Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Dinheiro - prá quê dinheiro?

Não é porque eu não tenho muito, que eu não gosto... 

Sempre me vem em mente o seguinte pensamento: se eu faço milagres com tão pouco, o que eu não faria com mais? Ai, que grande Ministra da Economia o Brasil tá perdendo, só vou dizer isso...



Vai ver você é como eu: plantou um pé de dinheiro no fundo do quintal, rega, aduba, conversa com ele, joga beijo e ... nada.

Não é que a gente seja louca por dinheiro - mas temos por ele o maior respeito. Afinal, trabalhamos tanto prá consegui-lo, fazemos tanta coisa boa com ele... Quem acha que dinheiro é "do mal" nunca sentiu a alegria de fazer o bem com ele - bem empregado, é fonte de bençãos.

Remuneração do trabalho - coisa muito boa.

Pois é... A esperança de vê-lo florescer nunca morre, mas ele não colabora...

Talvez, ao invés de tê-lo semeado, eu deveria ter arrumado uma mudinha ... de alguém que tem de monte...


Ela não. Essa moça me assusta um pouco.

Mas... Que tal uma fábrica de dinheiro?


Dessa não, que é proibido! 

Uma na qual o principal operário é você mesma, a matéria prima são novelinhos de lã bem baratinhos e o instrumental de trabalho é um par de agulhas de tricô bem grossa - tipo nº 12?






Cada novelo de lã Mollet, no Bazar Horizonte, tá custando R$2,20. Com dois novelinhos apenas - menos de cinco reais - e duas horinhas do teu tempo - você faz esse cachecolzinho super gracioso, que você usa como gola bem juntinho ao pescoço e fica quentinha e linda!

Melhor: cria sua própria mescla! Eu usei um novelo preto e outro laranja, mas as possibilidades são infinitas - dá prá dar aquela levantada no visual e lotar o guarda-roupa de peças que não te deixam cair na mesmice...

Melhor ainda: dá prá ganhar um dinheirinho abençoado vendendo prás vizinhas, prás colegas do trabalho, no teu blog na internet!

Se você fizer 5 por dia - e dá prá fazer brincando... - e vender cada um por 20 reais (praticamente de graça...) tirando o custo dos novelos você ganha, líquido, quase oitenta reais!!! Tá lucrando, não tá explorando ninguém e, graças ao precinho camarada, vende mesmo!!! E isso se você comprar o novelo por unidade: se comprar o pacote fechado com cinco deles sai por menos de 10 reais o pacote na Aslan!

A receitinha (a mesma deste outro cachecol AQUI)é assim:

Com as duas lãs juntas monta 11 pontos na agulha 12, ponto tricô do avesso e do direito por 3 carreiras. Na quarta carreira faz dois pontos juntos em tricô, laçada - repete até o final da carreira e termina com um ponto tricô. Repete sempre essas quatro carreiras até acabarem as lãs, costura o começo no final e pronto!

Agora, quando você ficar milionária,não precisa dividir comigo os teus milhões - só manda construir uma praça bem bonita e coloca meu nome nela, com bancos bem confortáveis e muitas árvores prá fazer sombra. Prá eu tomar uma deforota na velhice...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Rainha

Auto-coroada, é bem verdade... Mas, e daí?

 

Se Napoleão pôde coroar a si mesmo, porque não eu?


(Sabiam que a comida favorita dele era fritada de ovo com batatas e cebolas? - hummm! Também gosto...)


Sinto muito, Napoleão, mas eu não aprecio homens sedentos de poder...

Além do mais, nasci prá governar um cantinho só do mundo, os poucos metros quadrados que tem a minha casa, do lado de um rei feito sob medida prá mim... Eis o tipo de rainha que eu sou: Rainha das Pechinchas e dos Saldões. Não conheço ninguém que saiba, como eu, fazer uma boa compra. 

E não é só no que diz respeito a tecidos, lãs e linhas... Vê só essa sandália de perua:



Não é bonitinha? (Não reparem nos pés, que tão meio velhos, meio usados, mas ainda dão pro gasto...). Pois paguei R$14,90 nesse par de sandálias lindinhas, super confortáveis, com um ligeiro saltinho, num saldão de final de estação na Besni do Shopping Metrô Tatuapé. Antes custava setenta reais, daí o inverno veio vindo e...

Comprei mais duas outras sandálias, cada uma custava anteriormente cerca de duzentos reais e paguei menos de sessenta em cada! Lindas, de excelente qualidade (porque, mesmo sendo saldo, tem que ser coisa boa - senão não levo...).

Não achou grande coisa? Como se diz, "Gosto não se discute"... Se todo mundo achasse bonita como eu acho, não tinha encalhado na loja e virado saldo. Mas, mesmo sem gostar, não pode deixar de concordar comigo que foi um achado, não é?

Jesus dizia que o corpo valia mais do que a roupa - e, nesse caso em particular, é mesmo muito verdade... A mulher que compra uma sandália de três mil reais e eu, com minha sandalinha de 15 contos, um dia não estaremos mais aqui e o que vai importar é prá onde fomos e não o que usamos nos pés enquanto íamos prá lá: no fim, tudo vai pro lixo, não importa o preço...

Tem gente que pode até criticar, torcer o nariz prá esse jeito de ser econômica, simples... Talvez sejam apenas acostumados a gastar, gastar, gastar... Ou porque nasceram com muito dinheiro no banco ou porque sonham ter muito - então procuram se vestir e calçar com o que tem de mais caro e melhor...

Melhor? Sei não...

Minha irmã foi promovida no trabalho - ela é professora de faculdade, faz pesquisas, cria medicamentos, já viajou prá um montão de lugares no mundo prá lançar os remédios que ela criou... A melhor amiga dela ficou mordida de inveja por causa disso, ficou um cargo abaixo - e daí começou a picotar minha irmã (mostrando que não era amiga porcaria nenhuma...), dizendo coisas do tipo: "Ela não merecia ser chefe de nada, é uma pobretona! Se veste com roupas da Torra Torra, enquanto eu só uso Daslu...".

Mostra o que sabe. Na Daslu, uma blusa de tricô que eu faço com 20 reais custa dois, três mil reais! E prá eles deve ter custado menos que vinte, pois foi fabricada na China...

Cada louco com sua mania... 



E também, que vantagem alguém tem de comer sardinha e arrotar caviar? Nenhuma, né?

Prefiro continuar no trono, governando sabiamente o meu pequeno mundinho - Rosa, a Rainha dos Saldos e Pechinchas. Com muito orgulho.
                 
                   ***
Ai, ai... Sandálias de perua, cheias de brilhinhos... Adoro.

Quando o verão chegar, vão pros pés!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Enquanto isso, no Dia dos Pais...


Um montão de gente lotando os shoppings, comprando camisas polos, gravatas e sei lá mais o que as pessoas compram pros seus pais - e eu aqui em casa, com a máquina de costura e a de overlock atrapalhando a mesa da cozinha, terminando um presente supimpa gastando uma merréca!

Um retalho de 1,5 m de um tecido de algodão bem fininho e delicado, super macio, que é cor de jeans com listrinhas brancas (embora a foto não mostre...)com fio tinto (sem avesso nem direito no pano...), que paguei apenas 4 reais no Varejão Chaves - que rendeu 3 shorts pro "Marildo" usar em casa, descontraído, prá assistir TV na sala ou prá dormir, usando uma regatinha hering:


Mais sete cuecas 100% algodão, feitas com muito amor por minhas mãozinhas velhas, usando retalho da Ronã Malhas - cada cueca saiu por menos de vinte centavos cada uma (preço do tecido, não estou contando o preço da linha nem do elástico, mas custaram baratinho também, pois compro na 25 de março...):

 (As cuecas tem passo a passo nesta postagem AQUI...)


Aliás, por falar na Ronã Malhas: a Fatinha, do Blog Costurar e Renovar fez uma postagem sobre essa loja da qual sou freguesa há muitos e muitos anos (bem AQUI). Graças a ela agora sei que mudou o endereço e logo vou lá conhecer e fazer minhas modestas comprinhas. 

A primeira vez que fui lá foi por recomendação de uma amiga do trabalho, chamada Rose. Era inverno e ela vinha pro trabalho usando uns vestidos bem básicos, de moletom grosso, parecendo regatas, cada dia um de cor diferente. Usava por baixo uma meia grossa de lã, botas e uma blusa cacharrel. Ficava muito linda e ela me disse que comprava o tecido e mandava fazer lá na Ronã, que tinha muitas costureiras e, dependendo do dia, você comprava o pano, encomendava a costura e daí uma hora e pouquinho ia lá pegar a peça pronta.

Naquele tempo eu não tinha tutu prá mandar fazer prá mim - então ficava só na vontade... Comprava moletom prá fazer prás crianças, fazia algo prá mim - sempre gostei do preço, da variedade de malhas e do atendimento...

E a Fatinha me disse que, quando foi tirar as fotos da loja prá por na postagem o gerente perguntou se ela era a "Rosa" - acredita? Me senti famosa!!! Ele disse que gosta do meu blog, o que me deixou super feliz...

Sempre faço tanta coisa boa com os paninhos que trago de lá, sejam retalhinhos ou comprados por quilo ou metro... Como esta blusinha (que tem passo a passo nesta postagem AQUI):


Ou estas roupinhas prá cachorro desta postagem AQUI:


E calcinhas? Quem acompanha o blog já aprendeu a fazer calcinhas comigo, nesta postagem AQUI - super fácil. Todas feitas com retalhinhos comprados na Ronã...



Ah, ainda tem este vestido azul lindo: minha Nana foi num casamento usando ele - e custou pouco mais de cinco reais (os botões foram mais caros que o vestido em si...). Não tem passo a passo dele, pois fiz copiando um vestido que eu tinha - aliás, fiz esse vestido prá mim, mas a Naninha pegou prá ela...



Pois é... Teve até uma vez que eu fiz milagre: com 23 reais eu fiz coisa prá caramba: vestido, camisetas, calcinhas e cuecas de monte... Tá duvidando? Então dá uma olhada nesta postagem AQUI...

Mas, quando eu voltar lá, não vou dizer a ele quem eu sou - ia ficar muito encabulada... Prefiro a tranquilidade do anonimato mesmo... Vai que ele pensa que eu tô querendo tirar vantagem, pedir desconto - eu ia ficar morta de vergonha...

Bom, graças a um lugar como esse é que eu posso fazer muita coisa linda, gastando pouquinho, me sentindo feliz e bem-aventurada por dar ao dinheiro o seu devido valor...

E o Marildo e seu presente do Dia dos Pais? Ele ganhou outros, dos filhos - mas os olhos dele brilharam com um orgulho danado, pois ele bem sabe que eu faço coisa de monte gastando muito pouco...

Agora faz assim: liga prá lá (11/2087-3353) e pergunta se tem o que você precisa. Daí coloca o endereço (Av. Doutor Timóteo Penteado, 1973 - Guarulhos) no GPS e tóca prá lá no domingo, comer pastel e comprar paninhos prá fazer um montão de coisas legais!

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Felicidade rima com simplicidade...

É do tamanho de um bairro, de tão grande - mas a casinha é modesta. A gente chega na porteira (sempre aberta) e sobe um caminho de terra que mede uns 200 metros, rodeado de pinheiros e lá está ela, no topo desse morrinho:




Escondidos do sol da tarde - apesar de ser pleno inverno - em meio à cerca viva se escondem os patos - tão mansos e lindos!


Aí a gente grita: "Ó de casa!!!" e ela aparece, sorridente, abraçando apertado a gente, com a alegria estampada no rosto - é tão bom ser bem vinda!


Tem mais de oitenta anos - não sei a idade ao certo... - tá meio surdinha (por causa de uma gripe mal curada, tinha que operar o ouvido mas o médico não recomenda...). Na foto ela está toda feliz usando um cachecol e uma boina que eu fiz prá ela... Seu nome é Gessy, dona Gessy, minha amigona.

É a "Rainha das Novenas", tá sempre rezando uma na casa de alguém ou na igrejinha... 

Emprestou o galpão da fazenda prá um casamento evangélico, da filha dos meus caseiros e foi uma das madrinhas (toda orgulhosa...). 

Casamento como não se vê na cidade: fartura, fartura, fartura... 

Nada daqueles salões com lugares marcados nas mesas, com dezenas de garçons e garçonetes trazendo um tico de comida como se fosse grande coisa: o cozinheiro é o melhor churrasqueiro da região, assou um boi inteiro, três porcos, sei lá quantas galinhas. 

Arroz grego de monte, maionese, refrigerante e bolo - precisa mais? 

Foi num sábado que começou - almoço depois do casamento no civil, no cartório da cidade. 

Oito da noite o casamento religioso, no galpão com um altar de treliça plástica, cadeiras e mesinhas também de plástico, tudo enfeitado com babados de cetim vermelho. Tudo aberto, cheirinho de mato, de noite cheia de estrelas...

O pastor, em sua melhor roupa, nem falava o português correto - nunca vi tantos erros gramaticais ao se rezar um Pai Nosso. Mas o que importa é a intenção, eu acho...

Jantar prá todo mundo que apareceu - não precisava convite. Presentes? Tinha duas opções: dar cinquenta reais prá ajudar com os gastos da festa ou trazer o que pudesse - jogo de copos, jarra de suco, panela, vaso de flor, toalhas... Tudo orgulhosamente arrumado numa mesa (plástica) no canto do galpão...

Sentada junto às filhas e noras da dona Gessy - as que eu conheço e as que eu nunca tinha visto - rindo e brincando e elas me dizendo o quanto a mãe delas gosta de mim.  Me disseram que ela liga prá contar que eu cheguei, que vim visitá-la - não é linda? Super e genuinamente carinhosa...

O casamento foi lindo, o noivo chorava! Eram católicos e não lhes era permitido casar (pois ele era divorciado), apesar de viverem juntos há mais de seis anos. Se converteram à Congregação Cristã do Brasil recentemente e resolveram receber as bençãos prá união - estavam felizes da vida, graças a Deus.

A festa não foi até a madrugada - meia noite tudo já estava quieto, pois todos trabalham também no domingo (as vacas não sabem que é domingo e precisam ser ordenhadas, as verduras tem que ser regadas, as galinhas precisam comer...).

Mas no domingo a festa continuou, pois ainda tinha comida de sobra e todos eram bem vindos pro almoço!

Na casinha da Dona Gessy a calmaria de uma casa de viúva:



O fogão de gás que serve apenas prá posicionar o aquário...


Comida mesmo é feita no capricho no fogão de lenha...


As galinhas são criadas soltas no quintal...


Coelhos nos viveiros...


Duas galinhas em uma casinha num galho de árvore, chocando - cliquem na foto que vão ver uma coisa linda: uma delas tem uma peruquinha!


Esta é uma das noras da dona Gessy: Claudicéia. Já falei dela nesta postagem AQUI. É a mulher mais inteligente do planeta, não tenho dúvidas disso. 

Se um dia o mundo acabar, Deus vai chamar ela prá ajudar a reconstruir... Sabe como ela estudou? Toda madrugada acordava, andava quase cinco quilômetros à pé até chegar à escola. Se estivesse chovendo ia descalça, carregando o sapato na sacola. Chegando lá ela lavava os pés e se calçava - pois só tinha um par de sapatos, não podia danar ele na lama... Na volta mais cinco quilômetros à pé, almoçava e trabalhava na roça até anoitecer - só aí fazia lição de casa e ia dormir. E fez o segundo grau completinho, muito bem feito - só não fez mais porque os pais precisavam dela na roça...

É ela quem ordenha todas as vacas (que não são poucas), quem decide o que vai ser plantado, o que vai ser vendido... Que cor vai ser pintada a igreja... Se tivesse estudo seria cirurgiã de cérebros, astronauta, engenheira, artesã - tudo ao mesmo tempo.

Nessa foto ela tá gritando: "Chiquinha!Vem Chi-chi-chiquinha!" - que é o nome que ela deu prá uma ovelha rejeitada pela mãe, que teve duas - isso acontece, às vezes. E é ela que dá de mamar aos enjeitadinhos...


Ela e o filho, Daniel. Puxou a inteligência da mãe, a índole boa e carinhosa da avó. Toda vez que eu venho visitar a avó ele pára o que estiver fazendo prá sentar junto e me escutar falar, contar as coisas de São Paulo - é super curioso. Tem só treze anos e é ele é quem cria os coelhos, os patos, gansos, cachorros...


Esse aí embaixo é o Faísca - apaixonado pela minha Lillo. É amor platônico, nunca ia dar certo - ela já é uma senhora de meia idade, ele ainda é um menino... Lindinho, né?


Voltando ao Daniel: esse menino é tão lindo, tão bonzinho, vocês nem imaginam... Ele vende as galinhas e, com o dinheiro, compra coisas pros outros - nunca prá ele. Meias pro pai, um rosário novo prá avó, brinco prá irmã (que estuda num internato rural, prá onde ele vai em 2015...), panela nova prá mãe. Adoro conversar com ele e ele adora conversar comigo... Me dá dicas de como tratar os bichinhos, entende de tudo!


Não é um amor?


Capturei momentos preciosos dele num balanço numa das árvores do quintal da avó - ele mora no mesmo quintal, mas diz que é dela...




Cerejeira japonesa carregadinha de flor, apesar da estiagem:



E o curioso caso de amor entre uma galinha e um pato: juro que é verdade verdadeira! Aonde essa galinha vai esse pato vai junto, não quer saber das patas branquinhas! Apaixonou-se por essa galinha de angola e Deus é quem sabe no que isso vai dar...


Sabe quando eu reclamo de ir pro sítio, que depois que a gente comprou ele eu nunca mais fui prá lugar nenhum? Pois é... Assim como se supõe que os bebês devem ser fofos e os adolescentes rebeldes, supõe-se também que, com a idade, vamos ficando meio rabugentos - não posso fugir muito da regra...


Mas estando aqui em São Paulo, onde tudo é asfalto, onde os pássaros que cantam são os corajosos bem-te-vis sobreviventes ou as maritacas fugitivas, onde as estrelas se escondem atrás das luzes da cidade e da poluição, não posso deixar de suspirar de saudades de um fim de tarde cheiroso, com sinfonia de grilos e rolinhas que se ajeitam nos ninhos e de um amanhecer no qual o despertador são os galos...

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A Gorda Gostosa

Me perdoem pelo título assim, meio pornô, mas ela é isso mesmo, não se pode fazer nada a respeito, pobrezinha - tão desrespeitada...
 
Não acredita? Então dá uma espiada:
 
 
Eu tava mentindo? Não, né?...Explode que eu deixo...
 
Foi amor à primeira garfada: lá estávamos nós no meio do caminho de alguma cidadezinha no Ceará - bons tempos, a gente viajava de avião, alugava lá um carrinho modesto e se embrenhava pelas quebradas - quanto mais perdido no oco do mundo era o lugar, mais a gente se divertia... Numa estradinha de terra entre uma cidadezinha e outra tinha uma casinha de tijolo sem reboque, com uma barraquinha de madeira à guisa de varanda e lojinha, umas mesinhas e cadeirinhas de plástico e uma placa escrita "Tapioca" - "magina" se a "Barriga de Sete Almoços" aqui não ia querer comer...
 
O "Marildo" torcendo o nariz, fresco e desconfiado com a higiene do lugar e eu dizendo "Só porque o lugar é simples, não quer dizer que é sujo...".
 
A moça muito simples mandou a gente sentar nas cadeirinhas e, em alguns minutos, trouxe de lá de dentro da casa uma bandeja com quatro pratinhos - prá mim e prás crianças) de umas tapiocas que eu nunca tinha visto na vida: eram redondinhas, bem certinhas, com pedacinhos de queijo de coalho no meio da massa, que era gordinha, com quase 2 cm de altura. Trouxe também um bule de alumínio com nata fresca (eu nem sabia o que era...).
 
Deus do céu, que coisa mais deliciosa!!! Prá comer de joelhos, agradecendo ao Pai por ter te dado sensibilidade prá sabores na língua - eu podia comer uma dúzia, sair de lá rolando...
 
Fomos embora, nunca mais voltamos e, embora eu tenha visitado outros estados do Nordeste brasileiro, jamais encontrei outra igual.
 
Pesquisei na internet e não achei como fazia - triste, né?
 
Daí, como eu já fazia há um tempo a tapioca com polvilho azedo, tentei fazer desse jeito e não gostei. Polvilho doce também não deu certo.
 
Então, como eu vivia aguada pela tal tapioca e não conseguia desistir de tentar fazer resolvi comprar a tapioca da Yoki - que eu não tinha me acertado muito bem, prá mim só o polvilho azedo é que dava o gostinho que eu amo.
 
E com a tapioca eu achei o Caminho das Índias, descobri a roda, inventei o fogo - totalmente exagerada... A que eu uso é esta aqui:
 
 
Vou ensinar a fazer uma - se você quiser fazer de montão, multiplica a receita, mas eu acho melhor sempre fazer a massinha uma de cada vez - por questões de absorção de líquidos da tapioca em si.
 
Ingredientes:
 
5 colheres (sopa) bem cheias de Tapioca da Yoki;
1 colher (sopa) de açúcar;
5 colheres (sopa) de coco ralado;
4 a 5 colheres (sopa) de leite de coco (pode substituir por leite ou água, mas leite de coco faz ficar sublime).
 
Aquece a frigideira antiaderente, posiciona nela um aro de metal (daqueles de fritar ovo bonitinho - custa uns quatro, cinco reais em loja que vende panelas).
 
 
Mistura os ingredientes da tapioca - fica uma massa grossa, parecendo cimento que pedreiro usa prá assentar tijolo, só que branquinha. Amassa com a colher prá ficar encaixadinha na forma e bem lisinha em cima.
 
Daí explora a gostosura da coisa: com as pontas dos dedos pega um punhado de açúcar e polvilha por cima. Deixa em fogo baixo - se der  dá uma tampada, que é prá cozinhar bem por dentro.
 
Com uma faquinha dá uma soltada nas bordas da forminha, depois de uns 2 ou 3 minutos de cozida e levanta a forminha. O formato se mantém e agora, com uma espátula, você vira a tapioca. Polvilha açúcar nesse lado também - assim dá uma caramelada e sela a tapioca.
 
 
Resultado: ela fica crocantinha por fora, ultra macia por dentro, coquenta (que quer dizer cheinha de coco)...
 
Cortei em quatro prá vocês verem como fica por dentro:
 
 
 
Sabe cocada? Não gosto, acho doce demais, com coco duro e sem graça. Mesmo a melhor cocada eu acho meio enjoada... Essa tapioca fica maravilhosa, úmida, doce na medida certa - e você pode comer com nata também, que vende pote na maioria dos mercados.
 
Pode substituir o coco pelos pedacinhos de queijo coalho e usar sal em lugar do açúcar - também fica uma delícia, sabor do sertão nordestino.
 
Outro dia fiz uma assim, salgada, só que numa frigideira grande, prá dividir em pedaços e servir com um chazinho à tarde:

 
E com requeijão em cima:
 
 
Tapiocas feitas de puro amor...
 
 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ta-ta-tapioca! Ta-ta-tapioca!

"Maria tá peneirando..."
 
 

E a perua passa na rua e a tua boca já enche de água, não é? Já comprou dessa van que passa na rua ou só comeu no quiosque do shopping? É bom demais, né? Tem tantos sabores, tantos recheios... É a cara do Brasil - e ninguém pode discordar de mim: com um cafezinho: Hummmmm!
 
E a ideia de fazer uma postagem sobre tapioca aconteceu assim: nem bem voltei do sítio lá fui eu no Supermercado Sonda, comprar umas besteirinhas que tavam faltando. Daí, no corredor de refrigerados (onde fui atrás de manteiga - as margarinas que me perdoem, mas natural é sempre melhor em sabor e saúde) e lá estava minha enteada e, de costas, a mãe dela. Eu brinquei: "Trouxe a sua irmã prá fazer compras?" - porque ela tava linda, botinha de salto alto, calça jeans destroyed, camiseta preta bem justinha e cabelo de escova. Ai, pensar que eu tive tanto ciúmes dela, por ser mais bonita, mais nova, mais endinheirada... Por ter sido o primeiro amor do meu "Marildo"... A gente sabe nada quando é jovem, só vivendo é que a gente aprende...
 
Ela escutou a brincadeira, sorriu e veio me abraçar e beijar, toda feliz - sabe que o elogio não é da boca prá fora, gosto dela mesmo...
 
Quase três anos atrás ela sofreu muito. O marido dela teve câncer na próstata, que passou pro fígado, depois pros ossos... Foi um sofrimento que ninguém no mundo merece, uma coisa absurda - e ela não arredou o pé do lado dele. Eu assisti de longe, imaginando um pouco o sofrimento. Ele faleceu e minha enteada estava grávida, dois meses depois nasceu o bebê. Lá estávamos nós três no Hospital, prá assistir o parto: ela (a avó materna), a sogra da minha enteada e eu (a avó penetra). Foi lindo, chorei feito criança... E ela tava tão abatida, tão acabadinha... A pele toda manchada e ressecada, os cabelos parecendo de boneca velha, com umas quatro cores, sem vida nem brilho. Vestida de qualquer jeito...
 
Parecia sabe o quê? Aquelas esposas de faraó, que eram enterradas vivas junto com o marido quando ele morria...
 
Eu nem sabia o que falar - vai que eu tento ajudar e pioro as coisas? Podia se ofender e, além do mais, cada um tem que superar suas dores no seu tempo...
 
Daí, no almoço de Natal, lá estava ela toda arrumada, maquiada, bem vestida! Remoçada. Conversando comigo minha enteada me contou que o sofrimento do padrasto era tanto, mas tanto, que nem morfina resolvia. Só o que aliviava um pouco era ela abraçar as pernas dele, daí ele conseguia dormir um pouco... Ela ficou do lado dele, em casa e depois no Hospital do Câncer, dia e noite. Nem banho tomava, não se alimentava direito...
 
Daí ela mesma me contou que uma "amiga" zombou dela, de como estava acabada e foi assim que ela reagiu - "amiga da onça", mas que acabou lhe fazendo um favor...
 
Tá namorando um homem dez anos mais jovem, todo marombado, fica mostrando fotos dele tiradas no celular prás minhas filhas, agindo feito adolescente de novo - bom prá ela. A gente tem que ser feliz, não é mesmo? Ainda mais uma mulher de valor como ela, que fez direitinho a sua parte na hora do aperto...
 
Bom, e lá estava ela no supermercado e veio me pedir prá ensinar a fazer tapioca - que a filha dela disse que as minhas são as melhores...
 
Ali mesmo ensinei rapidinho - que é muito fácil. E olha só que curioso: uma amiga também pediu prá eu ensinar a fazer tapioca, através do facebook...
 
Então: tem de vários tipos - eu faço de dois: a salgada, com recheio de mussarela (mas você pode rechear do que quiser...) e a doce (que eu faço de coco). Na postagem de hoje vou ensinar a salgada, amanhã ensino a doce - senão a postagem fica grande demais.
 
Você vai precisar de:
 
Polvilho azedo (daqueles de fazer pão de queijo); água; sal; manteiga derretida; fatias de mussarela. Uma frigideira com anti aderente e uma espátula.
 
O polvilho tem que ser hidratado com água e tem uma proporção: quatro partes de polvilho prá uma e meia de água - mas isso não é exato, pois depende do polvilho que você vai usar. O polvilho que eu uso é este aqui:
 
Coloque numa vasilha grande o polvilho (quatro xícaras) e salgue um pouco (uma colher de chá de sal). Se for fazer tapioca doce coloque umas três colheres (sopa) de açúcar e umas gotinhas de baunilha prá ficar supimpa. Mexa bem e jogue uma xícara de água. Se for fazer doce pode substituir parte da água por leite ou leite de coco. Mexa bem (com as mãos), desmanchando os caroços que ficam.
 
Vai jogando o restinho da água que falta aos poucos: não pode ficar muito molhado, senão vira uma maçaroca e também não pode ficar seco, senão não dá liga...
 
Daí tem que peneirar - senão os caroços não desmancham e a pessoa que vai comer come bolotas de pó...
Fica uma farinha granulada desse jeito, cada bolotinha bem pequenininha. Você pode guardar essa farinha num pote, na geladeira, por até uma semana e ir fazendo tapiocas todo dia.
 
Daí apronta tudo o que você vai precisar: a farinha granulada, a manteiga derretida e a mussarela fatiada.
 
Esquenta a frigideira antiaderente  - sem untar com nada, a frigideira sequinha. Vai jogando a farinha com a colher, espalhando pelo fundo uma camada homogênea. Numa frigideira de 20 cm de diâmetro eu coloco de quatro a cinco colheres de sopa. Pode colocar mais, se quiser a tapioca mais gordinha, mas eu e todo mundo aqui em casa preferimos mais fininha. Fogo baixo.
 
Todo o fundo tá coberto e o calor da chama tá fazendo as bolotinhas se fundirem umas nas outras, se abraçando e formando um tipo de crepe, como uma panqueca sequinha.
 
Joga uma colher de manteiga derretida de um dos lados da tapioca - assim ela fica mais úmida e saborosa.
 
Por cima da manteiga coloca o queijo.
 
Agora repara numa coisa: as beiradinhas tão se levantando - sinal que a massa tá quase cozida (você não quer comer tapioca crua, né?)
 
Então, já que as beirinhas já levantaram, pega uma espátula e dobra a tapioca. Pode enrolar quiném panqueca, faz do jeito que você mais gostar, a tapioca é tua.
 
 
Reparou nos farelinhos que ficam na frigideira? Depois que acaba de fazer cada tapioca, passa a espátula na frigideira e joga eles fora, senão eles acabam fazendo parte da próxima que você vai fazer e eles ficam duros como grãos de areia, horríveis de se morder...
 
Vira a tapioca do outro lado, prá terminar de derreter o queijo bem e ficar bem cozidinha.
 
Vai amontoando elas no prato - nesse dia o lanchinho foi tapioca, cinco prá cada, meus filhos e o Marildo "deitaram o cabelo" nelas... Pelo Marildo teria cinco quilos de queijo dentro de cada uma, mas as crianças gostam assim - e não se brinca com o colesterol na idade da gente...
 
Por dentro ficam assim: molinhas, queijosinhas, gostinho suave que lembra pão de queijo.
 
Ficaram fininhas demais pro teu gosto? Faz gordonas! Recheia com queijo e presunto, com frango, sei lá, inventa um recheio!
 



 
Faz doce, com recheio de coco fresco, doce de leite, pêssego em calda fatiado e chocolate branco...
 
Achou difícil? É não.
 
Faz assim: experimenta fazer uma só: cinco colheres de sopa de polvilho azedo, uma colher e meia de água, uma pitada de sal. Peneira com aquela peneirinha de coar chá. Faz só uma prá pegar o jeito, perder o receio...
 
Garanto que você vai querer ter essa farinha num pote na geladeira prá fazer uma na hora do café, fresquinha e quentinha... Prá oferecer prás Migas quando vem te visitar... Pros filhotes quando voltam da escola... Pros netinhos.
 
Ah, não presta fazer e guardar prá depois: fica ruim, perde a maciez. Tem que fazer na hora e comer quentinha, tá bom?
 
E amanhã eu ensino outra, tão gostosa quanto, que é doce e gordinha, lembra uma cocada, feita com tapioca mesmo...
 
Mas tenham consciência de uma coisa: uma vez que você faz a primeira, tua família vai querer sempre - ainda mais quando a perua passar na tua porta tocando a musiquinha... Daí vocês estarão condenadas a fazer, prá sempre e sempre, pois ficam deliciosas...
 
Cozinhar bem é uma bênção - e uma maldição...
 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...