Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Um olhar pro mundo...

A forma como vemos o mundo à nossa volta
pode fazer toda a diferença...

Vejam só como são as coisas: filhos adultos, que já sabem andar por tudo o que é canto sem mim - e mesmo assim pedem "Mamãe, você vai com a gente no DETRAN, não vai? Por favor, velhinha, vem com a gente..."

E aí eu faço o quê? Lógico que eu vou - mãe é prá quê, né? Acordo mais cedo, deixo o almoço pronto pro moleque e pro colega de quarto, tomo meu banhinho, coloco um tênis no pé - antecipando muita bateção de perna - e vou com as duas "meninas" pro metrô, espiar de pertinho o mundo.

É sempre uma aventura sair de casa - nem sempre agradável, diga-se de passagem. De madrugada, por exemplo, quando levo a Naninha pro metrô Penha às cinco e quinze da madrugada (prá ela ir no seu longo caminho até a faculdade) é muita informação ao meu dispor, mesmo com tão pouca gente acordada... 

São os mendigos que dormem nos cantos já conhecidos do meu trajeto, os cachorrinhos sem dono perambulando assustados, os carros que passam correndo pelo farol vermelho, os velhinhos que dormem nos postos de gasolina à noite, em sub-empregos - deixando suas esposas sozinhas em casa, complementando o irrisório benefício da Previdência Social com o bico de vigias... 

Anoto mentalmente cada lâmpada apagada, cada buraco no asfalto - e mais tarde mando email prá Prefeitura, pois eles precisam dos nossos olhos prá consertar o que precisa ser consertado, não é mesmo?

Faço uma breve prece pelas pessoas que acordam tão cedo prá trabalhar, andando apressadas na noite ainda tão escura, receosas de serem assaltadas - pois tem gente que não acorda cedo prá trabalhar, mas passam as noites em claro maquinando formas de se apropriarem dos frutos do suor alheio - nunca vou entender isso...

Ontem minhas filhas precisavam de mim - e quando não precisam? Sabe, um tempo atrás a Nana me disse que, sempre que eu fico internada, parece que a casa fica menos segura... "Mãe, quando você não está em casa parece que um ladrão vai conseguir entrar e assaltar a gente...". E olha que eu não conseguiria nem mesmo dar um tapa nele - mas ainda não desisti da minha estapafúrdia ideia de comprar um soco inglês prá me prevenir - velha violenta, essa sou eu (o mundo, às vezes, desperta nosso pior, infelizmente...). O patrão ri da minha cara e diz que mesmo com soco inglês eu não ia conseguir fazer nada - como a passagem do tempo nos faz frágeis!

Então as meninas decidiram tirar carta de motorista juntas, aproveitando as férias da Naninha da faculdade - e mesmo sabendo se virar muito bem, cada uma por sua vez veio pedir prá eu ir junto...

Quando chegamos no metrô fomos checar os créditos no bilhete único - e eles tinham que ser recarregados, só tinha trocados. Uma fila enorme nos esperava - mas saímos bem mais cedo, prá poder andar com calma, ir a todo canto sem pressa nem stress. Enquanto aguardávamos a nossa vez, atrás de nós na fila uma mãe e seu filhinho de uns nove anos de idade tinham uma conversa particular - perfeitamente audível aos meus ouvidos:

"Vou colocar só metade do dinheiro, senão não vai dar prá você comer nada, filho. Eu não quero que você passe mal de fome..."

"Mas, mãe - se colocar só metade não vai dar prá gente ir em todo canto que a gente tem que ir e ainda voltar! Vai sobrar dois reais, dá uma coxinha prá mim e uma prá senhora..."

"Só uma coxinha é pouco, filho. Você vai passar mal quinem da outra vez... Vou colocar só R$12,50 e o resto a gente usa prá comer alguma coisa."

Tão doce o jeito como conversavam um com o outro! O menino parecia tão bonzinho, tão educado... 

Sem querer eu devo ter olhado prá eles, pois a mulher abaixou os olhos, envergonhada - e se calou. Eu dei um sorriso amistoso, ela devolveu, mas a vergonha ainda estava lá... Deve ter imaginado que eu era uma pessoa rica, por ser mais alta, estar vestindo uma linda blusa de crochê - e eu quis dizer a ela, do fundo do coração, que eu também já tive meus tempos de contar moedas muitas e muitas vezes prá comprar uma coxinha... Quis dizer prá ter fé, que tudo ia melhorar - mas acho que ela, no fundo, já sabia disso...

Dentro do trem lotado eu me equilibrei de pé, junto das meninas, escutando a conversa animada delas duas, seus risos - se dão tão bem! Completam frases um a da outra, riem de coisas que só elas entendem - e eu rio junto, só pelo prazer da companhia. Na minha frente, um rapaz sentado no banco de idosos, ouve em tom absurdamente alto uma música bem barulhenta - barulho escapando dos fones de ouvido similares a donuts alojados em sua cabeça. Chamei minhas filhas e disse, em tom de brincadeira, que iria dançar ali, na frente de todos, a música que ele estava ouvindo... Das duas, uma: ou ele ia ficar chocado por uma velha apreciar aquele tipo de música e ia passar a odiá-la (a música...) ou ia finalmente perceber que não deveria obrigar o resto do mundo a ouvir junto com ele o seu peculiar gosto musical...

A Lola ri e me pergunta como é que as pessoas viajavam de metrô no meu tempo, "antigamente", quando não existiam celulares prá se distraírem... "Devia ser horrível, mamãe, ficarem olhando uns prás caras dos outros ou prás mesmas janelas de sempre!" - e eu disse que eu não fico grudada no celular mesmo hoje, nos tempos de "hojemente"... Prefiro olhar as mesmas janelas de sempre e os rostos que quase nunca se repetem...

No DETRAN, enquanto elas aguardavam na fila, fui me sentar em frente aos guichês, com meu crochezinho na mão. Quando elas voltaram com a senha prá fazer biometria eu falei, brincando: "Tá vendo só esse povo todo, meninas? Aposto que eles olham prá mim e imaginam que eu estou aqui prá renovar minha habilitação, que eu sou uma mulher independente e motorizada. Chique, né?" - e dou prá elas uma piscadinha (o que basta prá me encherem de beijos, escandalosamente em público, dizendo que eu sou linda e só não dirijo porque não quero...).

Simplesmente não nasci prá isso - é tão complicado! A única vez que tentei aprender quase atropelei um garoto andando de bicicleta e nunca mais! Embaralha minha cabeça imaginar ter que ficar pisando ora num pedal, hora noutro, trocar as marchas, engatar a ré, piscar a luz da direita ou da esquerda - muito complicado! Na próxima vida, quando os carros forem movidos a poder do pensamento, vou ser piloto de corrida, pois minha cabeça funciona bem que é uma beleza - mas nesta, vou de passageira. Se alguém não puder me levar de carro prá onde eu tenho que ir, vou de ônibus, de trem, de metrô, tanto faz - mas vou prestando atenção na vida à minha volta...

Comemos no shopping, experimentei café do Starbucks (o meu é, de longe, mil vezes melhor...), xeretamos vitrines - dia de meninas. 

Fomos até a Clínica fazer o exame psicotécnico e lá uma "pessoa famosa" furou nossa vez no atendimento. Nunca a vi na vida, mas seu Relações Públicas, enquanto ela era atendida, nos falou que no outro local onde eles tinham ido estava cheio de paparazzi atrás dela - e ficou mostrando prá todo mundo fotos dela no celular dele com outras e mais outras pessoas famosas. Entre uma coisa e outra a tal moça, de óculos escuros, ficava no celular se queixando de como era triste ser famosa, não ter direito de resolver seus assuntos sem montes de gente atrapalhando e xeretando, que só porque ela era famosa não significava que ela era "assim tão melhor que as pessoas comuns" e blá, blá, blá... Muito barulho por nada - se alguém quer saber o que eu penso a respeito.

Fomos na auto-escola marcar as aulas, na loja de armarinhos comprar lãs prá Nana fazer presentes pros amigos...

Quase no final do dia chegamos em casa - cansadas, cumpridoras de tudo o que nos propusemos a fazer naquele dia (com a pia cheia de louça do almoço dos homens da família prá eu lavar - cadê a marreta prá eu quebrar tudo???). 

Na memória, um montão de pessoas que eu nunca mais vou ver de novo, que desfilaram na minha frente e chamaram minha atenção, que me contaram curtas histórias de suas vidas por suas palavras, pelo jeito de andar, pela cor de seu batom, da sua blusa... Olhos tristes, olhos sonhadores, passos apressados nos caminhos apressados por onde andei, devagarinho nos meus próprios passos, observando o mundo através das janelas da minha alma... Se eu dirigisse carro teria perdido tudo isso, perdida entre tantos pedais e cacarecos...

E, no final, não entendi por que minhas filhas me quiseram junto - resolveram tudo sozinhas! 

"É que quando você tá junto da gente, mãe, a gente se sente mais segura, mesmo que você não faça nada...".

Essa sou eu - nunca, nem que eu queira, vou ficar obsoleta (graças a Deus!). Pelo menos essa é a forma como eu vejo - mas desconfio que seja a mais pura verdade...

Como Jesus dizia: "Seja-vos feito segundo a vossa fé" - que assim seja, graças a Deus!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Passando adiante

Quando eu estava no primeiro ano da escola, o mundo era bem diferente do que é hoje... 

A gente chamava os mais velhos de "senhor" e de "senhora", pedia a bênção a todos os adultos da família e lhes beijava a mão, levava surra de cinta do pai, se aconchegava no colo da mãe, assistia televisão branco e preto - mas via tudo colorido - e nossa mini-saia era somente quatro dedos acima do joelho.

Na escola, as classes não eram mistas - só tinham meninas ou só meninos - e toda sexta-feira a gente tinha aula de bordado. Fazia parte da lista de material escolar comprar uma toalhinha já com o desenho riscado em roxo, repleta de flores, e todas as meadas de linhas e a agulha prá bordá-la. E enquanto a gente fazia isso, Dona Ana, minha professora (já contei a história dela AQUI), sempre nos lia um livro ou nos contava uma história. 

O tempo passava mais devagar, mas todo mundo tinha pressa de crescer - especialmente eu, que ia mudar o mundo, salvar minha mãe e meus irmãos, curar minha avó e tornar meu pai uma pessoa boa somente conversando com ele, pois - já naquele tempo - eu me achava uma tremenda argumentadora, negociadora de primeira (pobrezinha de mim, ainda bem que ser sonhadora não era crime...).

Certa vez Dona Ana nos contou a seguinte história, enquanto eu furava os dedos no bordado - pois detestava usar dedal:

"Era uma vez, há muito e muito tempo atrás, numa aldeia indígena no sopé de uma montanha enorme, existia uma família numerosa e feliz: o pai, a mãe, meia dúzia de filhinhos de várias idades e um avô, bem velhinho, que ajudava nos afazeres como podia. 

Já bem frágil, com reumatismo nas pernas, não servia mais prá caçar nem pescar... 

Há muito tempo relegado aos afazeres de mulher, devido a esse mesmo reumatismo nas mãos já não servia prá trançar palhas nem fazer potes de barro, limpar os couros dos animais e nem mesmo debulhar o milho ou ralar mandioca. 

Nesse ponto em que o velho havia chegado, já não servindo prá fazer serviço nenhum e tendo que depender de outra pessoa prá lhe levar o alimento à boca, foi decidido pela família que era hora do velho ir...

Segundo o costume de sua tribo, quando alguém não estava mais em condições de contribuir e só desse trabalho aos outros, essa pessoa era abandonada na montanha mais alta perto da aldeia onde viviam, com comida prá poucos dias, entregue à própria sorte, à natureza e aos seus predadores...

Seu filho, então, pegou um cobertor bem quentinho, estendeu no chão e dentro dele colocou uma esteira de palha trançada enrolada, uma cumbuca de aguardente de mandioca, um pedaço de carne seca e algumas frutas, fechou a trouxa e a colocou junto ao pai na carroça, com destino à montanha . 

A despedida foi triste - todas as crianças choraram - mas o velho, com a coragem ainda intacta no peito, segurou qualquer dor que estivesse sentindo com um estoico sorriso no rosto, dizendo às crianças que tudo estava bem, que não chorassem mais...

Chegados ao alto da montanha, já quase no por do sol daquele dia, o filho do velho índio desmanchou a trouxa, estendeu debaixo de uma árvore a esteira de palha, arranjou os alimentos sobre uma pedra e, pegando seu velho pai no colo o alojou sobre a esteira, dispondo sobre ele o cobertor quentinho. 

Deu então  um beijo nas mãos calosas e tortas de seu pai, afagou-lhe os cabelos - no passado tão negros quanto os dele - e, subindo de novo na carroça, preparou-se para a descida da montanha - com toda a pressa, antes que a noite caísse sobre ele...

Antes mesmo de tocar o animal prá descida, seu pai lhe pediu um último favor:

-"Filho, corta esta coberta ao meio prá mim, não preciso de tanta..."

-"Mas pai, aqui em cima faz muito frio, mesmo essa coberta inteira é pouco!"

-"Não importa, meu filho - logo estarei morto mesmo e mortos não sentem frio ou fome. Leva prá você esta meia coberta - assim já tens prá você, quando chegar a hora de um de teus filhos te trazer prá cá..."

O jovem índio parou, mudo de palavras e de coração acelerado, antevendo na imaginação o dia fatídico de sua vida no qual nunca havia pensado... Olhando à sua volta, viu os ossos limpos e dispersos de todos os que ali foram abandonados, sentiu em seus próprios ossos o frio e a solidão de cada uma daquelas mortes. 

Então, sem pensar duas vezes, agarrou seu pai no colo, ajeitou-o de novo na carroça e com ele desceu apressado a montanha - antes que a noite caísse sobre eles...

"Quem sabe meus filhos não aprendem com meu exemplo... Se eu tomar conta de meu pai até que ele morra, feliz e bem cuidado, em nossa companhia, estarei mostrando a eles como devem cuidar de mim, na minha velhice..."

E assim o velho voltou, recebido por todos com lágrimas de alegria - e uma nova tradição se formou naquela aldeia no pé da montanha..."

Quando escutei essa história fiquei feliz e fiquei triste, tudo ao mesmo tempo. 

Feliz porque tudo acabou bem pro velho índio e sua família e triste porque, na minha rua, existia uma montanha dessas, onde se largam os velhos prá morrerem...

Cheguei em casa, contei prá minha avó a história, a abracei muito e disse que nunca neste mundo eu iria abandoná-la, que iria cuidar dela prá sempre e sempre...

Foi por essa história que passei a prestar atenção naquela "montanha" perto de casa, naquele abrigo de velhos, onde os pobrezinhos esperavam a morte longe dos filhos que não os queriam mais, sentados nos banquinhos do jardim, famintos da atenção de quem quer que fosse... 

E foi por ela que, alguns anos mais tarde - quando minha avó já havia sido levada por Deus - passei a frequentar seus quartos, salões e jardins, distribuindo um biscoito, uma conversa, um sorriso, contando e ouvindo histórias - conhecendo pessoas admiráveis quase em seu momento de partida...

Mas essas são outras e mais outras histórias, prá se contar em outras horas...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Três moedinhas



Foi por quanto me saiu esse vestido: três moedas de cinquenta centavos. 

Despretensioso, não sonha ser visto num passeio ao shoppping, nem mesmo num domingo de manhã, na feira livre...

É mais um "uniforme de dona-de-casa", um regatão gostoso prá usar com um avental de cozinha por cima, enquanto lavo a louça, faço o almoço - coisas das quais a gente não escapa, não é mesmo? 

Já disse mais de uma vez: se pudesse, comia fora todos os dias, assim dava emprego prá muita gente nas lanchonetes e restaurantes e não perdia meu precioso tempo preparando comida - mas esse é um daqueles sonhos que nunca vão acontecer... 

Outro dia a Lola chegou contando uma das "histórias do Papa" - esse que aí está agora, que é tão gente boa - que é mais ou menos assim: 

"Mãe, sabe que uma daquelas mamas italianas chegou pro Papa e disse que as italianas não sabem mais o que fazer com os filhos - eles não querem saber de casar, de lhes dar netos... O Papa então disse a ela que se as mamas queriam que seus filhos se casassem, deveriam parar de lhes passar a roupa! Você é igual essas mamas, velha: a gente vai custar muito querer casar e perder essa comidinha boa, as roupinhas lindas, as mordomias...".

E eu vou dizer o quê? Eu não vou parar de fazer meu melhor por quem eu amo, não é mesmo?

Mas que eu sinto vontade de quebrar toda a louça com marreta, isso eu sinto...

Bom, o vestido foi feito com um retalho (melhor dizer "retalhão"...) comprado na Ronã Malhas de Guarulhos, onde os retalhos custam 5 reais o quilo. Os 20 reais que eu comprei de trapos da última vez já renderam quarenta calcinhas (não fotografei todas, só as primeiras...) uma dúzia de cuecas, uma calça, três blusas (esta AQUI - que custou só 50 centavos - e esta AQUI - que custou apenas um real) - uma delas ainda não mostrei - umas roupinhas de cachorro (AQUI)e ainda tenho tecido prá fazer mais algumas coisinhas - Tô pensando em alguns shorts, agora pro calor...

Não tem molde: é só colocar uma regata por cima, cortar, costurar usando overlock ou ponto de malha da máquina comum e fazer o acabamento com viés. Aliás, no que diz respeito ao viés, apesar do vestido ser feito de malha, o viés é de tecido plano mesmo: como usei só no decote e nos acabamentos dos braços não teve problema nenhum em não ser muito elástico, ficou bom demais. O viés eu mesma que fiz, usando este vídeo que ensina a aproveitar um tiquinho de pano prá fazer viés perfeito. Tudo o que eu coloquei colorido  no texto desta postagem (fundo amarelo ou azul) é link - clica e vai lá ver...

Então é isso: o calor já tá pegando, o jeito é descobrir o corpinho com vestidos leves, braços de fora, pernas de fora - liberdade para as borboletas!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Cachorrinhos

Prá quem - como eu - é apaixonada por eles...

Minha pequena também é assim, elegantérrima...

"Cê" já é, "amô"...


Que sorriso lindo!!!


Se não te fizesse mal, eu dava todos os biscoitos do mundo!


Ufa! Ainda bem que eu sou linda...


Tem como dar bronca? Olha a coisinha linda lá no miolinho...


Eu também penso assim... Daí eu piso nesse tapete...


Esta carece de uma legenda explicativa: ele cansou de se chamar Manolo, arrumou duas cabeças postiças parecidas e mudou de nome prá Fofo, o cão de três cabeças do Hagrid, no primeiro livro do Harry Potter... Não é Fofo mesmo???

E, por último, o melhor de todos - pra vocês se deliciarem visualmente com essa delicadeza...


Fico hipnotizada, não consigo parar de olhar... Por causa do sol forte, parece que o bebê tá com soninho, não é lindinho demais??? Vocês aguentam essas mãozinhas batendo prá nadar?

Bom final de semana - e quem tiver bichinho de estimação aproveite bem deles!


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Os dois sonhadores


Nossas casas ficavam bem perto uma da outra: tinha a minha casa, a da minha avó, um terreno que pertencia ao meu tio e a casa em que ele morava - casinha pequena, de aluguel. 

Nem uma casa, na verdade, era: dois cômodos no porão da casa de cima, na mesma quadra que ficava a minha, e era um barranco só...

Seu nome era Joel: era ruivo e tão sardento como se alguém lhe tivesse dado banho e esquecido de enxugar - daí ele enferrujara todinho. 

O engraçado era que tanto seu pai, quanto sua mãe e suas duas irmãs não eram claros como ele: todos de pele bem morena, cabelos negros, olhos castanhos-escuros - mas não havia como se negar que ele era da família, pois tinha a cara do pai - uma imagem dele, ao mesmo tempo descolorida e avermelhada. Era magrelo, engraçado, mas muito burro prás coisas da escola - dizia que escola não prestava prá nada, porque ele ia trabalhar em fábrica, como o pai...

Falava cuspindo e por isso os outros meninos pegavam no pé dele - naquele tempo não chamavam de bullying, esse "bicho" não tinha nome. Na verdade, eram só crianças más, com falta do que fazer... Implicavam comigo também - e talvez daí saiu nossa amizade. Ou isso ou o fato de nossas mães serem ambas costureiras por profissão e necessidade e amigas de desabafos...

Todo mundo naquela casa fumava: a mãe era uma chaminé, o pai outra; a irmã mais nova, Marinês, era um ano mais velha do que eu e já fumava escondido atrás do pátio da escola e a irmã mais velha, Sueli, o fazia de um jeito lindo, que deixava até mesmo esse horroroso hábito charmoso - mas tudo o que ela fazia ficava mais bonito mesmo. Nunca vi uma mulher assim na vida: o jeito como ela andava parecia ensaiado: era suave, delicado, parecia deslizar por qualquer superfície. Tinha longos cabelos negros trançados e presos num coque, falava baixo, sorria discreto, se vestia com extrema modéstia... Era uma moça lindíssima, que passaria por uma princesa se estivesse melhor vestida, num lugar diferente - e não numa periferia tão pobre...

Era apaixonada por um moço mais bem de vida e dele tinha um filho, sem se casar. 

Sofria muito, era triste. 

Ele parava na porta dela com o carro, ela entrava e não se via a que horas voltava - devia ser alta madrugada, sem testemunhas... Ele chegou a se casar com outra, mas continuou vindo, fez-lhe outro filho e mais outro... 

Se fosse hoje em dia, com testes de DNA, ela procuraria a Justiça, registraria os filhos com o nome do pai, obteria uma pensão - mas eram outros os tempos: ele ajudava pouco ou quase nada e ela trabalhava numa oficina de costura prá sobreviver...

Tanto o pai dela quanto o irmãozinho, Joel, eram - volta e meia - chamados de chifrudos nos seus círculos de amizade (prova de que tanto as crianças malcriadas quanto os bêbados são notoriamente conhecidos por sua falta de compaixão...).

Por isso o Joel ficava tanto comigo - eu não xingava, não via motivo. Achava a irmã dele tão linda! Queria crescer e ser suave e linda como ela, discreta como ela... 

A gente jogava bolinha de gude, rodava pião, empinava pipa, queimada, vôlei, peteca - cada brincadeira na sua temporada. E nos fins de tarde quente a gente deitava em pleno asfalto morno de sol adivinhando as formas das nuvens, compartilhando sonhos, fazendo planos... Às vezes a chuva de verão nos surpreendia assim, deitados de cara prá cima e a gente escancarava a boca e apostava quem ia engolir mais gotas de chuva antes dela virar temporal - e depois corríamos, cada um prá sua casa, recepcionados com broncas por estarmos ensopados...

Ele me chamava de "Magra Patalógica" - uma brincadeira com uma personagem do gibi do Tio Patinhas, uma bruxa branquela parecida com a Margarida, só que de cabelos escorridos pretos, divididos ao meio... Me chamava de "Magra" porque... bem... eu era mesmo um esqueletinho de menina...

Estudávamos em anos diferentes - ele havia repetido de ano duas vezes... - na mesma escola. Volta e meia alguma empresa usava nossa escola de "campo de testes": foi ali que comi meu primeiro Choquito, que bebi pela primeira vez Fanta Uva, que me deliciei pela primeira vez com Danone de Morango...

Depois da aula a gente se encontrava, jogava conversa fora, empinava pipa e apostava quem ia ser mais rico quando crescesse...

 - " 'Magra', eu vou ser muito mais rico que você! Na minha casa vai até ter uma torneira que sai Soda Limonada gelada - eu nunca mais vou beber água na vida, só Soda..." - dizia ele.

- "E eu, então?! Das minhas torneiras vai sair também Guaraná... Fanta Uva!!!"

- "Pois na pia da minha cozinha vai ter uma torneira de onde vai sair Danone - de morango e de pêssego!"...

E assim o danado ganhava a discussão - sempre mais esperto do que eu, que só tinha nota alta na escola... A casa dele sempre acabava sendo maior, com piscina, tobogã, quadra prá jogar futebol...

Então, um dia, o dono do porão em que ele morava pediu a casa pros inquilinos, prá reformar e alugar mais caro - e lá se foi a família dele, prá bem longe e eu nunca mais o vi...

Alguns anos atrás a mãe dele veio visitar minha mãe - doente, fazendo tratamento de câncer de pulmão. Estava viúva - o marido tinha morrido de câncer, já há algum tempo. A filha mais velha, Sueli, havia se cansado e dado um basta naquele relacionamento sem sentido. Criava sozinha três filhos e nunca quis se casar com ninguém. Marinês vivia com ela, nunca havia se casado também.

Quando minha mãe perguntou como estava o Joel ela, muito triste, respondeu que estava morto.

"A polícia matou meu filho... Disseram que ele era ladrão, que foi pego carregando coisas de uma casa...".

Assim eu soube que aquele menino, tão engraçado e doce, que partilhou tantos sonhos comigo na infância, havia abandonado esses sonhos e planos e partido desta vida assim, em meio a tanta tristeza e dor... 

Quando minha mãe me contou fiquei tão triste, como se parte dos meus sonhos também tivessem sido mortos - porque, na minha cabeça, o tempo havia parado e ele ainda era aquele menino que falava cuspindo, jamais havia crescido prá se tornar ladrão... 

Nós, seres humanos, somos tão frágeis, não somos? Setenta por cento de água com sonhos que se evaporam nas dificuldades, planos mirabolantes que nunca viram realidade. 

Corações de vidro...

E também somos tão fortes - sobrevivemos a dramas secretos e traumas inimagináveis, gotejando nosso suor e lágrimas em cima das pedras do caminho até quebrá-las e forjando corações de ferro em brasa, ferozes e inabaláveis na perseguição do que quer que seja que nos move a alma...

Sei que Deus tem amor e perdão suficientes para receber, em Seus misericordiosos braços, aquele pequeno ladrão ruivo, que falava cuspindo - afinal de contas, Jesus foi crucificado em meio a dois deles e a um prometeu "Hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso"...

Me conforta pensar assim...

E eu, de minha parte, ainda não desisti das minhas torneiras de Guaraná, Cola-Cola, Soda Limonada e Danone de Morango...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Beleza de saldão!

E quando é que um saldão bem aproveitado não é uma beleza? Essa linha Brisa me saiu por 8 reais!!!

Espia só a simplicidade e a belezura:




Faz usando a mesma receita desta outra blusa aqui, e os desenhos foram feitos com o transportador: três furinhos consecutivos - sendo o central o das marcações 10, 20, 30 etc e uma trançadinha de dois pontos trocados nas marcações 15, 25, 35 etc, com 6 carreiras de distância. 

É fácil e bem econômica - um acréscimo valioso ao guarda-roupa, com o precinho de dois pastéis na feira...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A menina que comia lagartixas...

As aulas já haviam começado havia quase um mês quando ela entrou prá minha classe: uma menina de cabelos loiros muito crespos, amarrados bem puxados num enorme rabo de cavalo e uma timidez de causar pena. 

Os olhos quase não se abriam, inchados, vermelhos e cobertos de crostas... Se fosse hoje em dia a escola teria proibido a menina de frequentar a aula até estar curada da conjuntivite - ou o que quer que fosse esse problema - mas, naquele tempo, ela vinha prá escola assim mesmo. Ainda não tinha comprado o uniforme escolar e vinha com vestidos bonitinhos, uma bela fita no cabelo e ficava no canto, separada de todas as outras meninas da sala - naquele tempo as classes eram só de meninas ou só de meninos, apartados em lados opostos da escola.

Foi por pura pena que eu me aproximei dela - aquela coisa que as crianças tem de sentir empatia e receber no coração o mais fraquinho... 

Eu mesma não tinha muitas amigas: tinha a Leda, que era enorme em estatura e bem gordinha - e que logo ganhou o apelido de baleia... - e a Cruz, que na verdade se chamava Cleide e que era mais do que eu o retrato da fome, minúscula e magrinha como uma formiga, com perninhas finas de graveto e que fazia parte da Associação de Pais e Mestres, ganhando da escola o material e o uniforme, pois a família dela não tinha dinheiro prá pagar... E a Ozilda, a recém chegada de olhos feridentos, que veio fazer parte do meu pequeno grupo. A Leda e a Cruz ficavam assim meio de lado, com medo de pegar a doença, mas eu resistia bravamente aos meus olhos lacrimejando de agonia por olhar prá ela - "tadinha" (eu pensava...), "se eu estivesse no lugar dela, ia apreciar ter uma amiga...".

E fomos boas amigas por aproximadamente duas semanas - até ela sarar dos olhos. Daí ela me deixou de lado, em busca de uma amiga mais em sintonia com o que ela queria da vida... Não digo que partiu meu coração, mas que senti uma bela alfinetada, isso eu senti. Acabado o problema dos olhos a Ozilda se revelou uma menina muito bonita, de olhos claros azul-esverdeados, um sorriso cativante e uma personalidade de criança mimada que era insuportável. 

Se bandeou pro lado da Norma e suas amigas - que antes morriam de nojo dela, vê se pode... Norma foi minha arqui-inimiga de infância, uma garota da minha idade que morava a duas quadras da minha casa, sabia o quanto eu era pobre e vivia fazendo comentários perversos a respeito disso - eu a odiava do fundo do coração, como só as crianças sabem odiar porque não pensam muito no que estão fazendo.

Ainda era o começo do ano e a escola ainda não havia recebido os mantimentos prá fazer a merenda - então a gente tinha que trazer de casa alguma coisa prá comer no meio do horário da aula, senão passava fome mesmo. Era uma banana nanica nascida no terreno do quintal, um pedaço de mandioca cozida embrulhada no papel de pão ou num guardanapo feito com sobra de pano ou então nada - se não tinha nada prá levar...

Naquele tempo não existia essa coisa de óleo saturado - hoje, depois que a gente frita o bolinho, o ovo, a gente se livra do óleo (eu ajunto prá fazer sabão ecológico...) porque ele não faz bem prá saúde mas, naquele tempo, a gente usava o óleo enquanto ele existisse na panela. Nele se fritava o bife, a carne de frango ou de porco, o peixe - o óleo ia ficando preto, parecia petróleo! E eu até que achava gostoso: ficava uma mistura de sabores maluca, tudo junto de uma vez só...

Como eu era a mais velha de seis filhos, não podia esperar mimos: na maioria das vezes, se eu queria comer, eu mesma fazia. Acordava um pouco antes da hora, tirava do forno a frigideira e preparava meu lanche antes de ir prá aula.

E foi o que eu fiz nesse dia: peguei um ovo de galinha, esquentei aquele óleo preto e o fritei, do meu jeito. Como não tinha espátula prá virar o ovo eu fui quebrando com o garfo, virando daqui e de lá e, quando tava bem fritinho do meu gosto eu abri um pedaço de pão amanhecido e ali deitei meu ovinho monstruoso, que de clara branca nada tinha e cuja gema era destroçada e marrom... Embrulhei num pano aquele meu sanduíche feioso e fui prá aula - onde, diga-se de passagem, eu era a melhor aluna de todas.

Quando chegou a hora do recreio me sentei num dos bancos de cimento, esfomeada como sempre e mal comecei a morder meu pãozinho quando chegam Norma, Ozilda e o bando de lambisgóias que andavam com elas. Cada uma com seus lanches trazidos de casa: pedaço de bolo, pão doce coberto com creme de ovos, sonho... Olharam para o sanduichinho na minha mão, fizeram cara de nojo e a Ozilda, prá ser a mais engraçadinha da turma, disse assim:

"Ui! Que coisa horrível é essa? Você tirou isso do lixo?"

Senti o coração batendo nos ouvidos. Como ela se atrevia? Há poucos dias atrás ela era uma pária, uma excluída, ninguém conversava com ela a não ser eu e agora ela agia dessa forma comigo?

Levantei bem rápido do banco, avancei prá cima delas brandindo o pão na mão como uma arma e quase o esfreguei nas suas caras, dizendo:

-"É pão com lagartixa, por quê? Tá com vontade? Quer prá você? Quer? Quer?"

Assustadas, saíram de perto todas, me olhando como se eu fosse uma maluca e, daquele dia em diante, ganhei a fama de "comedora de lagartixas"...

Mesmo anos depois sempre me aparecia alguém prá dizer: "Ei, você não era aquela menina que comia pão com lagartixa?"...  

Uns tempos depois dei uns tapas na Norma - só prá ela ficar esperta - e ela parou de se meter comigo. Passei uma fase meio briguenta na infância, sabe como é...

Já casada, descobri que ela foi uma das milhares de namoradas que o Marildo teve - mundo pequeno este em que vivemos... 

A Ozilda não terminou nem aquele semestre: seu pai mudou-se de volta pro lugar de onde tinham vindo e ela foi ser uma falsa amiga de outra pessoa...

De vez em quando bate aquela vontade de comer pão com ovo frito, mas não tem mais o mesmo gosto - a fome é a melhor cozinheira de todas mesmo (ou será que aquele óleo preto, que podia ser usado como diesel prá mover até caminhão, é que era o segredo do sabor? Nunca saberei...). 

E de vez em quando, naquelas horas da "boquinha fora de hora", lá estou eu comodamente de traseiro espatifado no sofá aproveitando um sanduíche maluco qualquer e, ao oferecer uma mordidinha pro Marildo, lá vem ele com um comentário bobo do tipo: "Não, Zoiúda, pode comer sozinha o teu pão com lagartixa"...

E eu querendo dividir a gostosura...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Bicos em panos de prato

A irmã do Marildo liga pedindo e a gente fica sem cara de negar - ele fica feliz comigo, fazer o quê, né?

Mandou as linhas e os paninhos e eu fiz o meu melhor (tudo no olhômetro):











Os paninhos são do tipo bem baratinho, comprados em feira livre. 

Só mandou linha branca pros acabamentos (Anne) porque gosta de mantê-los sempre branquinhos, com cloro... Coloridos só os acabamentos dos outros dois paninhos, um prá cobrir o fogão e outro pro microondas - quase que as linhas não davam...

De vez em quando tem dessas: minhas cunhadas lembram de mim na hora de fazer uma blusa, um tricô... O Marildo se sente poderoso tendo mulher prendada...

Faz parte...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...