Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O segundo


A gente costuma trazer no coração com carinho uma porção de coisas - especialmente aquelas que a gente vive pela primeira vez. Lembro da minha primeira ida ao cinema, do meu primeiro dia na escola - usando vestidinho de crochê amarelo... -, da minha primeira caneta - que era tinteiro e por um triz não me estragou o uniforme...

O meu primeiro beijo...

Sério: o de vocês foi com que idade? Aposto que vocês eram adolescentes - e aposto que ainda se lembram dele...

O meu... eu tinha 19 anos...

Falar a verdade: não dava prá ter acontecido antes. 

Primeiro eu não estava preparada: parecia de propósito, eu só me apaixonava por quem não gostava de mim. 

E na feliz coincidência de descobrir que o garoto correspondia ao meu afeto, eu - na mesma hora - deixava de gostar dele, fugia igual o diabo foge da cruz. Não estava preparada mesmo, o meu departamento eram as paixões platônicas.

Me arrisco até a dizer que aquele garoto que partiu meu coração na adolescência - cuja patética história eu contei nesta postagem AQUI - só se arrastou por tanto tempo porque eu sentia, no miolo dos meus ossos, que não era correspondida. Se - em uma única vez - ele tivesse me olhado com carinho, tinha acabado naquela hora mesmo e nada daquilo teria acontecido...

Sei lá, acho que eu era medrosa, imatura... Complicada.

Daí, com 19 anos, fomos eu e minha irmã Cida passar as férias numa praia litoral de São Paulo, juntamente com nossa prima Beatriz - que era adotada e super-super rica. Ficamos no apartamento do meu tio João e da minha tia Nancy - que só nos levaram prá fazer companhia prá Beatriz, que era a sobrinha preferida deles e que estava passando com eles as férias de verão, pois os pais estavam viajando prá fora do Brasil.

Bom, lá estávamos nós: três adolescentes com praia a perder de vista, sol, garotos de montão prá todo lado - paraíso...

Na frente do prédio ficava parado um grupo um pouco mais velho do que nós, meninas de longas madeixas louras, de pele dourada, garotos de parafina nos cabelos - usuários de drogas, segundo nossa prima Beatriz, a sabidona dentre nós. Ficamos bem longe deles - pelo menos eu e a Cida...

Beatriz era assim: magra, busto manequim 50, extrovertida, biquini fio-dental (e isso ainda não era moda - mas meus tios não se atreviam a contrariar a menina, que fazia o que bem queria...). Trocava de roupas no quarto e ficava refrescando os seios na janela - daí gargalhava dizendo: "Há, há!!! O velho ali do oitavo andar deve tá tendo um infarto de olhar prás minhas belezas!!!". 

Eu e minha irmã usávamos maiôs de corpo inteiro, bem de velha - como nossa mãe havia comprado... Sobrava tanto pano no meu...

Uma certa noite saímos prá passear pela orla da praia, tava tendo uma festa qualquer - nem me lembro o motivo. Tinha um shopping que a gente queria conhecer - não existiam muitos naquele tempo e eu e a Cida nunca tínhamos ido em um na vida. Nos auto-falantes espalhados pela rua tocavam músicas em moda na época e eu me lembro especificamente de uma: On Broadway, do cantor George Benson. Até hoje associo essa música à verão e à praia...

Lá estávamos nós três caminhando pelo calçadão quando, de repente...

Apareceram pela nossa frente dois rapazes: um moreno baixinho, parecido com aquele ator latino John Leguizamo - nada de especial - e o outro (ah, o outro...).

Você começava a olhar prá ele pelos pés, ia subindo os olhos e tinha que pagar pedágio até chegar nos lindos cabelos loiros - o garoto era um monumento, alto até dizer chega. Tudo nele era lindo: os olhos verdes, o sorriso todo certinho e branco, a camisa azul clara meio aberta... Na sola dos pés devia até ter uma incrição do autor: "feito por Deus". Muita areia pro meu caminhãozinho...

O baixinho veio jogar conversa fora com minha prima Beatriz - que não perdia uma oportunidade prá namorar - e o bonitinho veio se chegando pro meu lado e puxando papo co-mi-go! Com minha irmã Cida ali - a bonitona da minha família - e ele pareceu se interessar por mim!!! 

E tem gente que não acredita em milagres...

A velocidade da luz - já ouviu falar? Pois é passo de lesma perto da velocidade da minha imaginação... Em alguns segundos me imaginei namorando com ele, ele vindo me visitar na capital, a gente casando, morando num apartamento na praia - eu deixando de ser a encarnação humana de um pimentão e ficando linda e bronzeada... - tendo dois filhos (um menino e uma menina, ambos lindos como ele e inteligentes como eu...) e vivendo felizes para sempre... Ai, ai... Fui tão feliz - bodas de ouro e tudo...

Daí, enquanto eu viajava na maionese mentalmente, minha prima Beatriz já começou a beijar na boca o garoto moreno - que tinha acabado de conhecer... - e o rapaz que estava comigo me pegou pela mão, me levou até um banco de rua e nós nos sentamos - minha irmã Cida na outra ponta do banco...

-"Oi, eu me chamo Rosa..." - eu disse, toda mocoronga...

Ele ficou me olhando, um sorriso parecendo indeciso entre os olhos e os lábios...

-"Vicente" - me lembro como se fosse hoje: era o nome do melhor amigo do meu pai (eu até achei que era um bom presságio, esse tal amigo vivia consertando a TV de casa de graça...).

Eu pairando no ar, ar com cheiro de água salgada, tão bom de aspirar...

Quando - do nada, assim sem mais nem menos... - o Vicente me agarra e começa a me beijar - na boca - como se a gente estivesse meio assim, noivos prá casar já de data marcada, de aliança e tudo - e me desculpe quem me achar bobona, mas eu era uma menina muito certinha, tudo preto no branco na minha vida, nada dos tons de cinza do mundo de hoje em dia...

-"Que absurdo!" - eu pensei... "A gente nem se conhece, ainda nem decoramos os nossos nomes direito!!!" - um choque de realidade, isso é o que foi. "Que nojo, parece que tem uma lesma tentando escorregar pela minha garganta! ÉEEca" - e eu batalhando prá me livrar das mãos dele, tão enormes, me segurando com força. 

Com um esforço sobre-humano eu consegui me soltar, mas o beijo continuava e continuava, agora acompanhado por uma mão que queria se posicionar em partes do meu corpinho - infantil de tudo - sem a minha permissão!

-"Jesus, me acuda!" - eu disse (expressão que herdei da minha avó...), adquirindo uma força três vezes maior que o meu normal, me levantando dum salto, agarrando a Cida pela mão e me afastando dali o mais depressa que eu pude - mais rápido que a minha mundialmente famosa velocidade da imaginação...

Ele me olhando com um ódio totalmente injustificado - como se eu tivesse xingado a mãe dele, assassinado seu cachorro - eu assustada, olhando prá ele sem entender nada da vida e, entre nós, nossos dois filhos mortos, nosso casamento desfeito, nosso lindo apartamento na praia demolido em fase de construção...

Minha prima Beatriz - a muito custo - largou do seu amiguinho e foi embora conosco, por insistência nossa (diga-se de passagem). Marcou de se encontrar com ele de novo, outro dia e outra hora (e realmente fez isso, sem a nossa companhia). A favor dela tenho a dizer que, apesar da fama de "galinha", ela não zombou de mim. Me consolou, genuinamente comovida pela minha inocência.

Eu - fiquei traumatizada. Fiquei me achando uma aberração da natureza. Todo mundo no Universo adorando beijo na boca e eu odiando, achando que tinha gosto e cheiro de cuspe. Nojo. 

Dali prá diante cada vez que via um beijo em novela ou filme voltava todo o trauma...

Anos depois, com 22 anos, lá estávamos eu e o Marildo meio que engatando um relacionamento, andando juntos prá todo lado, dividindo lanches, ideias, confidências...

Um belo dia eu, desesperada, falei prá minha mãe assim:

-"O que que eu vou fazer, mãe? Se de repente ele vier me beijar, eu não vou gostar, vou reagir com nojo, o que vai acontecer? Gosto tanto dele, acho ele tão lindo, tão legal com as crianças, com os velhinhos, ele é tão bom - acho mesmo que eu o amo... O que vai ser de mim, mãezinha?"

Ela sorriu daquele jeito lindo que as mães sorriem prá consolar a gente, cheias de paciência e sabedoria de vida e disse assim:

-"Vai dar tudo certo, filha. Se você gosta mesmo dele, você vai gostar do beijo e vai dar tudo certo..."

E deu.

Um sábado lindo há mil anos atrás, a gente voltando de um dia repleto de trabalho voluntário, passavam das oito horas da noite... 

A gente cansado e feliz, tanta coisa linda tinha acontecido naquele dia! Tava um calor gostoso, o céu repleto de estrelas, a gente segurando um na mão do outro, sem um tostão prá tomar um sorvete... Na calçada de uma casa bonita, no centro da Penha, do lado de uma árvore muito antiga e cheia de história aconteceu meu segundo beijo - e foi mágico. Natural como colocar um pé diante do outro quando se anda, quando se tem um caminho lindo pela frente e não se tem medo de empreender essa jornada...

Muitas e muitas vezes pedi prá passear de carro por ali, só prá dar uma parada na porta e mostrar prás crianças a árvore onde aconteceu o primeiro beijo do papai e da mamãe - boba de tudo, eu sei. Piegas, isso é que eu sou...

Faz uns 3 anos alguém comprou a casa e cortou a árvore velha que ficava na calçada - chorei de tristeza, se eu tivesse dinheiro tinha comprado aquela casa prá mim...

Foi assim: embora eu nunca vá esquecer do primeiro, foi o segundo beijo que deu início à parte boa da minha história, ao conto de fadas cheio de lutas e de final feliz batalhado a cada dia.

Beijo - prá mim - é sagrado. Não consigo entender gente que namora só por namorar, que beija por beijar. Atores e atrizes beijando todo mundo e qualquer um - não consigo entender, não nasci prá isso...

Me lembro de três ocasiões no Evangelho mencionando beijos...

Jesus na casa de um homem rico, convidado para um jantar... De repente  uma moça entra na casa sem ser convidada e, sem se importar com os olhares reprovadores que a encaram, passa a banhar os pés de Jesus com suas lágrimas e a secá-los com seus cabelos... Mediante a estranheza do rico, Jesus menciona que ele (o rico) o havia recebido em casa sem o costumeiro e esperado beijo no rosto de boas vindas - enquanto que a moça, a quem todos olhavam de atravessado, não cessava de lhe beijar amorosamente os pés...

Lindo isso - beijar prá dar boas vindas. 

Mais lindo ainda, cobrir alguém de beijos por lhe ter muito amor - como ela fez...

Beijos são tão preciosos... São como palavras sem sílabas, de um som que só o coração escuta, que dizem tantas coisas sem pronunciar nada...

Mas também me lembro de uma outra vez em que houve um beijo - um outro beijo bíblico, usado como marca, um carimbo mudando o rumo de uma linda história:

"-Então, Judas... Me traíste com um beijo?"...

Que todos os beijos fossem sinal do mais profundo amor nessa vida...


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Simplicidade

Porque coisas simples nunca saem de moda - não é mesmo? A Lola me pediu um pulôver aberto, sem abotoamento, super simples e básico - e prá quê que serve uma mãe se não é prá fazer os filhos felizes?








Mas - prá não ficar tão básica... - fiz uma palinha sanfonada, só prá dar um charme... O tipo de blusa que a gente faz bem de ter no guarda-roupa, de várias cores, levinha mas que esquenta se for preciso. Baixo custo (apenas 350 g de lã 2/28 - me custou menos de 15 reais) e serve desde o manequim 42 até o 48 - prá fazer manequim maior use lã Cristal, aumente a regulagem prá 7 e vai conseguir um pulôver tamanho 50, 52...).

Fiz sem abotoamento que é prá usar abertinha - mas você pode fazer casas, do lado direito, a cada 20 ou 30 carreiras (dependendo de quantos botõezinhos você queira colocar...). 

Receitinha de mãe:


Desculpem o sumiço: cuidando do Marildo, sabe como é... 

Minha sogra dizia que homem é quinem caju: por mais doce que seja, sempre tem ranço... 

O meu, quando tá em casa, quer eu orbitando em volta dele: tô lavando roupa, limpando os banheiros, descascando umas batatinhas e ele: "Já acabou? Você não vem sentar comigo, ler prá mim um pouquinho...". 

Monopoliza a TV com documentários da 2ª guerra Mundial, filmes cheios de violência, lutas do Canal de Combate e querendo eu tricotando 24 horas por dia do lado dele - pode uma coisa dessas? 

Hoje que ele voltou pro trabalho... 

Mas tô com a minha Lolinha meio doentinha em casa - então sara um, outro carece da minha atenção. Meu mundo não gira se eu não ficar dando petelecos nele, essa que é a verdade...


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Cuidando do que realmente importa...


Há mais ou menos três semanas atrás, mais precisamente dia 5 de maio - uma terça feira - o Marildo voltou do barbeiro se queixando de fortes dores nas costas. 

Toda terça feira ele frequenta o mesmo barbeiro, mas somente desta vez voltou se queixando de dores. Dei prá ele um relaxante muscular dos que eu uso, prometi fazer uma almofada prá ele levar no carro prá se acomodar melhor na cadeira quando fosse cuidar do cabelo e da barba (belamente esculpida, por sinal...) e fomos dormir - pelo menos eu fui...

O pobrezinho passou a noite acordado, tentando achar um jeito de se acomodar na cama, atormentado de dor... Dei umas gotas de novalgina mas só lá pelas quatro da madrugada é que ele conseguiu dar uma cochilada.

Quando me levantei - às 04:40 da madrugada, como é meu costume prá cuidar do café da manhã da Naninha e levá-la até o metrô - ele se levantou junto, tomou um banho rápido e disse que, após deixarmos nossa filha na Estação Penha, ele iria pro Pronto Socorro do Hospital Nipo Brasileiro.

Agarrei uma sacola com um tricô e fui junto - por companhia e por preocupação.

Pegamos uma senha pro Clínico Geral e uma pro Ortopedista - ele achando que era muscular, eu querendo investigar se não seriam pedras nos rins novamente (pois ele já havia feito duas litotripsias, tempos atrás...).

Ele não me deixou entrar em nenhuma das duas consultas - disse que não era criança e que não precisava de assessoramento. Saiu do clínico com absolutamente nenhuma providência - o médico não fez um exame de urina prá detectar sangue ou infecção, nenhum exame de sangue, nada! Disse que era caso de ortopedista - e lá foi ele, se consultar com o outro médico - que, sem pedir sequer uma radiografia, prescreveu relaxante muscular e anti-inflamatório, disse que a dor ia passar com os dias... 

Ah, passou uma ressonância magnética, a ser autorizada no convênio e ser feita futuramente...

E foi assim: ele tomando os remédios nas horas certas, usando bolsa de água quente, passando pomada - e nada da dor passar (muito pelo contrário - só aumentava...).

Ele não dormia - e por tabela eu também não... - mas não perdia um dia sequer de trabalho...

Quando se acabou o tempo dos medicamentos, ele começou a urinar rosado: era claro que não era muscular e então lá fomos nós de novo ao Pronto Socorro - de madrugada mais uma vez, já que depois das sete horas da manhã aquilo vira um formigueiro!

Estava sendo atendida a senha 30 - e a nossa era 69 (ia demorar à beça...). Arrumamos um lugar prá sentar, eu deixei com ele minha sacola de tricô e fui na enfermeira (ele ficou bravo comigo, mas eu estava doida de preocupação...).

-"Moça, meu marido não dorme há uma semana de dor e tá urinando com sangue, não tem jeito de apressar o atendimento dele?"

A moça - muito cortesmente - me disse que já, já meu marido seria atendido, que eu aguardasse a minha vez (muito obrigada por nada...).

Sentado do lado do meu marido um rapaz se ofereceu prá trocar de senha com a gente - acho que de ver minha preocupação (esse mundo tem gente boa, tem mesmo!).

Quando foi chamado o novo número (o pobre do rapaz perdeu 20 lugares!!!) meu marido ME MANDOU ficar sentadinha no meu lugar, que ele não era criança, sabia conversar com a enfermeira sozinho! Eu esperei ele entrar, se sentar, me esgueirei devagarinho e fiquei atrás da porta, escutando...

-"Então, o que o senhor está sentindo? Está com dor?"

-"Estou com um pouco de dor e..."

"Um pouco de dor!" - eu pensei - "Ah, esses homens e seu orgulho em admitir fraqueza...". Apareci na frente deles e disse:

-"Um pouco de dor nada! Ele não dorme faz uma semana! Só ontem à noite tomou 2 Tilatil e 3 Cetoprofeno, dava prá derrubar um cavalo! E ainda tá fazendo xixi com sangue!"

Ele me olhou tão feio, mas tãããõ feio!!! Pelo olhar era prá eu ter saído de perto, fugido prás montanhas, mas corajosamente (pois eu sou muito corajosa - diga-se de passagem) eu permaneci no meu posto de esposa intrometida, bem ali do lado dele. 

A enfermeira mediu a pressão (que tava altíssima! - coisa totalmente nova, pois ele tem a pressão normal), mediu a temperatura (e ele estava com um pouco de febre) e falou prá ele se sentar e aguardar o chamado da moça que faz a ficha.

Fomos nos sentar e ele ficou implicando comigo, dizendo que eu fiz errado, que ele é um homem adulto e não precisava que eu me intrometesse...

A atendente chamou prá fazer a ficha e ele disse: "Fica aí quietinha, nada de vir atrás de mim, ouviu?!" - irritadinho (mas eu perdoei, pois sei bem como é chato estar sem dormir e cheio de dor...). Obviamente não obedeci.

Lá estava ele fazendo a ficha, entregando documento e carteirinha do convênio e eu surgi do nada (de novo!) e falei prá moça que tinha que atender logo meu marido, pois ele estava com dores e urinando sangue. 

Ele me matou e enterrou com os olhos, a moça disse que a enfermeira já tinha priorizado o atendimento dele e eu voltei prá cadeira junto com ele, levando bronca bem baixinho (as mais perigosas das broncas, as feitas rilhando os dentes - ô homem mau, marido desnaturado!).

O "coisa ruim" foi chamado pelo médico quase de imediato - e não me deixou entrar junto. Falou até pro segurança que "a esposa dele não precisava entrar, ela vai ficar sentada na recepção fazendo tricô"...

Magoei. Tentei fazer tricô, não consegui, tentei prestar atenção no telejornal matutino da Globo, também não consegui...

Ele apareceu e me disse que o médico suspeitava que era pedra nos rins (coisa que eu suspeitei antes, prá variar...), pediu exame de sangue, urina e até tomografia de urgência! A dor que ele sentia era tanta que deram injeção de analgésico e não funcionou - as orelhas dele estavam até roxas!

O exame de sangue deu muito anormal, ele tava com infecção. Tinha açúcar na urina numa quantidade absurda, como se ele fosse diabético; tinha sódio como se ele tivesse comido um quilo de sal! Creatinina nas alturas, os rins dele não estavam filtrando o sangue, não estavam trabalhando...

Na tomografia foram detectadas duas pedras, do tamanho de ervilhas, bloqueando dois lugares dos rins - uma delas no caminho da bexiga...

Resumindo - que eu já cansei vocês com detalhes: cirurgia de emergência, mas não tinha vaga no hospital, todos os leitos estavam ocupados. 

Saí de lá às 10 horas da noite (tendo chegado de madrugada daquele mesmo dia!) deixando ele sentado numa cadeira, tomando soro, aguardando uma vaga. Meu filho nos levou prá casa - eu e as meninas, pois estávamos todos no hospital, desesperados. Cada um deles, quando soube, abandonou estudo e trabalho prá ficar com a gente... 

Meu moleque voltou pro hospital prá ficar com o pai e a vaga havia surgido - graças à Deus!

Foi uma briga - nós quatro queríamos ficar com ele no hospital. Eu porque sou a esposa, a Nana porque tá fazendo Medicina, a Lola porque só estuda e podia fazer isso tranquilamente no hospital e o Herkins porque é o mais alto e forte e podia ser de maior ajuda. Ganhou ele. 

Eu, em casa, não conseguia dormir à noite. O quarto parecia escuro e frio, a cama era enorme e gelada. Até os roncos dele me fizeram falta... A Nana faltou na faculdade  - primeira falta em 4 anos!

Acordei, dei o café da manhã das meninas, fiz bem cedo o almoço, fiz marmita pro meu filho (que engana a gente: diz que tá se alimentando, come só um pão de queijo e deixa por isso mesmo...) e fomos de ônibus pro hospital, aguardar a hora da cirurgia.

Burlamos a vigilância do hospital e ficamos os cinco juntinhos - só podia um acompanhante e quatro visitas, um ia ter que ficar de fora...

A cirurgia, que deveria levar uma hora e meia, levou quase 6. Rezamos o tempo todo - meu filho até disse que encarrilhava um Pai Nosso no outro, a ponto de não ter mais nenhum pensamento... Mas deu tudo certo, como Deus quis.

Ele se recuperando no hospital, eu em casa sem dormir de noite, tendo que ir de ônibus pro hospital... Se não era comigo, ele não se alimentava: vinha o café da manhã, ele bebia apenas um gole de suco, não tocava no pãozinho, na bolacha... Eu dava prá ele o almoço na boca, de colheradas, igual criancinha - comigo ele comia...

Como são frágeis os homens! Tenho certeza de que, por isso, Deus nos escolheu prá carregar os filhos no ventre: eles podem ter a força física e os músculos, mas o sexo forte somos nós!

Cuidei dele, cuidei de todos - não faltaram roupas limpas e passadas, comidinha de mãe, mesmo com as noites sem dormir. Mesmo com minhas próprias dores...

Ele em casa, se recuperando de licença, encarrapichado em mim, andando devagarinho pela casa à minha procura o dia todo - no tanque, na pia da cozinha, passando roupa... Dizendo que não sabe o que faria da vida sem mim...

De almoço pedindo um pratão de batata frita com queijo ralado, igual criança...

Meu "filho mais velho", o que me dá mais trabalho...

Assim que der volto no ritmo. Assim que tudo o que realmente importa na vida estiver novamente em seus eixos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

No Fundo do Poço



Minha irmã Cida tinha acabado de fazer 4 anos dia 31 de dezembro - no mesmo mês, no dia 3, eu tinha feito 5... Era dia 14 de janeiro.

Minha avó - que era quem cuidava da gente, fazendo comida, lavando toneladas de fraldas... - estava fora de casa desde o Ano Novo: sua irmã mais nova, Maria, estava doente demais, todo mundo dizia que ela tava morrendo... Minha avó estava na casa da irmã, prá tomar conta dela.

Essa era minha avó: quem quer que precisasse dela, podia contar como certo que ela ia ajudar. Justamente essa irmã, que havia tratado minha avó com tanto desprezo por toda a vida (pelo fato de minha avó não ser casada com meu avô - coisa que, naquele tempo, era certeza de ser mal-falada na família e em toda parte e praticamente uma sentença de eternidade no inferno depois da morte...) agora ali estava, dependendo totalmente dela...

Sim, porque mesmo tendo sido muito rica, agora minha tia-avó Maria se encontrava abandonada pelos filhos... Relegada à menor de suas casinhas, num buraco obscuro da Zona Leste, sem asfalto, meio do mato mesmo...

Acamada, abandonada - só não estava sozinha porque minha avó estava com ela, dando banho na cama, comida na boca...

Mas minha avó também não tinha boa saúde, já estava com quase oitenta anos - fazia o que podia...

Foi então que minha mãe, naquele 14 de janeiro, pegou eu e minha irmã Cida e disse que a gente ia passear - de manhã, bem cedo, ainda nem sete horas eram... Deixou com nossa vizinha Dona Elídia minha irmã Fátima, de 3 anos, e meu irmão Tato, bebêzinho de berço. Dona Elídia era uma santa, adorava criança, sempre engravidava e perdia - custou muito prá conseguir um filhinho... Cuidou dos meus dois irmãos com toda a boa vontade...

Pegamos ônibus - e ficamos enjoadas o caminho todo... 

A pior parte foi passar debaixo da linha do trem, lá na Celso Garcia: tinha o Cruzeiro, onde as pessoas viviam acendendo velas (e as paredes ficavam bem pretas por causa disso...), deixando imagens de santos, flores (minha mãe dizia que era em homenagem aos que morriam atropelados pelo trem - e isso me dava pesadelos...).

Chegamos na casa da tia Maria por volta das 8 da manhã e a melhor parte foi rever minha avó - que saudades!!! Parecia que faziam anos que eu não a via, até doía o peito... Prá minha mãe também, foi tanto abraço e beijo!

Minha mãe foi prá lá prá ajudar minha avó: tinha muita coisa prá fazer... Deixou eu e a Cida brincando no quintal e foi pro tanque lavar toneladas de lençóis sujos, cobertas... Lavou banheiro, esfregou o chão da casa... Comemos pão com ovo, brincamos mais um pouco, cochilamos numa coberta estendida no chão...

Anoiteceu e chegou a hora da gente voltar prá casa - tia Maria deitada na cama, tão pálida e tão fraquinha, os cabelos branquinhos ressecados igual cabelo de boneca velha, que muito foi penteada... 

Beijamos minha avózinha amada e saímos prá noite, cada uma levada por uma mão da minha mãe - que estava no começo de mais uma gravidez, a do meu irmão Leonardo...

Como já era muito tarde minha mãe resolveu cortar caminho por um terreno abandonado, que nem cerca tinha. Mato alto, pinicando minhas perninhas de vestido na altura dos joelhos. 

De longe, pouco mais da distância de uma quadra, uma casa tinha muitas luzes acesas e se ouvia burburinho de vozes e música - alguém fazia uma festa...

Um inseto começou a andar na perna da Cida e ela largou da mão da minha mãe prá espantá-lo e então...

Não sei como foi, só sei que foi esquisito demais: o chão desapareceu de onde devia estar. Não tinha mais chão no chão... Acho que eu caí primeiro, porque eu tava mais embaixo. Apertada na minha estava a mão da minha mãe que eu não parei de segurar - mesmo com os matinhos me pinicando na caminhada (e essa foi a minha sorte!).

O buraco parecia sem fundo, minha mãe segurando na borda dele, desesperada gritando pela Cida, eu me balançando mais embaixo e batendo o corpinho nas paredes ásperas daquele negócio...

-"Cida! Filha! Vai prá algum lugar que tenha luz, pede socorro, pelo amor de Deus!!! Vai naquela luz que tem música, vai pedir ajuda na festa!" - disse minha mãe, a voz escondendo o medo que era meu...

O tempo que passou foi eterno. Escuro. Apavorante.

Mas teve fim, como tudo tem fim no mundo. Mãos salvadoras ergueram minha mãe do buraco - e eu subi junto, pois ela jamais largou da minha! Fomos levadas por várias pessoas até a tal festa, onde nos cercaram preocupados e um monte de gente falava coisas como: "Já deviam ter fechado esse poço!" "Quase que aconteceu uma tragédia!" "Que sorte uma das meninas não ter caído, foi a salvação delas!!!"...

Pois é: que sorte... Porque se minha irmã também tivesse caído, minha mãe não tinha conseguido salvar as duas... 

O poço - pois era esse o caso do buraco, um antigo poço de água abandonado de outros tempos... - tinha mais de treze metros de fundura. 

Minha irmã Cida demonstrou um sangue frio e uma presença de espírito enorme prá uma menininha de apenas quatro anos: rua sem iluminação, chegou na casa seguindo apenas as luzes da casa em festa - ou talvez tenha sido guiada por um anjo, vai saber...

Minha mãe mais uma vez me deu a vida, me segurando na boca de um poço - mãe quando é boa, é boa mesmo...

Mas - diga-se de passagem - Deus esteve presente o tempo todo... 

Não duvido que foi Ele quem mandou aquele bendito inseto pinicar as pernas da Cida... 

Foi Dele que veio a coragem da minha irmã em ir buscar ajuda, se embrenhando no meio do mato...

Também foi Dele a força nas mãos da minha mãe e até mesmo a minha calma - apesar do medo. Lá, no fundo do poço, eu fiquei quietinha, sem gritar nem chorar, prá não preocupar ainda mais minha mãezinha...

As coisas que acontecem na vida da gente... O mato era alto, a gente ia sumir do mundo e ninguém nunca ia saber o que tinha acontecido - já pensou? No dia em que alguém decidisse construir naquele terreno talvez nem achasse o que havia sobrado da gente: iam jogar terra e entulho dentro, prá tampar o buraco e seguir com a vida...

Uma coisa é certa: a gente sempre pode contar com as pessoas que nos amam prá sair do fundo do poço...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...