Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Projeto Fada Madrinha



Quando eu era menina, durante algum tempo, eu sofria de desmaios. Era uma coisa maluca: cheiros fortes, medo, nervoso e eu Puff! Apagava. Foi no começo da adolescência, eu tinha onze anos. Comecei a fazer educação física no ginásio e volta e meia eu desmaiava. Na aula aconteceu uma vez, aconteceu também na padaria do meu tio. Outra vez eu fui levar um sapato prá colocar sola nova no sapateiro perto de casa e desmaiei lá dentro (já pensou hoje em dia, onde tem um pedófilo em cada esquina? Sorte minha que o sapateiro era um velhinho bonzinho, foi prá porta, gritou prá alguém chamar minha mãe, ficou me abanando...).

Então a diretora da escola, dona Janes (assim mesmo, com "s" no final) chamou minha mãe e falou prá ela me levar no médico.

Com essa idade eu parei de comer carne (prá irritar meu pai - se fosse hoje em dia eu faria tatuagens e colocaria piercings, mas naquele tempo esse era o instrumento de revolta que eu tinha em mãos...) então minha mãe achava que eu estava anêmica demais e por isso desmaiava. Ela e meu pai queriam me dar fígado cru batido no liquidificador, mas não conseguiam me fazer beber (sem que eu desmaiasse do nervoso...) então me levaram no médico do sindicato dos metalúrgicos, lá perto da Praça da Sé. Ele então me encaminhou prá uma psiquiatra - talvez tenha achado que eu era depressiva, pois eu era muito tímida.

Bom, a tal psiquiatra me atendeu por três vezes seguidas. Eu chegava lá, ela me fazia um montão de perguntas, conversava bastante comigo. Me dava um montão de livros prá eu resolver enigmas, olhar figuras e dizer qual era o negativo delas, onde estavam as diferenças. Parecia mais uma brincadeira - eu até gostava.

No final da terceira vez ela disse prá minha mãe que queria conversar com ela e também com meu pai - e marcou uma sessão prá semana seguinte. Meu pai veio com a gente - como sempre eu vomitei o caminho todo, quando eu era pequena ficava enjoada quando andava de ônibus...

Ela disse pros meus pais que eu era muito inteligente (quantificou meu QI com um número, o qual não vou dizer pois acho esse história de quantificar as coisas uma tremenda baboseira...) e que se eles investissem em mim, eu daria muito orgulho prá eles. Que eu podia ser médica, engenheira, cientista...

Meus pais ficaram cheios de si e perguntaram que tipo de investimento tinham que fazer.

Ela disse que eu tinha que ter um quarto só meu, com respeito à minha individualidade, com uma boa mesa de estudos, livros à vontade, alimentação de qualidade, paz e sossego (pois eu havia contado prá ela das surras, das brigas, da pobreza...).

Meus pais ficaram meio bobos, sem saber o que dizer - e eu é que abri a boca.

-"Olha, doutora, eu acho que a senhora não tá entendendo como é que a coisa funciona lá em casa: eu tenho cinco irmãos menores, somos muito pobres e, na maioria das vezes, se a gente almoça, não sabe se vai ter janta. E mesmo se meus pais pudessem se sacrificar prá me dar essas coisas aí que a senhora tá falando eu nunquinha que ia querer ter coisas melhores que os meus irmãos! Vamos embora, mãe, que isso aqui foi só perda de tempo. Vomitei todas essas vezes à toa..."

E a gente foi embora. Meu pai, revoltado, me deu um tapão na orelha quando a gente chegou lá fora, prá eu parar de ser tão tagarela. Daí pegou minha mãe pela mão e, arrastando ela pro meio da rua, falou que nós três íamos morrer juntos naquela hora, atropelados, que essa vida miserável não valia mesmo ser vivida...

Mas não era as hora de nenhum de nós três, graças a Deus. Nossas vidas continuaram.

Eu nunca tive um quarto só prá mim, sempre fiz minhas lições de casa na mesa da cozinha, escutando brigas intermináveis e os livros à minha disposição eram os da Biblioteca pública mesmo - e posso dizer que me saí muito bem, apesar de tudo.

Só prá vocês terem uma ideia: quando entrei na sétima série e fui aprender inglês pela primeira vez foi um pesadelo. Eu morria de medo do professor, que me parecia um homem mal, grosseiro e não conseguia aprender. Tirava notas baixas, corria o risco de ser reprovada...

Tomei a decisão de aprender de qualquer jeito: fui na Biblioteca da Penha, peguei dicionário de inglês/português emprestado, peguei livros totalmente em inglês e passava minhas tardes traduzindo os livros, entendendo a mecânica da língua, por conta própria. Minhas notas ficaram ótimas e hoje, embora eu não seja fluente na conversação (principalmente porque tenho vergonha do meu sotaque chinfrinzinho) posso assistir qualquer filme, qualquer noticiário em inglês que entendo tudo.

A mesma coisa quando tive dificuldade em matemática no ensino médio, em física - me virei sozinha, com livros da Biblioteca.

Mas às vezes eu me pergunto como teria sido a minha vida se ela tivesse sido diferente - se um dos meus tios, por exemplo, notando a sobrinha cheia de vontade de aprender, tivesse dado uma mãozinha, um estímulo.

Não que eu me queixe: acho que qualquer mudança na minha vida em qualquer ponto lá atrás teria me dado um futuro diferente, no qual eu seria outra pessoa, talvez teria outro marido, outros filhos - e eu adoro do jeito como as coisas são...

Às vezes as dificuldades nos moldam melhor... Fazem aflorar coisas boas, por incrível que pareça.

Essa história de Projeto Fada Madrinha tem me acompanhado por toda a vida - não é coisa que eu inventei prá mim mesma só agora. Já fiz esse tipo de coisa antes e posso dizer que, se Deus permitir, só vou parar depois de morta. Mas não vou aqui cansar vocês com histórias passadas, de coisas grandes e coisinhas triviais que estenderiam essa postagem cansativamente.

Vou dizer só o que fiz desta vez.

Minha Lola tem essa amiga que é a mais querida que ela já teve - são almas gêmeas, poderiam até ser irmãs, não se largam. Aliás: a Fernanda bem poderia ser minha filha, de tanto que se parece comigo, na índole, nos gostos... Só que é diferente de mim em uma coisa: ela é doce e meiga, eu sou mais do tipo triste e cansada (eu me vejo por dentro como ninguém me vê, então se eu digo que sou triste e cansada, acreditem, é a pura verdade).

E vendo ela assim, tanto potencial, tantas esperanças, tantos sonhos, senti no meu coração uma urgência enorme de ajudar, de dar um empurrãozinho prá todo esse potencial se desenvolver.

Ela está desempregada já há um bom tempo. Falou prá Lola me pedir prá fazer umas eco-bags de algodão cru prá ela poder pintar e vender, prá não ficar sem dinheiro - e ela tem um talento assombroso, desenha e pinta como uma verdadeira artista.

E a Lola me contou que ela costura à mão, devagarinho e com a maior paciência - e que o sonho dela, desde pequena, era ter uma máquina de costura.

Eu tinha conversado com o "Marildo" e ele me havia dito que, chegando o aumento de salário dele, eu ia poder dar a máquina de costura prá ela ("já que eu queria tanto e já que eu achava que ela tinha esse merecimento" - como ele disse) de prestação, no começo do ano que vem.

Ano que vem? E a urgência do meu coração, batendo descompassado, apressado, querendo prá ontem???

Então, sem contar nem pro meu marido nem pro meu filho (que, graças a Deus, não leem o blog...) e com o incentivo das minhas filhas (minhas confidentes...) e a ajuda da minha amiga Áurea e da irmã dela eu fiz de tudo: avental de cozinha, panos de copa, bolsas térmicas, ecobags, bolsas comuns, carteiras, guirlandas de Natal e fui vendendo. A princípio foi difícil - eu colocava preços similares aos que eu via no Elo7 e ninguém comprava. Então decidi que o sonho valia a pena o sacrifício e abaixei os preços - e as vendas deslancharam a ponto de eu não ter sossego.

O ruim foi costurar escondido, nas horas que o marido e o filho não estavam em casa. Ruim ter que esconder, mentir... Mas foi por uma boa causa, Deus me perdoa. (E um dia, Ike meu filhinho, quando por acaso você ler esta postagem e descobrir o que a mamãe fez, pensa assim: você se preocupa com a saúde do meu corpo; eu prefiro me preocupar com o sossego do meu espírito. Quando eu cismo que quero fazer uma coisa, aquilo me atormenta, não me deixa nem dormir direito... Eu tinha que ajudar a Fernanda...).

Mandei a Lola dar o dinheiro que eu consegui (quando atingiu o preço da máquina que eu queria comprar, Janome 2008 P) pro meu filho, dizendo que o dinheiro era da Fernanda, prá ele comprar a máquina pela internet. Meu filho é tão bom nessas coisas que ainda comprou um pouco mais barato do que tava no site, graças a cupons de desconto e ainda conseguiu frete grátis.

Quando meu marido viu que a menina havia "comprado" a máquina que ele planejava dar o ano que vem ele me falou prá ir com ela no Brás comprar tecidos e aviamentos, prá incentivar ela a já começar a costurar - bom, né?

Então, segunda feira passada, véspera do feriado de 15 de novembro, chamei a Fernanda prá sair comigo, dizendo que precisava da companhia dela prá escolher coisas no Brás - ela não sabia que ia ganhar a máquina.

A Nana não tinha plantão no hospital durante o dia - mas ia pegar plantão das 7 da noite às 7 da manhã do feriado - e se dispôs a levar a gente de carro (mordomia total!).

Fiz uma lista de materiais básicos que eu não tinha prá dar prá ela (alguns eu tinha em casa e dividi com ela, fiz meu próprio kit "Dona Rosa" de costura básico numa embalagem de Ferrero Rocher...).

Quando chegamos na minha casa contamos prá ela que ela tava ganhando uma máquina de costura novinha em folha e tecidos e aviamentos prá começar - e ela chorou. Baixinho, igual um camundonguinho - coisa tão linda, tão delicada...

A Lola ficou fazendo bullying na tadinha, chamando ela de chorona e eu mandei ela parar, que chorar de felicidade é bom demais. Tão poucas vezes na vida a gente tem essa oportunidade que, quando acontece, a gente tem que chorar mesmo...

Daí a Naninha se dispôs a levar a máquina até a casa da Fernanda, lá na Cidade Tiradentes. Arrumamos as coisas e fomos, com as bênçãos de Deus e do Santo GPS das Localidades Distantes.

A mãe dela também chorou - eu vi. Disse que faz tempo que queria dar uma máquina de costura prá filha, mas que o dinheiro ainda não tinha dado... Eu disse a ela que ainda bem que ela não tinha comprado, que assim eu pude ter essa felicidade prá mim - prá ela sobrava agora a felicidade de montar o ateliê da filha... "Além do mais" eu disse - "faço isso por puro interesse. Com certeza, no futuro, vou precisar de um par de mãos a mais prá me trocar as fraldas...".

Voltamos prá casa em cima da hora da Naninha ir pro plantão. Passou o dia todo sendo nossa chofer, nem almoçou - comemos tranqueiras no carro, suco, salgadinhos... Meu marido ficou uma fera, mas a Naninha me garantiu que o sacrifício valia a pena, tava feliz com tudo - filhas maravilhosas eu tenho...

Vou dizer prá vocês: tive muitas felicidades na vida, muitas mesmo. Que ninguém pense que porque conto coisas sofridas eu tive uma vida miserável - a vida tem sido muito boa prá mim. Realmente teve sonhos que eu não realizei, como acontece com todo mundo - mas a vida me deu coisas maravilhosas com as quais eu nem me atrevi a sonhar, então mais que compensou tudo.

Mas realizar o sonho de outra pessoa, poder assumir o papel de Fada madrinha e ver alguém ser feliz, chorar de alegria - isso é uma das melhores coisas que a vida me deu. Poder me esforçar, trabalhar, planejar e realizar o sonho de alguém é algo que não tem preço.

Eu disse pros pais da Fernanda - que estavam em casa quando a gente foi levar a máquina, pois já estão aposentados: as pessoas que dizem que dinheiro não compra felicidade estão redondamente enganadas. Dinheiro compra SIM, felicidade, quando você faz coisas boas com ele...

Não paro de agradecer a Deus pela oportunidade, pela inspiração e pela força em completar meus planos. Enquanto eu viver nessa vida sempre vou me sentir feliz.

E olha como são as coisas: meu irmão foi comprar um pedaço de tecido prá mim na loja, prá uma das minhas encomendas (que eu liguei prá ele me fazer esse favor...) e ele sem querer contou prá mim que o colchão da minha mãe tá cansado de guerra, precisando ser trocado e eu falei (antes mesmo de comprar a máquina da Fernanda):

-"Não conta prá mais ninguém, Tato, que eu é que vou comprar um colchão novo prá ela"...

E comecei a fazer um "Caixa 2" pro colchão da minha velha.

Eu sei o que meu marido diria prá mim, se eu dissesse que queria dar o colchão: "Sua mãe não tem só você de filha, a gente já paga o convênio, um dos teus irmãos que ajude..." e ele até não estaria errado, pela visão dele...

Só que na minha visão é assim: se a gente vê uma necessidade, não tem que se perguntar "quem mais além de nós pode satisfazer essa necessidade", "sobre quem essa obrigação pode ser imputada"...

A gente arregaça as mangas e diz: esse prazer vai ser meu.

Egoísmo puro. Vontade de ser feliz fazendo alguém feliz.

Então, prá encerrar essa postagem que foi uma verdadeira tsunami de palavras eu vou dizer o seguinte - um conselho, como pode ser chamado:

-"Façam alguém feliz. Invistam na felicidade de alguém além da vossa própria. Eu sei que é muito bom comprar prá gente as coisas que a gente quer, fazer viagens legais, ter um dinheirinho guardado prá um dia chuvoso. Mas olha: tudo o que a gente compra um dia se estraga, se perde, alguém rouba... As viagens a gente curte e depois só restam fotos e lembranças, que o tempo apaga... E dias chuvosos... bem... eles podem chegar ou não... todos nós, a bem da verdade, estamos com os dias contados (duro de se dizer, até mesmo rude, mas é a pura verdade. Nenhum de nós está aqui prá ficar...). Cedo ou tarde a gente morre e caixão não tem gaveta.

A alegria de fazer a diferença no mundo, fazendo dele um lugar melhor, um pouquinho que seja, trazendo esperança, felicidade, aliviando o fardo pesado de alguém não tem comparação com nada no mundo...".

Ah, e com a permissão da Fernanda, aqui está ela com a máquina:



Melhor que a minha, tem mais pontos. Tem também o estojinho de Ferrero Rocher com as coisinhas que dividi com ela e um pote de vedaprem que eu dei prá ela guardar os tecidos (provavelmente ela vai customizar, igual eu planejo fazer com os meus - um dia).

Felicidade...

Que trabalho e dinheiro compraram...

Prá mim e prá ela.


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