonito, feito artesanalmente trançando-se fios e mais fios coloridos, que eu nem sei que finalidade tinha antes de ser descartado, nas minhas mãos ganhou a inusitada finalidade de ser um "pote de fiapos".
Algo muito prático e que - me arrisco dizer - só eu tenho no mundo (acho eu...) - até agora...
Quando eu era pequena minha mãe punha comida na minha boca e nas dos meus irmãos sendo principalmente costureira. A máquina era uma Singer mecânica, de pedalar, bem velhinha, herdada de minha avó. Só tinha dois pontos: reto e zig zag - e mesmo assim ela fazia coisas lindas: muitas noivas se casaram com vestidos cheios de bordados de richilieu, dignos de uma princesa...
Hoje eu compro tubos de linha prá costurar com 1500 metros, baratinho perto de casa ou na 25 de março mas, na minha infância, minha mãezinha querida penava com retrozes de linha de apenas 90 metros, comprados com muito sacrifício e utilizados com muita sabedoria por ela.
Por exemplo: linha de alinhavo era retirada cuidadosamente e enrolada novamente num retrós vazio, prá ser usada de novo... A mesma coisa as linhas dos franzidos...
Tudo tinha que ser assim, tratado com o maior respeito e economia, pois tudo era fruto de muito trabalho e suor...
Desta forma, acabei adquirindo certos hábitos que acho impossíveis de abandonar, pois fazem parte de mim: não desperdiço. Guardo as linhas dos alinhavos e franzidos - e os utilizo de novo... Qualquer pessoa que se atrever a mexer nas minhas bagunças vai encontrar retrozes anteriormente vazios enrolados com fios de diversas cores, saquinhos de papel ou plásticos cheios desses mesmos fios, todos esmarafunhados (porque eu sou uma bagunceira...).
E com a máquina de overloque que ganhei de presente do Marildo meus "fios de sobra" aumentaram prodigiosamente: a cada começo e fim de costura tem sempre um pedação de fio trançado, que durante o trabalho acaba sendo cortado e descartado (pela maioria das costureiras, mas não pela sovina Rosa...).
Não passo pelas privações que minha mãezinha passou - graças a Deus! - mas, nem por isso, esqueço aquela história de vida. Seria um desrespeito para com ela se eu tratasse esses meros fiozinhos como lixo!
Cada um deles que eu corto e guardo é um tesouro irrisório que não tem valor prá ninguém - só prá mim. Faço isso por minha mãe, por minha avó, por meus filhos (que alguma lição hão de tirar disso...) e em homenagem a cada costureira anônima de poucos recursos, que neste exato momento (assim como ontem e também amanhã) executa suas peças em uma máquina comprada a muito custo, cujas linhas ajudam a prender tecidos uns nos outros gerando renda, abastecendo a despensa e - por que não? - criando sonhos...
Mas aí, enquanto estou costurando mais um presente de Natal com toda pressa (desta vez dei uma parada em duas blusas que estou fazendo prá minha irmã Fátima prá fazer esta postagem programada prá virada do ano...) me peguei pensando que todos nós somos "colecionadores de fiapos" nesta vida...
Cada pessoa que a gente encontra pelo caminho e que "esbarra" na gente (e não precisa ser uma esbarrada literal, pode ser apenas uma conversa...) deixa prá trás uma impressão, mais forte ou mais fraca, um fiapo da sua existência na nossa vida.
Cada acontecimento do qual a gente participa ou apenas testemunha, cada sonho que a gente batalha prá conquistar ou abandona, cada sacrifício e cada desperdício de tempo e recurso larga em nós um fiapo...
Cabe a nós saber selecionar o que levar adiante, na nossa coleção..
Amor nunca é demais, então leva tudo o que puder, sejam fiapos, tiras ou a peça toda, mesmo se estiver remendada...
Descarta ódio e mágoa, pois nenhum de nós fica mais sábio nem mais feliz carregando um fiapo sequer que seja deles...
Aprenda a conviver com as diferenças, sejam ideológicas, políticas, religiosas...
Pessoalmente eu acho que conviver com as diferenças é um grande promotor do crescimento pessoal: se você só conviver com quem pensa como você vai acabar conversando sozinho, com o espelho, cedo ou tarde.
É através da troca de experiências (diferentes) que a gente expande nossa visão do mundo. É por meio da tolerância para com as diferenças que nos mostramos filhos de Deus, pois conviver somente com os iguais é muito fácil, mas não é nada cristão...
E, ao tocar nesse assunto de tolerância, me lembro que, neste ano, muitas pessoas deixaram de me visitar, meramente por não concordarem com meus pontos de vista políticos.
A culpa foi toda minha - eu sei.
Idiota que fui de achar que, como o blog é uma extensão da minha casa e da minha vida eu aqui tinha todo o direito de me expressar, de ser sincera sobre o que penso e sinto!
Bom, parece que eu sou um fiapo que muita gente não vai levar prá 2015 - fazer o quê, não é mesmo?...
Que assim seja. Que cada um colecione o que mais lhe agrade e que lhe faça feliz. Eu aqui vou continuar colecionando meus preciosos fiapos , levando comigo o que talvez não tenha valor prá mais ninguém, só prá mim.
Que todos vocês - os que ainda apreciam me visitar e os que aqui nunca mais vão voltar - consigam levar adiante boas coisas, bons sentimentos, boas experiências, que os façam crescer como seres humanos e como filhos do Criador.
Que cada acontecimento seja pleno de significado em suas vidas, especialmente como fonte de aprendizado, para trazer-lhes paz e felicidade, um dia depois do outro, com a graça de Deus.
E, assim que as férias acabarem, eu volto a postar coisas novas e velhas, tiradas do meu coração e dos meus potes de fiapos...
Feliz Ano Novo!
(Esta é uma postagem programada. A estas alturas, se for dia, estou tricotando na varanda, escutando cigarras cantando feito doidas. Se for noite, os grilos e corujas estão fazendo serenata prá eu dormir...)







