Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Estão aqui



Ontem foi um dia corrido... 

Minha mãe - que ainda não acabou de fazer todos os exames para a cirurgia de retirada do útero caído - estava se sentindo mal, com dores prá urinar, então fui com ela no Pronto-Socorro do Hospital Nipo-Brasileiro. Como antes de passar no Pronto-Socorro ela já tinha uma consulta marcada com a cardiologista praquele dia, prá fazer avaliação prá cirurgia, ia fazer primeiro uma coisa, depois a outra. 

Confesso não ter realmente do que reclamar: se tivéssemos que recorrer à Saúde Pública, talvez ainda estivéssemos aguardando atendimento... 

Chegamos por volta da uma hora da tarde, ela passou pela cardiologista, pegou guias prá fazer Holter e MAPA, daí fomos pro Pronto Socorro, no prédio da outra rua, onde outro médico pediu exame de urina e tivemos que aguardar o resultado do mesmo prá ter um retorno com ele. Era infecção de urina mesmo, saímos de lá já com a receita do antibiótico e - graças a Deus! - é só tomar o remédio por 3 dias que logo ela fica boa. 

O ruim é que é o tipo de infecção que é recorrente no caso dela - justamente por causa do útero caído - então, mais dia, menos dia, ela pega infecção de novo, por mais higiênica que minha velhinha seja...

A dificuldade em si foi a seguinte: estou novamente precisando usar bengala. Meu quadril tem doído absurdamente, quase não consigo dormir. Tomei - sem contar prá ninguém a não ser o Marildo - uma caixa inteira de Cataflan, religiosamente 1 comprimido 3 vezes ao dia - prá ver se melhorava e... nada. Ficar velha é mesmo uma meléca, às vezes...

Embora meu marido tenha nos levado pro Nipo na hora do almoço, quando lá chegamos (e até que acontecessem as duas consultas, mais o exame de urina e a resolução do problema imediato acontecesse - com a prescrição do medicamento) foi uma sucessão de pequenos dissabores que, somados, me deixaram um tanto chateada, azeda mesmo.

Lugar lotado, mesmo sendo convênio - e as pessoas nem se tocando de que havia uma senhora idosa precisando de uma cadeira prá se sentar (sem contar a semi-idosa que a acompanhava, andando com dificuldade com o auxílio da bengala)... 

"A gentileza está morta e enterrada" - eu pensei... 

No consultório de cardiologia só tinha um lugarzinho prá sentar, bem longe do balcão de atendimento - então deixei minha mãezinha sentada e aguardei o atendimento de pé mesmo. 

Na verdade, fiz isso por duas vezes: a primeira antes de passar pela cardiologista, a segunda na hora de marcar o Holter. Até perguntei prá moça se eu precisava pegar senha de novo, pois minha mãe já tinha passado pela consulta, mas ela - sem nem olhar pro meu rosto e demonstrando estar de mal-humor infinito - me respondeu com as palavras quase explodindo prá fora da boca que "Tem que aguardar SIM!"... 

Cheio de homens sentados, mexendo nos celulares, mulheres jovens com crianças gritalhonas se esparramando nos sofás - e eu me escorando na parede e na bengala, quase a ponto de uivar prá lua de dor... 

Às vezes eu me pergunto se as pessoas não estão nem aí umas prás outras, se só enxergam o próprio umbigo ou sei lá...

Bom, saindo dali fomos pro hospital em si, onde fica o ambulatório. Lotado também, mas minha mãe tinha direito a senha de atendimento preferencial. O médico até foi bonzinho, pediu exame de urina e a gente foi. A moça do laboratório demorou à beça prá atender - se desculpou dizendo que estava numa reunião de trabalho. Foi muito gentil, atendeu minha mãe com toda a delicadeza - tirou sangue do bracinho velho dela na primeira tentativa (geralmente demora bastante, furam o braço dela todinho, é um sofrimento!) e, depois de coletada a urina, nos disse prá aguardar uma hora e meia prá sair o resultado. 

Levei minha mãe comer alguma coisa - pois ela disse que tava fraquinha por ter tirado sangue, sentindo tontura... - e voltamos pro hospital, esperar numa sala grande, conversando prá passar o tempo. Sempre temos assunto, ela reconta as mesmas histórias que eu nunca me canso de ouvir, dos tempos de antigamente, quando no final da minha rua tinha um brejo, uma lagoa onde se pescavam peixes enormes de 12 quilos - e vai me contando das pessoas que ela conheceu na sua infância (pessoas que acabaram dando os nomes das ruas do bairro onde a gente mora...).

Mesmo de ouvidos atentos, meus olhos se perdem em observar as pessoas, seus comportamentos... Sentados à nossa volta dezenas de pessoas aguardavam o horário da visita aos pacientes internados na UTI e nas enfermarias... Pessoas conversando alto, rindo... Uma senhora magérrima, mais ou menos da idade da minha mãe, insistia em conversar com as netas de pé - e volta e meia as tratava tão mal! Uma hora deu um tapa no rosto de uma delas!

"Algumas pessoas não tem noção nenhuma de civilidade" - eu pensei... Esse é um dos meus mais graves defeitos: trabalhar como juíza do mundo, sem receber salário nenhum e nem ter capacidade ou preparo para o cargo.

Momentos depois, recém chegada ao hospital, aparece uma senhora com obesidade mórbida - devia pesar quase uns duzentos quilos. Andava com dificuldade, um rosto triste, evitando olhar as outras pessoas nos olhos... Alegremente eu daria meu lugar prá ela se sentar - mas ela não cabia nem em duas cadeiras juntas, e todas elas tinham braços dos dois lados, impedindo que ela se sentasse assim...

Reparei como as pessoas olhavam prá ela, algumas riam, faziam comentários jocosos em voz baixa com a pessoa do lado - e ela percebeu tudo, pois até minha mãezinha que mal enxerga percebeu e disse assim prá mim:

-"Como existe gente ruim nesse mundo, Deus do céu! Evita olhar, filha, prá não constranger ainda mais a moça...".

"O inferno está vazio e os demônios estão aqui" - eu me vi pensando. Shakespeare estava certo, afinal de contas... É só a gente ligar a televisão, assistir o noticiário e vai dar razão prá ele. É só a gente andar pelo mundo prestando atenção e vai ver que os demônios estão mesmo andando entre nós... Volta e meia vejo gente sendo tão racista, arrumando tempo em suas vidas prá entrar no Face de alguma apresentadora de pele negra somente prá ofender, prá chamar de "macaca"! Implicando com quem tem religião diferente - como se uma religião fosse passaporte certo pro céu! - atacando a opção sexual dos outros!

Às vezes eu acho que é assim: tem os seres humanos e tem os "outros", criaturas que tem a forma humana, mas que não são seres humanos na verdadeira acepção da palavra. Essas criaturas rastejam, de alguma forma, das profundezas da Terra e, aqui chegando, se misturam com a gente, fingindo ter coração no peito - mas não passam de monstros a andarem entre nós...

Agora lá estou eu, trabalhando como antropóloga, julgando conhecer os diversos tipos de "homo sapiens" e suas origens...

O resultado do exame tava demorando mais que o prometido e então, de repente, me aparece um funcionário - vindo direto na nossa direção, querendo que a gente o acompanhasse.

-"Alguma coisa errada?" - eu perguntei e ele disse que era procedimento de rotina. 

Chegamos no laboratório que minha mãe havia feito o exame de sangue e lá a mocinha gentil nos esperava nervosa, torcendo as mãos, desesperada... Pediu mil desculpas, mas havia tirado sangue à toa, o médico não havia pedido...

"Assim é que acontecem os erros médicos..." - eu pensei... 

Então, findo o atendimento, fomos comprar na farmácia do lado do hospital o antibiótico. Já eram quase cinco horas da tarde e pretendíamos ir prá casa o mais rápido possível de táxi. 

Quando estamos chegando no ponto eu vi que a motorista que ia nos atender era uma velhinha que tem lá, muito gentil, mas que dirige mole toda vida. Pára em todo farol amarelo, deixa todo mundo entrar na frente dela, dirige a 20 quilômetros por hora. Muito seguro e agradável andar com ela - mas também muito caro. O reloginho vai rodando, rodando - quando você vai ver deu 3 ou 4 vezes mais caro do que com os outros motoristas...

Minha mãe, quando falei prá ela que a gente ia ter que voltar com aquela motorista, não quis de jeito nenhum. Disse que era melhor a gente pegar o ônibus que passa vazio na porta do hospital, descer no ponto final - que é no Metrô Tatuapé - e de lá pegar metrô até a Penha. Só aí a gente pegava taxi prá ir prá casa - ia ser muito mais rápido e mais barato (a gente volta e meia faz assim, quando não tem nenhum táxi no ponto...).

Fizemos isso mas, quando chegamos no metrô Tatuapé, minha mãe quis pegar o ônibus Jardim Romano. Eu não quis, pois sei que esse ônibus demora mais de quarenta minutos, uma hora prá chegar - e a fila tava pequena, indicando que tinha acabado de sair um...

Mas quem disse que consegui convencer minha mãe? Ela ficou dizendo que queria ir desse jeito, que já tinha pegado esse ônibus com meu irmão Tato, que o metrô aquela hora ia estar lotado, que era melhor ficar ali porque a fila tava pequena e a gente ia sentada e ...

Lá ficamos esperando EM PÉ, eu de bengala, morrendo de dor...

E lá se vão meus olhos, passearem pelo ambiente - às vezes eu os odeio, de tanta tristeza que às vezes me causam...

Do outro lado da rua, especificamente na rua Catiguá, reparo num cachorrinho andando em meio à lixarada - um viralatinha pulguento, com o pelinho meio ferrugem, meio farrusquento e sujo. Sempre me corta o coração os cachorrinhos abandonados - olhando prá gente esperançosos, abanando o rabinho, como que perguntando "Será que você quer ser meu dono?"... Já decidi que, no dia que eu morrer - e se eu, por acaso, merecer o céu... - vou pedir prá Deus um planeta só meu, onde vou pedir prá ele me mandar todos os cachorros abandonados do mundo, que já existiram, existem e vão existir - e também todos os que tem donos, mas são maltratados. Lá os arbustos vão ter abundância de mortadelas e presuntos, salaminhos e salsichas - e eles vão poder comer à vontade, sem precisar brigar uns com os outros por comida e sem passar mal...

Daí, enquanto eu olhava pro cachorro, reparei que no meio da lixarada viviam pessoas - eu, às vezes, me esqueço de reparar nas pessoas (só porque eu acho que, por terem livre arbítrio, não preciso tanto me preocupar com elas...). 

E quando eu reparei foi que meu coração realmente doeu dentro do peito! Eram os donos do cachorrinho: um casal de velhos bem velhinhos, seguramente com mais de setenta anos, a morar abandonados na rua....

E já moram lá faz tempo - até achei uma fotografia do tal velho no Google Maps, bem AQUI.



No tempo em que essa foto foi tirada o velho estava ali sozinho, dormindo virado pro muro - hoje tem mais moradores de rua ao redor dele, além da velha e do cachorrinho...

A velha e ele conversavam, discutiam - dava prá ver que o velhinho tava bem alcoolizado, sem camisa... Nas costas dele, bem na altura da lombar, um enorme caroço, do tamanho de uma bola de tênis - talvez um tumor...

O cachorro assistia a discussão entre curioso e amedrontado, pronto prá sair correndo...

A velhinha - toda encurvadinha e magra... - encerrou a discussão vitoriosa, pegou um carrinho de feira e foi prá algum lugar que eu não sei: perdi-a de vista face algum comentário de minha mãe, que conversava com uma moça do nosso lado na fila...

Quando voltei a olhar lá estava o velho, olhando desolado o movimento dos carros, o cachorrinho descansando no sol da calçada - a imagem do próprio abandono. "Deus não existe" - o velhinho devia estar pensando e, de repente...

Aparece um outro velhinho, vestido de forma modesta, trazendo na mão uma enorme sacola plástica... 

Se aproximou dos moradores de rua - primeiro do velhinho, que já deve ser seu conhecido. Conversou gentil com ele, deu-lhe um tapinha amistoso no ombro, sorriu (pois o velhinho, sem camisa e embriagado, se apressou desajeitado em levantar quando o viu chegando...) e, depois de alguns instantes, retirou de dentro da sacola um marmitex de isopor... E mais um...  E mais outro... Um para cada morador de rua, sempre acompanhados de um sorriso, uma conversa...

Até para o cachorrinho ele trouxe um pouco de comida...

E eu pensando: "E a velhinha? A velhinha?!! Ela não está, vai ficar sem comida, tadinha!!!"

Não vou dizer que o velhinho bonzinho leu meu pensamento, pois ele já tinha vindo preparado, a marmitinha da velha já tava reservada... Deixou mais um marmitex pro velhinho e foi embora, vestido modestamente, silencioso - e só eu prestei atenção nele, o resto do movimento do Terminal de ônibus continuou fervilhando de gente apressada, alheia ao mais lindo espetáculo da Terra, gratuito, anônimo e bem ali, na cara de todos...

Às vezes as coisas acontecem por acaso, não tem nenhum porquê, nenhum sentido. Apenas acontecem.

Mas às vezes - mais frequente do que a gente se dá conta... - Deus dá um empurrãozinho, faz um "Psiu!", coloca uma pedrinha no nosso caminho...

Esperei 40 minutos por um ônibus que ia chegar lotado na Penha - e acabei não indo nele.

Cansada, mentalmente grasnando de dor igual a um cachorro (talvez por isso eu seja tão apaixonada por eles...), eu finalmente me decidi por ir de táxi - peguei o bracinho da minha mãe e falei assim:

-"Vambora, velhinha... Vamos de táxi que esse ônibus não chega nunca e eu não aguento mais esperar!".

E ela concordou, felizmente. 

No caminho de volta, bem acomodadas e confortáveis, vim espiritualmente leve, aliviada - presenciar milagres faz isso com a alma da gente.

-"Sinto muito, querido Shakespeare, mas você só estava parcialmente certo... Existem demônios realmente andando entre nós, pode mesmo ser que o inferno esteja vazio.

Mas as portas do céu também estão escancaradas - e os anjos aqui estão também, à nossa volta, e felizes daqueles que os enxergam...".



Um ótimo feriadão de Carnaval à todos.
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