Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Como fazer seu próprio pé de quilt reto


Esse é um dos apetrechos mais desejados das costureiras de patch: o danadinho usado prá fazer costuras paralelas, regulando a largura através daquele ferrinho lateral. Custa em torno de 90 reais - mas você pode fazer algo que funciona bem parecido, com coisinhas simples e baratinhas que você provavelmente tem em casa.

Isso mesmo: você mesma faz e usa super bem (pois funciona que é uma maravilha) e gasta praticamente nada - só precisa de um clipe de papel e de um pedaço de borracha escolar.



Bom, como eu ando fazendo umas costurinhas prá vender e realizar meu sonho "de realizar o sonho de outra pessoa", tenho quiltado muito. E aquela coisa de fazer as linhas usando fita crepe (que era meu método anterior e que quem acompanha o blog (nesta postagem AQUI, na qual fiz uma lixeirinha prá carro...) já sabia...) não se provou muito prática (nem barata) prá uma produção maior. 

Daí pedi pro Marildo o famoso pé de quilt reto e ele disse que ia me dar no meu aniversário (que é só em dezembro...). 

Então, cansada de gastar fita crepe e mais cansada ainda de riscar com giz de costureira (que eu não tenho as tais canetinhas que apagam com o ferro, aqui perto de casa custam quase 30 reais e dinheiro não é capim) eu botei o cabeção prá funcionar e olhando o tal "walking foot" baixou em mim o espírito do McGiver e eu fiz o meu.

Foi assim:

Pega um clip de papel e um pedaço de borracha escolar (das brancas, que são mais molinhas). 


O clip você abre quase todo e corta dois toquinhos da borracha. Faz um furo nas borrachas com alguma agulha grossa, bem no meio. O clip você tem que deixar com um lado bem comprido e o mais retinho possível, usando um martelo ou um alicate.

(este buraquinho é de suma importância prá Segurança Nacional...)

Daí você enfia um dos dois pedaços de borracha no clip (esse pedaço vai ficar sempre aí). 



Insere o cabo longo do clip no furinho que tem na haste onde o pé calcador normal da máquina fica preso, com amor e carinho - toquinho de borracha que você não tira fica lá, esperando.... 



Daí você escolhe que tamanho vai ter o teu matelassado reto (2 cm, 3, 5, o tamanho que quiser...) e prende o segundo pedaço de borracha escolar no cabo longo do clip: fica um pedaço de borracha de um lado, um pedaço do outro, bem agarradinhos na haste da máquina - pronto!




Ao deslocar as borrachas de lugar você escolhe o tamanho do teu quilt - genial, né? Já resolvi: vou doar meu cérebro prá ciência! Depois de transformar nabos em alimentos comestíveis - façanha que só eu consegui fazer com sucesso no mundo inteiro  - e de criar um pé de quilt reto tão genial e baratinho acho que mereço uma medalha (pelo menos...).

Então você pega o teu trabalho, risca com giz a primeira linha, costura ela e, a partir dela e usando o clip, vai costurando paralelo à primeira costura, fazendo o clip seguir aquela primeira costura reta - fácil, né?

Agora: você tem amiga costureira? Compartilhe essa dica. Não é todo mundo que tem dinheiro sobrando prá gastar 90 contos com um pezinho calcador, não é mesmo?



Agora a minha nova cachorrinha: teve eleição prá escolher o nome dela (aqui em casa vivemos MESMO  numa democracia. Aliás, isso às vezes dá uns rolos!!! Se eu fosse uma ditadora penso que certas coisas seriam bem melhores...). 

Teve três turnos: cada pessoa sugeriu todos os nomes nos quais pode pensar (eu sugeri Drima, que apesar de ser nome de linha de costura, me veio à mente por ter a pronúncia parecida com a palavra "sonhadora" em inglês - Dreamer - e que também é uma das músicas que eu mais gosto do Ozzy Osborne, mas todo mundo odiou...). 

Também sugeri Pipoca e Paçoca, mas eu já era voto vencido antes mesmo das eleições começarem - suspeito que houve marmelada. Meus três filhos se uniram, meu marido foi voto em branco - ou seja, fiquei no vácuo. Imaginem a situação: os três queriam nomes de personagens de vídeo games que eles jogam ou de mangás que leram ou animes que assistiram - assim  surgiram nomes absurdos como Bunta (da revistinha "Groo"...), Funfa (que parece palavrão, mas é uma heroína de um dos RPGs que eles jogaram - e eles me garantiram que era uma princesa linda e heróica, que se sacrificou por todos no final da saga - mas convenhamos, ninguém merece um nome desses, PelamordeDeus!!! - exceto políticos, com certeza...). Eu fui totalmente anarquista: se ganhasse um nome vergonhoso, eu disse que não ia chamar a pobrezinha com ele - ia chamar de cachorrinha e pronto. Acabou que ganhou o nome Tentem, personagem de Naruto... 

Pobre criaturinha... Tentem o quê? Tentem fome, tentem dor de barriga, tentem...



Tentem tem jabuticaba que caiu do pé prá brincar...

O jeito é pensar assim: melhor "Tentem" que chegar no veterinário prá passar em consulta e ter que dar explicação do nome "Funfa"...

Já se aclimatou na casa - parece que nasceu nela. Se tornou amigona da Bulma (que, aliás, deve seu nome a uma personagem de Dragon Ball...). Brincam o tempo todo, graças a Deus. Já cresceu - chegou não faz nem dez dias e já tá latindo toda feroz, guardando a casa... 

Quanto ao Farruscão: ainda não operou a perna. Meu marido tem ido na casa conversar com o dono dele um dia sim, outro não. Amanhã tem retorno no veterinário prá fazer exames de sangue, etc e a cirurgia tá marcada prá 3 de novembro - mas foi uma saga! Primeiro que a veterinária na qual meu marido levou o bichinho garantiu pro dono que a gente ia custear a cirurgia, a internação e tudo o mais - falou prá ele que a gente era "rico", gente de "muitas posses" e que os quatro mil reais da cirurgia eram bagatela prá gente - pode uma coisa dessas? Gente assim, mercenária e mentirosa, me dá nojo.

No hospital veterinário gratuito também não foi fácil: o pobre do moço chegou lá às quatro da manhã, saiu de lá às 3 da tarde sem que nada fosse feito além de aumentar a medicação de dor do pobre bichinho - e o veterinário lhe deu o cartão do seu consultório particular, onde o cachorrinho seria operado por apenas 1000 reais! Quando eu soube disso quase tive um troço - pensei: "Deus do céu! Amor pelos animais = zero! Essa gente estuda veterinária só prá ganhar dinheiro!!!" - mas meu marido o orientou prá dizer que ia chamar reportagem e dar parte na polícia e acabou conseguindo marcar a operação.

E é isso. Até uma outra hora que acontece o seguinte: consegui vender 4 jogos americanos e três galinhas puxa-saco - e o dinheirinho tá entrando. Que Deus ajude, pois eu até perco o sono de felicidade, só imaginando a cara da pessoa que vai ganhar meu presente, sem ser Natal nem nada - tô chamando de "Projeto Fada-Madrinha". Quando acontecer, garanto que vai ser uma postagem linda, com direito a lágrimas de alegria (o melhor tipo de lágrimas...). 

domingo, 16 de outubro de 2016

Os três cachorros


Eu já devo ter contado prá vocês de uma família que morava na minha vizinhança quando eu mudei prá cá. Minhas crianças eram pequenas, a Lola em idade pré escolar, o Herkinho praticamente um bebê. 

Loucos prá arranjar amiguinhos prá brincar...

Sabem como essas coisas funcionam com criança, não sabem? Duas começam a brincar, uma terceira ouve as vozes, as risadas, vai se chegando... Quando a gente vai ver tem uma porção delas, fazendo alarido igual passarinhos em dia de sol... Pois foi assim: meus três filhinhos começaram a brincar, duas meninas chegaram no portão, começaram a conversar... Daí a Naninha entrou correndo, toda animada, pedindo prá eu abrir o portão prás meninas entrarem!

Foi um dia lindo, minhas crianças foram dormir cedo, cansadas e felizes... No dia seguinte, mal cheguei do trabalho, antes mesmo de almoçar, fiz um bolo de chocolate com calda e uma jarrona de laranjada e meus bebês ficaram na garagem, ansiosos, esperando as meninas voltarem... Eu, atarefada com o serviço da casa, fui deixando o tempo passar e numa certa hora, vendo a carinha triste dos meus filhos, olhei prás meninas brincando sozinhas do outro lado da rua...

-"Mãe, elas disseram que não podem brincar com a gente!" - uma das minhas meninas disse e eu chamei as outras duas crianças, do outro lado da rua, prá saber porquê... "Eu fiz bolo de chocolate e laranjada prá vocês, entrem!" e então, sem papas na língua (como geralmente são as crianças...) a menina mais velha disse: "Minha mãe disse que é prá eu não brincar com seus filhos, porque a senhora é uma metida nojenta!".

Meus filhos cresceram sem amizades na nossa rua, só amiguinhos na escola...

Essa tal menina cresceu nos virando a cara, igualzinho à mãe - que eu nunca conheci, nem sei o nome. Só sei que era uma mulher bem sofrida, o marido sempre foi beberrão, batia muito nela e nos filhos. Bastou os filhos crescerem e se mandaram da casa - e a mãe foi morar com a mais velha, que (segundo me contaram...) a trata pior que lixo, a faz de empregada. O velho beberrão tá um caco, parece até que apodreceu em vida. Mora sozinho na casa, aluga os fundos prá alguém a cada seis meses. Tem uma cachorra labradora preta já velha, a qual ele não alimenta nem com os restos: minha vizinha do lado atravessa a rua e leva comida prá bichinha duas vezes por dia...

A atual inquilina da casa dos fundos do velho é uma mulher horrível. Tem dois filhos - um menino de uns sete anos (malcriado que só a peste, toda vez que me vê abrindo o portão grita: "Ô! Ô!Ô!" e, quando eu olho, arremata: "Otária!" e cai na risada... A mãe descasca ele de surra igual mixirica... E tem uma nenenzinha de menos de dois anos, que nos dias frios e chuvosos que andou fazendo (enquanto a mãe lavava a calçada toda agazalhada, de botas de borracha)se sentava só de fraldinha, sem camiseta nem nada, na calçada molhada...

Um dia assisti chocada a cachorra lambendo a pitoquinha da menina, que havia arrancado a fralda cheia de cocô! Nem acho que a cachorra tava com tanta fome assim, prá comer aquela a sujeira toda, limpando a menininha - e depois ainda se deliciar com a fralda... Todas as mulheres da vizinhança lhe levam sobras, mas acho que é porque é uma cachorra muito grande e tava esperando filhote: a inquilina solta a cachorra na rua, prá não ter que lavar o quintal, e todos os cachorros da Penha pegaram ela...

Nasceram três bichinhos enormes, pretos como a mãe. Minha vizinha colocou no Facebook as fotos, prá arrumar dono prá eles... durante um bom tempo foi uma choradeira só dos bichinhos, pois a mulher continuou soltando a mãe prá rua e depois, com o portão fechado, a pobrezinha não conseguia voltar prá alimentar os filhos... Por sorte sempre tem uma pessoa prá escutar a choradeira e colocar ela prá dentro.

Fiz meu marido se comprometer a dar um saco de 25 quilos de ração todo mês prá ajudar a vizinha de bom coração, porque ela já tem os próprios cachorros e gatos prá viverem das sobras...

Com dois meses já adotaram todos os filhotes e a filha da minha vizinha já arrumou um veterinário prá castrar a bichinha de graça - ela tá velha demais prá continuar tendo filhos. O problema é que, exatamente por estar velha, a castração é de risco.

Me corta o coração a tristeza que ela ficou, os peitos cheios de leite e nenhum filhinho mais prá mamar...

Daí lá estou, parada no meu portão nesta sexta feira que passou, olhando penalizada prá cachorra sentada triste na porta - sete e meia da manhã. Um sol lindo no céu, todo azul, passarinhos cantando aos montes, prometendo um dia quente e luminoso. Minha rua quase deserta, eu esperando meu marido e meu filho terminarem de se trocar prá abrir o portão, regando as árvores da calçada.

Atravessando a rua devagarinho um cachorro que anda pela vizinhança há uns 3 anos - que eu chamo de Farruscão, pois é um viralata comprido de pelagem cinza mesclado de branco parecendo cobertor velho, daqueles que os mendigos usam. Escuto um barulho e vejo um daqueles caminhões de entrega descendo minha rua bem lentamente. Nem me preocupo - o cachorro vai conseguir atravessar e o motorista está vendo ele, afinal de contas...

Mas não! O homem passou com o caminhão em cima do cachorro como se ele fosse uma lombada, uma pedra! Não buzinou prá ele sair da frente, não brecou, com a rua tão larga e tão vazia ele nem se deu o trabalho de mexer no volante e desviar do bichinho - e foi aquele estrondo!

Continuou descendo devagar a rua, como se nada tivesse acontecido!

Eu caminhei até o meio da rua e comecei a gritar, a plenos pulmões:

-"Seu filho da p*! Desgraçado! Você atropelou o cachorro de propósito! Maldito!"

Ele me olhou pelo retrovisor e nem me deu bola, continuou descendo vagarosamente a rua, no seu ritmo...

Eu surtei! continuei gritando e gritando!

Meu filho saiu correndo sem sapatos, só de meias... Meu marido abriu a janela do quarto e me perguntou o que tinha acontecido e eu, gritando, expliquei... Meu filho foi pro meu lado, até o meio da rua e começou a descer a rua, prá brigar, ao que meu marido impediu (graças a Deus!). Imbecil que sou nem me preocupei de checar o cãozinho - que julguei morto - até que reparei nele mancando, virando a esquina e sumindo da minha vista...

Minhas vizinhas acordaram todas - foi o festival do pijama e da camisola. As que me conhecem por nome começaram a perguntar o que tinha acontecido e eu respondia chorando:

-"Aquele canalha desalmado atropelou o cachorrinho de propósito!!!"

Minha vizinha do final da quadra, que estava na hora de sair pro trabalho, saiu e foi tirar satisfação com o caminhoneiro. discutiu com ele alguns minutos e ele foi tranquilamente embora, como se fosse só um bando de mulheres loucas fazendo barulho por nada...

Subiu a rua até onde eu estava, rodeada pelas outras velhas - que me diziam palavras de consolo - acompanhada da mãe, também transtornada... 

A senhora me falou que a filha dela até rogou praga no caminhoneiro. Disse: "Hoje mesmo a vida vai te cobrar por essa maldade, prá não te dar tempo de esquecer o que você fez!".

Minha Lola saiu e foi junto da moça correr a vizinhança toda, atrás de encontrar o bichinho prá socorrer... Não encontraram.

Eu - revoltada do jeito que tava... - acabei abrindo um tantinho a porta do monstro trancado no porão... Falei que um crápula daqueles não podia ser um ser humano, de jeito nenhum... "Com certeza escapou do inferno e rastejou prá dentro do traseiro da coitada que pensa que é mãe dele..." - ao que minhas vizinhas desataram a rir, sem eu entender na hora o porquê...

Meu marido saiu, arrumado finalmente pro trabalho e me disse, baixinho só prá eu ouvir (e aí eu fui entender...):

-"Saiba se comportar, Rosa. Para de fazer escândalo na rua! Por sua causa nosso filho podia ter se metido em encrenca, brigando com o motorista! Sabe lá se ele anda armado...".

Tem horas que eu não devia mesmo abrir a boca, prá não dizer besteira (eu fiquei pensando, em meio ao meu chorinho, agora mais calmo...).

No entanto meus filhos, olhando prá ele, acabaram lhe dando a maior bronca:

-"Que falta de empatia, pai! A mamãe tá chocada de ter visto algo tão triste e você aí, preocupado com aparências! Você deveria estar preocupado com ela, com a pressão arterial dela, com o fato dela poder ter um derrame, um infarto!...".

Depois ele disse que tava preocupado comigo, mas que eu não posso surtar só porque um cachorro foi atropelado...

No meu coração eu pensei que se chegar o dia em que eu encare uma crueldade ou uma injustiça como algo banal e corriqueiro e tenha uma reação morninha, sem sangue nas veias, eu não quero mais estar viva mesmo.

Aliás: nas horas de crueldade e injustiça eu realmente me questiono se quero continuar vivendo num mundo onde tais coisas acontecem...

Minha Lola obrigou o pai a dar voltas pelo bairro até achar o cachorro.

Voltaram prá casa, pegaram um lençol prá enrolar o bichinho e levar no veterinário - mas ele ameaçava morder. 

Meu marido foi até a veterinária e trouxe um taxi-dog prá levar prá clínica, onde ele recebeu analgésico, fez raio x e passou por consulta (aliás nunca mais voltaremos nessa veterinária: além dela nos cobrar 3 vezes mais caro as vacinas das nossas bichinhas, não deu nem 10 reais de desconto, mesmo sabendo que meu filho estava socorrendo o cachorrinho por caridade - foram quase 500 reais. Quando meu filho reclamou eu disse prá ele algo que aprendi numa de minhas novelinhas coreanas: dinheiro é como esterco - se a gente amontoa, não serve prá nada, só fica fedendo; mas se a gente espalha, dá muita flor e muito fruto... Deus vai devolver prá ele em felicidade muito mais que esses quinhentos reais...)

Enquanto o bichinho estava sendo medicado, meu marido e meu filho foram correr atrás de informações, prá saber se ele não tinha dono mesmo - e um senhor se apresentou. Disse que o bichinho era de rua, mas que ele alimentou e foi ficando - mas que pede prá sair e ele solta. Se comprometeu a madrugar na segunda feira num dos hospitais veterinários gratuitos prá operar a perninha do cachorro - que (pasmem!) parece ter sido o único dano no bichinho. Esfarelou os ossos de uma única perninha, graças a Deus não explodiu nenhum órgão interno (como era o meu medo...).

Finalmente meu marido e meu filho foram trabalhar (com horas de atraso...) e minha Lola foi acompanhar a Fernanda no médico, pois ela está muito doentinha, infelizmente.

Fiquei sozinha e chorei o dia todo. Todo o peso do tempo caiu sobre mim - não apenas os quase cinquenta e cinco anos que constam nos meus documentos, mas os anos a mais que a vida me acrescentou, pois que sou mais ou menos como os cachorros que eu tanto amo: tem anos que eu vivi que valeram por dois, outros parecem ter me envelhecido uns dez... Me olhei no espelho com cara de mil anos e me perguntei que múmia era aquela, com olhos grandes e vermelhos de chorar...

Mas me lembrei da bondade de Deus e me sustentei pelo dia: se eu não estivesse no portão naquela exata hora não teria visto o que vi: o homem teria atropelado o cãozinho e seguido a vida normalmente (como meu marido alega que fez, apesar do meu estardalhaço inútil...), o bichinho ia se sentar numa calçada e talvez morrer sem socorro.

Garanto uma coisa: aquele motorista vai se recordar prá sempre da minha vizinhança, da velha descontrolada gritando no meio da rua...

Naquela noite minha Naninha não veio prá casa - tinha plantão de varar a noite. Não mandei prá ela nenhuma mensagem contando o ocorrido, prá não preocupá-la.

Ela chegou em casa eram mais de oito da manhã do sábado. Meu marido tinha marcado revisão no carro dela e também no dele - troca de óleo, pastilha de freio, essas coisas - e ela tinha uma consulta de ginecologista marcada há muito tempo, que não podia ser desmarcada.

Fui com ela de ônibus - sem a pobrezinha ter dormido nada, cansada... Eu, de bengala, meu joelho esquerdo tá cada dia pior e só tenho consulta em 9 de novembro...

Chegamos no Hospital Nipo Brasileiro faltando 5 minutos prá hora marcada. Na porta da Clínica da mulher tinha uma cachorrinha rondando, prá lá e prá cá e a Naninha fez carinho nela. 

Passada a consulta, quando estamos saindo na porta, a cachorrinha nos esperava - e nos seguiu. Fomos andando até a Clínica de Acupuntura, prá eu levar prá minha médica uma garrafa de licor de jabuticaba que eu fiz prá ela... Na porta, a cachorrinha continuava nos esperando. Aproveitou alguém entrando e entrou junto - indo nos procurar lá dentro!

Descobrimos que ela não tem dono e por ali todo mundo a conhece. Uma viralatinha dócil e carinhosa, a quem todo mundo dá um trequinho prá comer e que dorme na rua.

A Naninha fazendo carinho, se desmanchando com a bichinha, dizendo que - se estivesse com o carro dela - ia levar a cachorrinha prá casa, prá fazer companhia prá Bulma.

Nessa hora meu celular toca e meu marido diz que já buscou o carro e que vai vir pegar a gente. Feliz eu digo prá Naninha que a gente vai levar a bichinha prá casa...

-"Mas e o papai, mãe? Ele não vai brigar?"

-"Vai. Mas ele tá me devendo..." - eu respondi baixinho, só prá ela ouvir (e ela entendeu meu recado, pois durante o trajeto de ônibus ela tinha se inteirado de toda a história do dia anterior...).

Na clínica todo mundo ficou feliz, tanto a doutora quanto as recepcionistas, a enfermeira, os pacientes regulares - que já viram várias vezes a bichinha por ali.

"Deus abençoe!" "Finalmente alguém vai adotar ela!"

Ela veio no colo da Nana. Está com sarna, com vermes, mas não está desnutrida. Meu marido reclamou - mas ele não é mal, pelo contrário. Só tá ficando velho, rabugento e talvez um tanto preconceituoso... Prá isso que ele precisa de mim, mais do que da minha comida ou do meu cuidado: eu sou ótima dando chacoalhões nele.

Vai aceitar a cachorrinha SIM. Fiz ele comprar remédio prá sarna, sabão prá dar banho nela - e meus filhinhos, todos felizes, deram um banho morninho de chuveiro nela logo que ela entrou em casa (incluindo a Naninha, tão cansadinha, mais de 24 horas sem dormir...).

Esta noite ela chorou várias vezes, estranhando o novo lar. Normal, logo passa.

Ainda não demos nome e assim que eu achar o recarregador de bateria da minha câmera eu tiro foto prá mostrar a nova integrante da família.

Ainda fico triste, mas não estou chorando mais. Só vou ficar olhando prá fora do portão, aguardando os dias pro Farruscão vir dar umas bandas pela minha vizinhança novamente...
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