Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Enquanto não chega a hora...


É assim que são as coisas: chega um dia na vida de uma mulher pau-prá-toda-obra em que ela fica entregue à rapadura. Dodói. Querendo bercinho. Minha avó bem dizia que quando a gente vai ficando velha, vai voltando a ser meio criança...

E é justamente aí que a situação se inverte: essa mulher, que sempre cuidou de todo mundo, começa a ser cuidada (até demais, se querem saber minha opinião...).

Fui ao cardiologista, pegar guias prá fazer os exames anuais - mais sérios desta vez, devido a três episódios de uma inexplicável dor no peito. Eu tinha as guias, mas os ladrões que entraram em casa deixaram tudo tão revirado que elas desapareceram - então tive que adiantar a consulta.

Quem foi comigo? Minha terceiranista de Medicina, minha Nana.

Lá estou eu, o médico pergunta "Como é que a senhora está?", eu respondo que bem, que só vim pegar as guias prá fazer os exames anuais - e a Nana me corta, com carinho, e diz prá eu contar das dores no peito e eu "Ah, é, doutor, andei tendo umas dorzinhas no peito meio assim...". Ele examina, a Nana pergunta tudo, fala de uma vez nas férias em que meu olho esquerdo ficou sem enxergar nada e o direito ficou cheio de bolinhas de luz e já fica parecendo que eu tô de passagem comprada praquele país do qual não se volta.

O médico, então, mediante minha calma de velha e as preocupações da minha linda filhinha solicita uma batelada de exames. "Só que eu não vou pedir prá senhora fazer teste de esforço, por causa das dores no peito. Melhor uma cintilografia, que simula o esforço e é menos invasiva, vai ser melhor prá senhora".

Autorizo o exame, marco no laboratório e ninguém me deixa ir sozinha - lá vai minha Lola comigo, toda preocupada, carregando livro prá estudar, mas com cara de "Tadinha da minha mãezinha...". - e eu tudo bem, tranquila, tricô na bolsinha prá deixar o tempo passar sem stress.

Mandam chegar meia hora antes - cheguei 45 minutos. Daí pego a senha, olho pro visor eletrônico e tem APENAS quarenta e uma pessoas na minha frente - sem contar os preferenciais! Percebi que ia ter tricô de monte pela frente...

Eu lá, com as agulhas na mão, olhando pro visor a cada "Piii" da maquininha e, volta e meia, pego a Lola olhando prá mim, com aquela carinha linda de preocupação que ela tem - ao invés de estudar... 

Quem conhece minha Lola, sabe: ela é a mais preocupada da família. A Nana e o Ike também se preocupam, mas costumam ser mais pés no chão, mais racionais - futura médica e engenheiro formado. Mas a Lola tem alma de artista, tem coração de polenta igual à mãe - quando a gente ia prá praia ela não deixava ninguém ficar com água acima dos tornozelos, se desesperava toda...

Lá está ela, triste de fazer dó... 

Daí, a mãe dela - com um olho na linha, outro pulando do visor eletrônico pro seu rostinho lindo, com os ouvidos escutando a enfermeira chamando pelo nome aquelas pessoas que já abriram ficha - começa bem assim:

"Rosangela da Fonseca!

"Aqui" - eu digo bem baixinho, só prá Lola ouvir. Daí, imitando a voz da enfermeira, eu me pergunto: "A senhora é Rosangela da Fonseca?" . "Quase, mas na última hora minha avó quis que o nome fosse só Rosa, só que me atende mesmo assim, por favorzinho..."- e a Lola dá um sorrisinho.

Passados uns cinco minutos e a enfermeira volta:

"Natália Silveira!" - e eu, levantando a mão um tiquinho de nada do tricô, respondo "Eu!".

"Mas a senhora não tinha dito há pouco que se chamava Rosa? Agora a senhora é Natália Silveira?" - eu imitando a voz da enfermeira, meio fanhosa..

"Ainda não..." eu me respondo. "Mas prometo que, assim que você me atender, vou até o Fórum entrar com um processo prá mudar meu nome prá Natália - acho esse nome muito lindo, chique toda vida..." - e a Lola começa a separar as sobrancelhas, relaxando aquela ruguinha de preocupação que ela não tem ainda idade prá ter...

"Agnaldo da Rocha Penteado!" - diz outra enfermeira, chamando num outro lugar próximo.

"Aqui!" - eu respondo. Abrindo o zíper lateral da minha bolsa, pego uma nota de cinquenta reais que Sua Majestade me deu antes de sair de casa e, esfregando ela com discrição no bracinho da Lola, olho nos olhinhos lindos dela, imito a voz da enfermeira me perguntando, incrédula, se eu sou o tal do Agnaldo e, sorrateiramente, respondo:

"Não, mas posso ser quem você quiser que eu seja" - continuando a esfregar o suborno no bracinho dela...

Nem percebi, mas tinha uma moça do lado prestando atenção em tudo, segurando o riso - que vergonha! Eu, palhaçando prá minha filha, nem tinha me tocado que tinha platéia - mas, pelo menos, a Lolinha relaxou um pouco aquela postura.

Esse exame - cintilografia - é assim: você chega no local tendo tomado um café da manhã bem leve, sem nada de cafeína nem chocolate. Eles te injetam um contraste, te mandam comer pães de queijo e beber leite gelado e então caminhar por 20 minutos pro contraste circular (queria fazer esse exame todo dia, mandam a gente comer toda hora, uma beleza - é o meu tipo de exame, prá falar a verdade...). Tomei o leite gelado (do qual não sou fã, mas até que tava bom), caminhei com a Lolinha pelo local e daí eles me chamaram e fizeram uma tomografia do peito - ótimo, beleza.

Saí dali e fui pro cardiologista. Encheram meu corpo de eletrodos, colocaram um ponto no meu braço, prá aplicar injeções. Aplicaram uma medicação prá prevenir infarto e, em seguida, aplicaram algo prá estressar meu coração, prá acelerar as batidas como se eu estivesse correndo.

Eu lá, deitada toda calminha na maca, olhando pro teto e a coisa começou a acontecer. Como é que pode uma química fazer esse tipo de coisa com a gente? Começou a acelerar o coração, comecei a transpirar feito louca - a enfermeira medindo a pressão arterial, o médico acompanhando as batidas do coração. Comecei a sentir como se alguém estivesse enchendo minha cabeça de água, pelos ouvidos, pelo nariz, pela boca, pelos olhos. Olhando a ponta do meu nariz ele estava vermelho como um pimentão e as vozes das pessoas vinham de muito longe, como se eu estivesse mergulhada na piscina e elas gritando do lado de fora... Suas vozes apavoradas, a enfermeira dizendo que minha cor estava estranha demais... O médico mandando ela aplicar sei-lá-o-quê em mim, porque o meu batimento cardíaco estava muito anormal!!!

Eu pensei: "Eita preula! Acho que desta vez eu vou abotoar o casaco até em cima... Será que eu vou ver um túnel com uma luz branca no fim??? Ainda bem que eu tô bem limpinha e de roupa de baixo nova... Minha nossa! O que vai ser das minhas lãs e linhas, dos meus tecidos amontoados, será que ninguém vai dar uso prá eles, vão todos pro lixo?" - já se viu pensar umas bobagens assim nessa hora?

A enfermeira aplicou o que o médico mandou, ele continuou falando alto, esbaforido... Mandou ela aplicar mais outra coisa, depois outra - apareceu outra enfermeira prá ajudar, uma delas me segurava a mão dizendo que já ia passar...

O tempo todo eu calma - na verdade, tenho a maior curiosidade em saber como se morre. Não é algo mórbido, é científico mesmo (não é porque eu sou só uma dona de casa que eu não tenho lá minhas curiosidades...). Passado esse caldo todo, a enfermeira me elogia, dizendo que eu era muito calma, que isso me ajudou muito... Eu respondo prá ela que, se tivesse mesmo chegado minha hora, ficar nervosa não ia impedir de acontecer, então não adiantaria nada... "Ninguém deixa de morrer porque esperneia e grita quando chega a hora, né?" - digo prá ela, no que ela dá risada...

Lá fora, minha Lola toda preocupada, escutando aquele alvoroço todo... Eu saio - com uma cara esquisita que só a preula, a Lola assustada cuidando de mim igual criança...

Vou prá tomografia mais uma vez e então a enfermeira me diz que agora tenho que tomar café prá última etapa do exame - e lá vou eu (sofriiiida, tendo que comer de novo...).

Quando eu chego lá peço um café prá copeira, os pãezinhos de queijo e daí falo prá ela assim - que já é quase meio dia, minha Lola deve tá com fome: "Você pode, por favor, dar um lanchinho prá minha filha também?"

Ela - que o tempo todo que eu espiei, sempre esteve de cara azeda, com um mau humor parecendo uma aura em volta dela - olha prá mim e, com um monte de pedras na mão, mira bem e acerta em cheio na minha cara:

-"Ah, não! O lanche é só pros pacientes que estão realizando exame! Se a sua filha quiser alguma coisa, tem que pagar!!! É um real!"


Foi isso exatamente que eu pensei. Se interessa a alguém saber, passei mais mal desse nervoso do que no piripaque que eu tive no exame - fiquei possuída por uma vontade louca de pular na jugular dela. O monstro trancado no porão gritou assim prá mim: "Pega dez reais na carteira, joga na mesa e manda ela ficar com o troco, prá ver se compra um sorriso prá colocar nessa cara!!!".

E quando eu já tava quase pegando minhas varinhas mágicas prá gritar "Avada Ke..." minha Lola - minha doce Lolinha - me pega na mão e diz:

-"Precisa não, mãezinha. Eu não tô com fome e o teu exame já tá no fim... Quando acabar eu vou te levar lá no Black Dog comer cachorro quente vegetariano...".

Vejam só como é: o que prá algumas pessoas seria somente um dia comum prá realizar um exame médico, comigo se torna uma novela, uma epopeia, quase uma tragédia grega (isso se eu tivesse dado ouvidos ao monstro do porão...). 

É por isso que eu ando evitando sair de casa: é muita emoção pro meu coraçãozinho...

(Já tá programado - PAP de cuecas prá sexta feira, dia 2 de maio. Apareçam!)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Bolo Saudável

Taí, Fatinha querida: até o título da postagem eu copiei (como se não bastasse copiar o bolo...).


O que dizer desse bolo? Primeiro de tudo, é gostoso. Muito gostoso. Sabe aquele bolo que parece comprado pronto, que não parece que foi você que fez porque é diferente de tudo? Pois é esse. 

Parente distante do Bolo Inglês, primo rico de segundo grau do panetone, aquele lá que a barrinha de cereal quer ser quando crescer - porque lembra um pouquinho de cada, mas é melhor.

Não leva açúcar - nem refinado, nem mascavo, nada! - não leva nenhum tipo de gordura - nem manteiga, nem margarina e nem óleo! - e não leva farinha de trigo (muito embora eu tenha feito uma experiência científica nesse sentido - mais prá baixo eu conto...).

Olhando assim, parece um bolo comum, não é? Mas tá disfarçado, pros paparazzi não atormentarem ele...

Daí, você corta as fatias:


Então você dá uma mordidinha, mastiga bem, fecha os olhos e fica se deliciando com cada sabor que vai inundando tua boca, o doce na medida certa, as frutas secas reidratadas pelo calor do cozimento e pela umidade da única fruta fresca que vai na receita: banana nanica!

Eu peguei a receita no blog da Fatinha: Costurar e Renovar - um blog cheio de dicas repletas de sabor e bom senso, tanto no que diz respeito a costura quanto a culinária e administração de tempo e recursos - passa lá e fica seguidor (eu sou...).

Devo só acrescentar mais algumas coisas: também fiz com farinha de trigo integral no lugar da farinha de aveia e deu certo - ficou mais seco, mas ainda muito saboroso. É o favorito aqui de casa agora, minha Nana leva todo dia um pedaço pro lanche da tarde, lá na faculdade.

E também experimentei fazer com maçãs, que estavam ociosas na geladeira - mas como não são tão doces quanto as bananas maduras, acrescentei 4 colheres de sopa de açúcar mascavo prá dar a requipimpada no sabor doce - e todo mundo aprovou.

Usei 100 gramas de cada uma dessas frutas secas: uvas passas brancas sem sementes, uvas passas escuras sem sementes, ameixas secas sem caroço, damasco seco, castanhas do pará. Variei as frutas secas, uma vez usei amêndoas, de outra nozes, outra vez usei castanha de caju. Meu favorito foi o de castanha do Pará.

Faz que é gostoso, saudável, não tem glúten (se feito com a farinha de aveia) e mata aquela vontade bandida de comer doce.

Obrigada, Fatinha, por algo tão bom!!!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Vestidinhos novos

Prá deixar a gente se sentindo assim linda, prendada e poderosa - e não é tanto pela beleza dos vestidos, que são bem simples e custaram bem pouquinho: é pela cara do "Marildo" e dos filhotes admirando como faço tanto com tão pouco...



Primeiro deles: acredita que me saiu 4 reais o tecido? Juntei com um retalho de malha preta (que nem é o mesmo tipo de malha, é mais grossinha - mas tudo bém, tá em casa...), reutilizei um molde já velho conhecido meu (tem ele AQUI se você quiser prá você...), cortei no chão (fiquei com uma baita dor nos joelhos, mas nada que uma pomadinha não ajude a sarar...), costurei com o ponto de malha da minha Janome 2008 e nos acabamentos usei viés do mesmo tecido. 

"Dona Rosa, por que a senhora não usou a overlock?"

Preguiça. Guardo a overlock na caixa, daí a Janome já tava toda disponível na mesa e eu abusei dela novamente - só prá vocês verem como essa maquininha despretensiosa é danada de boa, dá conta do recado mesmo e não faz feio. O ponto elástico (a maioria das máquinas tem e todas devem ser igualmente boas - mas eu elogio a minha porque ela foi presente...) é excelente, a costura fica firme, mas estica quando você veste, então não arrebenta o ponto. Bom demais.

Quatro reais e eu toda cheia de charme, um poder de mulher - e quem olha deve se perguntar onde é que eu comprei tamanha belezura... Espia mais:



Segundo - mas não menos importante: 11 reais de gasto (comprei mais pano). Modelo diferente - desse não tem molde, fiz copiando um que eu tenho, que foi comprado em loja: 




É o meu favorito, fica melhor em mim do que na Nana (minha modelo), pois eu tenho mais "recheio". Fico me sentindo uma Monica Belucci velha-caindo-aos-pedaços-mas-ainda-linda (bendito seja Deus porque sonhar é de graça)... 

Me diz: o que se faz hoje com 11 reais? Dois pastéis na feira perto de casa sai 9, um copo pequeno de caldo de cana e Puff! Lá se foi o dinheiro! E rendeu mais um vestido lindo prá Dona Rosa.



Os dois tecidos foram comprados na Niazi Chohfi, na rua 25 de março. 

Agora estou cortando um outro, de uma malha de melhor qualidade, que ganhei da minha filha Nana, de presente de aniversário - vai ficar ainda mais lindo...

E prá quem prestou atenção no post de ontem, cá estão as mencionadas cuecas - espero que todos na minha família estejam ocupados e não vejam o post de hoje, senão vão guilhotinar a Maria Antonieta (ela está proibida de comer brioches e de mostrar roupas íntimas no blog...):



Eu fiz 10 cuecas bege e 10 cuecas azuis-claras - as outras terminei antes, já estão acomodadas na gaveta. Desta vez comprei o tecido por metro: a cada R$5,90 o metro da malha no Varejão Chaves rendeu 4 cuecas. 

Da primeira vez eu fiz com tecido comprado por quilo, a retalho, então as cuecas custaram uns vinte centavos cada - parece até mentira fazer algo bom com apenas moedinhas, não é mesmo? E ficam ótimas, super macias, com bom caimento e o "Marildo" agora só quer usar delas.

Fiz assim: peguei uma cueca que já estava com os elásticos meio moles, cansada de uso. Desmanchei todas as costuras com o abridor de casas (pode usar tesourinha de bico fininho, de bordar...). Daí a própria cueca desmanchada vira o molde das outras. 

Novamente eu poderia ter usado a overlock, mas a preguiça é uma praga mesmo - só que a culpa é do Universo: me sobrecarrega com tanta roupa prá lavar, louças prá eu quebrar de marreta na pia, comida prá eu fazer, a vassoura e o esfregão me disputando prá dançar valsas pela casa que, quando o tempo me sobra, tudo o que eu quero é que o mundo acabe em barranco prá eu morrer deitada - daí eu costuro, crocheto, tricoto (porque, como eu já disse, até quando descanso carrego pedra. Ai, pobre de mim, como sou sofredora...).

Se alguém estiver interessada em aprender a costurar as ditas cuecas, deixem um comentário que eu faço um pap uma hora dessas...

Bom final de semana e vão se ocupar, que assim a vida passa mais tranquila, os pensamentos ruins passam longe da nossa cabeça e a gente se sente feliz consigo mesma.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Luzes da Cidade


Existem dois tipos de pessoas que bebem: aquelas que, quando o fazem, ficam retraídas, taciturnas, que choram todas as tristezas da vida de forma ainda mais sofrida e aquelas que se expandem - para o bem ou para o mal. 

Destas últimas, umas ficam brincalhonas, descontraídas, riem das coisas mais bobas - são engraçadas essas - enquanto outras colocam prá fora toda sua revolta, maldade e violência.

Minha mãe tinha um primo, chamado Darcy, que era do primeiro tipo: quando bebia, voltava prá casa chorando, pedia perdão sem parar prá esposa por ter feito isso, se deitava prá dormir no sofá da sala pois dizia não merecer compartilhar a cama com ela, fedendo a bebida. Era um homem muito bom, eu gostava quando ele vinha nos visitar...

Meu pai nunca perdeu um dia de trabalho - nunca me lembro dele ficar doente, nunca teve nem mesmo uma gripe. Mas no final do expediente, dava uma passada "religiosa" no bar e só então vinha prá casa - e ele era do segundo tipo. Se você olhasse prá ele, apanhava. Se falasse perto dele, apanhava. Se você respirasse, apanhava... Então, todo começo de noite, tinha alguém - ou muita gente - chorando em casa.

Quando tudo se acalmava eu saía de fininho, subia as escadas - pois minha casa era abaixo do nível da rua - me sentava no muro, apoiada na parede da casa vizinha e ficava olhando ao longe todas as luzes acesas, indicativas das centenas de casas à minha volta. 

Quem conhece o bairro da Penha sabe que ele é totalmente formado por morros e ladeiras em todos os lados então, dependendo  de onde você esteja, consegue ver muita coisa.

Eu ficava pensando que cada uma daquelas pequenas luzes que eu via à distância era uma casa, onde morava uma família, onde se estava colocando arroz e feijão nos pratos, se estava assistindo televisão, conversando, rindo... Pensava em quantas delas estaria havendo uma briga naquele momento... E também pensava que Deus estava olhando tudo o que acontecia e me perguntava por que Ele deixava certas coisas acontecerem...

Mesmo assim, eu adorava ver todas aquelas luzes - ainda hoje eu adoro. Quando saio de casa à noite, prá mim, é melhor do que assistir televisão: ver luzes atravessando cortinas, vozes e risadas, luzes nas varandas, nos postes das ruas. Acho aconchegante existir a luz prá espantar os medos da noite... Penso que é por isso que eu sempre mando email prá Prefeitura quando vejo uma luz de rua apagada - detesto lugares mal iluminados.

Ontem à noite lá estava eu na mesa da copa, costurando cuecas novas pro "Marildo" - eu já devia ter ficado esperta com essa idade que tenho: tudo o que eu faço uma vez, tenho que fazer prá sempre, porque sempre fica muito bom e ninguém mais quer comprar pronto. Nunca mais o patrão vai querer comprar cuecas... Então, lá estava eu costurando, ele assistindo na sala um filme que eu gravei prá ele, sobre a Segunda Guerra Mundial e, entre o barulho da TV e o do motor da máquina eu escutei, bem baixínho, quase inaudível, o som de alguém batendo palmas no meu portão.

Algumas horas antes (pois já eram oito e meia da noite), quando fui abrir o portão da garagem pro "Marildo", reparei que toda a rua estava escura, um breu total. Todos os postes da minha rua e os das travessas adjacentes estavam apagados - detesto isso. Fechei o portão e corri telefonar prá Prefeitura (email ia demorar demais prá sair o resultado). 

Pedi pro "Marildo" que deixasse a luz da garagem acesa, assim quem estivesse voltando do trabalho aquela hora teria ao menos a nossa luz acesa na rua...

Dei o jantar prás crianças, uma vitamina pro "colega de quarto" e fui me divertir na minha maquininha.

Daí escutei as palminhas - fraquinhas, pareciam de criança. Falei pro "Marildo" ir ver quem era, embora eu já imaginasse quem fosse.

Tem essa senhora muito pobre, que anda pelas ruas do meu bairro catando latinhas prá vender. Na maioria das vezes ela vem com duas filhas, a mais nova uns 11 anos, a mais velha pouco mais que isso. Sempre que ela bate na nossa porta, é de cortar o coração: são tão magrinhas, tem olhos enormes muito fundos, de fome mesmo. 

Eu sempre acabo chorando quando elas vão embora - existe tanta dor anônima neste mundo, dores que só Deus conhece e que, às vezes, batem na nossa porta! 

Graças a Deus casei com um homem muito bom, ele sempre ajuda. Atende ela na porta, entra todo esbaforido pedindo prá eu fazer um rapa nas roupas, nos calçados, vai na despensa buscar mantimentos...

Quando ele foi atender, mal escutava a voz da senhora e, bravo, se virou prá mim e disse que não conseguia ver nada, pois lá fora tava tudo escuro e a luz da garagem (que EU mandei deixar acesa...) atrapalhava... Que se essa luz estivesse apagada, ele conseguiria acostumar a vista com a escuridão e veria, mais ou menos, quem batia à nossa porta...

Eu disse prá ele que não precisava ver, que era aquela senhora - só ela bate palmas, tão humilde, com medo de nos atrapalhar com o som da campainha...

Ele andou prá todo lado, pegou o que tinha que pegar, foi até nossa farmacinha atrás de um xarope - pois a senhora estava com uma tosse horrível (caminhou por toda a Penha, debaixo de chuva, dias atrás, prá pegar latinhas...). Dei prá ele um pote de mel, uma cartela de Coristina e tudo mais que passei a mão em meio à minha abundância de classe média baixa, meus trocados da carteira e - mais importante - minhas preces, pedindo a Deus por suas melhoras.

Quando entrou, o "Marildo" apagou a luz da garagem - e eu, brava como sou, dei uma bronca nele.

-"Eu quase não conseguia ver nada com essa luz ofuscante na garagem! - ele disse. "Tinha mais que apagar mesmo!!!"

-"É, mas, se essa luz não estivesse acesa, essa senhorinha não tinha encontrado nossa casa...".

Ele me olhou, desfranziu o cenho, abriu novamente a porta e acendeu a luz. 

Como é bom poder acender uma luz no escuro...


(O título da postagem de hoje é igual ao daquele filme lindo de Chaplin, de 1931. Se você nunca assistiu, não sabe o que está perdendo; toda vez que um filme desses é feito, Deus lá no céu fica muito contente...) 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Amigas irmãs

Eu tenho essa amiga, de muitos anos, chamada Neusa. Nos conhecemos na Previdência Social, onde trabalhamos juntas por muitos anos - ela Assistente Social, eu uma simples Agente Administrativo.

Se tem uma pessoa da qual eu guardo muitas saudades é ela... Sabe aquelas pessoas extremamente boas, que você adora estar perto, conversar, rir e chorar? Pois ela é assim. 

Católica fervorosa, do tipo que tem sempre uma novena em andamento, que o Padre frequenta a casa, que se envolve em tudo o que é projeto da igreja - mesmo assim respeita todas as crenças, jamais diz coisas do tipo que magoam ou discriminam quem pensa diferente. Ela diz que Deus é Pai de todos, que o importante é acreditar nele, cada um do seu jeito. 

Dizemos que somos irmãs de pais diferentes - até acabamos ficando parecidas fisicamente, com o tempo - engraçado, né?

Ela me confortava a cada vez que eu retornava da licença maternidade de um dos meus filhos. Riu à beça da minha cara quando eu chorei no primeiro dia de aula da minha Lola - "Ah, Neusa... Minha Lolinha tá entrando hoje pro mundo... O que vai ser se alguém judiar dela, tratar ela mal?!!"... A Lola feliz da vida e eu perdendo o sono à toa - e a Neusa rindo de mim, desalmada...

Casou com quase quarenta anos, enviuvou poucos anos depois e, dessa união, teve um único filho - Bruno. Dá prá sentir como é que ela ama o moleque? Dá a vida por ele.

Mês de março, bem no começo, ela fez aniversário. Não telefonei bem no dia certo, minha casa e minha vida estavam meio reviradas por causa do assalto mais recente - daí liguei uns dias depois. 

Ela tá aposentada, mudou pro interior de São Paulo, passou num concurso e foi trabalhar como Assistente Social na prefeitura de lá - nasceu prá ajudar os outros até profissionalmente.

Liguei, liguei e liguei e ela não atendia - eu morta de preocupação. Daí, num final de semana, o filho dela atendeu e me contou que ela estava em São Paulo, acompanhando a mãe que estava internada. Me deu o celular dela (estranhei à beça, ela não é de mexer em computador, ter celular - achei tão bom, pensei que ela finalmente tava tomando jeito...). Liguei, deixei mensagem e, uns dias depois, toda jururu, ela me ligou de volta...

Olha como são as coisas: tá com 83 anos a mãezinha dela, fumou a vida toda. Sempre doentinha, entregue à rapadura - mas não largava o cigarro nem por ordem médica. Daí, pouco mais de um mês atrás, pegou pneumonia, bem sério mesmo. A Neusa veio, ficou com ela um mês todinho na semi-UTI. No dia da alta o médico quis fazer uma broncoscopia, só por via das dúvidas. Estava tudo bem, ia ter alta naquele dia mesmo. De volta pro quarto, toda animada, a velhinha conversava com a Neusa, dizendo o que queria comer quando chegasse em casa... Entrou uma enfermeira trazendo um comprimido prá dar prá ela e um bocado de água prá ele descer pela goela. 

Vê se eu tô errada: dar um comprimido prá alguém engolir com a garganta ainda anestesiada prá fazer um exame? Tinha que ser uma injeção... A velhinha tentou engolir, a garganta tava meio paralisada, engasgou, ficou roxa, teve duas paradas cardíacas e agora tá em coma - e tudo a Neusa do lado, desesperada, assistindo...

Ela me contava e chorava, chorava. Me disse que ela e o irmão não saíam de perto da mãe, que choravam e imploravam prá ela não morrer, prá voltar prá eles... Eu, do outro lado da linha, sem saber o que fazer...

Me perguntei o que dizer nessas horas, como confortar sem cair naquelas frases que a gente diz quando não sabe o que dizer, tipo "Manual de Consolo Básico"...

Daí, por inspiração de Deus, eu disse assim:

"Imagina que ela tá de olhos fechados, quer abrir, mas não consegue. Quer falar, mas a boca tá travada, os braços e as pernas não obedecem - mas ela tá escutando tudo o que vocês dizem. Eu nunca estive em coma, você também não, mas imagina só se, no caso dela, for assim... Já pensou que desespero, ela querendo dizer que tá tudo bem, querendo consolar os filhos que ama tanto e não conseguindo? Pior ainda: já pensou ela tendo que se preocupar com a própria saúde, tentando rezar, se concentrar e vocês dois ali do lado, distraindo ela, arrumando uma preocupação à mais? Se ela tiver que sarar, demora mais. Se ela tiver que ir prá junto de Deus, vai triste, preocupada, de alma pesada...

Não. O que vocês tem que fazer é, mesmo contra a vontade de chorar do coração, é tranquilizar ela. Vai que ela tá ouvindo - então conforta ela, diz que tá tudo bem, que ela é forte, que já superou tanta coisa na vida, que vai superar mais essa... Que criou muito bem vocês dois, que vocês são pessoas equilibradas e de bem com a vida graças ao exemplo dela, que vocês estão torcendo prás suas melhoras...

Leva um livro. Leva o Evangelho e lê prá ela alguma passagem bonita a cada visita - a mulher lavando os pés de Jesus com as lágrimas, secando com os cabelos... Ele trazendo Lázaro de volta à vida... Ressuscitando o filho único de uma mulher...

Conforta ela, faz companhia..."

-"Mas Rosa... e se ela morrer? O que vai ser dela ali, debaixo da terra fria, tão sozinha...".

Eu pensei que sabia exatamente como ela se sentia... Anos atrás pensei também assim, quando meu pai morreu...

É fácil estar de fora e consolar, a dor não é nossa, não naquela proporção que os outros - principais envolvidos - sentem... Lembrei de tantas outras mortes na minha vida, todas ainda tão vivas no meu coração...

Toda fé passa por provas.

Disse prá ela assim:

-"Você ama o Bruno, não ama? Daria sua vida por ele, sem pensar duas vezes... Sabe esse amor que você tem pelo teu filho, que eu tenho pelos meus, que cada pai e cada mãe que merece realmente esse nome carrega no peito? É só uma amostra do amor maior que Nosso Pai sente por nós. 

Você ama sua mãe, mas nunca vai amá-la o mesmo tanto que Deus a ama. Você passa com ela algumas horas do dia, no horário de visita, reza por ela sempre que se lembra, em meio aos afazeres do teu dia - e o Pai passa com ela o tempo todo, pensa nela sem cessar.

Mais do que você ama, Ele ama. Ela está segura nas mãos Dele, desde o momento que ainda estava na barriga da mãe dela até bem depois de partir deste mundo, quando ninguém mais se lembrar que ela existiu..."

-"Mas, e a saudade, Rosa? O que eu vou fazer da vida sem ela?"

Recordei a mais preciosa de todas as mortes na minha vida, aquela que, passados mais de quarenta anos, ainda me assombra... 

Ainda hoje, de vez em quando, tenho o mesmo sonho: um dos meus irmãos toca a campainha todo feliz e vem me chamar prá ir na casa da minha mãe, porque minha avó voltou. Eu digo que ela não pode ter voltado, que está morta, morreu faz tempo - e o irmão (ou irmã) que fala comigo, rindo e chorando, me diz que ela estava só dormindo, que acordou, se levantou, saiu da campa e voltou prá casa - e não pára de perguntar por mim, me chamando! Eu fico tão feliz no sonho que começo a chorar de alegria e meu coração se acelera tanto que meu corpo desperta, a contragosto, e eu me vejo na cama, chorando feito criança, com meu marido do lado me consolando e perguntando se tive o mesmo sonho outra vez... 

Digo à minha amiga que, se for mesmo chegada a hora da sua mãezinha partir, não podemos fazer nada a não ser aceitar - que vai ser triste, vai ser duro, que ela talvez nunca supere de vez essa tristeza - como eu não superei muitas das minhas.

Mas digo também que nós é que realmente sofremos - os que partem voltam prá casa e são recebidos com amor pelo melhor de todos os pais.

Há uns anos atrás, quando uma das amadas tias do Marildo morreu, ele me pediu que encontrasse uns dizeres da Bíblia prá escrever no túmulo. Abrindo a Bíblia várias vezes ao acaso, busquei algo que exprimisse o que eu penso da morte em si para quem vai... "Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor!". E lá tem festa, tem alegria, tem reencontro. Os que estão de fora não entendem, sofrem - mas quem está lá, está muito bem.

Aí ela me pergunta uma coisa em que muita gente acredita: se a mãe dela, se morrer, vai ficar adormecida, esperando o Dia do Juízo...

Eu nem precisei pensar muito: na minha mente me veio nítida a imagem de três cruzes...



-"Lembra, Neusinha, quando Jesus morreu, se sentia tão só - os discípulos, com medo, fugiram quase todos... 

Ele mesmo teve a fé em crise, até questionou o Pai, perguntando por que Ele o tinha abandonado... 

Mas Deus estava lá presente - e também apareceu, na boca de um reles ladrão... 

Um de cada lado Jesus tinha, um à direita, um à esquerda. Um deles - não lembro qual - implicava com Jesus, dizendo que se ele era mesmo filho de Deus tinha que pedir ao Pai que os ajudasse naquela hora... O outro ralhou com esse, disse que eles mereciam aquela morte infamante, pois eram ladrões, mas que Jesus era inocente... 

Jesus não estava só, Deus estava ali. Também estavam ali, uma de cada lado, tanto a revolta quanto a solidariedade - cada uma fazendo, do seu jeito, companhia à Jesus na sua hora mais dura...

'Lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino' - disse o bom ladrão...

Jesus então, mesmo repleto de dor, perto da morte, disse assim prá ele 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!'

Ele não disse que iriam morrer e ficar adormecidos debaixo da terra, sendo comida de vermes: disse que, naquele dia mesmo, o ladrão - apesar de sua vida de crimes - estaria do lado dele no céu! 

Não creio que Jesus tenha dito isso como um ato de preferência para com o companheiro de infortúnio - qualquer coisa desse tipo seria injusta para com todos os outros seres humanos que não dividiram essa hora com ele, bons ou nem tanto. Não. Jesus foi bem claro dizendo que o ladrão seria bem recebido em casa.

Assim foi com minha avó, assim vai ser com sua mãe quando chegar a hora, com todos nós. 

Não creio que Deus seja o tipo de pai que deixa os filhos dormindo, esperando sei lá quando, prá lhes dar um abraço de boas vindas... eu não faria isso com meus filhos, você faria com o seu?

Sua mãe é uma mulher boa. Vai dar tudo certo prá ela, se Deus quiser."

A gente se despediu e, no dia seguinte, quando liguei de novo - não fui visitar porque minha saúde não anda muito boa, estou proibida de sair de casa sozinha e estou com todos muito ocupados prá me levarem no momento... - ela estava tão mais calma! 

Disse que sempre se sente melhor quando fala comigo, que nossas conversas e cartas são um tipo de remédio prá ela - ela é muito linda, me ama mesmo...

Me disse que contou o que eu falei pro irmão e que ele também estava se sentindo melhor, mais esperançoso... Contou até pro primo, que perdeu a mãe há pouco mais de três meses e que ele também se sentiu melhor - exagerada essa minha amiga...

É assim: nós, seres humanos, temos superpoderes, todos nós. 

A gente pode ser invisível na vida, não fazer diferença nem falta, passar despercebido - só gastar os recursos do planeta. 

Pode ter superforça, a ponto de carregar fardos inimagináveis... Pode voar prá junto de quem precisa só com a força do pensamento, mandando uma oração - quando não se pode mandar mais nada...

Superpoderes às vezes desconhecidos, às vezes não utilizados, adormecidos...  

Tanto podemos usá-los para o bem, como para o mal. Nossa presença na Terra pode ser um fardo, uma benção, um misto dos dois às vezes. 

Podemos fazer da vida de um outro ser humano um verdadeiro inferno - é só olhar os maridos e pais violentos, as mães egoístas, os patrões despóticos e mesquinhos, os vizinhos sem respeito...

E podemos ser instrumentos nas mãos de Deus, nos consolando uns aos outros, oferecendo-nos mutuamente a mão prá nos levantarmos das quedas, o ombro prá chorarmos juntos... 

E fazendo sempre, antes de dormir, uma prece - prá pedir auxílio divino e agradecer a oportunidade de ouro de fazer a uma pequena diferença que seja numa outra vida, mesmo que do outro lado da linha telefônica...

Principalmente porque, volta e meia, Deus manda alguém prá fazer assim diferença na nossa vida. Quantas e quantas vezes minha amada Neusa já me consolou...

Feliz Páscoa a todos! Até semana que vem, se Deus quiser!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...