Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A vilã da vez


É a Sabesp - na minha opinião. Por tabela, o governo do estado de São Paulo, o pior que já se teve - nunca teve tanto assalto em São Paulo, fala a verdade.... Esse "governeco" recebeu dinheiro à rodo do Governo Federal por mais de uma vez (e dinheiro GROSSO, nada de mixaria) prá cuidar da crise hídrica que se avizinhava. 

Bom, a crise chegou e o "seu" Alckmin não moveu uma palha. Falar que é bom, fala, mas fazer...

Janeiro deste ano veio a Sabesp trocar meu registro da água - já haviam trocado da casa da minha mãe, que mora perto. Bem que a minha velha tinha me avisado: se estão trocando, é prá subir a conta, jamais prá abaixar...

Dito e feito na casa dela, dito e feito na minha. E olha que já faz muito tempo que aqui em casa se economiza água - que dinheiro não cai do céu e custa muito a se ganhar: lavar o quintal só de vez em quando e só com baldinho. Banhos rápidos - nada daquela águinha quentinha escorrendo pelo corpo - chó-ló-ló-qui-diliça enquanto a gente canta uma ópera (não, senhora). É liga água, molha o corpo, ensaboa, depila, liga a água, enxágua e seca com a toalha - esta então usada mais de uma vez, prá não ficar lavando toda hora. 

E a recompensa de tanto sacrifício e consciência? Já no primeiro mês após a troca do relógio veio 90 reais - quando nunca ultrapassava os sessenta. Pilantragem pura. 

O meu normal é gastar em torno de 15 metros cúbicos de água por mês - um pouco mais, um pouco menos. Mês de abril a moça que vem ler anotou que gastei 25 metros cúbicos - e de punição (aquelas coisas de multa por consumo excessivo acima de tantos metros cúbicos...) me veio a fortuna de 250 reais! Pasmei, pirei, quase infartei e cobrei do pessoal de casa mais economia ainda (o fato é que o "patrão" gosta de um banhinho demorado, nunca adere de fato à economia geral - mesmo com minhas aporrinhações exaustivas e constantes...).

Mas eu pensei: "Vou conseguir baixar de novo prá minha faixa normal, ninguém vai ficar levando nosso dinheirinho suado assim, no mole...".

Veio maio e a conta veio ZERADA:  não informava nenhum valor, nenhum consumo, nada - apenas um aviso de que nossa conta passaria por uma revisão, face algumas irregularidades.

"Finalmente!" - eu pensei. "Eles se deram conta que cobraram demais em abril e agora vão revisar o que foi que aconteceu! Com certeza vão corrigir o erro!" - e fiquei esperando o final de junho, prá ver como é que ia ficar o negócio...

Sexta feira passada lá estou eu, cuidando da vida, limpando a mesa da copa e, mediante o alvoroço das minhas cachorrinhas, espiei pela janela - vai que tinha alguém pulando a grade do portão, na intenção de entrar na minha casa prá me assaltar! - e vi uma moça da Sabesp parada, espiando a fachada da casa. Ela olhava a conta que tinha na mão, olhava prás paredes, prás portas, prá tudo e voltava a olhar prá conta.

"Peraí!" - eu pensei. "Tem alguma coisa errada...". De imediato abri a porta e fui buscar a tal conta que a moça tanto tinha olhado - ela já estava do outro lado da rua, medindo o consumo da minha vizinha de frente. 

Tinha duas contas enroladinhas, presas na grade do portão. Uma - de junho - no valor de 65 reais e a outra - aquela de maio que tinha vindo zerada - no valor de SEISCENTOS E VINTE REAIS!!!! Não mencionava quanto a gente tinha consumido em metros cúbicos, apenas indicava esse valor absurdo prá gente pagar...

Na mesma hora eu falei: "Moça! Moça! Vem aqui um pouquinho, por favor!" e, com a maior cara de "Ai, que saco!" a moça da Sabesp atravessou a rua e veio falar comigo. 

-"Moça, tem alguma coisa errada! Jamais que eu gastei essa fortuna toda de água, isso aqui prá mim é o preço que eu pago por um ano inteiro, tem algo de errado aí!..."

Ela - rindo da minha cara, pois eu devia estar bem transtornada... - me disse com carinha de Pilatos que não tinha nada que ver com isso, que eu deveria procurar a Sabesp prá me informar... Daí que eu me toquei: ela olhava prá conta alta, olhava prá minha casa simples e ficava imaginando onde diachos devia ficar escondida a piscina olímpica...

Entrei, liguei pro Marildo, contei o que tinha acontecido e ele me disse que não podia fazer nada, pois esses valores já deviam ter até saído de sua conta no débito automático. "Como-é-que-é? Então fica por isso mesmo, você não vai fazer nada???" ("P" da vida que eu tava e ele no maior sossego...). 

Porque o Marildo é assim: Se tem que reclamar, sou eu que reclamo. Mandar email prá lá e prá cá, vestir meu sapatinho, e ir até tal lugar lá-vai-a-velha - que, prá ele, o gasto de gasolina, o preço do estacionamento, o tempo que vai perder já o desmotivam, o fazem "deixar prá lá" - ai que ódio que dá nessas horas... 

Amor tem dessas coisas: às vezes a gente bem que gostaria de dar umas chacoalhadas, com muito amor e carinho, mas prá ver se "esse povo" acorda e sente o cheiro do café...

Por sorte meu filho puxou a mãe. Chegou em casa, pegou todas as contas passadas, deu sua analisada e nos mostrou como era absurdo o valor cobrado.

Vou explicar: aquele reloginho cheio de números que mede o nosso consumo de água vai acumulando números. Todo mês o funcionário anota o número que tá escrito lá, subtrai do número que estava escrito no mês passado e essa diferença é o nosso consumo do mês. 

Em janeiro, quando trocaram nosso relógio, o novo veio zerado - todos os quadradinhos tinham números "zero" dentro. Por erro da funcionária, ao fazer a leitura, foram anotadas em alguns meses cifras sempre superiores ao consumo, gerando as contas de valores bem maiores do que deveriam - e a maior prova disso era a leitura atual...

Resumindo: hoje, face insistência minha e do meu garoto, Sua Majestade foi reclamar na Sabesp apresentando todos os consumos das contas passadas, provando que jamais a gente consumiu tanta água a ponto de ter que pagar aquela fortuna de conta e, após revisão do funcionário, a conta caiu prá 45 reais.

Agora: se nós fôssemos pessoas simples, sem instrução, íamos acabar engolindo essa safadeza com farofa... Imagino quanto desse tipo de coisa não acontece por aí, o tempo todo, e a maioria das pessoas nem se dá conta... 

10 reais aqui, 30 ali, cinquentinha acolá - e por aí vai se enchendo o cofrinho de alguém, que não é o nosso...

Conselho de quem sabe: acostumem-se a ler sua conta de água. Nela vem marcado o consumo do mês e também dos meses prá trás - assim você até percebe se gasta mais água no frio ou no calor, por exemplo. Acostumem-se com o valor da leitura mês a mês - que assim vocês mesmas fazem seu cálculo de metros cúbicos mensal. Aprendem a se controlar melhor - e isso até faz bem pro cérebro, é sempre um exercício. 

Além de fazer bem pro bolso...

terça-feira, 23 de junho de 2015

Menos de 20 reais...

Renderam o colete do patrão (da postagem passada...) e este pulover lindão prá Fernanda. Olha como ela ficou gata:

















Bom, sou suspeita - ela (como a Lola e a Nana) até enroladas em pano de chão ficam gatas. Mas eu mesmo assim dou uma ajudinha ao que a Natureza já caprichou além da conta...

Pros finalmentes - receita de mãe (manequim 40):

Sem tempo prá nada - nem prá contar histórias... Muito embora eu tenha uma ótima do dia em que comprei essa lã mas... Talvez semana que vem, se Deus quiser...

Ah, só prá completar: esse mesmíssimo pulôver estava a 150 reais no shopping - e com menos de 20 reais fiz um colete e ele... E a Brother parou de fabricar máquinas de tricô - pode um absurdo desses???

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Colete abotoado




É o meu jeito de fazer colete com abotoamento - um jeito simples, na verdade, bem arroz-com-feijão. Mas é uma mão na roda porque apesar de ser meio detalhado (por causa do montão de fiozinhos que eu vou amarrando na peça...) é muito fácil.

Colete feito pro Dia dos Namorados - primeira vez que faço listrado. Já fiz montes de jacar - que Sua Majestade adora - mas agora fiz assim, prá descomplicar e também porque achei as listras muito lindas.

Aliás, fiz copiando uma blusa que acabei de fazer prá Fernanda, amiga do coração da minha Lola - ficou um arraso e logo posto a foto e a receita. A lã eu comprei prá blusa, o colete eu fiz com a sobra. Juntos (colete e blusa) me saíram por aproximadamente 25 reais (porque ainda sobrou lã...) e isso porque paguei preço de ouro: 43 reais o quilo na Tricolândia. Se vocês comprarem na Casa das Lãs sai por metade disso...

Bom, taí a receitinha de mãe:


Você faz o colete - costas lisas, frente listrada - gastando menos de 300 g de lã 2/28 (150 de cada) mas tem um pulinho do gato:

Na hora de fazer as frentes faça a troca de cores acontecer sempre no lado da costura lateral (e não da tira do abotoamento). 

Num dos lados naturalmente acontece assim: para o carro do lado que você acabou de fazer a barra, passa os pontos prá máquina, muda a regulagem do carro, muda a cor do fio e vai tecendo as listras, sempre trocando de cor desse lado. 

Daí quando for fazer o outro lado você termina a barra, passa os pontos prá máquina, corta o fio e, tirando o carro da máquina, inverte ele de lado. Assim as emendas ficam no lado contrário ao da outra parte, que você fez primeiro.

É importante fazer isso prá não ficar com sobras de fios no centro do colete - você quer ele o mais limpinho possível e, nas laterais, dá prá esconder essas sobras na costura.

Outra coisa: sei que tem outros acabamentos prá coletes, feitos por partes: uma frente, depois a outra, depois as costas. Daí costura e emenda tudo. Essa minha tira é mais prática, pois é feita numa peça só, sem emendas. Você faz as marquinhas amarrando pedaços de fios coloridos a cada etapa de sua feitura - e isso é uma mão na roda na hora de pregar a tira no colete: Você alinhava sempre fazendo coincidir as marquinhas com o começo do decote (dos dois lados), com o final dele e com o centro das costas. Assim não tem erro e nada fica deformado, as duas frentes medem igual - super importante especialmente se é listrado ou desenhado e a padronagem tem que coincidir dos dois lados.

Ah, uma coisa boa de colete abotoado é não precisar marcar a cartela quando faz jacar: vocês não acham horrível aquela memorização da cartela prá um lado ficar igual o outro? Mesmo depois de trocentos anos fazendo tricô sempre acho chato... Assim cada lado se faz separado, não precisa esquentar a cabeça com cartela nem com agulhas suspensas, nada, nada. Mamão com açúcar!

Imagina só o preço de um colete desses numa loja de marca: não sai por menos de 150 reais - de verdade! E você faz num instantinho por menos de um décimo do preço - bom demais, né? 

Homem adora colete, deixa o corpo quentinho e os braços livres prá eles trabalharem... Eles merecem esse carinho...

Espero que tenham gostado da receitinha...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Um amor de um outro tempo...


Minha avó veio para o Brasil por puro capricho: seu pai havia morrido há pouco tempo e, apesar da vida não estar fácil, ele não deixou sua esposa e filhos desamparados, muito pelo contrário. 

Possuíam muitas terras em Portugal, muitas plantações de oliveiras, muito gado... Dava prá viver - e bem.

No entanto, minha avó - afilhada de uma senhora de sociedade, muito rica - sonhava com as viagens da madrinha ao Brasil...

Seu irmão mais velho - aventureiro - já aqui estava há quase um ano, tentando a sorte, trabalhando na Rua do Gazômetro, em uma fábrica de carvão - assim mandava dinheiro prá mãe em Portugal e notícias, de vez em quando. Esse era mais um motivo prá quererem vir prá cá...

E assim foi feito: reunidas muitas economias, atravessaram o oceano e vieram parar no estado de São Paulo, onde minha bisavó assim que pôde comprou uma casa grande prá se manter - enquanto aqui estivesse - alugando cômodos para imigrantes.

Certo dia apareceu na casa um homem, muito bem vestido, proveniente de uma cidade de Portugal distante da de minha bisavó. Dizia-se rico proprietário de passagem prá investir em terras e gado no Brasil - minha bisavó se encantou do homem, um pouco mais velho do que ela mesma. E ele se encantou de minha avó, a filha mais velha, a essa altura já com 18 anos - uma "solteirona" práqueles tempos... - e manifestou a vontade de se casar com ela...

Minha avó o detestou de imediato - antes mesmo de se saber cortejada. "Ele é ainda mais velho que meu próprio pai! Se a senhora gosta tanto assim dele, case com ele a senhora, pois é viúva e não tem impedimento!!!" - foi o que ela disse prá mãe ao ser avisada de seu próprio casamento, já acertado sem seu conhecimento...

-"Pois se não casares com ele, não és mais minha filha e podes te por daqui prá fora!" - minha bisavó disse...

Assim, sem escolha, em um país estranho, minha avó se casou contra a vontade...

Imediatamente após o casamento o marido a levou para um outro bairro - alegando necessidades de negócios - e se instalou com ela num cortiço no centro de São Paulo: um lugar miserável - como minha avó nunca havia visto - um quartinho apenas com uma cama e uns caixotes de madeira à guisa de armários, cadeiras e mesa... O marido a tratava mal, não lhe dava nenhuma satisfação de nada e, um belo dia, sem mais nem menos, não voltou prá casa. Mandou um estranho lhe entregar uma carta - à qual ela, analfabeta, não pôde ler...

Na carta - lida depois por uma vizinha - ele pedia perdão por lhe ter arruinado a vida, pois era casado em Portugal...

Minha avózinha, tendo recém descoberto que estava grávida, passou a mão em seus poucos pertences e voltou prá casa da mãe levando a carta, certa de ali ser bem recebida.

Minha bisavó - que era uma mulher muito dura de coração - a recebeu do lado de fora do portão e não se interessou nem pela filha (obrigada por ela mesma a se casar com um estranho) e muito menos pelo neto que esta carregava: disse prá filha que ali não aparecesse mais, que ela estava perdida prá sempre, era uma vergonha prá família!

Minha avó passou a viver e dormir na rua, se sustentando quando alguém lhe oferecia algum serviço prá fazer, um tanque de roupas prá lavar ou comida de caridade. Numa padaria da rua Guaiaúna o padeiro lhe dava pão velho...

Perto de ganhar bebê, uma família de mudança pro Rio de Janeiro - compadecida dela - lhe ofereceu carona prá lá: ela iria com eles, ganharia o bebê, o deixaria entregue nas mãos das freiras e teria com eles emprego garantido - e ela foi.

Teve o bebê pelo caminho...

Quando chegou no Rio de Janeiro, na Casa da Roda, minha avó carregava nos braços seu pequeno filho - a quem chamou Antonio, nascido forte, pesando mais de quatro quilos ...

Prá quem não conhece: a Casa da Roda era uma instituição prá crianças abandonadas pelas mães - ou por serem pobres e não poderem criá-los ou por serem ricas e terem que escondê-los. Nesse local havia um compartimento, localizado no muro, onde a pessoa depositava do lado de fora a criança, rodava uma manivela e ela ia parar lá dentro. Tocava-se uma sineta e as freiras vinham buscar o bebê, ficando a mãe totalmente no anonimato...

Minha avó tocou a sineta e tocou e tocou... Ao não verem nenhum bebê na roda e a sineta continuando a tocar as freiras abriram o portão e deram de cara com minha avó, que não teve coragem de abandonar o filho: tudo o que queria era um lugar prá ficar, um abrigo...

Ali ela permaneceu por quase seis meses, servindo de ama de leite pros enjeitados... Contraiu sarna deles - ela e o Antoninho... Era mal tratada pelas freiras, que a consideravam uma mulher da vida - só a toleravam pelo leite e por algum sentimento cristão que tinham no fundo do coração.

Cansada e triste minha avó empreendeu a viagem de volta prá São Paulo, pensando que sua mãe, ao ver o netinho tão lindo, teria o coração tocado e a aceitaria de volta...

Por diversos dias rondou a casa, parando na porta. Quando anoitecia voltava prá rua Guaiaúna, onde o padeiro lhe permitiu - por pena do bebêzinho - dormir num barracão de chão de terra batida que tinha nos fundos da padaria: lá ela se deitava abraçada ao filho e dormia sobre uma tábua, que em noites de chuva ficava úmida e fria. Daí tinha lhe vindo o reumatismo, ela dizia...

Então chegou o dia de Natal e uma das irmãs de minha avó - minha tia-avó Ana, uma mulher muito alta e muito forte, com um coração de anjo... - estava em casa, de folga pela festa... Trabalhava de doméstica num casarão na Av. Paulista, trazendo sempre um bom dinheiro prá casa, sendo por isso muito querida pela mãe... Olhando pela janela, tia Ana viu e reconheceu a irmã, mal vestida e suja, magra de fome, carregando no colo o menino. Perguntou à mãe o que estava acontecendo, porque ela estava lá fora, o que havia acontecido! 

Minha bisavó havia contado mentiras aos outros filhos, dizendo que a irmã deles estava muito bem de vida, de volta à Portugal com o marido... Quando tia Ana quis trazer minha avó prá dentro foi impedida com os dizeres : "Ela agora é uma mulher perdida, não tem mais lugar nesta casa!".

-"Pois eu então vou me perder com ela, mãe! Se ela não entra mais nesta casa, aqui também não entro mais eu!"

Face perder outra filha  (e o dinheiro bom que ela trazia prá casa...) minha bisavó deu permissão pra filha "perdida" e seu neto bastardo ingressarem na casa...

Ali minha avó passou a morar com o filho como se fosse inquilina - trabalhando como burro de carga quando estava em casa e trazendo limpinho todo o dinheiro que ganhava por trabalhar durante longas horas, todo dia, na Tecelagem Matarazzo... 

Sua mãe, quando se referia à ela, ainda a chamava de "perdida". Quando minha avó dizia pro filhinho: "Pede a bença prá tua avó, Antoninho!" minha bisavó respondia: "Vai ao diabo que te abençoe!"...

Todo final de tarde ela descia do bonde na ladeira da Penha e ia o restante do caminho à pé, de volta práquela mãe que não a queria, pro filho que precisava dela... 

Todo final de dia o dono de uma loja de miudezas vinha prá porta, esperá-la passar - pois que ela era muito bonita, minha irmã Cida saiu à ela... 

Num belo dia o dono da loja estava a conversar com um amigo querido quando deu a hora - e lá foram os dois prá porta, prá ver minha avó passar... 

Pobrezinha olhava pro chão, não ousando erguer os olhos prá ninguém. Estava perdida - como sua mãe dizia... - nenhum homem iria respeitá-la devido ao seu passado. Iriam querer usá-la como se fosse uma coisa, descartá-la como o marido havia feito... Não tinha direito de ter um lar, um companheiro, uma família. Seu único direito era trabalhar e criar o melhor que pudesse o filho...

Mas Deus tinha seus próprios planos e o amigo do lojista se apaixonou por ela - passando também a esperá-la, puxando conversa o pedaço do caminho que se atrevia a acompanhá-la... Tomando conhecimento de sua triste história, garantiu que cuidaria dela e do menino como se fosse seu - mas como é que minha avó iria confiar? Melhor ficar como estava mesmo...

Contudo - já o menino estando com dois anos de idade - como o coração de sua mãe não se comovia, como todos os seus esforços eram em vão prá ser de novo considerada filha, cansada dos maus tratos e carente de um ombro amigo, minha avó fez uma trouxinha com os poucos pertences que tinha, pegou o menino no colo e rumou, num final de dia, pro endereço do moço que não se cansava de cortejá-la... 

Ao bater na porta eis que essa se abre e um lindo par de olhos cor de mel a recebem com felicidade, um sorriso bobo que ia de orelha à orelha - ele era mais baixinho do que ela, tinha a pele mais morena, e no seu jeito manso de falar (que eu nunca me esqueço, pois que ele era meu avô...) disse assim prá minha avó:

-"Se me respeitares, terás marido prá vida toda..."

Minha avó, uma das mulheres mais inteligentes que eu conheci na vida, respondeu:

-"Do meu lado a corda não quebra..."

Jamais quebrou de lado nenhum, viveram juntos por toda a vida. Nunca foram casados, nem no civil nem no religioso - por pura ignorância, falta de conhecimento das leis. Afinal, se o tal marido já era casado em Portugal, o casamento com minha avó não tinha validade...

Minha avó sofreu por toda a vida - não por causa dele, mas por causa do mundo. 

Por meu avô ela era tratada como rainha: mandava vir casacos de pele do estrangeiro prá ela, a cobria de jóias de ouro, lhe dava tudo o que ela nem se atrevia a pedir, só porque ela olhava. 

Me lembro de espiá-la na pia, a lavar a louça e meu avô chegando e a cobrindo de beijos (ele era um beijoqueiro!) e ela dizendo: "Sebastião, olha a menina espiando!" e ele respondia: "Tudo o que ela está vendo é que o avô ama a avózinha dela...".

O mundo, invejoso e transbordante de preconceito, não perdoou os dois: seus filhos eram chamados de bastardos e minha avó continuou a ser chamada - pelas costas, obviamente - de perdida. As próprias noras, depois de casadas com seus filhos, sempre faziam questão de lhe lançar na cara que tinham todas a vida marcada por ela, por serem casadas com bastardos... 

Católica fervorosa foi proibida de pisar na igreja pelo padre, que disse que ela e meu avô iam pro inferno, por não serem casados... 

Me lembro de vê-la chorar tantas vezes... De vez em quando ela pedia prá um dos filhos a levar numa igreja distante, onde não a conheciam, só prá tomar a hóstia no final da missa - dizia sentir falta da comunhão com Deus... Toda vez que fazia isso voltava prá casa mais arrependida e mortificada ainda, sentindo que havia cometido mais um pecado mortal, por tomar a hóstia que não merecia...

Por ela - ainda menina - eu fiz uma promessa: "Quando eu crescer, vó, eu também não vou me casar. Se eu conhecer alguém e me apaixonar eu só vou morar com ele, igual a senhora e o vô. Assim, se a senhora for pro inferno, eu também vou prá te fazer companhia, porque eu não quero te ver triste, nunca na vida!"

E das promessas que eu fiz na vida essa é a que mais prazer me deu cumprir... Quando mil anos atrás o Marildo me pediu prá casar com ele, sem pensar duas vezes e prá espanto geral da nação, eu respondi que não... Nem tanto prá ir pro inferno por causa disso - já crescida (e um tantinho mais sábia) eu já tinha certeza que minha avó estava num lugar de honra junto de Nosso Pai: simplesmente prá navegar contra o preconceito que, apesar de bem menor nos dias de hoje, infelizmente ainda existe. Entretanto o Marildo - homem muito sério mesmo ainda um rapazinho - ficou insistindo na legalidade da coisa e... bom... isso é história prá outra ocasião. 

As alianças que eu e o Marildo usamos nos dedos eram deles - jamais abençoadas em igreja nenhuma, dadas a nós por minha mãe (que abriu mão dessa lembrança preciosa de seus pais por amor a mim)... 

Acredito que ficou tanto amor impregnado nelas que por toda a vida vou viver abençoada por seus antigos donos - será bobagem eu pensar assim? 

Talvez...

Mas não se passa um só dia sem que eu sinta a amorosa presença deles - quase chego a ouvi-los falando comigo, às vezes...

Amo tão imensamente minha avózinha que aqui registrei parte da sua história, com o peito doendo a cada palavra digitada. Não tenho medo da morte porque sei que vou reencontrá-la...

Minha Lolinha - gloriosa Lola... - herdou o nome dela.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Fiz dois









Prá presentear o Marildo pelo aniversário - um eu dei antes, pois não aguentava de vontade de vê-lo usando... - e o outro foi no dia mesmo, domingo dia 31 de maio. Ele tem mais de 20 coletes, mas sempre quer novos - e como trabalha usando roupa social eles são sempre muito bem vindos.

A lã eu comprei por quilo na Tricolândia - a famigerada loja que tem um péssimo atendimento (gente sempre mal humorada e carrancuda...) e que ainda dá uma trapaceada no peso da lã que enrolam - não descontam o peso do cone... Mas aí é que tá: na Lãs Formosa é bem mais barato (37 o quilo, enquanto na Tricolândia eu pago 43...) mas só vende o cone fechado com mais de um quilo e tem pouquíssimas cores... O jeito é pagar mais caro mesmo...

Receitinha de mãe:


O Marildo não é um homem gordo - pesda 75 quilos (apesar de uma insistente barriguinha...) mas o manequim dele seria o que se chama de 46 prás mulheres (por causa dos ombros...). Por isso chamei de tamanho médio.

Corre fazer que ainda dá tempo de presentear o namorado!!!

Agora minhas desculpas: não ando tendo muito tempo nem prá blog, nem prá visitar as amigas - prá nada mesmo! É que continuam me pressionando prá contratar empregada e - prá ser sincera - não quero por dois motivos: primeiro detesto gente estranha na minha casa, mexendo nas minhas coisas, quebrando sem cuidado, manchando de cloro, etc, etc (rabugices de velha, eu sei...). Mas não quero também porque já dou muito gasto: meu filhinho tá pagando convênio prá minha mãezinha, gasta todo mês uma fortuna só prá me fazer feliz - tenho que fazer o meu melhor prá não dar mais prejuízo, não é mesmo? Eu sei que vocês entendem...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...