É do tamanho de um bairro, de tão grande - mas a casinha é modesta. A gente chega na porteira (sempre aberta) e sobe um caminho de terra que mede uns 200 metros, rodeado de pinheiros e lá está ela, no topo desse morrinho:
Escondidos do sol da tarde - apesar de ser pleno inverno - em meio à cerca viva se escondem os patos - tão mansos e lindos!
Aí a gente grita: "Ó de casa!!!" e ela aparece, sorridente, abraçando apertado a gente, com a alegria estampada no rosto - é tão bom ser bem vinda!
Tem mais de oitenta anos - não sei a idade ao certo... - tá meio surdinha (por causa de uma gripe mal curada, tinha que operar o ouvido mas o médico não recomenda...). Na foto ela está toda feliz usando um cachecol e uma boina que eu fiz prá ela... Seu nome é Gessy, dona Gessy, minha amigona.
É a "Rainha das Novenas", tá sempre rezando uma na casa de alguém ou na igrejinha...
Emprestou o galpão da fazenda prá um casamento evangélico, da filha dos meus caseiros e foi uma das madrinhas (toda orgulhosa...).
Casamento como não se vê na cidade: fartura, fartura, fartura...
Nada daqueles salões com lugares marcados nas mesas, com dezenas de garçons e garçonetes trazendo um tico de comida como se fosse grande coisa: o cozinheiro é o melhor churrasqueiro da região, assou um boi inteiro, três porcos, sei lá quantas galinhas.
Arroz grego de monte, maionese, refrigerante e bolo - precisa mais?
Foi num sábado que começou - almoço depois do casamento no civil, no cartório da cidade.
Oito da noite o casamento religioso, no galpão com um altar de treliça plástica, cadeiras e mesinhas também de plástico, tudo enfeitado com babados de cetim vermelho. Tudo aberto, cheirinho de mato, de noite cheia de estrelas...
O pastor, em sua melhor roupa, nem falava o português correto - nunca vi tantos erros gramaticais ao se rezar um Pai Nosso. Mas o que importa é a intenção, eu acho...
Jantar prá todo mundo que apareceu - não precisava convite. Presentes? Tinha duas opções: dar cinquenta reais prá ajudar com os gastos da festa ou trazer o que pudesse - jogo de copos, jarra de suco, panela, vaso de flor, toalhas... Tudo orgulhosamente arrumado numa mesa (plástica) no canto do galpão...
Sentada junto às filhas e noras da dona Gessy - as que eu conheço e as que eu nunca tinha visto - rindo e brincando e elas me dizendo o quanto a mãe delas gosta de mim. Me disseram que ela liga prá contar que eu cheguei, que vim visitá-la - não é linda? Super e genuinamente carinhosa...
O casamento foi lindo, o noivo chorava! Eram católicos e não lhes era permitido casar (pois ele era divorciado), apesar de viverem juntos há mais de seis anos. Se converteram à Congregação Cristã do Brasil recentemente e resolveram receber as bençãos prá união - estavam felizes da vida, graças a Deus.
A festa não foi até a madrugada - meia noite tudo já estava quieto, pois todos trabalham também no domingo (as vacas não sabem que é domingo e precisam ser ordenhadas, as verduras tem que ser regadas, as galinhas precisam comer...).
Mas no domingo a festa continuou, pois ainda tinha comida de sobra e todos eram bem vindos pro almoço!
Na casinha da Dona Gessy a calmaria de uma casa de viúva:
O fogão de gás que serve apenas prá posicionar o aquário...
Comida mesmo é feita no capricho no fogão de lenha...
As galinhas são criadas soltas no quintal...
Coelhos nos viveiros...
Duas galinhas em uma casinha num galho de árvore, chocando - cliquem na foto que vão ver uma coisa linda: uma delas tem uma peruquinha!
Esta é uma das noras da dona Gessy: Claudicéia. Já falei dela nesta postagem AQUI. É a mulher mais inteligente do planeta, não tenho dúvidas disso.
Se um dia o mundo acabar, Deus vai chamar ela prá ajudar a reconstruir... Sabe como ela estudou? Toda madrugada acordava, andava quase cinco quilômetros à pé até chegar à escola. Se estivesse chovendo ia descalça, carregando o sapato na sacola. Chegando lá ela lavava os pés e se calçava - pois só tinha um par de sapatos, não podia danar ele na lama... Na volta mais cinco quilômetros à pé, almoçava e trabalhava na roça até anoitecer - só aí fazia lição de casa e ia dormir. E fez o segundo grau completinho, muito bem feito - só não fez mais porque os pais precisavam dela na roça...
É ela quem ordenha todas as vacas (que não são poucas), quem decide o que vai ser plantado, o que vai ser vendido... Que cor vai ser pintada a igreja... Se tivesse estudo seria cirurgiã de cérebros, astronauta, engenheira, artesã - tudo ao mesmo tempo.
Nessa foto ela tá gritando: "Chiquinha!Vem Chi-chi-chiquinha!" - que é o nome que ela deu prá uma ovelha rejeitada pela mãe, que teve duas - isso acontece, às vezes. E é ela que dá de mamar aos enjeitadinhos...
Ela e o filho, Daniel. Puxou a inteligência da mãe, a índole boa e carinhosa da avó. Toda vez que eu venho visitar a avó ele pára o que estiver fazendo prá sentar junto e me escutar falar, contar as coisas de São Paulo - é super curioso. Tem só treze anos e é ele é quem cria os coelhos, os patos, gansos, cachorros...
Esse aí embaixo é o Faísca - apaixonado pela minha Lillo. É amor platônico, nunca ia dar certo - ela já é uma senhora de meia idade, ele ainda é um menino... Lindinho, né?
Voltando ao Daniel: esse menino é tão lindo, tão bonzinho, vocês nem imaginam... Ele vende as galinhas e, com o dinheiro, compra coisas pros outros - nunca prá ele. Meias pro pai, um rosário novo prá avó, brinco prá irmã (que estuda num internato rural, prá onde ele vai em 2015...), panela nova prá mãe. Adoro conversar com ele e ele adora conversar comigo... Me dá dicas de como tratar os bichinhos, entende de tudo!
Não é um amor?
Capturei momentos preciosos dele num balanço numa das árvores do quintal da avó - ele mora no mesmo quintal, mas diz que é dela...
Cerejeira japonesa carregadinha de flor, apesar da estiagem:
E o curioso caso de amor entre uma galinha e um pato: juro que é verdade verdadeira! Aonde essa galinha vai esse pato vai junto, não quer saber das patas branquinhas! Apaixonou-se por essa galinha de angola e Deus é quem sabe no que isso vai dar...
Sabe quando eu reclamo de ir pro sítio, que depois que a gente comprou ele eu nunca mais fui prá lugar nenhum? Pois é... Assim como se supõe que os bebês devem ser fofos e os adolescentes rebeldes, supõe-se também que, com a idade, vamos ficando meio rabugentos - não posso fugir muito da regra...
Mas estando aqui em São Paulo, onde tudo é asfalto, onde os pássaros que cantam são os corajosos bem-te-vis sobreviventes ou as maritacas fugitivas, onde as estrelas se escondem atrás das luzes da cidade e da poluição, não posso deixar de suspirar de saudades de um fim de tarde cheiroso, com sinfonia de grilos e rolinhas que se ajeitam nos ninhos e de um amanhecer no qual o despertador são os galos...