Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um buraquinho aqui, outro ali...


Na verdade um montão de buraquinhos... Inspirada nessa onda de tricô destroyed fiz essa blusinha prás meninas, cheinha de buraquinhos. 

Buraquinhos muito fáceis de fazer: 6 pontos arrematados com 22 pontos de distância entre eles. A cada 20 carreiras troca o lugar dos buracos, intercalando... 

Ela ficou assim:


Achei meio sem graça, mesmo com a Lola recheando a peça. Faltava alguma coisa - pensei logo em spikes. Mas quantos colocar? Onde?

Daí a Lola fotografou e mandou prá Fernanda, melhor amiga do Universo dela, que tem um bom gosto danado, uma visão estética excelente, super criativa. E, graças às pitadinhas dela, o pulôver esburacado sem graça ficou assim, temperadinho...




Dobradas as mangas (que já eram 3/4) meros 7 cm prá fora, prendi bem no centro com 3 spikes-mini, prateados. Do lado de dentro da manga levou mais um spike, que garante que a dobradura da manga não escorrega.


E pela frente da blusa (e também nas mangas) um spike aqui, outro acolá, sem pecar nem pelo exagero nem pela falta. 



Nada de spikes nas costas, que é prá não machucar quando encosta no sofá ou cadeira. 

Menos de um cone de lã Cristal, mesma receita de qualquer pulôver básico, mas com apenas 90 carreiras de manga - mais fácil que isso, só comprando pronto.

Acabamentos: uma carreira de ponto baixíssimo, um em cada ponto tricô da blusa, pulando um a cada cinco (o ponto tricô que a gente pula garante que a peça não vai ficar enroladinha...).

E agora que eu já inspirei vocês, vou cuidar da vida, que tá cheio de gente que depende de mim.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Aproveitando um retalhinho...

Prá fazer viés, enfeitar roupa, avental de cozinha, o que der na telha...

Sem muitas palavras, que as fotos já tem algumas:



Tem que ser um retângulo de tecido, não pode ser medida torta. Tecido quadrado também dá prá fazer, mas dá mais trabalho... Não precisa medir igual ao meu, pode ser retalho maior ou menor, tanto faz - porque dá certo.

Risca o triângulo lateral depois da dobra e recorta.
















Às amigas que aqui passam deixando comentários - me perdoem por não estar tendo tempo de responder... Primeiro: estou muito doente, com uma artrose no quadril que tá me matando! Daí, porque Deus nunca me deixa sem uma compensação, meu filhinho passou num concurso maravilhoso e começou a trabalhar - então agora tenho mais afazeres, mais roupas sociais prá lavar e passar - tudo isso me arrastando pela casa... 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Nossa verdadeira natureza


Quando a Kelly decidiu que era hora de arrumar um emprego em empresa - e deixar de trabalhar prá mim como doméstica... - saiu daqui da minha casa muito triste. Ambas choramos, pois até hoje nos gostamos muito, nos visitamos - mas ela queria convênio médico, coisa que a empresa dava...

Antes de ir embora arrumou uma substituta, vizinha dela lá na favela do Pirajuçara.

-"A Fernanda é de confiança, dona Rosa. É uma moça nova, mas muito trabalhadora e tá muito precisada do emprego..."

Eu eu tava "precisada" de empregada, então aceitei antes mesmo de conhecer, mediante o aval da Kelly.

Daí ela apareceu no sábado, já prá trabalhar logo cedo e, quando eu fui abrir o portão, senti uma imensa e irracional vontade de dar as costas e entrar correndo prá dentro de casa, como se não tivesse ninguém ali, fosse um engano, igual criança (eu, uma mulher de 30 e poucos anos - com medo...).

Mas intimida, não intimida - uma mulher assim, bonita?:



Essa atriz é cara dela, só que ela tinha a pele mais escura, quase negra. 

Vinte e dois anos de pura beleza sem nenhum trato, com roupinhas muito simples e muita timidez.

Diacho!!! Tinha que ser tão bonita? "Imagina se eu vou ter uma empregada assim linda dentro de casa!" - eu pensei - acho que por ciúmes, inveja, sei lá... 

Perto dela eu parecia um troço (eu, apenas uma mulher normal, enfeiada quase que automaticamente!). Fiquei espiando enquanto ela limpava, lavava, passava pano... Remoendo minhas ideias, decidindo se mandava ela embora no mesmo dia ou se esperava uma semana até achar outra...

Daí, na segunda feira à tarde, quando cheguei do trabalho, notei ela andando pela casa escondendo o rosto, andando meio de lado e, burlando a vontade dela, a surpreendi com dois enormes olhos roxos e inchados!

A pobrezinha começou a chorar e me contou que tinha apanhado do marido. Que isso era quase todo dia, por qualquer motivo ou por nenhum... Me implorou prá não mandá-la embora, que tinha um filho pequeno, da idade do meu Ike (que tinha 3 anos...), que o marido não parava em emprego e que era muito ciumento. Tinha ciúme se ela ficava em casa, tinha ciúme se ela trabalhava...

Me doeu tanto vê-la chorar... Lembrei da minha mãe, sofrendo abusos similares... Lembrei de mim mesma, assistindo as surras - e levando as minhas também!

Prometi que não ia despedí-la, acabei pedindo a carteira de trabalho dela e a registrei eu mesma, naquela hora (sempre era o Marildo quem registrava, mas eu quis essa prerrogativa prá mim daquela vez...).

Daquele dia em diante eu deixava ela trazer o menino junto quando ela quisesse, dava leite prá ela levar prá casa, mantimentos... Fazia roupinhas pro menino dela na máquina de tricô, igualzinhas as que eu fazia pro meu moleque...

Ela me contou que tava pensando em se separar dele, que já tinha ido ver um cômodo em cima de um bar prá alugar, eu a aconselhava a voltar aos estudos prá um dia poder ter um emprego melhor...

Foi indo assim até que, dois meses depois de começar a trabalhar prá mim, ela faltou um dia. 

Dois. 

No terceiro dia mandei o Marildo  na casa dela, achando que tinha acontecido uma desgraça - mas ela apareceu, toda sorridente, prá atender a porta. Disse que ia parar de trabalhar, que tinha feito as pazes com o marido...Pagamos os direitos dela, férias proporcionais aos dois meses de trabalho, pegamos recibo; o Marildo pediu prá ela trazer a carteira prá dar baixa... 

Ela disse que ia mandar uma amiga prá substituí-la e saiu da nossa vida - ou assim a gente pensou por pouco mais de dois meses...

Toca a campainha da minha casa, a nova moça já tava trabalhando e atendeu. Voltou dizendo que tinha um Oficial de Justiça querendo falar comigo e eu fui (coisa esquisita que nunca tinha acontecido na minha vida...). Acabei recebendo e assinando uma intimação do Ministério do Trabalho, junto com uma cópia do processo trabalhista que a tal moça, que se chamava Fernanda, tava movendo contra mim por tê-la mandado embora ao descobrir que ela tava grávida!!!

"Como é que é???" - eu pensei...

Como aquilo me entristeceu... Como doem as punhaladas, especialmente aquelas que a gente nem sente chegando e que nos acertam em cheio, bem nas costas!!! Então ela já estava grávida, quando começou a trabalhar prá mim...

Pior: o registro tava no meu nome, eu é que ia ter que comparecer no tribunal...

O Marildo nem podia me acompanhar - trabalhava de dia, dava aulas à noite... 

Meu irmão, que é advogado, disse que tava com uns processos difíceis e que não ia poder me ajudar - falou que eu podia me defender sozinha, que no âmbito trabalhista a gente pode fazer isso (como se eu já não soubesse - mas querer é outra coisa! Eu nunca tinha pisado num tribunal na vida!!!). A vida tem dessas coisas: às vezes, quando a gente mais precisa, não arruma uma alma que nos ajude...

Bom, tive que me virar. O Marildo me arrumou uns CD's de leis, eu pesquisei nos livros, peguei cópias de processos, de petições, de recursos. Estudei decisões de juízes em outros casos similares e, baseada em tudo isso, compus minha defesa.

Arrumei duas testemunhas: a própria Kelly, que me havia indicado a moça (e que não parava de me pedir perdão pelo problema...) e que era vizinha dela e um outro vizinho deles, chamado Joe, que volta e meia trabalhava na minha casa como jardineiro.

Inclusive o Joe, que era amigo de longa data do Marildo, havia ouvido uma conversa de bar do tal marido da Fernanda, onde ele "movido a álcool" ria muito da minha cara, dizendo que ia depenar todo o meu dinheiro... Que eu era uma trouxa, uma branquela idiota...

O salário mínimo daquele tempo era de 100 reais - ela ganhava 250. Pleiteava os salários dos sete meses restantes da gestação, mais quatro salários de auxílio maternidade, mais dois salários referentes a sessenta dias de estabilidade no emprego, mais férias integrais e férias proporcionais, incluindo décimo terceiro. Quase ia me esquecendo: também queria o vale transporte do período todo em que estaria trabalhando "se eu não a tivesse despedido"...  Não havia esquecido uma agulha, queria chupar todinho o meu sangue, até a última gota... Tudo isso totalizava mais de 4 mil reais - e o ano era 1995... Se fosse hoje e ela ganhasse 2,5 salários mínimos, minha enrascada alcançava os 30.000 reais!!! E tudo isso era realmente devido, estava de acordo com a legislação trabalhista da época - caso eu realmente a tivesse mandado embora sabendo que estava grávida. 

Era a minha palavra contra a dela, como é que eu ia provar que não sabia???

Redigi o melhor que pude a minha defesa, anexei os testemunhos a meu favor e, no dia do julgamento, faltei no trabalho, recebi em casa as minhas duas testemunhas (pessoas muito pobres...), dei-lhes almoço e, em seguida, fomos de transporte público (porque eu não sei dirigir carro...) até o Tribunal do Trabalho.

Eu estava tão nervosa... Sinceramente eu já me dava por vencida, pois no meu trabalho todos me disseram que era causa ganha prá ela... Que os juízes sempre escolhiam a favor das empregadas - e, no Direito Trabalhista, existe mesmo um princípio chamado "in dubio pro misero", que significa que, se o juiz tiver alguma dúvida, deve decidir sempre em prol do mais pobre...

Chegando lá me informei, pegamos o elevador e fomos até a sala onde o julgamento ia ser realizado. Sentada com uma menininha no colo - que já tinha nascido - estava a Fernanda. A imagem perfeita da boa mãe, a embalar a nenenzinha com suas roupinhas rosas. Uma pintura - é o que eram... De pé, andando ameaçadoramente, o marido da tal moça. Parecia aquele lutador Mike Tyson, forte como um touro, destilando ódio por todos os poros. Imaginei aquele troglodita esmurrando a coitada - a vida dela não era fácil... Mas parei de divagar, tentei dar uma endurecida no coração e me sentei onde me indicaram.

Pouco tempo depois apareceu um homem, chamou a mim e a minhas testemunhas pra um canto da sala.

-"Quem é seu advogado, senhora?"

-"Ninguém, eu mesma estou me defendendo..."

-"Quem foi que redigiu seu recurso?"

-"Eu mesma, tenho bacharelado em Direito, mas nunca tirei a OAB..."

Ele parou um pouco, olhando os papéis nas mãos, olhou prá mim e disse:

-"Está muito bem redigido, um dos melhores que já vi. A senhora me permite utilizá-lo na faculdade, eu dou aula de Direito?..."

Sinceramente eu nem me importava, ele podia até rasgar e tacar fogo no meu recurso, tudo o que eu queria era sair logo dali - ia acabar fazendo um furo na minha língua de tanto morder ela... Mas respondi que ele podia usar meu recurso como quisesse.

Daí ele chegou no ponto. Conversou com a Kelly e com o Joe, que confirmaram seus depoimentos. O juiz (pois que esse era um dos três juízes que estavam encarregados do caso...) disse que o ganho de causa era meu. 

Eu nem acreditei!!! 

Perguntei se então eu podia ir embora, se tudo já estava acabado...

Ele me respondeu que aquela era uma audiência conciliatória - prá fazer um acordo entre as partes sem a necessidade de julgamento. Disse que o ganho de causa seria meu se a moça também concordasse - e que, obviamente, ela não concordaria. Muito provavelmente, segundo ele, a moça ia querer julgamento, prá tentar convencer o juiz... Naquele momento, conversando com ela, estava o outro juiz, representante dos empregados, tentando arranjar o acordo e alertando a moça que, caso fosse mesmo a julgamento, eu sairia vencedora - porque meu recurso estava bem alicerçado na lei e porque eu tinha testemunhas que calhavam de serem vizinhos dela (e não meus...).

Então o meu juiz (que era o juiz representante dos empregadores) me disse prá fazer assim: dar prá ela somente um mês de salário, prá ela não sair de mãos abanando e ter como pagar o advogado que ela havia contratado...

O monstrinho no porão me disse prá dar uma banana prá ela, que ela arrumou advogado porque quis, que a intenção dela foi me fazer mal e que eu não devia dar nada!!!

Mas, nessa hora, a menininha começou a choramingar... Senti pena da criança, filha de pais assim, desonestos...

Falei pro juiz que tudo bem, que eu dava os 250 reais prá ela.

Assinamos um montão de papelada, assinei um cheque - o advogado dela com cara de sonso, decepcionado por não levar a gorda fatia que imaginava do meu suado dinheirinho...

Quando acabamos de assinar eu perguntei pro juiz:

-"Tá tudo certo? Não devo nada?"

-"Tá tudo certo, a senhora tá liberada."

-"O senhor me permite dar uma palavrinha com a moça?"

-"À vontade."

Aproveitando que tinha seguranças no recinto - e que o marido dela não podia pular na minha jugular (como parecia querer fazer a todo momento...) eu cheguei perto dela, parei, olhei prá menina e disse:

-"Muito bonita a tua filha... Como se chama?"

Ela nem levantava os olhos, continuou sentada, parecia se encolher com a minha proximidade. Com a voz fraca, quase falhando, respondeu:

-"Mariana."

-"Se você tivesse continuado a trabalhar na minha casa, tua filha ia me chamar de tia. Todo o enxovalzinho dela teria sido feito por mim, com o maior carinho. Nunca eu ia deixar faltar nada prá ela - nem pro teu outro filho...".

Agradeci ao juiz, chamei a Kelly e o Joe e voltamos prá Penha...

                 *   *   *

No mundo tá cheio de gente assim, não tá? Me lembra uma historinha que eu li prá minha avó quando eu era pequena: 

Um homem tava andando na neve e encontrou uma cobra congelada, quase morta. 

Teve pena dela, a agarrou e enfiou dentro do casaco, junto do calor do seu corpo. 

Nem bem a cobra se recuperou, mordeu o homem. 

Enquanto morria, o homem perguntou: 

"- Por quê? Eu te ajudei!!!"... 

E a cobra respondeu: 

"- Desculpe, é a minha natureza...".

Cedo ou tarde a verdadeira natureza aparece...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Negócio da China!!!

Não é assim que a gente fala quando a coisa é boa? Pois então: Você pode ter essa blusa - e pagar quase nada por ela!!!





"O quê??? Dona Rosa vai começar a vender baratinho suas peças???

Nem baratinho nem carinho - pois só faço prá família. Mas ou você faz a blusa você mesma (que eu ensino como), gastando somente um cone de lã Cristal (uns doze reais...) ou compra direto da China, que foi de onde veio a ideia:

O site se chama AliExpress, já comprei uma tonelada de coisas de lá e chega direitinho na casa da gente - e a maioria tem frete GRÁTIS pro Brasil!!! 



Linda, né? E custa menos de 11 dólares!!! Mas tem que ter cartão de crédito internacional... Clica no nome em amarelo lá em cima que vai pro link, onde vocês vão ver as cores que tem prá vender.

"Ah, mas Dona Rosa... Eu não confio em comprar em site chinês... Como é que eu faço prá ter uma belezura dessas?"

Simples. Também tem um site no Brasil que importa ela prá você: Airu. Clica no nome que vai direto prá página da blusa - mas já aviso, pode levar uma vida prá chegar... Custa 43 reais e parcela no cartão (coisa boa!!!).

Então, já que eu resolvi o problema de metade de vocês - da metade que não tem máquina de tricô ou não sabe usar as duas agulhinhas mágicas... - agora vou resolver o problema das tricoteiras: receitinha de mãe...

Primeiro: repararam que o ponto é praticamente o mesmo da blusa roxa passada (esta AQUI)? Então: são as duas metades do coração bem separadas e, prá fazer um charme, tem uns furinhos decorando os espaços vazios. Se você não sabe como faz o ponto é só clicar na palavra em amarelinho e ir prá lá assistir meu vídeo ensinando. 

As partes da receita estão aqui:

Eu ia fazer o decote sanfonado, igual na blusa original, mas a Nana não quis, prefere assim - diz que fica mais levinha. Se vocês forem fazer, comecem o decote bem antes, lá pela carreira 24 após a cava, façam o sanfonado à parte e depois preguem na blusa.

Mas até foi bom que fiz sem ela, pois assim quem só tem máquina, sem pente, consegue fazer uma blusinha super linda sem ficar triste!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Anjo da Justiça e as Portas do Céu

                             
           


                                          "Estava pensando que, quando chegasse a minha hora, ficaria muito triste se a única desculpa que pudesse apresentar fosse a de ter sido justo. Pois poderia ser que somente justiça fosse aplicada a mim..."



Era mais um dia lindo no Reino do Criador, iluminado com o brilho de infinitos sóis - pois, no céu, todas as estrelas são também sóis e brilham enquanto for a vontade de Deus...

Nosso Pai Celestial se ocupava de seus afazeres divinos - da escuridão fazia surgir a luz, dava ordem ao caos, usando sempre suas palavras como matéria prima da criação em todo o Universo...

Então, andando devagar e pausadamente, em passos modulados que pareciam ter todos o mesmo comprimento, aproximou-se, de semblante muito sério, o Anjo da Justiça.

O Deus de Amor e Bondade, sempre Onisciente - jamais interrompendo seu trabalho e mantendo sua Onipresença em todos os confins de todos os lugares - perguntou sem rodeios ao seu amado filho (pois a Justiça é muito amada por Deus...):

-"O que te incomoda, filho querido? Por quê este semblante tão desagradado?"

O Anjo, medindo suas palavras como media seus passos, num tom de voz sério e sem exaltação, respondeu assim:

-"Pai, quero mudar minha ocupação... Melhor dizendo, quero trabalhar a Justiça de que me encarregaste em um outro momento, não do modo como tenho feito...".

Deus, enquanto separava as águas do elemento seco em um mundo muito distante, respondeu assim:

-"Mas eu pensei que te agradasse muito ser o Anjo que distribui a Justiça, filho querido..."

-"E me agrada, Pai, mas é que..."

Medindo agora os pensamentos - pois na Justiça tudo tem que ser na medida certa... - o anjo continuou:

-"Pai, os seres humanos são confusos, desordenados... O tempo todo clamam por mim, em todo tipo de situação! Dizem que a vida não é justa, que o Senhor, meu Pai, não é justo, reclamam, reclamam... Quando chego em seu socorro, muitas vezes, o que me pedem não é Justiça! Querem se tornar mais ricos - porque acham que merecem... - ou mais fortes, mais belos... Querem estender seus anos de vida, contrariando os destinos que, muitas vezes, foram tecidos por eles mesmos, em meio a desregramentos de toda espécie. Pior, Pai: na maioria das vezes, quando pedem Justiça, querem - na verdade - Vingança!!!"

Deus, que agora enchia os mares de vida naquele mundo, perguntou-lhe o que queria fazer...

-"Querido Pai, me deixa trabalhar no momento em que a Justiça se faz mais decisiva: no momento da morte! Me deixa trabalhar junto de São Pedro, nas Portas do Céu! Ali, sim, a Justiça poderá ser bem aplicada - dando a cada um segundo suas obras!"

Nosso Pai, que por alguns momentos se perdia apreciando a vida marinha que havia criado e se perguntava já era hora dessa vida se sentir livre,  prá caminhar pela terra daquele mundo novo tão lindo, respondeu ao filho que, se era tão importante assim prá ele, que fosse em direção às Portas...

              
E assim, naquele amanhecer maravilhoso, postou-se ao lado de São Pedro o belo Anjo da Justiça - alto e sério - e foi ali aprender o trabalho.

-"Aqui, embaixo do arco da porta, fica um dispositivo que mede a luz de cada alma que por ela passa. Cada pessoa que aqui tenta entrar, ao passar por ela, tem a luz do coração aceso, na cor e intensidade de suas boas obras - ou apagado, nas trevas em que se afundou na vida".

O anjo ouvia tudo com atenção e anotava, volta e meia, algo que achasse mais importante em seu caderninho de notas...

São Pedro então, segurando a velha e já meio torta chave do céu, girou-a dentro da fechadura e abriu a porta - e a fila de almas se formou, quase infinita! 

O Anjo da Justiça reparou logo nas duas primeiras pessoas que adentraram a porta,  em quão pouco  seus corações brilhavam e questionou São Pedro à respeito, ao que o bom velhinho respondeu:

-"Raras são as pessoas que brilham com grande intensidade - algumas mães e pais conseguem isso, pela abnegação que tiveram... - mas a grande maioria dos corações humanos brilha com apenas uma luzinha fraca, quase imperceptível aos olhos da maioria de nós. Nosso trabalho, caro anjo, é apenas recepcionar essas almas - a porta é que faz o pré-julgamento, deixando passar quem Deus assim permite...".

O anjo, pensando um pouco, anotando outro tanto, continuou olhando as luzes daquela fila quase interminável de seres...

Quase no final da tarde, cansado de olhar e de anotar, o anjo tocou de leve no braço de São Pedro e pediu um minutinho da atenção dele, levando-o para a abertura da porta, barrando assim qualquer entrada - e o fluxo se interrompeu.

-"São Pedro, temos que colocar uma ordem nessa fila! É tanta gente que entra no céu com o coração brilhando quase nada - duvido que, após o julgamento divino, elas continuem lá dentro! 

Deixá-las entrar é sobrecarregar o Criador, que já tem tanto trabalho!!! 

Sugiro que um de nós fique do lado de dentro da porta e que, qualquer coração que brilhar menos que uma vela, seja direcionado diretamente ou para o Purgatório ou para o Inferno! 

Assim evitaremos que pecadores conspurquem o  Paraíso - Deus, certamente, irá aprovar isso: nada de mentirosos e enganadores transitando pelo céu, nunca mais!!!"

São Pedro,  que enquanto ouvia o anjo falar sacudia o pó da barra de seu manto, perdendo o equilíbrio, por um momento apoiou-se no batente da porta e disse:

-"Mas, caro irmão anjo... Talvez aquela luz tão fraquinha, que você despreza, seja importante na salvação daquela alma dos tormentos do Inferno! 

Veja bem: mesmo tendo levado uma vida de erros, talvez essa alma tenha tido uma - talvez uma única... - atitude na vida de amor e caridade, atitude essa que pode ter mudado ou até salvado uma outra vida! Quem somos nós prá negar-lhes a chance de merecer o Céu?!"

Indignado, o anjo disse: 

-"Ladrões? Assassinos? Criminosos das piores espécies - esses não tem salvação alguma, nada que fizeram na vida pode apagar seus erros passados!!!"

São Pedro, que fora homem na terra e que também cometera erros - lembrando-se, inclusive, até aquele dia, das vezes que negara o Cristo de Deus antes que cantasse o galo, olhou tristemente para o anjo e disse:

-"Lembra-te, querido anjo, que Jesus foi crucificado ao lado de um ladrão, que foi seu único companheiro na derradeira hora... Naquele dia tão triste, o ladrão atravessou junto dele esta mesma porta..."

O anjo, inflexível como só a Justiça consegue ser, continuou insistindo e insistindo. 

Pediu a São Pedro que lhe desse uma chance até o final daquele dia: que aquelas centenas de pessoas que aguardavam a vez de atravessar a porta fossem a sua experiência - e depois disso, confeririam o resultado e a aprovação do Criador.

-"Mas e aqueles que você não deixar entrar no Paraíso? O que será deles?" - perguntou São Pedro.

-"Ora, se seus corações não brilham de verdade, não são merecedores do céu - que se dirijam às outras portas, aonde quer que conseguirem entrar!"

São Pedro, suspirando, apoiou-se novamente no batente da porta e saiu da frente dela, deixando o Anjo da Justiça a dois passos prá dentro...

O coração da primeira pessoa que tentou atravessar a porta não emitiu luz nenhuma, assim como da próxima dezena de outras. 

O anjo, sem clemência, ia separando todas elas de lado, atônitas, quando São Pedro, querendo testar uma coisa, atravessou ele mesmo a porta - e, igualmente, nenhuma luz se acendeu!!!

-"Ora essa, está quebrado o mecanismo!" - disse São Pedro, olhando espantado para o anjo...

-"Quebrado? Mas...  isso é impossível?"

-"Não, não, às vezes acontece..." - respondeu, travesso, São Pedro. "Me lembro de uma vez, acho que foi na Peste Negra - morria tanta gente naquele tempo, a porta não aguentou...".

-"Bom, então até que se conserte o mecanismo, daremos por fechadas as Portas do Céu!!!" - disse o anjo, ao que São Pedro, sempre bondoso, retrucou:

-"Mas não pode, caro anjo: as Portas do Paraíso devem sempre permanecer abertas!!! Assim determina o Criador!"

-"Não! De modo algum! Isso está errado! Vamos fazer o quê, então? Sem o mecanismo prá medir as luzes emitidas pelos corações deixaremos entrar a todos???"

-"Isso mesmo! Os bons não podem ser punidos injustamente! Além do mais, depois, lá dentro, o Deus que tudo sabe e tudo vê dará a cada um o destino que merece!"

-"Não concordo! Façamos assim: são poucas as almas que restaram, apenas algumas centenas. Deixemos elas aqui, do lado de fora e amanhã, após o conserto da máquina, elas passarão com os recém chegados! Ou então, melhor ainda: que voltem prá Terra, que lá fiquem vagando até ter uma nova chance, nem precisam ficar aqui, ocupando espaço...".

Espantado com a falta de misericórdia do Anjo da Justiça, São Pedro - que não sabia apenas ser doce e terno, mas também firme e inflexível como a própria Justiça, disse assim:

-"Você teria coragem de deixar aqui, numa espera tormentosa e cheia de ansiedade, essas pobres almas que atravessaram os umbrais da morte, que a muito custo aqui chegaram, pesadas das lágrimas dos que ficaram, arrastando os fardos imensos de seus arrependimentos, sem uma definição do seu destino? Pior ainda: as mandaria de volta à Terra, lugar ao qual não mais pertencem, para vagarem em meio à saudade e à dor???"

Sem saber o que responder, foi a vez do anjo espantar o pó de seu manto...

São Pedro, aproveitando o silêncio do jovem anjo - que ainda tinha muito que aprender a respeito do Amor e  sua grande irmã, a Caridade, disse assim;

-"Tive um amigo, quando vivi na Terra. 

O melhor amigo que alguém podia ter, que não julgava a ninguém, que acolhia em seus braços amorosos pecadores de todo tipo, dando a todos uma segunda chance... 

Uma vez ele me disse que o Pai dele - que calha de ser Nosso Pai também - queria Misericórdia, e não Sacrifício... 

Também ele - que era o único sem pecado ou maldade - disse que seríamos medidos pelas medidas que usássemos prá medir os outros e que o julgamento só cabia a Deus... 

Por hoje - e enquanto a máquina estiver quebrada - as Portas do Céu deverão ficar abertas!".

Envergonhado, o Anjo da Justiça deu dois passos para o lado e, naquele final de tarde, estiveram franqueadas as Portas do Céu!

                  *    *    *

A frase do início da postagem foi tirada de um livro que li na infância: "Assassinato na Casa do Pastor", de Agatha Christie

Engraçado como algumas coisas grudam na gente: nunca parei de pensar nessa frase, em toda a minha vida - e na genialidade da autora em escrevê-la. É linda, não é? Inspiração divina, não tenho a menor dúvida. No contexto do livro ela surge num diálogo entre dois personagens - um que se acha extremamente justo, que não perdoa nada nem ninguém, que segue aquilo em que acredita ao pé da letra e sem descontos e outro personagem, que acredita que a misericórdia é mais importante que a justiça...

A historinha de São Pedro, das Portas do Céu e do Anjo da Justiça fui eu que inventei, na esperança de colocar em palavras o que penso a respeito de um assunto banal do nosso dia a dia: o Bolsa Família

Um monte de gente é contra, chamam até de Bolsa Vagabundo... Como se alguém pudesse ficar rico com os valores que são pagos através dela - alguém de nós conseguiria viver com até 175 reais, que é o valor máximo? Falem sério...

A maioria das pessoas que é contra diz que é porque esse benefício é pago prá muita gente de forma fraudulenta, gente que não precisa nem merece - usurpadores. Infelizmente tá cheio deles mesmo... Deveria existir um fiscal prá examinar cada caso, prá decidir quem precisa e separar de quem apenas se locupleta com o dinheiro público - assim o dinheiro seria direcionado prá quem necessita de verdade, pois deve ter gente de monte que precisa e não consegue o benefício porque tem um pilantra recebendo em seu lugar. 

Mas, infelizmente, não existe ainda uma forma de exercer esse controle - burlar a lei humana é muito fácil...

Vou dizer uma coisa: se eu fosse a pessoa encarregada da distribuição do Bolsa Família e, na minha frente, tivesse cinquenta pessoas pleiteando o benefício e alguém sussurrasse no meu ouvido que metade delas era um bando de falsos, safados e sem-vergonhas (mas eu não tivesse como descobrir quem eram esses) EU DARIA O BENEFÍCIO A TODAS, sem pensar duas vezes. 

Se dentre elas só houvessem vinte realmente precisando, eu daria. 

Dez - eu daria.

Isso até me faz lembrar daquela historia da Bíblia, do anjo que desceu na terra tentando achar pessoas boas em Sodoma (ou era Gomorra?) prá assim a cidade não ser destruída. A cada hora o anjo baixava a expectativa: "E se eu só achar cinco pessoas, Deus - o Senhor poupa a cidade?" Tadinho do anjo - que trabalheira ele teve...

Mas é assim que tem que ser: os bons não podem pagar pelos maus. 

Até porque, prá alguém que sente fome, um prato de arroz com feijão é o próprio Paraíso...


Àquelas pessoas que me lembraram que o Bolsa Família foi obra da falecida Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente FHC, queria dizer que esse fato, como pessoa bem informada e consciente,  eu sempre soube - omito porque me convém, porque (conforme diz minha amada filha Lola...) não é porque os homens das cavernas inventaram a pintura que devem levar o crédito pela Mona Lisa - crédito tem que ser dado a quem faz o melhor uso, do que quer que seja...

O Bolsa Família é uma iniciativa bendita, que deveria existir a mais tempo e em toda a parte. Inclusive, no resto do planeta, esse benefício é elogiado e está sendo até copiado! Até a ONU elogia! A revista científica mais séria do planeta, existente deste 1823, chamada Lancet, publicada na Inglaterra, relaciona o Bolsa Família com a queda da mortalidade infantil (graças a ela, as mortes por desnutrição caíram 65%!!!) - e isso é resultado de pesquisa, não é coisa dita da boca prá fora, eleitoreira...  


Como um assunto puxa o outro, queria dizer mais uma coisa - um pedido de desculpas. Numa das postagens passadas eu xinguei várias vezes o ex-presidente FHC - muito errado da minha parte. Apesar de ter meus motivos prá estar chateada com ele, eu não tenho o direito de perder o rumo - não é essa a pessoa que eu quero ser. Quero ser uma alma que se esforça prá se melhorar, prá evoluir, pros meus filhos terem orgulho da mãe que tem...

Além do mais, ninguém deve ser obrigado a olhar meu pior lado, o monstrinho que eu tranco no porão é só da minha conta e de mais ninguém.
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