Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Alçando voo


O primeiro dia de aula da minha Lola foi assim: eu avisei minha chefe no trabalho que eu ia acompanhar minha filhinha que estava entrando na escola (ela odiou, me fez repor o horário atrasado...). Fomos eu e o "Marildo" levar a bambina na escola - um colégio muito bom em Guarulhos, chamado Juvenal de Campos... - e uma das professoras a pegou pela mão e levou até o pátio, junto das outras crianças. Eu fiquei de longe espiando minha magrelinha, tão minúscula no meio do mundaréu de crianças - ela, de longe, me procurando nervosa com seus olhinhos de índia, toda tímida... Num palco uma das professoras falava coisas engraçadas prá quebrar o gelo, tocaram músicas e meu marido foi me levando pela mão, embora dali, prá longe do meu bebê...

Cheguei no trabalho atrasada, a fila de gente prá eu atender estava enorme... Minha amiga Carolina, Assistente Social, cobria a minha falta o melhor que podia, mas a fila crescia e crescia... Assumi meu posto, atendi um segurado após o outro - e fiquei só...

Avisei minha chefe que precisava ir no banheiro e saí, apressada como se fosse ter um piriri daqueles...

Minha amiga Neusa - também Assistente Social... - veio atrás de mim, com aquela intuição de amiga, sabendo que eu não estava bem...

-"Ah, Neusinha!!!" - eu disse, desabando nos braços dela, chorando feito criança... - "O que vai ser dela, da minha Lolinha? Hoje ela tá entrando pro mundo e eu não vou estar do lado dela prá proteger... E se alguma criança for má com ela, se alguém a tratar mal, o que que eu faço???"

E a Neusa, como boa católica que é, me lembrou que o Pai dela, que está nos céus, tava tomando conta...

Até hoje ela lembra disso e zomba de mim, da minha choradeira, rindo de mim sem dó nem piedade, essa malvada... Outro dia, a gente conversando por telefone, ela tava toda insegura da vida, pois seu único filho está se formando em Engenharia de Computação mas vai ser mesmo é piloto de avião. Com a herança que recebeu pela morte do pai o rapaz pagou um curso atrás do outro e já sobrevoa a cidade de avião toda semana - e ela apavorada, olhando pro céu, cheia de medo. Daí foi a minha vez de dizer prá ela confiar no Pai do Céu...

Mas - verdade seja dita - existem todos os tipos de mãe. Eu e ela somos do tipo preocupada ao extremo, que participa de tudo o que pode, que tá sempre presente (até quando eles nem precisam tanto...). Sofri quando voltei das licenças maternidades de cada um deles. Cada um que entrou na escola. Cada dentinho que ajudei a arrancar com o fio de linha amarrado na maçaneta da porta...

Assisti com eles todos os desenhos que eles assistiram. Li os mesmos livros (a maioria eu mesma que li prá eles...), ouvi as mesmas músicas, assisti os mesmos filmes... Conheci todos os amigos, as professoras...

Eu sempre soube quando eles gostavam de alguém, quando alguém gostava deles - antes deles mesmos saberem disso (coração de mãe tem bola de cristal embutido, sabe como é...).

Quando a Lola decidiu que ia estudar Artes Visuais (ao invés de Publicidade), contra a vontade do pai, eu não apenas a apoiei: comprei guache, aquarela, nanquim, carvão e ensinei a usar os materiais, prá ela ir bem na prova prática - e ela arrasou!

Sempre ajudei meu Ike a estudar prás provas - especialmente História e Geografia, matérias mais decorativas que, com sua mentalidade mais prás matérias exatas, ele tinha mais dificuldade de fixar. Passou em Mecatrônica na USP de primeira, sem cursinho - e se formou segundo da turma...

Quando ele tirou carta de motorista foi assim: carta na mão e nenhuma prática - meu marido nunca achou tempo de ensinar os filhos a aprenderem a dirigir, então eles entravam na Auto-escola e aprendiam mal-e-porcamente o básico. Saiu de carta na mão e medo de pegar estrada...

Na primeira semana eu fui com ele prá faculdade todo dia. Nuns dias eu deixava tudo encaminhado em casa e ficava com ele o dia todo no carro, esperando a aula acabar prá voltar com ele prá casa, ouvindo música e fazendo tricô... Outros dias eu deixava ele lá, pegava ônibus e metrô prá voltar prá casa, fazia o almoço e voltava prá USP, prá ser co-piloto dele de novo no final do dia... 

Nestas últimas semanas, depois que a gente voltou da viagem pro Nordeste, minha Naninha precisou adquirir prática no volante, pois só sabia andar pelas ruas tranquilas aqui do bairro. Foi um mês muito difícil prá mim, repleto de pesadelos com a minha menina indo da Penha prá Santo André sozinha, sendo que nem até o centro do nosso bairro ela sabia ir...

Meu marido e meu filho se incumbiram de andar com ela de carro prá pegar prática no final do expediente de trabalho e nos finais de semana - "Ótimo - eu pensei - eles sabem dirigir, precisam fazer isso dar certo o quanto antes...".

E lá estava eu varrendo a garagem - e eles passavam de carro na nossa rua, devagarinho, a Nana com a cara de estressada, dando volta após volta no quarteirão. Quando eu dizia pro "Marildo" porque ele não andava com ela pro centro da Penha, porque não ia dar umas voltas na Amador Bueno ou na Av. São Miguel ele - ultra nervoso e irritado! - me respondia que a menina tava crua de tudo, não tinha condição de dirigir prá canto nenhum, que deixava o carro morrer o tempo todo, que não sabia mudar de marcha, estacionar, não sabia nada! Que ia ter que continuar indo prá faculdade de ônibus-metrô-trem-ônibus. Perder quase cinco horas por dia no transporte público, como tem feito há 4 anos...

Só que neste quinto ano da Faculdade de Medicina as coisas ficaram muito mais difíceis prá ela... Agora começa o internado, com plantões absurdos das sete da noite às sete da manhã, das 3 da tarde até as 3 da madrugada - do jeito que for sorteado. Madrugadas em hospitais públicos, com plantões nas Unidades Básicas de Saúde logo em seguida - chegando até a ter plantões de 36 horas consecutivas!!! Como ela conseguiria fazer isso sem dirigir carro? Não tem transporte público às 3 da madrugada! Não tem como chegar na UBS a tempo do plantão depois de sair do Hospital sem ter carro!!!

Tem horas que só a chorona mãe super-protetora, aquela que não sabe dirigir nem carrinho de sorvete, sabe a atitude certa a ser tomada...

Avisei meu marido que ela precisava treinar durante o dia e que o serviço de casa ia ficar prá depois, que minha prioridade era ajudar a menina a treinar sendo co-piloto - a casa ficou de pernas pro ar...

Ele achou bom, quem sabe com o aumento de "voltas pelo quarteirão" a menina pegava prática...

Já no primeiro dia eu falei assim prá ela: "Você já não tá cansada de dar voltas pelo quarteirão? Porque eu acho que você já deve tá craque, se houvesse um campeonato de voltas pelo quarteirão você ganhava, filha... Que tal se a gente experimentasse algo novo..."

E ela, insegura, achava melhor não - mas acabou topando (porque eu sou insistente...).

Levei ela prá andar pela Carvalho Pinto, com seu trânsito sempre intenso, e disse assim prá ela:

-"Tá vendo esse monte de carros em volta de nós? Toda essa gente quer chegar em segurança no seu local de destino, nenhum deles quer bater no carro de ninguém, nem mesmo arranhar o próprio carro, prá não ter dor de cabeça, ter prejuízo, estragar o dia... Todo mundo quer fazer o seu melhor (exceto quem é maluco ou tá bêbado ou drogado, mas com esses a gente não pode fazer nada, seja o que Deus quiser...).

Tá vendo a pista mais da esquerda? É prá quem tem pressa. Deixa essa pista pros outros, pois você ainda não tem prática nem segurança prá ter pressa. 

Já viu aquelas velhinhas de oitenta anos que ainda dirigem? Andando devagarinho, segurando o volante com força com as mãozinhas todas enrugadinhas - e o povo passando por elas buzinando, reclamando... Agora, no comecinho, você é uma velhinha de oitenta anos no volante, filha... Vai dirigir abaixo da velocidade permitida, prestando atenção em tudo à tua volta, dando espaço pros outros te ultrapassarem, não ligando prás buzinadas dos que reclamam, seguindo em paz o teu caminho.

Aliás, teu pai reclama demais sem motivo. Tenho certeza que todo mundo, quando começou a dirigir, deixava o carro morrer e só foi pegando o jeito mesmo com a prática. Quem critica se esqueceu como foi no seu próprio comecinho - então não liga. Faz o teu melhor que tudo vai dar certo!"

A mesma conversa que tive com meu garoto, anos antes, quando foi a vez dele...

Naquele dia fiz ela dirigir até o Shopping Penha, entrar, estacionar, sair, ir até o metrô, voltar prá casa, pegar todas as ladeiras do nosso bairro - até fiz a tadinha andar um trecho na contra-mão, que eu não sabia que tinha mudado (mas deu tudo certo, graças a Deus...).

Dois dias depois fiz ela me levar, pela Radial Leste, até o bairro da Liberdade - lá ela estacionou, a gente passeou a pé por meia hora, voltamos prá casa novamente pela Radial Leste lotada de carros...

Segunda-feira passada foi seu retorno às aulas - e eu fui com ela. Passei o dia no carro, sentada lendo (que não estou podendo fazer tricô nem crochê, minhas mãos andam muito ruins da artrite...). Na terça e na quarta meu marido fez a Lola ir com ela por insistência minha - pois eu tinha medo dela não saber lidar direito com o novo GPS e a Lola está em casa estudando prá prestar concurso, pode estudar sentadinha na Faculdade e acompanhar a irmã - família é prá essas coisas.

Ontem ela foi e voltou sozinha - até pôs gasolina no posto sozinha. Tá se virando muito bem, diga-se de passagem. Tira e coloca o carro da garagem em um único movimento (garagem estreita prá dois carros...) coisa que o pai dela, que a critica tanto, não consegue fazer com todos os seus anos de prática.

A Lola me contou que, quando a Naninha soube que ia ter que andar de carro comigo prá pegar prática, ficou com medo de críticas - pois já estava cheia das que recebia do pai e do irmão... A Lola disse que falou prá ela: "se você acha que a mamãe vai te fazer andar pelo quarteirão pode tirar o cavalinho da chuva... A mamãe vai te fazer rodar por aí de verdade...

Sempre tem um filho que nos conhece mais... 

Mesmo assim eu mal tenho dormido de preocupação. Quando estou sozinha, dou aquelas choradinhas básicas prá esvaziar os olhos e o coração de tanta coisa que fica rodando e rodando dentro de mim...

É meio surreal ver minha menininha no volante do carro...

Mais uma vez sinto o coração apertado - "minha filha está ganhando o mundo, o que vai ser dela, meu Senhor...".

Mas me lembro que é nas dificuldades que a gente demonstra a fé - e vamos seguindo nosso caminho, um dia depois do outro, ela se esforçando e eu rezando o tempo todo...

Mais surreal ainda ver como, em poucos dias, com o empurrão da velha, ela adquiriu desenvoltura e segurança. 



Se eu fosse uma mamãe-pássaro, eu seria do tipo que protege até onde dá prá proteger, mas na hora de aprender a voar, ajudo os filhinhos a pularem prá fora do ninho (já que não tem jeito mesmo e eu não vou viver prá sempre prá carregá-los comigo...).

Ainda não estou obsoleta. Ainda precisam de mim, ainda sou útil. 

Sou tão feliz...


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Top ou sutiã passo a passo


Quando a gente viajou pro Nordeste o ano passado eu fiz uma porção deles, prá mim e prás meninas. São facílimos de fazer, tem molde grátis no site da Marlene Mukai (bem AQUI) e aí vem o pap fotografado, que é prá você aprender a fazer e já sair usando...

Veja como ficam os que eu fiz:



Primeiro: O molde

Lá no site da Marlene tem do tamanho P até o EGG. Junto do molde vem a informação de que já contém margem de costura. Prá Nana (que é manequim 42) eu fiz tamanho M, prá mim e prá Lola eu fiz o tamanho G (pois usamos sutiã 46/48). 

O molde vem assim:
 (clica nele que aumenta)

Usando um pedaço de papel craft (ou mesmo jornal) você constrói, com o auxílio de uma régua, o molde em tamanho natural, que fica assim:



Reparem que o meu papel tá todo rabiscado: até molde se recicla aqui em casa...

Agora o que realmente importa, o segundo passo:
como fazer essa belezura!

Escrevi nos moldes que é tamanho M e que não precisa acrescentar margem de costura - prá eu não esquecer das próximas vezes que for fazer...

Apoia o molde sobre o tecido dobrado ao meio e corta, não tem segredo. Mas uma dica minha: - espia um  detalhezinho na foto de baixo:

Apesar de não ter margem de costura, eu cortei 3 cm mais comprido na parte de baixo, que acho que fica melhor, protege mais o corpinho da menina que vai usar...

Outra coisa: o tecido que eu usei prá fazer este top foi uma sobra, um mísero retalhinho que sobrou de uma camisolinha que fiz prá minha mãe. Assim sendo, face a escassez de tecido, tive que cortar a parte das costas com uma emenda no meio, infelizmente - então por isso tem esse meio centímetro a mais que meu dedo tá apontando... Mas é bom prá vocês saberem que nada se perde e que, com boa vontade e imaginação dá-se um jeito em quase tudo na vida...

Alinhavei à mão o centro da parte das costas...

Posicionei juntinhas as 3 partes da frente...

e também alinhavei. Alinhavo tudo, que é prá não ficar torto, especialmente quando trabalho com malha...

Olha como já fica jeitosinha a frente, com aquele caimento arredondadinho do busto...

Alinhavei os ombros e as laterais do top também - faço com calma, sentada no sofá da sala assistindo desenho animado...
 
Passei tudo no overloque, rapidinho. Se você não tem, não fique triste: na maioria das máquinas de hoje você encontra pontos que são elásticos, que servem muito bem prá fazer essas costuras sem que nenhuma se rompa com o uso da peça. Caso não tenha uma máquina moderna, costure com ponto zig zag bem largo mas não muito estreito, que senão fica enfolado, parecendo um babado - fica muito feio. Teste a costura antes num retalhinho do mesmo tecido até acertar com a espessura do ponto. 

Fica assim do lado direito - muito bonitinho.

Agora a parte mais importante: o elástico. Eu prego com o ponto elástico da minha Janome 2008, da forma como eu tô mostrando a regulagem na foto acima. Pode pregar com zig zag largo também. 

No decote e nas aberturas dos braços eu usei elástico chato fininho, espessura de meio centímetro.

Dou uma pregada inicial costurando prá frente e retrocedendo - prá ficar bem preso - e vou pregando a uma distância de mais ou menos meio centímetro prá dentro da borda externa, da seguinte maneira: a cada 6 cm de elástico eu estico até virar 7 cm, aproximadamente. Dessa forma vai ficando franzido sem machucar a pele quando a gente veste. Eu calculo o quanto eu vou gastar de elástico medindo no corpo mesmo - ou medindo no próprio molde: pego uns 5 cm menor que a parte da frente, 5 cm menor na parte das costas, 5 cm menor que o contorno do braço. DICA MUITO IMPORTANTE : sempre que for esticar o elástico deixe a agulha abaixada, daí estique o elástico e costure. Se você esticar o elástico com a agulha levantada corre o risco de quebrar a agulha, pois o elástico dá uma mexida nela...

Vá fazendo devagarinho, contornando todas as aberturas dos braços e do pescoço, sempre com sobra de tecido prá fora.

Feito isso com o elástico fino agora é hora de passar o elástico de baixo, que tem 1,5 cm de largura. Prá esconder ele dentro do top é que eu cortei a base 3 cm maior, entendeu? Mas você pode cortar na medida e usar um daqueles elásticos decorativos que vende nos armarinhos, que são bonitos e meio aveludados. Eu até tenho um rolo deles aqui em casa, mas não sei onde foi parar, sou muito bagunceira, uma vergonha de velha...

Olha como ficou o avesso: ainda não tá tão lindo como deveria, mas prá tudo na vida tem que ter paciência...
  
Como eu não sou máquina, acontece dessas coisas: um tortinho aqui, outro lá... Prá isso que tem a sobrinha...

Passa a tesoura com cuidado e nivela tudo!

Daí eu regulo a máquina pro meu outro ponto elástico, que parece um zig zag gigante todo pontilhado. Mais uma vez eu repito: pode fazer com zig zag comum, o que vale é o teu capricho.

Viro os elásticos prá dentro e dou uma costurada em toda a volta, bem assim:

Ainda tem sobrinha de tecido na barra, tá vendo?

E depois de fazer a mesma coisa nos contornos do pescoço e das aberturas dos braços...

Olhaí de novo a sobra de paninho...

Com amor e carinho (e extremo cuidado) corte todas as sobrinhas finais, limpando bem a peça...

No avesso ela fica assim - não faz vergonha a ninguém... Clica na foto prá espiar de perto!

Concordam comigo?


e no direito fica essa boniteza....

Até o ponto fica bonitinho, vocês não acham?

A Nana só concordou em posar usando uma blusinha por baixo - olha como caiu bem no corpinho dela...

E nas costas ficou assim - reparem que tem um pontinho "biliscadinho" bem perto da costura central, mas foi a pressa de fazer logo o top, tem tanta coisa nesse mundo prá eu fazer, tão pouco tempo... Ai, ai... Mas ela vai usar por baixo das camisetas, ninguém vai ver...

Fiz estes prá Fernanda - um bege, um branco e um azul escuro. 


Como eu já havia ensinado vocês a fazerem calcinha (AQUI), achei que tava devendo o sutiã. Sorte que a Marlene Mukai tem molde prá quase tudo nesse mundo, todos grátis - acho essa mulher maravilhosa, que Deus a abençoe e multiplique todas as coisas boas na vida dela - volta e meia eu me socorro dos moldes e das dicas que ela dá, generosamente, no site. Se vocês tiverem a oportunidade de visitar, deixem um recadinho prá ela agradecendo, pois ela merece...

Vocês podem fazer prá usar como sutiã ou como top de ginástica e até como uma peça prá usar na praia, dependendo do tecido que usarem. A malha tem que ter uma boa elasticidade e até pode ser uma malha fina, mas aí tem que fazer forrada com jérsey (é só cortar o forro e a parte de fora juntos e costurar alinhavando tudo bem certinho antes de costurar). Mesmo se o preço da malha não for muito barato onde vocês moram ainda vai valer a pena fazer esse top, pois gastam bem pouco pano e custam em torno de 20 reais nas lojas (os mais baratos). Se moram em São Paulo/Capital não deixem de dar uma olhada nas lojas nas ruas José Paulino, Três Rios, da Graça e adjacências, pois todas trabalham com retalhos por quilo e tem malhas excelentes a preços muito bons... (Estação de metrô Tiradentes).

MAIS UMA DICA IMPORTANTE: faça um primeiro top no manequim que você acha que é o teu, sem acrescentar margem de costura (que a Marlene já embutiu no molde). Caso ele fique apertado depois de pronto, faça o modelo de tamanho maior (ou acrescente 1 cm de margem de costura por conta própria...). Aquele primeiro que você fez você dá de presente prá uma irmã, uma amiga... Outra coisa: se você vai usar como sutiã, pode até usar elástico bico de pato nos contornos do pescoço e na abertura dos braços, que fica super fofo.

Que tal levar alguns na academia de ginástica perto da tua casa? Às vezes, se você caprichar na costura e na escolha dos paninhos, pode dar sorte e arrumar prá quem vender - ganhar dinheirinho é sempre uma bênção, especialmente quando é fruto do trabalho da gente...

Faça prá filhinha, faça prá vender - mas faça. É uma alegria imensa ser capaz de concluir uma peça de roupa você mesma, gastando tão pouquinho. Com 25, 30 cm de malha você faz um top desses, gastando quase nada de linha e bem pouco elástico. O top fica super confortável e bonito no corpo - eu mesma tenho dois, a Lola tem quatro e a Nana já tem cinco (e vou fazer mais, pois o preço dos sutiãs está absurdo e eles não duram mais como antigamente...).

Quero dizer que foi um prazer poder ajudar com mais este pap, pois sei que sempre aparece alguém que vai achar útil.

Não tenho tido tempo prá mexer na internet, com minha mãe doentinha e eu mesma com a saúde mais prá lá que prá cá - e tendo que cuidar da casa e de todo mundo, que profissão de mãe nunca tem férias. Nas últimas duas semanas ajudei minha filha Nana a pegar prática dirigindo carro (pois ela tinha carta de motorista mas muito medo de dirigir...) , já que este ano ela começa a fazer plantões em hospitais e não pode mais depender do transporte público, morando tão longe da faculdade. Ela nem sequer cogitou mudar sozinha prá Santo André - coisa que a gente apoiaria se fosse sua decisão... - mas aqui em casa é assim: ninguém suporta ficar longe um do outro, somos uma família muito grudenta...

Mas mesmo que arrumasse tempo, meu computador esteve quebrado, meu filho sem tempo prá arrumar... Daí, de vez em quando, eu pedia prá uma das crianças entrar no blog pelo celular ou tablet e aconteceu uma coisa chata: em menos de um mês eu perdi mais de 50 seguidores. Sei lá o que anda acontecendo, acho que eu devo estar com algum tipo de lepra virtual, o povo anda fugindo de mim... Fiquei triste, afinal todo mundo que tem blog gosta de ver o número de seguidores crescer - e não diminuir (ainda mais um número tão grande!). A Lola disse que é porque eu não ando postando nada, então as pessoas abandonam... Eu acho que talvez elas estejam chateadas comigo porque eu não ando respondendo, visitando, sei lá... O fato é que não ando tendo tempo mesmo, ando trabalhando tanto, tomando analgésicos e anti-inflamatórios prá aguentar, mas acho que atingi o meu limite...

Seja como for, meu intuito ao fazer o blog foi de passar o pouco que eu sei, de ser útil - e acho que isto eu tenho conseguido, graças a Deus. Então eu decidi que, mesmo com uma fuga em massa dos seguidores, sempre que puder e tiver um tempinho vou continuar postando uma receitinha aqui, uma historinha de velha ali, somente prás pessoas que tiverem paciência com os meus defeitos e conseguirem peneirar o que de bom eu posso passar adiante. 

Até mais.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Mãos ocupadas


Meu avô veio para o Brasil sem planejar nada - ele nem mesmo sonhava em cruzar o oceano. 

Vivia em paz com a mãe viúva e com as irmãs e, apesar da pobreza, ele era muito feliz. Diga-se de passagem que meu avô sempre foi um homem em paz e sorridente, o que lhe granjeava simpatia por parte de todos os que o conheciam - ou quase todos...

Trabalhando na roça durante a semana toda, do amanhecer até o sol se por, meu avô cruzava de vez em quando a fronteira entre Portugal e a Espanha prá ir bailar - era um dançarino de primeira. 

E num desses bailes ele arranjou um inimigo mortal - o seu jeito simpático havia cativado o coração da noiva do outro rapaz durante uma dança. Daí foi um Deus-nos-acuda: jurado de morte, meu avô (sem dinheiro...) enfiou-se de clandestino em um navio que vinha pro Brasil e, aqui chegando, nem passou pela Imigração. Arranjou-se com os tomadores de empregados e se foi pro interior de São Paulo, prá trabalhar nas lavouras de café - mas isso é uma outra história, prá uma outra hora... 

Desse tempo até minha avó entrar na vida dele aconteceu uma pá de coisas, mas o que importa é que ele acabou juntando um pé de meia e achou uma mulher prá constituir uma família...

Minha avó estava morando com ele (sem se casarem...) havia bem pouco tempo, quando esta história aconteceu...

Antes morando em um cômodo alugado, meu avô rapidamente se apressou a construir uma casinha prá que ele, minha avó e o filhinho pequeno dela pudessem viver como uma família de verdade - e isso foi feito relativamente rápido, face o tamanho monstruoso dos tijolos daquele tempo:  eram maiores que caixas grandes de sapato masculino e, de argamassa prá fazer a liga e erguer as paredes, usava-se barro mesmo... As portas se faziam com tábuas de madeira...

Não sei como minha avó não engravidou de imediato, mesmo sendo católica fervorosa - talvez tenha sido Deus quem segurou os bebês no céu, enquanto eles arrumavam a vida. O fato é que meu Tio Antonio já estava com quase quatro anos de idade...

Por essa época meu avô trabalhava prá FEPASA construindo os trilhos dos trens - era forte como um touro e ajudava a instalar os dormentes de madeira no chão. Prá isso ele chegava a passar um tempo longe dela, que entre os afazeres da casa e os cuidados com o menino arranjou, por si mesma, um jeito de também ganhar dinheiro: plantar e vender verduras. Passava o dia a remexer a terra, semear, regar, enxertar mudas e logo tinha uma horta bem variada, repleta de couves, espinafres, abóboras, tomates e repolhos, entre outras...

Ela mesma construiu um carrinho de madeira com divisórias nas quais arrumava as verduras e hortaliças já limpas e lustrosas (pois sabia que tudo que se come começa pelos olhos...), usando rodas de carroça e percorria as ruas do bairro junto do menino, a gritar "Verdureira!" todo santo dia, pouco depois do dia amanhecer. Meu tio Antonio ia com ela - e acho que daí pegou o jeito pros negócios...

Bom, meu avô voltava, meu avô ia, sempre que o dinheiro sobrava ele lhe trazia um presente bonito, um tecido, uma jóia, um par de sapatos - ela calçava 39, igual minha Naninha, era muito alta e bonita (também como ela...). Podiam ser o casal mais feliz da terra, se não fosse...

É incrível o ser humano: tanta coisa prá se ocupar na própria vida, tanta coisa prá fazer, prá construir, conquistar - mas ele prefere cuidar da vida alheia. Faço ideia hoje em dia: eu tenho máquina de lavar, ferro elétrico, fogão à gás, forno de microondas - e mesmo assim o tempo me escapa, nunca consigo fazer tudo aquilo a que me proponho. Tanta coisa bacana passa na televisão, tanto seriado, filme... Tanto livro que eu quero ler... Me espanta quanta gente fica parada na porta de casa, jogando conversa fora (porque existe "conversar" e existe "jogar conversa fora", coisas bem diferentes...). 

Outro dia uma mulher da minha rua se queixou (em alto e bom tom) pro homem que aparece uma vez por semana e pára bem na minha porta, prá vender produtos de limpeza, que eu não varria minha calçada todo dia e que, com a chuva, as folhas da minha árvore iam parar na porta dela. Disse bem assim: "a vagabunda desta casa deixa a calçada sem varrer": eu estava lavando roupa e escutei, da área de serviço; fiquei olhando, sem saber o que dizer... Naquela semana eu estava tão ruim da coluna que estava me movimentando dentro de casa usando bengala...

Assim como hoje, também era naquele tempo. Acho que ainda era pior, imagina só: sem televisão, nem internet prá distrair a cabeça. a maioria do povo sendo analfabeto... Distração era falar da vida alheia - e meus avós não serem casados eram um prato cheio praquele povo faminto...

Um belo dia, lá estava minha avó de joelhos remexendo a horta e escuta umas palmas no portão: era um guarda da delegacia, dizendo que tinham feito uma queixa contra ela e que ela tinha que comparecer prá prestar esclarecimentos pro delegado de polícia...

Meu avô estava viajando a trabalho e, sem poder contar com a mãe ou os irmãos lá se foi minha avó, levando pela mão o filho pequeno, depois de um banho tomado - nada de aparecer perante a autoridade sem estar vestida de acordo...

Ao chegar na delegacia minha avó deu de cara com uma das vizinhas - uma mulher desocupada da pior espécie, que passava os dias indo de uma cozinha à outra, levando e trazendo fofocas - mas que não tinha entrada livre na cozinha dela.

A mulher estava com a barriga toda molhada - como se tivesse acabado de sair do tanque de lavar roupa... O cabelo desgrenhado, como se tivesse passado a maior parte da manhã a correr de um lado pro outro, toda atarefada... Minha avó bem sabia que a tal mulher era uma preguiçosa, avessa a qualquer esforço, que sempre andava de roupa encardida e cujo único músculo do corpo que era exercitado era o da língua e, por isso, nem a cumprimentou.

Furiosa, a mulher disse pro delegado:

-"É essa mulher mesmo, seu delegado! Essa puta (me desculpem o uso dessa palavra...)! Mora lá perto da minha casa, a virar a cabeça de todos os homens de bem! Veja bem o senhor como ela se veste toda arrumada - certamente às custas do dinheiro que tira deles, até mesmo do meu marido, vá se saber! Eu não, seu delegado... Nem tempo de arrumar os cabelos eu tenho, aqui estou eu toda molhada de lavar roupas e trabalhar como um burro de carga, enquanto essa aí vive no bem-bom! Prenda essa mulher da vida, seu delegado! Essa vagabunda!!!"

Minha avó escutou tudo com o coração na mão - lhe doía muito não ser casada com meu avô (até o fim de seus dias ela estava crente que iria pro inferno por "viver em pecado"; não podiam se casar, pois ela era largada do marido...). 

Ali estava ela, vestindo um bonito taiêr (não sei bem como se escreve, mas é aquele conjunto de saia e paletó feminino, bem acinturado...), uma mulher muito bonita, com grandes e doces olhos castanhos muito tristes, mais uma vez enfrentando a vida sozinha...

Mas pensando no menino - que ali estava com ela - e pensando em meu avô, a quem ela amava tanto, minha avó respirou fundo e disse:

-"Se eu me visto bem, senhor delegado, é porque sei costurar. O tecido desta minha roupa, acredite o senhor, não é linho: é saco de farinha, que eu lavo e tinjo numa bacia. Assim faço todas as peças de roupa minhas e do meu companheiro e também as do menino: usando sacos de farinha tingidos..."

Aproximando-se da mesa do delegado, minha avó, com toda a coragem que tinha, largou por um momento da mão do filhinho e, estendendo suas duas mãos de palmas prá cima, à frente dele, assim lhe disse:

-"Quanto a ser uma mulher da vida, senhor delegado, olhe bem prá estas minhas mãos: são as mãos de uma vagabunda?"

O delegado olhou bem os calos duros de lidar com enxada e rastelo, olhou os olhos tristes da minha avó e lhe pediu desculpas.

-"A senhora pode ir embora que não vai ser mais incomodada e nos desculpe pelo transtorno. Realmente se vê que a senhora é uma mulher trabalhadora....".

Olhando prá queixosa de barriga molhada o delegado disse:

-"Dê-me cá as tuas mãos prá eu ver os calos!"

E como a mulher as tinha lisinhas como as de um bebê, o delegado a condenou a passar a noite na cadeia, prá aprender a cuidar da própria vida e dar uma descansada nos calos da língua. Não demorou nada prá ela se mudar da vizinhança, morta de vergonha pela noite passada na prisão...

Acho que foi Paulo de Tarso quem disse: "Miserável homem sou, que não faço o bem que desejo, mas o mal que não quero"... Isso quando a pessoa é boa, mesmo sem querer acaba errando - imagina gente ruim, que parece nascer no mundo só prá atrapalhar os outros. Mas cedo ou tarde, no caminho deles mesmos, aparecem as pedras que eles atiraram nos outros, prá lhe ferir os pés na caminhada...

Minha avó contava essa história com carinho e também como lição de vida. Com carinho porque foram poucas as vezes que alguém a tratou com cortesia e justiça, sendo ela o alvo de tanto preconceito na época, até mesmo da própria família. Como lição de vida prá nos lembrar de sempre nos ocuparmos com o trabalho, pois ele é a maior testemunha do nosso caráter e a prova de que somos filhos de Deus, que trabalha até hoje, mesmo sendo o Rei e o Dono de tudo...

Lembrei desta história esta semana, voltando de carro de algum lugar com a família - nem me recordo o que foi que a fez reaparecer assim, tão de repente, de volta à minha mente... 

Contei aos meus filhos com orgulho, mas um tipo de orgulho bom, de ter correndo nas minhas veias um pouquinho que seja do sangue dessa valente mulher que foi minha avó - a mais inteligente das pessoas que conheci, a mais bondosa, a mais linda, aquela que me espera de braços abertos e olhos cheios de amor no fim da minha jornada.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Grandes e Pequenos


Vivemos num mundo tão estranho, não vivemos? A forma como cada um de nós olha pro mundo, cada um com os próprios olhos - e, por trás deles, todas as nossas concepções de vida, os nossos preconceitos...

Eu tive uma amiga na minha infância - minha melhor amiga - de quem eu gostava muito: seu nome era Sandra e eu queria muito ser como ela... Tinha os cabelos castanhos bem claros, quase loiros, com cachos longos e arrumadinhos como se tivesse acabado de sair da cabeleireira, os olhos bem verdes, os dentes bem certinhos... Os garotos da rua eram todos bobos por ela, sempre gentis - comigo eram apelidos jocosos por eu ser branca como um fantasma,  magricela, dentucinha...

Apesar dela ser muito bonita, não era muito inteligente. Como tínhamos a mesma idade, estávamos no mesmo ano na escola, então aprendíamos as mesmas matérias, mesmo frequentando escolas públicas diferentes: eu estudava no Barão de Ramalho e ela no Esther Frankel Sampaio. No terceiro ano primário ela foi reprovada em matemática - sua irmã gêmea, que não se parecia em nada com ela, também foi... - e os pais resolveram colocar as duas num colégio particular, com um uniforme lindo azul marinho e branco e eu passei a ajudá-las com as lições de matemática, especialmente frações.

Elas duas viviam na minha casa, comendo do que eu comia, assistindo desenhos, conversando sobre meninos. Eu nunca ia na casa delas, mesmo ficando na mesma quadra que a minha. No final do dia elas se despediam, a babá vinha buscá-las prá tomar banho e terminar a lição das outras matérias - pois as lições de matemática já levavam feitas com a minha ajuda.

Um belo dia minha amiga Sandra ganhou de presente um jogo de bonecas - seis, prá ser mais precisa. Eram bonecas temáticas, cada uma com uma roupinha diferente e acessórios combinando - perucas, jóias, sapatos, etc. Quando eu pedi prá ela trazer na minha casa, prá gente brincar, ela me disse que a mãe não deixava tirar da caixa, que se eu quisesse ver tinha que ir na casa dela - e lá fui eu.

Quando cheguei no portão a mãe dela lá estava - Dona Angelina - conversando com uma vizinha e, com a maior naturalidade, barrou minha entrada. Puxou a filha pela mão, se despediu no supetão da vizinha e eu fiquei ali parada na calçada, catatônica, sem entender bulhufas...

Uns dois minutos depois minha amiga Sandra apareceu carregando as bonecas na mão, dentro das caixas, prá me mostrar SEM PEGAR - eu só podia ver de longe. Boba como eu sou às vezes (nem sempre a ficha cai de imediato...) eu perguntei à minha amiga se eu podia entrar no quintal dela, prá gente sentar e apreciar as bonecas - que não eram nada de tão maravilhoso assim: eram bonecas baratinhas de plástico exatamente como esta:



Braços e pernas quase sem articulação nenhuma, olhos pintados, perucas presas com alfinetes na cabeça e roupas distintas de noiva, bailarina, índia, espanhola, portuguesa e japonesa - e ela me respondeu, com a maior naturalidade do mundo, que eu não podia entrar no quintal dela porque sua mãe havia dito que eu era pobre e tinha os pés sujos.

"Deus!" - eu pensei - "é óbvio que meus pés são sujos! Eu ando descalça na rua o dia todo, brinco no terreno baldio no fundo da minha casa - mas sempre tomo banho antes de dormir..." . Eu - como meus irmãos e irmãs - só tinha um par de sapatos prá ir à escola e à missa; não tínhamos dinheiro nem prá comer direito, quanto mais prá nos dar ao luxo de ter chinelos!!! (aliás só vim a ter costume de usar chinelos quando me casei, pois o Marildo dizia que a gente ficava doente de andar descalço e eu não contestei, pois concordava com ele apaixonadamente...).

Eu pedi prá ela chamar a mãe - prá eu explicar, com toda a propriedade de quem tem razão - como ela estava enganada por me considerar suja. Que meus pés nem estavam tão sujos assim, pois eu tinha acabado de chegar da escola e almoçado, nem tinha brincado ainda...

Dona Angelina me olhou feio como sempre fazia, torcendo o nariz como se eu cheirasse algo podre e, no mesmo dia, foi dizer prá minha mãe que eu era malcriada e que estava proibida de ser amiga das filhas dela...

Eu tinha nove prá dez anos e minha amiga Sandra só falou comigo mais uma única vez, quando fui à casa dela entregar uma costura que minha mãe havia feito prá uma tia dela - eu estava com 14 anos. Me recebeu no portão, pegou a costura e disse que depois sua tia ia lá na minha casa acertar o preço.

Até hoje eu me pergunto o que aconteceu...


Dia 7 de dezembro do ano passado ganhei do meu filhinho um presentão - nós todos ganhamos, prá falar a verdade: viajamos de avião pro Nordeste, onde passamos parte das férias em Porto de Galinhas, em Pernambuco e parte num povoado chamado Mosqueiro, em Aracaju, capital de Sergipe. No primeiro ficamos em uma pousada e no segundo ficamos num chalé na Colônia de férias do trabalho dele.

Foi maravilhoso - não podia deixar de ser, o Brasil é lindo, especialmente o nordeste. Tanta praia linda, tanta comida gostosa...



(Meu moleque, na Orla do Por do Sol em Aracaju...)

Porto de Galinhas podia ser melhor: atrai tanto turista, é tão famoso, tem a maior quantidade de pousadas que eu já vi na vida - mas as ruas não tem asfalto, as pousadas lançam na rua a água das piscinas e fica tudo um lameiro só... As praias são lindas, mas lotadas demais de gente... Você não consegue aproveitar direito, pois é abordada o tempo todo por vendedores de queijo na chapinha, espetinho de camarão, homens se oferecendo prá andar de buggy e andar de catamarã - sem contar as pessoas pedindo esmolas, que são inúmeras o dia todo. Água de coco a 6 reais - sendo que em São Paulo custa quatro e o coco vem do Nordeste!!! Só curtimos essa praia um dia - depois fomos conhecer outras praias, menos famosas e muito mais lindas. 

Maracaípe é linda. Pouca gente, restaurante à beira do mar...


(Tão vendo a transparência da água da Enseadinha? Limpinha - espia os peixinhos, que ficam rodeando a gente...).

Enseadinha de Serrambi foi a que eu mais gostei: os recifes prendem as ondas bem longe da praia, então a água é limpinha e bem calma, dá prá você nadar com os peixes - se souber. Meus filhos me ensinaram a boiar - e eu pensando que ia morrer sem saber!

Mas tem uma coisa chata: prá entrar nessa praia o acesso é controlado através de uma guarita. Você tem que se identificar pro guarda prá poder passar prá área da praia... Mesmo assim não pediram nenhum documento, deixaram a gente passar tranquilamente todos os dias que lá fomos.

A praia - como eu já disse - é lindíssima. Na beira dela somente mansões - nenhum prédio de apartamento, nenhum bar ou restaurante, nenhum quiosque. Área totalmente residencial de alto nível, somente para "os escolhidos"... Policiamento ostensivo o dia todo, com seguranças de moto andando na areia - na qual a cada 300, 400 metros tem pequenas muralhas de pedras enormes, prá impedir os tais passeios de buggy dos turistas de chegarem até ali... Entre a areia da praia e as mansões são plantadas flores que se espalham na areia, muito bonitas, com espinhos maiores que um dedo - prá impedir a aproximação dos curiosos...

Teve um dia - o penúltimo de nossa estada em Porto de Galinhas - que a gente quis aproveitar ao máximo: eu fiz sanduíches, levamos numa caixa de isopor suco de frutas e água e passamos o dia na praia, sem perder tempo saindo prá almoçar. Foi um pavor! O dono de uma das mansões nos viu acomodados na praia, ao alcance da vista dele sem estarmos perto de sua mansão e ficou gesticulando de longe, indignado - ligou prá um vizinho, que veio se unir à ele na indignação. "Imagina só! A gente paga milhões por uma casa na beira da praia e tem que aturar um bando de farofeiros!!!" - ele deve ter pensado... E a gente se comporta tão certinho - não deixamos uma migalha prá trás, não fizemos barulho nem bagunça... Tem gente que adora uma confusão, já perceberam?

Daí a gente comentou com o dono da pousada que a gente ia conhecer a praia de Toquinho, no dia seguinte, antes de ir embora  - e ele nos disse que a gente não ia conseguir entrar. Que tinham deixado a gente entrar em Enseadinha de Serrambi por sermos branquinhos, com cara de ricos, mas que na praia de Toquinho só entravam os próprios moradores - ele mesmo só havia entrado lá uma vez, alegando ter sido convidado prá passear de iate com um tal de Fernando...

Meu filho ficou revoltado: ia visitar a praia de qualquer jeito e queria ver quem ia impedir! Que ninguém pode possuir as praias, que está na Constituição que elas são públicas, pertencentes a todos...

Naquela noite eu falei pro Marildo que não queria ir naquela praia... Que mesmo os donos das mansões estando errados, se apropriando da praia, a gente não deveria ir lá criar confusão; que a gente só deve bater de frente com o mal quando é prá defender alguém, corrigir uma injustiça, impedir algo ruim de acontecer... Que tinha praias lindas de sobra prá gente frequentar sem precisar ir nessa, talvez estragar as férias com algum dissabor...

E não fomos - graças a Deus. Aproveitamos mais um último dia em Serrambi, pegamos o carro e viajamos prá Aracaju, aproveitar outra parte das férias. 

Que cidade maravilhosa! Amei demais Sergipe, se eu me mudasse pro Nordeste seria prá lá - praias lindas (com acesso prá todo mundo...), cidade arrumadinha, comida deliciosa. Condomínios de casas lindíssimas bem próximas da praia, bastando atravessar a rua - mas na praia mesmo só quiosques. Amei e vou sentir saudades prá vida toda. 

Aí ficamos apenas dez dias e voltamos de carro prá mesma pousada em Porto de Galinhas - aproveitar mais da praia de Enseadinha de Serrambi, em plena semana de Natal... O velho rabugento que ficou indignado com a nossa presença não estava lá - as casas estavam praticamente todas passando por manutenção, os donos em suas cidades ou passeando por outro lugar... Foi sossegado, uma delícia.

No dia de Natal meus filhos vieram novamente com a história de conhecer a praia de Toquinho e, dessa vez, eu concordei. Logo a gente ia voltar prá São Paulo e eu pensei: "Bom, seja o que Deus quiser. O máximo que pode acontecer é eles não deixarem a gente passar pela guarita, daí a gente volta e curte uma outra praia qualquer...".

Seguimos o caminho indicado pelo GPS do celular do meu moleque - escolhemos um de dois caminhos existentes.

Nos afastamos do litoral de Porto de Galinhas, atravessando uma área que até parecia o interior rural de São Paulo. Na beira da estrada, a espaços quase regulares, encontrávamos mulheres negras com crianças de colo e de peito, cercadas de outras crianças brincando, a vender bacias de mangas e cajus colhidas no próprio quintal - o jeito que encontram de ganhar algum dinheiro... O que sobra em calor e beleza no nordeste falta em oportunidades de trabalho, infelizmente.

Mais adiante saímos da estrada asfaltada e passamos a transitar por um estreito caminho de terra, atravessando um canavial e, quando ele acabou, apesar de vermos os coqueiros indicando a proximidade da praia, tudo era cercado e os acessos totalmente impedidos. Passamos por uma guarita alta, com meia dúzia de guardas - alguns no alto dela, com rádios e armas, outros no chão, de prontidão em suas motos - dava até um certo medo... Passamos por eles sem problemas, sem sermos questionados de nada e nem impedidos...

Margeando as praias - mas impedidos por cercas de ter acesso a elas - vimos que, desse lado fechado ficavam resorts de luxo. 

Do lado oposto, aberto ao mundo, viam-se aqui e ali algumas habitações... Casinhas feitas de madeirinhas entrelaçadas, cujos buracos são fechados com barro, sem infraestrutura nenhuma - nem luz elétrica, água encanada, esgoto... 


Nos quintais crianças pouco vestidas e cachorros magricelas... Homens e mulheres de aparência triste à nossa curiosa passagem, sentados conversando. Acho que se sentiam constrangidos de serem observados, como se o mundo fosse um zoológico e eles a atração menos querida... Me senti tão triste... Parecia que eu tinha viajado no tempo, de volta aos tempos da escravidão, espiando pequenas senzalas... Meu coração ficou pesado como se algo ruim estivesse prestes a acontecer...

Então chegamos na guarita principal da praia de Toquinho. Paramos o carro e um guarda, portando arma no coldre, um caderninho e uma caneta na mão veio falar conosco...

Meu marido disse: "Meu nome é tal e eu vim de São Paulo, gostaria de conhecer a praia com a minha família..."

Eu já estava esperando um redondo não, algo como "não se permite o acesso a quem não é morador da região" ou algo parecido quando o guarda sorriu e falou que tudo bem, que a gente fosse bem vindo e aproveitasse bem o passeio, que só não era permitido tirar fotos prá não perturbar a privacidade dos moradores!

Percebi envergonhada que nossa cor de pele foi mais uma vez nosso passaporte num lugar daqueles - foi nos garantida a entrada sem questionamento...

Adentramos num mundo que eu só achei que existisse em filmes: ruas belíssimas, com árvores e flores nas calçadas bem elaboradas; mansões que faziam as de Enseadinha de Serrambi parecerem de conjunto habitacional popular... Barcos ancorados ao lado de cada casa, com nomes como "Patrícia II", indicando que, em alguma outra praia, há uma "Patrícia I"...  Nenhuma cerca prá separar as casas: entre uma mansão e outra apenas gramados e caramanchões repletos de flores que nunca vi, embaixo dos quais jaziam estacionados buggys, quadriciclos motorizados, motos dos filhos dos moradores...

As casas eram de proporções absurdas, cada uma delas uma obra de arte antes de ser obra de arquitetura... Cercadas de varandas em toda a volta, repletas de espreguiçadeiras que fariam Cleópatra se sentir em casa... E  em todas elas - apesar de ser dia 25 de dezembro, pleno dia de Natal... - dezenas de homens e mulheres aparavam grama, enceravam piso, lustravam móveis, limpavam vidros, varriam a calçada e a rua: preparavam tudo para a chegada dos felizes donos... Alguns ali já se encontravam: uma Ferrari aqui, uma Mercedes acolá... Suas presenças eram mais sentidas ainda por cruzarmos com adolescentes andando de quadriciclo, propositadamente atravessando poças de água com as rodas prá molhar, por brincadeira, as empregadas que trabalhavam - e a seguir riam muito, felizes por ensopar as coitadinhas...

Apesar do meu desconforto, prá conhecer a praia em si paramos o carro no meio fio, descemos e começamos a caminhar no gramado entre duas lindíssimas casas, quando...

Eu era a segunda andando, logo atrás do meu filho. Na parte lateral da mansão à minha direita escutei vozes - que pensei serem dos empregados... - mas, andando mais uns passos, percebi serem de moradores...

Na lateral da casa havia um tipo de sala aberta, com sofás e mesinhas e diversas mulheres bebiam refrescos sentadas ali, todas amigas ou talvez parentes, rindo alto, conversando animadas...

Estanquei meu passo imediatamente - penso que como eu o faria se me desse frente a frente a um perigo ao qual eu me visse submetida... Virei-me de costas, disse que não ia prá praia por ali e minhas filhas - que vinham logo atrás de mim - me seguraram pelos ombros.

-"Que foi, mãezinha? O que aconteceu? Por que você não quer ir por aqui?"

Apavorada eu respondi:

-"Porque não quero, vamos em outro lugar, não quero ficar aqui..."

Elas não me largavam e então perceberam as mulheres...

-"Você não quer ir por causa dessas mulheres, mãezinha? Não precisa ter vergonha, você é linda, toda delicada, não deve nada prá elas!"

Meu filho veio e disse que a praia era pública, que a gente tinha tanto direito quanto eles de estar ali...

Minha cabeça rodava. Eles conversavam comigo calma e docemente, mas eu estava a ponto de surtar! Por um lado me senti entrando onde eu não havia sido convidada, invadindo a privacidade daquelas pessoas. Por outro lado me senti deslocada, fora do meu habitat, um peixe fora d'água, sufocando lentamente... Mas o pior, o pior de tudo... Ah... A tristeza que eu senti, maior ainda do que a tristeza por ter passado perto daquelas casinhas de taipa na beira da estrada...

Me soltei dos braços de minhas filhas e caminhei pro carro resolutamente - ninguém ia me forçar a ficar ali.

Aí minha Nana ficou brava comigo. Me disse que eu tava fazendo um papelão, sentindo vergonha das mulheres ricas daquelas casas. Que eu tava dando mal exemplo prá eles, por me portar daquele jeito. Que ela todo dia tinha que conviver com pessoas muito ricas na Faculdade de Medicina e que aceitava isso numa boa, mas que eu me recusava a enfrentar esse tipo de dificuldade...

E eu calada, as lágrimas escorrendo dos olhos, sem saber o que dizer. Milhões de pensamentos gritando dentro da minha cabeça: a razão dos meus filhos, a minha razão...

Enquanto chegava naquela praia me lembro de ter pensado que eu jamais poderia aproveitar de suas belezas, por mais maravilhosas que fossem, se eu tivesse que chegar até ali atravessando tanta miséria, encher meus olhos com as imagens de todas aquelas casinhas de taipa, daqueles rostos tristes...

Ao ver aquelas mulheres ricas bebendo refrescos e rindo despreocupadas eu senti vergonha de estar ali e de ser um ser humano: de viver num mundo tão cheio de contrastes doloridos, tanto claro e escuro, tanta alegria e dor desigualmente distribuídos! 

Eu quis fugir, quis esquecer que lugares como aquele existem, quis voltar prá minha zona de conforto, onde pessoas trabalham, sabem quanto custa um quilo de feijão e uma passagem de ônibus, compram o que precisam com planejamento e, fazendo economias, sonham em trocar o sofá da sala... 

Eu não senti vergonha delas por serem melhores do que eu em nada - pois são tão filhas do Pai que está nos céus quanto eu, embora usem perfumes que eu nem sei pronunciar o nome. 

Quer saber? Eu nem acho que elas são culpadas de alguma coisa, prá falar a verdade - como podem? Elas enxergam o mundo com os olhos delas, com os conceitos que aprenderam da vida que levaram - como poderiam enxergar como eu, se não viveram o que eu vivi? Não posso esperar que ninguém pense como eu, essa é a verdade.

E eu também não sei se alguém tem culpa de alguma coisa, afinal de contas... 

Eu apenas senti vergonha de viver num mundo onde o valor de uma pessoa está atrelado à sua conta bancária, onde a cor da pele tem uma importância que não deveria... 

A esta altura da minha vida eu penso da seguinte maneira: se o mundo fosse uma grande festa, onde existissem os donos de tudo, os convidados de honra, os convidados comuns e existissem as pessoas que estavam lá prá preparar os doces e salgados, servir os refrescos, é nessa última categoria que eu queria estar. Eu queria trabalhar incansável durante todo o dia, andando prá lá e prá cá enquanto as outras pessoas me viam passar e nem notavam a minha presença, nem sabiam o meu nome e, no final do dia, quando todas as luzes iam se apagando, por último sairia eu, deixando prá trás tudo arrumado e limpinho, colocando o lixo prá fora e indo finalmente descansar... Mas que ninguém pense que eu ia estar triste - de jeito nenhum!... Nos bastidores eu teria experimentado um tantinho de cada doce e salgado, teria bebido Coca Cola e tomado meu copinho de batida de maracujá e, com sorte, teria levado algumas sobrinhas prá casa...

Meus filhinhos: ninguém é melhor que ninguém e eu sei muito bem disso. Na vida tudo é passageiro: o rosto mais lindo vai se encher de rugas, o corpo mais lindo vai, cedo ou tarde, perder sua forma. O mais caro perfume perde sua essência prá falta de banho assim como os dentes mais brancos se enchem de cárie se não for feita a correta higiene e manutenção... Por mais dinheiro que se tenha a gente parte deste mundo sem um tostão sequer - e até as roupas que nos cobrem no caixão aqui ficam, roídas até os nossos ossos.

Tudo o que temos é aquilo que somos por dentro: cada decepção e cada vitória.

Eu não posso explicar a vocês como meus olhos veem a vida, por mais que eu tente. Posso gastar todas as palavras do dicionário e, mesmo assim, vai faltar um pouco do sentido naquilo que só eu consigo ver por causa de coisas que só eu vivi: cada um tem nos pés os calos que conquistou no caminho que andou, calçando os próprios sapatos... 

Já falei prá vocês que meus olhos enxergam as cores diferentes um do outro, não falei? Com meu olho esquerdo (tampando o direito) o céu tem um azul mais claro; com o olho direito eu enxergo um céu um tantinho mais escuro... Quando eu era pequena e percebi isso, pela primeira vez, foi que eu me dei conta de que, se numa pessoa, um olho não enxerga igual ao outro, como devem ser as visões de cada ser humano na Terra... 

É assim que eu vejo as pessoas: aquelas mulheres ricas, aqueles grandes empresários ou políticos ou seja lá o que forem os donos daquelas mansões não são melhores do que ninguém e também ninguém é melhor que eles - cada um é como é e como a vida o fez. Falo isso prá vocês não se sentirem decepcionados com as minhas fraquezas e que se, em algum momento, minha visão da vida for incompatível com a de vocês, peço que me perdoem. Não ambiciono ser perfeita, só quero ser amada por vocês, meus filhinhos...

Contei essa enoooorme história (aposto que a maioria desistiu de ler na metade...) meio que prá justificar minha ausência nessa viagem surpresa que meu filho deu prá gente e também porque senti que era algo que valia a pena compartilhar.

A foto do início da postagem eu tirei da janela do avião, sobrevoando o Nordeste: dá prá ver o oceano, a linha da praia, a terra acidentada por dentro - lindo, né? Vistos lá de cima todos nós temos o mesmíssimo tamanho, microscópico - dá o que pensar, não é mesmo?

A todas as pessoas que pegaram prá ler mais esta "mensagem na garrafa" eu desejo um bom começo de ano, um 2016 cheio de trabalho e alegria. Pão e rosas, como diz a música - precisamos dos dois prá sermos felizes, não é mesmo? 

Mas é assim: grandes ou pequenos, graças ao Pai somos todos infinitos por dentro em nossa capacidade de aprender coisas novas e, principalmente, em nossa capacidade de amar e nos reformar prá conseguirmos ser a melhor versão de nós mesmos. 

Quero isso prá mim. Quero pro mundo todo.


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