Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A Legítima Filha do Rei


Desde o primeiro dia do meu mês de férias lá apareceu ela - Débora, a neta dos caseiros. Março agora vai completar 12 anos, uma mocinha, já está do meu tamanho (mas isso é porque, além do crescimento deles, com o passar do tempo, nós vamos encolhendo também - então o crescimento ainda parece mais acelerado...). 


Ela gosta de mim - muito. Não sei, é inexplicável prá mim também: ela tem um mês de férias prá passar com os avós e prefere passá-lo comigo, deixando a avó quase sozinha, abandonando as amiguinhas dos sítios vizinhos - acho até meio anti-natural, se perguntarem minha opinião: como é que pode uma pré-adolescente preferir a companhia e a conversa de uma velha ao invés de rir e brincar com os "de sua própria espécie"? 

Ela me disse: "Dona Rosa, que hora a senhora acorda e a que horas vai dormir?"

-"Lá prás oito da manhã eu já tô de pé aqui no sítio e vou dormir lá prá meia noite..."

-"Ah, pois eu ia adorar ficar com a senhora esse tempo todinho, da manhãzinha até a meia noite...".


Desta vez eu a ensinei a ler gráficos de crochê e fizemos uma porção de exercícios, com flores e squares e suas utilizações. Quando a ensinei a fazer sua primeira rosinha, eu - satisfeita com o resultado - disse: "Taí! Agora você já tem uma rosinha só tua!".

Ela me abraçou toda feliz, me deu um beijão no rosto e disse: "Mas eu já tenho uma Rosinha minha! Esta!"... - Não é doce?

Eu já falei que ela copia as expressões que eu uso quando falo - agora, ela queria porque queria ter unhas como as minhas, só que ela roía unhas... Ensinei a esfregar alho nelas, assim ficam mais fortes e com gosto ruim, então desanima de roer - e deu certo: em um mês ela já estava com unhas de mocinha...

Ela fala: "Dona Rosa, por gentileza...", toda educada...


No primeiro sábado depois do Ano Novo ela apareceu toda triste e me disse: "Dona Rosa, a senhora me desculpa mas, neste final de semana eu não vou poder passar muito tempo com a senhora... É que eu já tinha combinado com minha amiga daquele sítio lá em cima de ir dormir na casa dela no final de semana...".

E eu respondi que tava tudo bem, que ela tinha mesmo que conviver com meninas da idade dela - senão acabava ficando velha antes do tempo (brinquei!).


No domingo de manhã ela me aparece, na varanda, com a tal amiguinha, prá me apresentar. Tinha passado a noite na casa dela mas tinha convencido a amiga a vir pro meu sítio - que ela diz adorar... Prá não forçar a convivência comigo eu disse: "Vanessa, você veio em boa hora! Hoje eu tô meio adoentada e, com você aqui, a Débora não fica sozinha...". A menina me mediu como se eu fosse uma maluca, deu prá ver nos olhos dela que, prá ela, eu não passava de uma velha sem graça... Não entendeu porque a amiga queria que ela me conhecesse...

Andaram a cavalo, brincaram, riram e fizeram muita bagunça. A uma certa altura, vieram as duas ligar a bomba do poço d'água e, por estarem próximas, ouvi trechos da conversa... Ambas riam, se davam empurrõezinhos e se chamavam mutuamente de nomes feios - usavam xingamentos pesados como brincadeira... Daí em diante, apurei os ouvidos cada vez que passavam perto e percebi que era constante - não estavam brigando, somente estavam usando palavrões como se fossem palavras corriqueiras, normais em uma conversa...

Eu estou longe de ser uma santa - falo meus palavrões de vez em quando (e, normalmente, me arrependo), sempre em momentos de nervoso ou stress (o que não justifica mas, até certo ponto, explica...). Mas, imitar as americanas em filmes, chamando a amiga de "bitch" prá cá, "bitch" prá lá, sinceramente eu acho muito feio. E acho que leva a coisas piores - o vocabulário e a maneira como a gente se comporta imprime uma imagem nossa em quem nos ouve e nos vê, imagem que, depois, é difícil de apagar. Não leva a nada de bom.

Passei aquele final de semana agoniada, esperando a segunda feira, rezando a Deus prá Ele me ajudar a conversar com a Débora quando a outra menina fosse embora e fazê-la ver como era feio aquele tipo de comportamento.


Depois do almoço ela apareceu, como de costume, acompanhando a avó na hora de limpar minha casa. Trouxe seu crochezinho, admirou a primeira blusa que eu estava fazendo - quase pronta - e foi ajudar Dona Margarida na louça.

Eu, na varanda, esperei a hora dela se sentar do meu lado...


Passado um tempinho, depois que ela tirou suas dúvidas e a gente começou a jogar conversa fora - como sempre - eu disse assim prá ela:

-"Já te contei do dia em que eu encontrei uma princesa de verdade que não sabia que era princesa?"

-"Princesa como a da Inglaterra, a Kate?"

-"Ah, não, aquela virou princesa porque casou com um príncipe. A que eu encontrei era filha de rei mesmo, sangue real de primeira..."

Ela me olhou, meio incrédula e eu continuei:

-"Foi assim: Eu tinha uma consulta médica num ambulatório. Cheguei um pouco antes, abri a porta que era dupla, de vidro e a primeira coisa que eu vi foi ela: direto, em frente da porta, lá estava a princesa de que te falei, sentada bem de frente prá quem entrava na clínica. Era uma moça nova, uns 25 anos, usando um vestido de malha tomara-que-caia bem cavado e fresco, sem sutiã por baixo - dava prá saber porque ela tinha seios grandes, que ameaçavam pular prá fora do vestido a qualquer momento e balançavam, moles, a cada movimento dela. O vestido, também, era curto e ela, sentada ali de frente prá porta, com as pernas abertas, não permitia que ninguém lhe adivinhasse a cor da calcinha - era rosa. Triste de se ver - eu pensei - uma princesa assim, sem modos, vulgarizando sua figura pela forma de se vestir e de se comportar... Ela acompanhava a mãe numa consulta e as duas, conversando e rindo alto, acabavam chamando a atenção de todo mundo - da maneira errada..."

-"Mas essa é que era a princesa, Dona Rosa? Parece que era só uma mulher normal igual a qualquer outra..."

-"Aí é que está: ela só parecia uma mulher normal como qualquer outra porque era assim que ela se vestia e se comportava..."

-"Então... Eu não estou entendendo..."

-"Qual é o maior rei que existe, Débora?"

Ela pensou, pensou - acho que ela não é muito boa em Atualidades, quase que ela abriu a boca prá dizer Inglaterra - e então, antes que ela respondesse, eu disse:

-"Deus. 

Ele é o maior Rei de todos e de tudo e nós, feitos à sua imagem e semelhança, somos seus legítimos filhos e herdeiros do seu Reino, nos Céus, não é mesmo? E, sendo assim, somos todos príncipes e princesas, independente de sermos ricos ou pobres, de que língua a gente fale, de que lugar a gente more, de que estudo a gente tenha... 

Lembra no desenho da Bela Adormecida, quando a princesa Aurora é criada numa casinha simples, no meio da floresta, pelas três fadinhas, sem saber que é filha do rei? Assim somos nós: aqui estamos todos, vivendo num país estranho, sem termos consciência de que somos herdeiros do Reino dos Céus por direito de nascimento...

Um príncipe dos reinos da terra, quando viaja prá um país estrangeiro, tem um montão de normas prá seguir, de como se comportar, de como ser gentil, diplomático, educado, pois qualquer atitude errada pode gerar um incidente internacional, até mesmo uma guerra... Imagina então quais os deveres dos herdeiros do maior de todos os Reis? Começa com ser sempre educado, gentil, não falar alto, não dizer palavrão, não se vestir de modo inapropriado, não ser causa de escândalo de forma alguma - sempre nos comportarmos de acordo com nosso sangue real... Somos todos representantes do Nosso Pai aqui na terra, não somos? Temos que representá-lo de acordo...".

-"Então eu também sou uma princesa?"

-"Claro! Se até eu, que já tô velha, sou princesa!!! E olha: eu posso não ser a princesa mais bonita, nem a mais jovem, ou a mais inteligente ou talentosa, mas eu sempre me esforço prá que Nosso Pai e Nosso Rei não sinta vergonha de mim, nem se arrependa de ter me criado...

Imagina só: quanta gente existe, no mundo, que nasce, cresce, vive, envelhece e morre sem nunca se dar conta da sua verdadeira natureza. Quanta gente pensa que não é nada, julga que não tem valor perante o mundo, que não é ninguém e nem sabe que, na verdade,  é um príncipe ou uma princesa, exilado por um tempo num país estranho, simplesmente aguardando a hora de voltar prá junto de um Pai maravilhoso que nem sabe que tem, Rei de um reino que não tem comparação no mundo! Acho que, se desde pequenininho, alguém dissesse isso prá gente, ia fazer uma enorme diferença na nossa vida, não ia?".

Ela sorriu, pensativa e ficou ali, com seu crochezinho nas mãos, perdida em seus pensamentos recém descobertos de princesa...


Mais tarde, quando fui dormir, agradeci muito a Deus por me inspirar, me ajudando a encontrar a situação certa que eu vivi e conseguir transformá-la numa historinha fácil de digerir - é sempre o melhor meio de entrar num coração de criança, não é mesmo?

Essa história, na verdade, serve de lembrete a todos nós (incluindo eu mesma): que nunca nos esqueçamos de quem somos filhos...

Engraçado... Já vi algo assim num parachoque de caminhão: "Não sou o dono do mundo, mas sou filho do Dono"...



(Gostaram das imagens? São rosas - do meu jardim lá do sítio. Como se não bastasse Deus as fazer tão lindas, ainda as enfeita com pérolas de orvalho, como contas feitas de vidro... Mas só aprecia quem acorda cedo...)

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